Vorkuta: o destino final dos trotskistas soviéticos

Valério Arcary


“Somos muito pouco numerosos neste momento: algumas centenas, em torno de quinhentos. Mas estes quinhentos já não claudicarão. São homens temperados, que aprenderam a pensar e a sentir por si mesmos e que suportam com tranquilidade a perspectiva de uma perseguição sem fim
” (Victor Serge)

Vorkuta, ou “lugar repleto de ursos” é, segundo a geografia, uma vila mineira (de carvão mineral), localizada na República Autônoma dos Komi, na Rússia, ao norte do círculo polar ártico. As temperaturas médias em janeiro oscilam ao redor de 20 graus negativos celsius. Por lá, os invernos são muito longos e glaciais, e os verões breves. Em algumas partes da região, o solo fica, permanentemente, congelado, o permafrost. Os Komi pertencem, linguisticamente, ao grupo dos povos fino-úbricos, como os finlandeses e os estonianos.[1] Desde o século XVIII, o czarismo usou essa região remota como um lugar para prisão e exílio de prisioneiros políticos. A comunicação com a muito reduzida população local era, extremamente, difícil.

Mas, para todos aqueles que se interessam pela história da luta pelo socialismo, Vorkuta não é somente uma vila perdida próxima ao fim do mundo. Vorkuta quer dizer muito mais. Vorkuta foi o endereço final dos últimos militantes da oposição de esquerda na União Soviética. Eles se auto-denominavam bolcheviques leninistas, e passaram à história conhecidos como os trotskistas. Foi para ali que eles foram levados para encontrar a morte. Não podiam ter um final mais trágico: trabalhavam até à exaustão, e morriam de fome e frio. Eram presos políticos no maior isolamento social possível, condenados pelas suas idéias revolucionárias, no país da primeira revolução socialista vitoriosa.

São reduzidas e, por isso mesmo, preciosas as fontes disponíveis sobre o que aconteceu em Vorkuta. Sobre elas, pesquisou Pierre Broué:

Estas fontes, muito diferentes por suas origens e datas de publicação, coincidem em alguns pontos essenciais. Com efeito, segundo os três autores, a quase totalidade dos bolcheviques-leninistas que sobreviviam nesta data na União Soviética, foi reagrupada no decorrer de 1936 nos campos de Petchora, próximos à Vorkuta, nesse “presídio além do círculo polar”, como dizia um deles.

Muitos homens faltavam à chamada, vítimas sem dúvida da “preparação” dos processos públicos: nem Dingelstedt, nem Pankratov, nem Pevzner, nem Man Nevelson, nem Victor Eltsin, nem Sermuks estavam ali. Muito menos Solntsev, morto no início do ano. Mas há, de todo modo, dezenas de nomes que conhecemos: Igor Poznansky, o antigo secretário de Trotsky, G. Ia. Iakovin, o armênio Sokrat Guevorkian, o veterano V. V Kossior e sua companheira Pacha Kunina, Mussia Magid, Ido Chumskaya, os dois irmãos de Koté Tsintsadzé, Khotimsky, Andrei Konstantinov, Karlo Patskachvili, Karl Mesnais, Vasso Donadzé, Sacha Milechin, já mencionados no curso deste trabalho, assim como, naturalmente, a própria Maria M. Joffé.

Temos de acrescentar, entre outras personalidades, a uma mulher que foi amiga de Natalia Sedova, Faina Viktorovna Iablonskaya, professora de história no Instituto de Jornalismo em 1927, verdadeira chefa do Estado-Maior da Oposição próximo a Trotsky nos últimos dias de 1927, e a antiga dirigente das Juventudes Comunistas, RaiaV.Lukinova.

O menchevique MB, que escapou de Vorkuta, descreveu estes militantes – adversários políticos seus – que calculava em vários milhares, dos quais havia mil no campo onde vivia: negavam-se a trabalhar mais que oito horas, ignoravam o regulamento sistematicamente, de forma organizada, criticavam abertamente Stalin e a linha geral de conjunto, declarando-se, ao mesmo tempo, prontos para a defesa incondicional da URSS.”[2]

Sobre este infeliz destino dos trotskistas soviéticos, que estavam dispostos a pegar em armas para defender a URSS contra o nazismo, mesmo tendo suas vidas destruídas pela ditadura burocrática, ninguém menos do que Leopold Trepper escreveu, antes de morrer, em sua auto-biografia, algumas linhas emocionantes. Leopold Trepper foi o organizador da Orquestra Vermelha.[3] Esta rede foi uma das mais bem sucedidas operações de espionagem da Segunda Guerra Mundial, que atuou, simultaneamente, na França, Bélgica, Suíça, Dinamarca, Holanda e, principalmente, no interior da Alemanha. Sua maior façanha foi ter conseguido a informação sobre a data da invasão da URSS pelos exércitos da Alemanha. [4] Eis as suas palavras:

A revolução havia degenerado num sistema de terror e de horror; os ideais do socialismo estavam ridicularizados por um dogma fossilizado que os verdugos tinham a desfaçatez de chamar de marxismo. Todos os que não se sublevaram contra a máquina stalinista são responsáveis por isso, coletivamente responsáveis. Não faço exceções e não escapo deste veredicto.

Mas, quem protestou? Quem elevou sua voz contra o ultraje? Os trotskistas puderam reivindicar essa honra (…) Nos tempos dos grandes expurgos, só podiam clamar sua rebelião nos vastos desertos gelados para onde haviam sido enviados para serem exterminados. Nos campos sua conduta foi admirável, mas suas vozes se perderam na tundra.

Os trotskistas têm o direito de acusar aos que, em outros tempos, bailavam ao som do compasso. Que não esqueçam nunca que os trotskistas possuíam, em comparação conosco, a vantagem imensa de ter um sistema político coerente suscetível de substituir o estalinismo, e de aferrar-se a uma convicção profunda sobre a revolução traída. Eles não “confessavam”, porque sabiam que suas confissões não serviriam nem ao partido nem ao Socialismo. [5] (grifo nosso)

Estas palavras são graves, no seu sentido mais forte, porque foram escritas, desinteressadamente, por alguém como Trepper, com uma trajetória heroica na luta contra o nazi-fascismo, e porque Trepper foi um estalinista convicto.

Hoje, algumas “certezas” dos marxistas do século XIX e XX, finalmente, desabaram pelo caminho: porque sabemos mais, e sabemos que é mais difícil. Por isso, não podemos esquecer os que lutaram antes nós. Porque se, eventualmente, nos faltarem as forças, temos a obrigação de recordar o exemplo daqueles que não vacilaram em Vorkuta. Vorkuta! Esse é um grito de guerra pelo qual vale a pena lutar.


[1] Estas línguas não têm qualquer relação com o tronco das línguas indo-européias. Mas estas línguas não têm, também, parentesco com a língua dos lapões, ou o povo sami que vive nas regiões mais ao norte da Noruega, Suécia, e Finlândia, além da Rússia.

[2] BROUÉ, Pierre . Os Trotskistas na União Soviética (1929-1938) in http://orientacaomarxista.blogspot.com.br/2012/03/os-trotskistas-na-uniao-sovietica-1929.html Consulta em 24/12/2013.

[3] O nome orquestra foi dado a esta organização porque os operadores de rádio que faziam as transmissões para Moscou eram chamados de pianistas. Durante anos enviaram cerca de 1500 despachos para a União Soviética. Esta informações custaram, presumidamente, a vida de cerca de 200 mil soldados alemães, segundo o próprio chefe do Abwehr (Departamento de Informações e Contra-Informações Militares) Almirante Wilhelm Canaris. A mais importante das ações da Orquestra Vermelha foi a informação de que os alemães planejavam invadir a cidade de Kursk, palco da maior batalha de tanques da II Guerra Mundial, informando inclusive o número de tropas, tanques e veículos que seriam empregados na batalha. Esta aventura inspirou o livro de Gilles Perrault L’Orchestre rouge (1964, Fayard). E o filme de Jacques Rouffio de 1989: http://www.premiere.fr/film/L-Orchestre-Rouge-146504 (Consulta em 20 de dezembro 2013).

[4] Trepper nasceu em uma família polonesa de origem judia, e trabalhou como operário na Silésia. Participou, em 1923, de uma greve geral e foi preso. Fugiu da Polônia em 1924, e foi para a Palestina, então um protetorado britânico, onde aderiu ao Partido Comunista da Palestina com o objetivo de unir judeus e árabes contra a ocupação militar britânica. Depois de mais uma prisão, fugiu para a URSS, e foi recrutado pelo serviço de informação do Exército Vermelho. Enviado para Paris, ajuda a organizar um semanário em língua ídiche: Die Morgen. Trepper informou Stalin da operação Barbarossa. Stalin não deu crédito, ainda que também tivesse sido alertado por Richard Sorge que atuava em Tóquio. Considerou que eram boatos disseminados pelos serviços secretos britânicos. Trepper sobreviveu à prisão pela Gestapo, conseguindo fugir. De volta para a Moscou em 1945, ficou preso dez anos na famigerada Lubianka.

[5] TREPPER, Leopold.  El Gran Juego, Memorias del Jefe del Espionaje Soviético en la Alemania Nazi. Barcelona: Editorial Ariel. 1977, p. 64.

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