A guerra cibernética e a sublevação popular no Brasil

Henrique Carneiro

O Pentágono e a OTAN consideram hoje a Internet como o quarto espaço da guerra, depois da terra, do ar e da água.

O recente escândalo a partir do vazamento por Edward Snowden de que a agência de segurança nacional (NSA) se dedica ao armazenamento de toda a informação que circula na rede, construindo inclusive um abrigo bilionário no Utah onde serão centralizados os dados, mostra que o que ocorre hoje nas comunicações mundiais é uma cibervigilância onipresente[1].

Mas, obviamente, não é apenas a observação e monitoramento dos dados que está em questão, mas a intervenção ativa por meio de recursos de comunicação eletrônica nas crises políticas em cada país.

A OTAN, por exemplo, tem o general Karlheinz Viereck, conhecido pelo apelido de “general lap-top” como responsável pela JFT (Joint Force Trainer) que é o órgão ligado ao comando da OTAN que se dedica à guerra cibernética[2].

Um artigo em site especializado em segurança, mencionando as funções desse general declara que: “O ambiente de segurança atual está condicionado por fenômenos como a globalização econômica, a privatização e o desenvolvimento de novas formas de comunicação, tais como a Internet. Vivemos agora num mundo de notícias 24 horas por dia e comunicação instantânea. É um mundo no qual a tradicional simetria foi anulada e o conflito se torna frequentemente assimétrico. Governos podem ser derrubados pela troca de mensagens no Facebook ou Twitter e bilhões de dólares de danos podem ser causados por um pequeno ataque em algum nódulo na cadeia da moderna infraestrutura crítica”[3].

Há hoje uma “guerra de quarta geração” (Fourth Generation Warfare ou 4GW) cujos teatros de operações são os meios de comunicação e as redes informáticas. Essa é uma guerra psicológica onde se trata de influenciar consciências e opiniões.

A revolta social no Brasil foi resultado de um conjunto de fatores objetivos ligados às desigualdades e insatisfações históricas e pela frustração com as promessas de mudança do PT que se tornou o agente principal das políticas de priorização do grande capital no país.

A comunicação instantânea das redes, a exposição quase imediata de imagens captadas por câmeras que todos hoje possuem em celulares e a característica viral de certas mensagens que podem se tornar memes e influenciar a ação política quebraram a unilateralidade das mídias tradicionais e inseriram um novo espaço de debate e comunicação que é a mídia alternativa eletrônica.

O espontaneísmo do levante brasileiro é, em grande parte, tributário da ação das mídias alternativas que romperam o bloqueio inicial da grande mídia e, depois, da reorientação dessa mesma grande mídia oligopólica no sentido de buscar sequestrar o movimento para interferir em suas pautas.

O contágio epidêmico da revolta foi transmitido primeiro pela mídia alternativa e depois redirecionado pela grande mídia para um civismo difuso, em que vestir branco e verde-amarelo se distinguia muito dos emblemas de rebelião em vermelho e negro inicial dos socialistas e anarquistas que inspiravam o MPL.

Quem melhor vem utilizando esses recursos, no entanto, não são os grupos ligados ao MPL e à esquerda, mas setores de extrema-direita, que aprenderam com os levantes dos indignados europeus a se apropriar de símbolos de revolta, como a máscara de Guy Fawkes e o rótulo dos Anonymous para manipularem o movimento social.

Após a repressão brutal na quinta-feira, 13 de junho de 2013, surgiu uma fervilhante atividade na Internet, com veiculação de vídeos profissionalmente produzidos, que buscavam surfar a onda da rebelião para interferir em sua pauta de reivindicações e ressaltando aspectos que não tinham sido objeto do MPL, como o tema genérico da corrupção e fomentando um imaginário de civismo nacionalista oposto aos valores igualitários e anticapitalistas da esquerda.

A melhor forma de se neutralizar o potencial anticapitalista é despolitizar por meio do rechaço à forma partidária e apresentar a ideia de que a salvação da pátria virá de instância extra-partidárias, sendo que alguns já avançavam diretamente a alternativa militar.

A extrema-direita no Brasil sempre pareceu marginal, inexistindo sequer partidos que sejam claramente de direita, pois mesmo os mais reacionários se escondem sob um ideário com alguma tintura social (como o PSDB e o PSD, que levam social-democracia no próprio nome). Mesmo fora do espectro político tradicional (o que não impede figuras como Bolsonaro ou Feliciano de representarem esse papel de extrema-direita explícita) a extrema-direita tem sido muito ativa na Internet, onde se identificou cerca de 150 mil pessoas que baixam regularmente alto volume de material neonazista na rede[4].

A mudança de situação causada pela revolta social abriu uma etapa pré-revolucionária no Brasil, o que levará a uma intensa polarização política.

Por um lado, isso somado ao descrédito final do PT, abre um enorme espaço para uma esquerda revolucionária se tornar uma corrente de massas. Mas também abre essa possibilidade para a extrema-direita. A ida às ruas de milícias fascistas violentas é um elemento visível dessa situação, mas o elemento invisível mais preocupante é a presença intensiva desses setores no ciberespaço.

Qualquer um pode aparecer sob a mascar de Guy Fawkes (aliás, ele foi um terrorista ultra-católico que tentou explodir o parlamento inglês em 1605 para acabar com os protestantes). Qualquer um pode convocar uma “greve geral” pela Internet e ter centenas de milhares de adesões.

A manipulação da consciência popular deixou de ser uma prática exclusiva da TV e da grande mídia. A Internet se presta a manipulações ainda mais sofisticadas, com anonimato e difusão extensa e ágil.

A verdade é que a esquerda está pouco preparada diante desses recursos que, certamente, não abrangem apenas grupos fanáticos de skinheads, mas obedece a comandos militares internacionais estadunidenses e de outros países imperialistas que podem agir eficazmente sob coberturas anódinas. Já houve grande experiência dessas técnicas nas revoluções “laranja” na Ucrânia, p. ex.

A existência das redes sociais coloca hoje, segundo alguns, “uma mudança estrutural na esfera pública”[5]. A horizontalidade das comunicações torna qualquer sistema piramidal e lento de transmissão de informações e decisões incapaz de concorrer com a simultaneidade da internet.

Reuniões e deliberações vão ser cada vez mais realizadas pela rede. A assembleia pode ser eletrônica também e o foro de massas que as redes criaram rompe a unilateralidade das mídias tradicionais.

A esquerda, aferrada a formas organizativas estanquizadas e piramidais se vê perplexa diante desses novos recursos e não aprendeu ainda como usá-los e como mudar suas concepções organizativas.

Se para Lênin o papel do jornal era o de grande organizador coletivo, hoje claramente os materiais impressos em papel, panfletos ou jornais, são sobrepujados pela informação on line. É claro que isso também traz consequências negativas, como a superficialidade, a inflação informacional, uma espécie de bricolage que também é fragmentária e dispersiva.

Essas novas condições colocam as questões da “cidadania digital” onde o espaço público pode cada vez mais ser virtualizado trazendo possibilidades, inclusive de formas de democracia direta eletrônica.

Sem analisar e participar dessa “ágora eletrônica” nenhuma força política contemporânea conseguirá ter influência e audiência.

Um movimento que não tem direção pode ser dirigido por qualquer um, de preferência ocultando esse direcionismo para formas camufladas de intervenção. Sem a organicidade de movimentos sociais, a explosão popular se torna um tigre à solta, sem ninguém para poder controlá-lo.

Como a imensa maioria das organizações políticas e sindicais são dominadas pela burocratização, acomodamento e corrupção, essa explosão foi um elemento altamente positivo no desbloqueio da ação das massas.

É claro que o desrepresamento da força da ação direta do povo vai ser uma lição inesquecível e, a partir de agora, todas as lutas sociais vão se revestir de maior amplitude, maior radicalidade e maior intensidade. As greves já vinham crescendo muito e devem dar um salto a partir do clima de rebelião popular que se instaurou no país.

Mas a disputa pela consciência desse movimento e do conjunto da classe trabalhadora será dada de forma cada vez mais importante numa arena nova e ainda de potencial imprevisível: a das comunicações eletrônicas por meio da internet.


[1] O livro Numerati. Lo saben todo de ti (Barcelona, Seix Barral, 2011) do jornalista Stephen Baker, mostra como as empresas de monitoramento estatísticos do fluxo de informações na net é hoje a ponta de lança não só da mercadotecnia e publicidade, como do controle da mão-de-obra, das tendências eleitorais, da contrainsurgência e até da constituição de casais (1/5 dos casamentos em alguns países já ocorre por meio de encontros mediados pela internet).

[2] http://www.newsecuritylearning.com/index.php/interview/102-nato-general-says-more-training-will-be-on-unclassified-web

[3] “Today’s security environment is conditioned by such phenomena as economic globalisation, privatisation and the development of new forms of communication, such as the Internet. We now live in a world of twenty-four news and instant communication. It is a world in which traditional symmetry has been overturned and conflict has often become asymmetrical. Governments can be brought down by the exchange of messages on ‘Facebook’ or ‘Twitter’ and billions of dollars of damage can be caused by a small attack on some node in the chain of modern critical infrastructure.”

[4] http://www.vice.com/pt_br/read/o-perfil-do-neonazista-brasileiro-uma-entrevista-com-a-pesquisadora-adriana-dias

[5] http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2013/06/21/a-politica-do-facebook-e-a-tarefa-da-esquerda-a-revolucao-se-faz-no-presente-2/

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