Abaixo Noé, em defesa de Cam

Suely Corvacho

Em 5 de abril, a Folha de São Paulo publicou trecho da peça de defesa de Marco Feliciano. Nele, o deputado e presidente da Comissão de Direitos Humanos afirmava que os africanos são amaldiçoados porque descendem de Cam. Conforme o texto jornalístico: “Em sua defesa no STF, protocolada no dia 21, Feliciano disse que não é homofóbico e racista. Reafirma, porém, a sua interpretação de que há a maldição contra os africanos. ‘Citando a Bíblia […], africanos descendem de Cão [ou Cam], filho de Noé. E, como cristão, cremos em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições’, afirmou na peça protocolada em seu nome pelo advogado Rafael Novaes da Silva.” (grifo nosso)

Diante disso, fiquei indignada e escrevi um artigo mostrando a permanência da construção ideológica que tanto serviu à Igreja e aos senhores escravocratas. Hoje, no entanto, pensando melhor conclui que já é hora de libertar Cam desta maldição que atravessa séculos e para tanto apresento alguns argumentos.

O primeiro deles é o seguinte: se até Marco Feliciano, acusado de preconceito, discriminação e estelionato tem direito a defesa, por que o pobre do Cam permanece sem remissão dos céus e dos homens?

Afinal vamos examinar seu delito. Comecemos por analisar seu crime:

“Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cam e Jafé; Cam é o pai de Canaã. Esses três foram os filhos de Noé e a partir deles se fez o povoamento de toda a terra.

Noé, o cultivador, começou a plantar a vinha. Bebendo vinho, embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios ombros e, andando de costado, cobriram a nudez de seu pai; seus rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que fizera seu filho mais jovem. E disse:

– Maldito seja Canaã!

Que ele seja, para seus irmãos,

o último dos escravos.

E disse também:

– Bendito seja Iahweb, o Deus de Sem,

e que Canaã seja seu escravo!

Que Deus dilate a Jafé,

Que ele habite nas tendas de Sem,

E que Canaã seja teu escravo!

(Gênesis, 9, 18-27)”

Em primeiro lugar, se é que houve crime, pois o que se vê é a bebedeira de um e o espanto de outro, é mais razoável acreditar que Noé é passível de punição. Não uma maldição por todos os tempos, mas algo mais leve. Algo correspondente ao novo código de trânsito, em que ele soprando no bafômetro e comprometendo-se em não dirigir, poderia ser liberado de imediato. O Cam, neste caso, nem entraria na história.

Em segundo lugar, o trecho bíblico não termina neste ponto, ele dá um dado que muda tudo: “Ora Noé viveu ainda depois do dilúvio trezentos e cinquenta anos. E tendo vivido ao todo novecentos e cinquenta anos, morreu” (Gênesis, 9, 18-27)”. Ora, Cam espantou-se com a nudez do pai e não foi à toa. Noé contava, na ocasião do pileque, nada menos nada mais que 600 anos. Já imaginaram se deparar com um senhor de seiscentos anos nu? Eu diria que seu ato foi um ato de compaixão e não de censura. O cenário era tão “problemático”, que os próprios irmãos, foram de costas cobrir o pai.

Além disso, a maldição foi abuso de autoridade. Não é porque Noé é patriarca que ele tem o direito de sair amaldiçoando e bendizendo a torto e direito. Afinal, que senso de justiça é esse? Quem conta para os irmãos, é amaldiçoado. Quem cobre a nudez, é abençoado. E quem bebe, fica numa boa? Isto não está certo. A maldição foi um ato de vingança e como tal deve ser penalizado.

Por fim, porém não menos importante, o interesse econômico. Noé faz uma reforma agrária difícil de acompanhar. Depois do dilúvio, Noé sai da arca com seus três filhos – Sem, Cam e Jafé. Destes sairá todo o gênero humano que habitará sobre a terra. Portanto, não há problema de terras tampouco os meios de produção estão nas mãos de alguns. Contudo, Noé amaldiçoa Cam e faz uma distribuição bastante arbitrária: “Noé tendo acordado do sono, que lhe causara o vinho, como soubesse o que lhe tinha feito seu filho menor, disse: Maldito seja Canaã: ele seja escravo dos escravos, a respeito de seus irmãos. E acrescentou: o Senhor Deus de Sem seja bendito, e Canaã seja escravo de Sem. Dilate Deus a Jafé, habite Jafé nas tendas de Sem; e Canaã seja seu escravo” (Gênesis 9, 24-28)

Inicialmente é bom que se reafirme que delegar a maldição para Canaã, que nem estava presente, é provavelmente uma substituição tardia. Conforme Alfredo Bosi, alguns comentadores identificam dois estratos[1] na redação do Gênesis, 9, e consideram “a menção a Canaã (“Maldito seja Canaã) como uma substituição tardia de Cam, operada no texto quando as tribos de Israel conseguiram dominar os cananeus[2] no tempo do rei Davi.” (1992, p. 257). Mas o problema maior que se percebe, lendo o texto, é que na ocasião havia um problema sério de mão de obra. Se Sem e Jafé ganham as terras, quem irá cultivá-las? Para mim, o pobre do Cam caiu numa armadilha e ele é o primeiro trabalhador da terra. Como sempre, explorado por seu semelhante.

Por tudo isso, reitero a campanha: abaixo a maldição de Cam!!!!!!!!!!!

BIBLIOGRAFIA

BIBLIA SAGRADA. Trad. Padre Antônio Pereira Figueiredo. Rio de Janeiro: Barsa, 1967.

BOSI, Alfredo. “O tempo da origem: a danação de Cam” in Dialética da colonização. 3ª ed. São Paulo: Cia da Letras, 1992.

FOLHA DE SÃO PAULO,  5 de abril de 2013, Caderno Poder – A4.


[1] . estrato: unidade individual de rocha estratificada, diferenciada litologicamente dos estratos imediatamente superior e inferior; camada, leito (Houaiss). Por extensão, camadas do palimpsesto.

[2] . cananeus: habitantes do reino antigo de Canaã

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