Classe social não é abecedário

Wagner Miquéias F. Damasceno

O economista Marcelo Neri publicou no ano de 2010 um texto que lhe projetou das arcadas universitárias à presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O texto intitula-se A nova classe média: o lado brilhante dos pobres. Obviamente, a crítica a esse trabalho não pautará-se no extremo mau-gosto do título e da capa do trabalho, ainda que faça por merecer.

Em A nova classe média: o lado brilhante dos pobres o economista Marcelo Neri apresenta dados que atestam que o Brasil vive um momento especial. Com forte crescimento econômico nos últimos anos combinado com uma queda dos níveis de desigualdade, descortinaria-se nesse cenário, com mais pujança, uma nova classe econômica: a classe C.

De acordo com Neri, a taxa de crescimento do PIB per capita, entre o período de 2003 a 2009, foi em média de 2,88%. Entre 2001 e 2009, a renda per capita dos 10% mais ricos aumentou em 1,49% a.a., enquanto a dos mais pobres teve um crescimento de 6, 79% a.a. (2010).

“Brincando” do início ao fim do texto, o autor fundamenta sua análise nessas percepções: aumento do crescimento econômico e redução da desigualdade brasileira. Essas, por sua vez, forjam – ou fortalecem – uma nova classe social, a classe C. Essas duas medidas, por seu turno, se configuram em elementos de categorização política e econômica, pois de um lado, abarca um grande percentual do eleitor mediano, e por outro, também torna esta classe a dominante do ponto de vista econômico já que “concentram mais 46,24 do poder de compra dos brasileiros em 2009 (era 45,66% em 2008) superando as classes AB estas com 44,12% do total de poder de compra” (NERI, 2010, p. 14).

Primeiramente, e mais importante: o autor equivoca-se na sua conceituação de classe. Obviamente não se trata de um conceito unívoco e com domínio epistemológico. Mas a classe C não é uma classe social, no sentido histórico marxista a que ele, jocosamente alude. De fato, não só a terminologia é tributária das áreas de propagandas e marketing, como possuem seu centro conceitual no consumo. Em outras palavras, enquanto as definições de classe social, e luta de classes, põem em relevo a produção com uma ontologia que repousa no trabalho, o abecedário de classe (a,b,c,d,e…) repousa na renda e se desdobra no consumo. Há uma profunda diferença ontológica entre essas categorias.

Muito embora ele aluda à fábula de La Fontaine para separar as formigas das cigarras, os consumidores dos trabalhadores, Neri pouco avança nessa abordagem já que analisa a renda sempre determinada pelo consumo. Nesse sentido, o autor mal consegue disfarçar sua euforia em creditar a esta classe que não é, mas está como classe, um papel de dominação na sociedade brasileira:

“Classe C: A mesma que atingia 37,56% da população brasileira em 2003, passa a 50,45% em 2009, ou 94,9 milhões de brasileiros que tem renda acima de 1126 até 4854 reais mensais, a classe dominante no sentido populacional. Este crescimento acumulado de 34,34% no período de seis anos, traduzido em termos de população, equivale a dizer que 29 milhões de brasileiros que não eram, passam a ser classe C nos últimos 5 anos (3,2 milhões só no último ano)” (NERI, 2010, p. 31).

Não é de espantar que esse texto eufórico tenha tido acolhida tão boa por parte do governo petista. Não por acaso, também, que Marcelo Neri tenha cedido seu expertise adquirido em alguns think tanks burgueses para o IPEA, que por sua vez, é o instituto que “recheia” de dados e análises a cartilha de 10 anos do PT.

Neri percebe um aumento do crescimento econômico e redução da desigualdade brasileira. Obviamente, essa percepção é consequência de suas escolhas metodológicas que não são nem um pouco neutras: “há um hábito no Brasil que julgamos pouco recomendável de calcular medidas de pobreza absolutas associadas a múltiplos e frações do salário mínimo corrente” (2010, p. 39).

No capitalismo, não basta somente o “poder de consumo” para tornar uma classe socialmente dominante. Se fosse isso, a luta socialista não teria como eixo a posse dos meios de produção, mas reivindicaria somente bens de consumo. Nessa lógica torta, não orientaríamos nossa luta pela posse coletiva da terra, dos tratores, das ferramentas e sementes, e sim, pela distribuição de tickets de refeição para todos.

Obviamente, a confluência de elementos políticos e econômicos favoráveis é um importante critério para análise social, mas não nos termos expostos pelo autor. Ainda mais num mundo onde as contradições entre forças produtivas e relações de produção tornaram-se mais agudas, desnudando em vários momentos as contradições entre o mundo do trabalho e o capital. Tal contradição – permanente e aguda – desautoriza qualquer avaliação, como a feita por Neri, de atribuir protagonismo político e econômico a uma classe cuja grande relevância observável está no poder de consumir.

O álbum Dark side of the moon, da banda Pink Floyd, é considerado uma das maiores obras da música internacional. Para muitos, nesse álbum há uma série de mensagens subliminares colocadas propositalmente pela banda inglesa em sua feitura. A “teoria” mais forte é a de que há um sincronismo entre as músicas do álbum e O Mágico de Oz (1939), aquele filme onde a menina de sapatinhos vermelhos deveria sempre seguir a trilha dos tijolos dourados.

Bom, deixo ao sabor das interpretações dos leitores esta “faixa do álbum” de Neri, bem menos subliminar do que o álbum inglês:

“Como consequência deste crescimento inclusivo, o número de pobres que era 49 milhões de pessoas (classe E) em 2003, cai 20,5 milhões de pessoas até 2009, chegando a 28,8 milhões de pobres. A taxa de pobreza cai de 16,02% para 15,32% entre 2008 e 2009, uma queda de 4,32% em pleno ano de crise […]

Os números acima ensejam duas reflexões, uma política e outra econômica. Os 94,9 milhões de brasileiros que estão na nova classe média correspondem a 50,5% da população. Isto significa que a nova classe média brasileira não só inclui o eleitor mediano tido como aquele que decide o segundo turno de uma eleição, mas que ela poderia sozinha decidir um pleito eleitoral” (2010, p. 14, grifo meu).

Referências

NERI, Marcelo (Coord.). A Nova Classe Média: o lado brilhante dos pobres. Rio de Janeiro: FGV/CPS, 2010.

Notas:

Analogia ao álbum “Dark side of the moon” da banda Pink Floyd, os jogos de palavras entre “classe dominante”, “divisão de classes”, etc.

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