Marco Feliciano e a escravidão

Suely Corvacho

 

Se os pronunciamentos de Marco Feliciano provocaram protestos e a abertura de inquérito pela Procuradoria-Geral da República, a defesa apresentada no Supremo Tribunal Federal exige a sua imediata demissão da presidência e afastamento da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

A Folha de São Paulo de ontem, 5 de abril de 2013, apresenta o trecho da defesa do deputado: “Em sua defesa no STF, protocolada no dia 21, Feliciano disse que não é homofóbico e racista. Reafirma, porém, a sua interpretação de que há a maldição contra os africanos. ‘Citando a Bíblia […], africanos descendem de Cão [ou Cam], filho de Noé. E, como cristão, cremos em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições’, afirmou na peça protocolada em seu nome pelo advogado Rafael Novaes da Silva.” (grifo nosso)

O argumento não é novo. Data do século XV e foi adotado para justificar a escravização dos africanos. Segundo Henrique Cunha Jr., antes da colonização do Brasil, os portugueses iniciam expansão comercial sobre as regiões do norte da África e da África Ocidental, onde praticam a pirataria e pilhagem comercial sobre as pequenas cidades litorâneas; já, em 1444, duzentos e trinta e cinco africanos são escravizados e levados ao Algarve (Portugal).

Ainda segundo o estudioso, o período é de apoio mútuo entre a Igreja Católica e os reinos europeus. Em 1452, o Papa Nicolau V, por intermédio da Bula Papal, concede a Portugal a soberania sobre as terras descobertas em suas navegações e autoriza a escravização das nações encontradas (africanas e asiáticas). Para justificar o cativeiro dos africanos, várias igrejas cristãs utilizam e deturpam o texto bíblico. Apoiados em interpretações equivocadas de passagens bíblicas, a Igreja assegura que os negros não têm alma ou que estão entre os povos destinados a serem escravizados.

Alfredo Bosi, analisando “Vozes d’África”, o poema do abolicionista Castro Alves, oferece elementos que permitem perceber a construção ideológica que justificou a escravização dos africanos. Inicialmente o crítico apresenta o trecho bíblico que deu origem à construção:

“Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cam e Jafé; Cam é o pai de Canaã. Esses três foram os filhos de Noé e a partir deles se fez o povoamento de toda a terra.

Noé, o cultivador, começou a plantar a vinha. Bebendo vinho, embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios ombros e, andando de costado, cobriram a nudez de seu pai; seus rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que fizera seu filho mais jovem. E disse:

– Maldito seja Canaã!

Que ele seja, para seus irmãos,

o último dos escravos.

E disse também:

– Bendito seja Iahweb, o Deus de Sem,

e que Canaã seja seu escravo!

Que Deus dilate a Jafé,

Que ele habite nas tendas de Sem,

E que Canaã seja teu escravo!

(Gênesis, 9, 18-27)”

Como se percebe, o grande “crime” de Cam e pelo qual padece não só ele como também toda sua descendência (Canaã) é chamar a atenção dos irmãos para a nudez do pai. Diferente da Grécia Antiga, onde se condena a hybris (tudo que passa da medida), no caso a bebedeira do patriarca e suas consequências, aqui o condenável é aquele que vê e comenta. Trata-se de uma noção de justiça que nos escapa em várias direções, uma delas é compreender como o autor do excesso pode ser o juiz que define a sentença daquele que o denuncia. Se a situação só é compreensível naquele contexto cultural remoto, utilizá-la nos dias de hoje, como faz Marco Feliciano, é, não só, anacrônico, mas perverso.

Ainda sobre a passagem bíblica, Bosi informa que alguns comentadores identificam dois estratos na redação do Gênesis, 9, e consideram “a menção a Canaã (“Maldito seja Canaã) como uma substituição tardia de Cam, operada no texto quando as tribos de Israel conseguiram dominar os cananeus[1] no tempo do rei Davi.” (1992, p. 257) A explicação histórica ganha sustentação com a leitura do texto, pois que outra razão existiria para substituir Cam por Canaã, o filho mais novo? Se a razão era envolver as gerações futuras, por que não substituir Cam pelo filho mais velho?

Além disso, há outro dado que chama a atenção. Conforme o texto bíblico, Cam teve: Cus, Misraim, Fut e Canaã. O primeiro foi pai de Nemrod, poderoso senhor de terras, cuja capital foi Babilônia (atual Iraque). O segundo, Misraim, foi o patriarca dos egípcios.  Não há menção específica a descendência de Fud. Por fim, Canaã teve vários filhos, “ao Aradeu, ao Samareu, e ao Amato: destes é que vieram os povos cananeus, que depois se difundiram por diversos lugares. Os limites porém de Canaã eram desde o caminho, que vem de Sidônia para Gerara, até Gaza, e até entrar em Sodoma, em Gomorra, em Adama e em Seboim até Leza”. (Gênesis, 10, 18-20). Como pode se ver, a descendência de Cam ocupa predominantemente o que hoje denominamos Iraque, Egito, Palestina, e não propriamente a África subsariana, de onde vieram os africanos escravizados no Brasil. Logo, associar Cam unicamente aos africanos, como faz Feliciano, revela que seu argumento está mais afinado com o discurso dos senhores escravocratas do que com o texto religioso.

Por fim, Bosi apresenta mais uma informação que ilumina a arbitrariedade dessa construção. Referindo-se ao motivo pelo qual os trabalhos forçados dos cananeus eram justificados, o crítico aventa a hipótese de “o narrador de Gênesis, 9, ter criado um mito etiológico[2], calcado talvez na tradição do pecado original de Adão, para dar conta da instituição do cativeiro.” Depois esclarece, o pecado em ambos os casos se identifica com o conhecimento do proibido, contudo há uma diferença entre a nudez de Adão e a de Noé: “não se dá remissão alguma para a estirpe de Cam”. Ao contrário de Adão, para cujo pecado foi enviado Jesus, para Cam não há nenhum perdão. Essa particularidade, sobre a qual a Igreja do século XV e Marco Feliciano se assentam, encontra oposição há séculos, e foi imortalizada por Castro Alves em uma das estrofes de “Vozes d’África”:

“E o que é que fiz, Senhor? Que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!”

Lutando com os mesmos elementos daqueles que construíram a lenda, o poeta abolicionista revela a gratuidade, o oportunismo e os interesses da Igreja com o processo de escravização dos africanos. E se um homem do século XIX é capaz de se indignar com tal argumento e criar versos tão comoventes, por que nós, homens e mulheres do século XXI, ficaremos calados diante dessa provocação de Marco Feliciano? E até quando o aturaremos à frente da Comissão de Direitos Humanos?

BIBLIOGRAFIA

ALVES, Castro. “Vozes d’África”.

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/v/vozes_d_africa (acesso 05/04/2013)

BOSI, Alfredo. “O tempo da origem: a danação de Cam” in Dialética da colonização. 3ª ed. São Paulo: Cia da Letras, 1992.

CUNHA JR., Henrique. “Os negros não se deixaram escravizar: temas para as aulas de história dos afrodescendentes”. Revista Espaço Acadêmico nº 69. Fev. 2007.


[1] . habitantes do reino antigo de Canaã

[2] . etiológico: ramo do conhecimento cujo objeto é a pesquisa e a determinação das causas e origens de um determinado fenômeno. (Houaiss)

prevost [email protected]