Os EUA e o Golpe de 1964 no filme “O dia que durou 21 anos”

Romulo Mattos

A obra cinematográfica O Dia que Durou 21 anos, de Camilo Tavares, integra a boa safra recente de documentários sobre a ditadura militar no Brasil, que inclui Cidadão Boilesen (2009) e Condor (2007), embora esse último amplie o recorte espacial para a América Latina. O filme em questão tem o objetivo de retratar o envolvimento dos EUA no Golpe de 1964 e o seu apoio aos primeiros governos militares. Afastando-se da onda revisionista que vem crescendo na historiografia brasileira, Tavares preferiu enfatizar o autoritarismo político das Forças Armadas e ignorar a chamada “teoria dos dois demônios”. De acordo com essa tese, a ditadura implantada pelos militares apenas teria se antecipado ao projeto igualmente ditatorial que os militantes da esquerda instalariam, caso vencessem a disputa política com a direita. Diferentemente, a película mostra como os representantes da política externa americana – principalmente Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil – superestimaram o “perigo comunista” representado por Jango Goulart e Leonel Brizola e convenceram o governo dos EUA a apoiar o golpe militar.

Para resguardar os interesses americanos em terras brasileiras, e também evitar o surgimento de uma nova Cuba, os presidentes John Kennedy e seu substituto Lyndon Johnson injetaram dinheiro em instituições organizadas pelo empresariado brasileiro, como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) – em cuja divisão de tarefas estava sintetizada a práxis golpista. Kennedy e Johnson também estavam relacionados com a “Aliança para o Progresso”, um programa de auxílio financeiro aos governos estaduais brasileiros contrários a Goulart e identificados com a política externa americana – chamados de “ilhas de sanidade administrativa”. Por fim, se Johnson enviou apoio logístico, material e militar aos conspiradores – na ação conhecida como “Operação Brother Sam” –, Kennedy autorizara a CIA a atuar clandestinamente no Brasil, para criar aquilo que os agentes americanos chamavam de “condições para o golpe”.

O documentário tem muitos méritos. Uma ritmo dinâmico e uma narrativa que consegue apresentar dados factuais sem cansar o expectador não especializado em História; o emprego de soluções estéticas que contribuem para tornar o filme mais interessante, pelo viés artístico; uma pesquisa de áudio e imagem bem realizada, com registros de conversas travadas na alta cúpula do governo americano, filmes coloridos dos conflitos sociais dos anos 1960, no Brasil, além de farto material institucional e de televisão dos EUA; e uma argumentação amplamente amparada por documentos escritos, que são valorizados no desenvolvimento do trabalho cinematográfico. Politicamente afinado com as discussões situadas no campo da esquerda, O Dia que Durou 21 Anos cumpre com facilidade os requisitos necessários para a construção de um documentário histórico consistente. Assim, contribui para o conhecimento acerca de facetas do Golpe de 1964, que vêm sendo esquecidas no debate acadêmico, como os interesses das empresas americanas, ameaçadas pelas reformas de base, do governo Goulart.

Embora tenha muitas qualidades, o filme apresenta depoimentos que precisam ser relativizados. É bastante relevante a contribuição de Peter Kornbluh, Coordenador do National Securiry Archives, ao documentário. No entanto, esse especialista afirmou: “Os EUA reconheceram imediatamente o governo brasileiro e então perceberam que tinham cometido um erro. O mundo inteiro logo deduziu, corretamente, que os EUA haviam apoiado e organizado o golpe”. O filme mostra muito bem que, além da “Operação Brother Sam” e dos financiamentos dos EUA às instituições golpistas do empresariado brasileiro, o General Waters teve a missão de organizar a conspiração, reunindo os diversos grupos dentro do Exército brasileiro interessados em derrubar Goulart. Aliás, não pode passar despercebido que o mesmo militar americano escolheu Castelo Branco como o homem mais confiável para a defesa dos interesses dos EUA em nosso país. Como se não bastassem todos esses fatos, Johnson tinha um plano de contingência para ajudar o golpe. Portanto, a minha intenção aqui não é negar ou mesmo subestimar a participação do governo americano no processo que levou ao 1o de abril. Mas é necessário fazer um adendo no sentido de que aquela afirmação do pesquisador americano pode levar o público leigo ao equívoco de achar que o Golpe de 1964 foi simplesmente uma operação dos EUA no Brasil. Quanto a esse assunto específico, penso que deveria ter havido um debate entre historiadores para recuperar a complexidade do processo histórico brasileiro.

A frase proferida por Robert Bentley, assistente de Gordon, é ainda mais simplista. Após dizer que o militares constituíam uma classe nova, que queria se manter no poder e estava desfrutando as regalias provenientes de tal condição, o agente diplomático concluiu: “Os militares, que entraram por uma razão, ficaram por outra”. Esse tipo de pensamento, não problematizado por outros entrevistados, obscurece as principais razões que levaram à continuidade da ditadura militar no Brasil: a promoção mais prolongada da concentração de riqueza, do arroxo salarial e da desarticulação do movimento sindical, como formas de retomar o ciclo econômico, com a recuperação das taxas de lucro.

James Green, historiador da Brown University (EUA), é outro brasilianista que acrescenta bastante ao filme, com depoimentos enriquecedores e corajosos, como o de que as multinacionais americanas apoiaram abertamente o AI-5 e, por extensão, a tortura e o arbítrio no Brasil. Porém, Green afirma: “A prática da tortura foi legitimada e ficou claro, até para Lincoln Gordon, que algo havia saído errado. Gordon abriu a caixa de Pandora e permitiu que todo esse mal saísse da caixa”. De início, podemos afirmar que esse pensamento é generoso com um presidente que foi entusiasta da “Operação Limpeza”, o que é mostrado no filme. Imediatamente em seguida, Kornbluh trata de enfatizar o grau de envolvimento do governo americano com os militares brasileiros, mesmo após esses terem recrudescido a prática da tortura contra os opositores do regime (o que não fica claro na intervenção de Green): “O Exército brasileiro sabia, já há muitos anos, que os EUA apoiariam tal mudança no governo, que os EUA não os condenariam, não cortariam ajuda militar ou econômica e que, certamente, fariam o oposto: aumentariam a ajuda ao Brasil, sob o regime militar”. Nesse ponto, para deixar ainda mais evidente a ligação dos EUA com a violação dos direitos humanos em nosso país, faltou a informação, consideravelmente difundida, de que a CIA ensinou técnicas de tortura para agentes do Estado brasileiro.

Além de depoimentos que deveriam ser debatidos, outro ponto que não ficou bem elaborado foi o período pós-golpe, apresentado de forma acelerada, com exceção da parte relativa à tortura. Embora seja muito importante lembrar os (diversos) episódios de tortura ocorridos na ditadura militar – principalmente, em tempos de Comissão da Verdade –, esse trecho específico ficou deslocado do restante do filme. Trata-se de um momento em que a narrativa se perde, o que talvez possa ser relacionado ao fato de que o documentário foi exibido originalmente na televisão, em capítulos (apesar de a versão exibida nos cinemas ser levemente modificada). Em termos políticos, a opção por tratar a tortura com mais vagar é elogiável, especialmente por dar a entender que a atuação dos EUA, no fim das contas, favoreceu um projeto que desrespeitou recorrentemente os direitos humanos para se manter no controle político de um país. Uma possível solução para evitar o isolamento da parte referente à tortura seria finalizar o filme com a lembrança de que o presidente Jimmy Carter retirou, ao menos em parte, o seu apoio americano às ditaduras latino-americanas, tendo em vista justamente a causa dos direitos humanos.

Essas críticas pontuais estão longe de invalidar um documentário bem construído, politicamente relevante, amparado por uma pesquisa variada e consistente, e, acima de tudo, capaz de contribuir para o conhecimento a respeito do envolvimento do governo dos EUA no golpe e na ditadura. Bastante crítico, o filme é encerrado, não por acaso, com o irônico pensamento de que, em nome da democracia, um regime ditatorial se sustentou no poder por 21 anos.

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