O marxismo morreu. Viva o marxismo!

Daniela Mussi

 Como reagir diante de um pensamento que não pode ser abandonado sem, ao mesmo tempo, prender-se a ele como traças ao papel de um velho livro? Como conviver com o pensamento passado sem corroê-lo de maneira gástrica, sem convertê-lo em um cadáver ao qual buscamos dar voz como um títere; sem submetê-lo morbidamente à choques mecânicos, esperando dar vida milagrosa à morte costumeira? Pode não parecer, mas estas são questões pertinentes ao marxismo.

Ou ao Arqueomarxismo, como propõe Alvaro Bianchi em seu mais recente livro com este título (Alameda, 2013). A expressão requer alguma explicação, já que o efeito imediato leva a pensar em uma hostil escavação de esqueletos e fósseis. Arqueomarxismo se refere ao exercício rigoroso de contextualização, reinterpretação e atualização crítica das ideias de Karl Marx. Em todo caso, pás e escavadeiras podem ser úteis para desobstruir caminhos e reencontrar trilhas perdidas, percorridas por aqueles que em algum momento foram inspirados por essas ideias.

O que define um arqueomaxista para Bianchi é também seu compromisso com a revolução social. Revolucionários é um termo bastante amplo, útil para agregar uma miríade variada de marxistas, divididos em distintas nacionalidades, culturas e condições sociais. Pode reunir intelectuais profissionais, dirigentes políticos, artistas, homens, mulheres, exilados, prisioneiros, perseguidos… Em comum, estes compartilham a “ortodoxia” marxista, ou seja, o compromisso com o método de pesquisa descoberto por Marx, exposto por Gyorg Lukacs na ideia de pressuposto da “unidade do concreto”, “unidade entre teoria e movimento revolucionário”. Em outras palavras, ser marxista, arqueologicamente falando, é ser um revolucionário consciente de que suas ideias devem ser coladas à própria luta revolucionária.

Espantosamente, está é uma definição que aproxima os marxistas ao próprio Marx mas, contraditoriamente e por princípio, também a muitos outros grupos políticos e correntes de opinião cuja concepção de revolução social foi cunhada no cadinho de uma nova época rebelde e revoltosa, nascida no coração da afirmação da hegemonia burguesa e de suas Luzes.

O que Bianchi evidencia ao reapresentar certos fósseis do arqueomarxismo é o fato de que seus representantes caminharam com Marx, mas também o abandonaram em seu próprio tempo, elastificando sua presença, contextualizando-a e desmaterializando-a,  para que pudessem viver suas próprias e concretas experiências, formular suas próprias perguntas e argumentos. Justamente por isso, ao contrário de inúmeras tentativas, o arqueomarxismo não se converteu em peça de museu. A compreensão da natureza profundamente dialética e não oficiosa do pensamento de Marx  permitiu aos arqueomarxistas trabalhar de maneira criativa e aberta sobre suas ideias.

A história do arquemarxismo foi acompanhada do desenvolvimento de uma estilística completamente original, que Bianchi percebe e reassume bem em seus comentários: “Lenin desafiou os pais do marxismo russo com sua teoria do partido; Trotsky estarreceu seus contemporâneos quando afirmou que era possível dar saltos no tempo histórico; Gramsci horrorizou a todos com sua batalha contra o economicismo; Benjamin espantou seus amigos quando decidiu explodir o continuum do tempo”(p. 15). Em todo caso, o autor não se cansa de alertar, a realização da história desta estilística e o julgamento de suas qualidades possui sempre caráter invariavelmente polêmico. Invariavelmente marxista.

Bianchi evidencia que toda apresentação do pensamento marxista possui uma orientação historiográfica e faz uma provocação incontornável ao leitor: existe historiografia sem política? A opção de Miguel Urbano Rodrigues – intelectual do Partido Comunista Português – por uma historiografia stalinista da Revolução Russa, por exemplo, é revelada pelo uso semi-exclusivo de fontes soviéticas oficialescas, bem como pelo apego à racionalidade destas. A opção pela lógica do fato consumado e pelo pressuposto da normatização e centralização dos acontecimentos ao redor da narrativa da burocracia estatal é seu horizonte.

Em oposição, o autor remete à pesquisa realizada por Leon Trotsky e outros na qual os anos de conformação do partido revolucionário, suas vicissitudes internas e ameaças externas até tomada do poder pelos bolcheviques, bem como seus desdobramentos posteriores, ganham destaque. Neste caso, o uso das fontes partidárias se destaca na medida em que nelas o historiador encontrou um ponto de fuga para evidenciar o caráter contraditório e acidentado da história da Revolução Russa. A oficialidade estatal é substituída pela reflexão revolucionária e desta nasce a renovação da ideia de revolução permanente presente em Marx.

Existe aí uma segunda provocação, menos evidente mas igualmente fundamental ao marxismo: existe política sem historiografia? Neste caso, o arqueomarxismo é o reconhecimento de que a politização do objeto não é suficiente e deve vir acompanhada da iniciativa de tomar a política como objeto de reflexão e crítica. No primeiro caso, os marxistas podem encontrar pontos de vantagem quando se deparam com as classes subalternas em movimento e buscam produzir para estas argumentos compatíveis com suas lutas. No segundo, a desvantagem do pensamento marxista diante da tradição e institucionalidade do pensamento burguês é uma realidade de difícil enfrentamento, marcada por vezes pela rejeição à própria crítica e pelo abandono do pensamento marxista.

Em muitos casos, este abandono não é anunciado ou sequer pretendido, mas o resultado da insuficiência em levar a cabo o enfrentamento do mundo cultural burguês. É, portanto, pelo menos uma derrota intelectual e pode ser sintoma de uma grande ameaça política. Nesse sentido, é reveladora a aproximação feita por Bianchi entre as polêmicas Lukacs-Bukharin e Gramsci-Bukharin, nas quais a crítica ao positivismo e ao materialismo vulgar, bem como o resgate da complexa relação de Marx com o pensamento idealista burguês de sua época ganhou especial destaque.

 A relação crítica com as fontes do marxismo, como já percebera Lenin, em nada se assemelha à rejeição por princípio de uma ou de outra fonte, mas sim ao exercício de investigação do complexo surgimento de um novíssimo ponto de vista. Este não se esgota na descrição de um prodigioso nascimento, mas busca tecer a seu íntimo desenvolvimento na trágica história das revoluções. Na contramão de uma concepção envernizada desta história, Bianchi empresta de Walter Benjamin a ousadia para pensar a experiência sob o capitalismo, e também o esgotamento desta e de suas iniciativas, a escalada da angústia e o primado do silêncio. Como é possível desfrutar de um novo ponto de vista em um tempo no qual o que o comunicado obstrui o conteúdo de toda comunicação? De onde poderá nascer o comentário, a polêmica e o pensamento crítico se a integridade da experiência se perde nos escombros de uma história de progresso e destruição? Como é possível transformar um mundo em que as interpretações predominantes são as opressivas e mórbidas? Se o ser e o dever ser perderam seu ponto de encontro em frente à Bastilha, às portas do Palácio de Inverno, ou das fábricas Fiat de Turim, (…) onde e como poderão novamente se reunir?

Por fim, a forma comentário proposta em Arqueomarxismo deve ser usada com moderação. Como o próprio autor anuncia, ela não substitui o trabalho de investigação rigorosa sobre determinado marxismo. Isso não quer dizer, porém, que o comentário não possua um lugar especial como parte da difícil experiência intelectual nos tempos atuais. O comentário já nasceu de cartas de exilados, do ócio da prisão, da leitura de uma poesia febril, e hoje também nasce na fila do cinema, no andar distraído pela calçada, em uma exposição artística, de uma música qualquer, de uma tirinha de jornal, em uma piada na mesa do bar, em um chat na internet, etc. Ele nasce de uma dúvida, inspiração, revolta, se desdobra em um jogo lógico intelectual, ganha forma em pequenas notas de pesquisa, na retomada de certas leituras e se cristaliza na polêmica. Esta, elemento vivo da vida pública, é o seu alcance. Arqueomarxismo é um livro em aberto. Do ponto de vista intelectual, seus ensaios precisam ser lidos como agendas de pesquisa, e não como partes da demonstração de uma tese. Do ponto de vista político, devem ser compreendidos como parte consciente de uma trajetória  incompleta, sempre incerta, de um intelectual socialista. E como convite ao imprescindível marxismo.

Referência Bibliográfica

BIANCHI, Alvaro. Arqueomarxismo: comentários sobre o pensamento socialista. São Paulo: Alameda, 2013.

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