Da excomunhão de Perón ao Papa argentino, a Igreja dos militares

Henrique Carneiro

O impacto da renúncia do Papa Ratzinger, embora anunciada hipocritamente como sendo devido a debilidades de saúde, foi um gesto extremo diante de um Vaticano imerso em escândalos hediondos, de depósitos no Banco do Vaticano (o IOR) do dinheiro da Máfia à redes de prostíbulos (LIGAÇÃO, 2010), de pedofilia e assédio sexual sistemático (um cardeal, o escocês Keith O´Brien deixou de ir ao conclave por esse motivo) à corrupção e ameaças de morte (CARDEAL, 2013).

Reunidos no conclave os cardeais estavam diante do desafio de indicar um caminho de reformas ou se manterem aferrados à estrutura gerontocrática, patriarcal e fossilizada de uma Igreja venal e corrupta.

A decisão da cúpula da Igreja pelo Papa argentino, entretanto, teve um significado claramente conservador. Ao falarmos de conservadorismo na Igreja católica devemos nos lembrar de que ela está lutando contra os valores da modernidade, da democracia e da secularização, o que significa que ela comunga de valores pré e anti-Revolução francesa. Nesse universo, mulheres não têm direito de existência política e civil (a Igreja não quer lhes permitir não só o aborto ou a pílula, mas até mesmo o divórcio!), e os homossexuais não tem direito sequer de existência, pois eram punidos com a morte!

A homofobia (e ao mesmo tempo a prática secreta da homossexualidade) e a misoginia da Igreja Católica são resultados da repressão e do recalque sexual. A reiterada prática de pedofilia por uma parte do clero é produto das neuroses sexuais de recalcados da castidade compulsória. Até quando vão manter o celibato sacerdotal, a proibição do ordenamento de mulheres e a oposição aos direitos femininos e dos homossexuais?

Certamente não será o Papa argentino que irá avançar na humanização dos sacerdotes pela aceitação da sexualidade, como já fazem protestantes e outras religiões.

O absolutismo monárquico do Vaticano também é o espelho político dos valores de intolerância e do domínio imperial racista europeu sobre o mundo. Por isso o Papa sempre foi um europeu. Mas a escolha do argentino, um país que é uma espécie de extremo-ocidente, tem um significado mais claro ainda em reiterar essa condição ocidental do catolicismo.

Antes do conclave todos os analistas escreviam que ele não tinha chances por seu currículo de, ao menos, omisso diante do genocídio argentino. Agora, ao que parece, é justamente esse currículo que lhe deu credenciais.

A Igreja poderia optar por mudar algo, para tudo continuar igual. Foi o que fizeram com o Concílio Vaticano II e o Papa João XXIII, uma pequena reforma.

Hoje, com as crises exigindo uma grande reforma, optaram pela recusa a qualquer aggiornamento. Nem no terreno da misoginia, nem na homofobia, nem na aliança com o grande capital e os seus partidos haverá qualquer mudança.

Ao Papa Joseph Ratzinger se costumava justificar sua adesão juvenil à Juventude Hitlerista justamente a essa condição de jovem em meio a uma guerra em que foi alistado.

Ao novo Papa Bergogli não cabe nenhuma dúvida da sua aprovação consciente a um regime fascista de caráter genocida quando já tinha 40 anos e nisso acompanhou a imensa maioria do clero da Igreja Católica argentina.

O regime argentino instalado pelo golpe de 1976 é universalmente reconhecido como uma ditadura genocida, cujos responsáveis foram julgados e condenados à prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade.

Se a Igreja Católica na Argentina sempre foi um bastião da oligarquia agrária e pecuarista a ponto de Perón ter sido excomungado e os tanques do golpe de 1955 terem sido pintados com cruzes e a frase “Cristo vence!”, em 1976 o nível de colaboração entre a cúpula da Igreja católica e a ditadura chegou ao ponto de assassinarem, quatro meses após o golpe, um dos poucos bispos que se opunha ao regime, Enrique Angelelli, bispo de La Rioja, forjando um acidente de carro. Embora houvesse evidências gritantes do assassinato, a absoluta maioria da cúpula da Igreja aceitou a versão oficial e acobertou o crime enquanto mantinha o apoio a Videla.

O cardeal Juan Carlos Aramburu, sempre partilhou de intimidade com a junta militar e muitos sacerdotes participaram diretamente das torturas e execuções. Um deles, o capelão da polícia de Buenos Aires Christian Von Wernich está preso, condenado à prisão perpétua por sete assassinatos, 31 casos de tortura e 34 sequestros (CHRISTIAN, 2013).

Em 1979, uma ilha da Igreja chamada El Silencio, no delta do rio Tigre, nos arredores de Buenos Aires, chegou a ser usada para guarda de presos políticos do regime militar (TEXTO, 2005).

Os próprios militares genocidas, inclusive o general Menendez, responsável do assassinato do bispo Angelelli, se apressaram, felizes, em enviar uma mensagem de apoio ao novo Papa desde os tribunais onde respondem pelos seus crimes (PLATÍA, 2013).

Antes de sua eleição, o jornalista argentino Horacio Verbitsky havia publicado um livro com extensa e minuciosa pesquisa em que demonstrava não só a colaboração geral do clero argentino com a ditadura, mas inclusive do próprio Bergoglio que teria demitido e denunciado dois colegas jesuítas que foram presos durante meses. A irmã de um desses jesuítas ratificou a acusação recentemente afirmando ter sido o atual Papa “o autor intelectual do sequestro de seu irmão” (FIGUEIREDO, 2013).

A opção deliberada por ele reflete a intenção da Igreja em dar cobertura para as acusações de sua colaboração com a ditadura militar que chegaram recentemente inclusive a serem estabelecidas por um tribunal, tentando com a eleição de um Papa argentino ofuscar esse passado criminoso (TRIBUNAL, 2013).

Na Argentina o catolicismo ainda é religião oficial e o estado paga os salários do clero com o dinheiro público. Até recentemente, a principal cerimônia de comemoração da independência nacional era uma missa na catedral, prática abandonada desde Nestor Kirchner, que, por outro lado, fez do dia da morte do bispo Angelelli uma data oficial. A aprovação do direito ao casamento homossexual foi outra decisão conquistada com a oposição da Igreja, especialmente de Bergoglio.

Desde a confusa excomunhão de Perón, em 1955, por ter proibido uma procissão de Corpus Christi e mandado dois membros do clero para fora do país, pouco antes do golpe militar, que a Igreja apoiou, e que teve só nos bombardeios da força aérea na Plaza de Mayo mais de uma centena de mortos, que a Igreja argentina foi uma opositora do peronismo. Perón declarou-se arrependido e pediu absolvição, mas como o próprio Papa Pio XII não a ratificou, o caso permaneceu indefinido.

Há assim, com o primeiro Papa não europeu, um claro gesto de tentativa de fortalecimento da direita católica na política argentina e latino-americana. Há também intenção de aprofundar sua influência, especialmente na América Latina, mas sem qualquer risco de grandes mudanças. Levando-se em conta sua idade, 76, e sua fragilidade de saúde (tem apenas um pulmão), também parece que apostam numa solução de transição relativamente efêmera para que os acomodamentos das facções da Igreja e do Vaticano em torno do novo soberano possam já baralhar com a hipótese de quem vai ser o seu futuro substituto.

O curioso será ver a convivência dos dois Papas, sempre com a possibilidade do Papa Bergoglio vir a falecer antes do Papa emérito, o que criaria mais uma situação inédita.

Referências bibliográficas:

CARDEAL de Edimburgo confessa assédio sexual e vai para reclusão. Sol, 3 mar. 2013. Disponível em: http://sol.sapo.pt/inicio/Internacional/Interior.aspx?content_id=69257

CHRISTIAN Von Wernich. Wikipedia. Disponível em: http://es.wikipedia.org/wiki/Christian_Von_Wernich

FIGUEIREDO, Janaína. Irmã de jesuíta preso durante ditadura contesta escolha do Papa. O Globo, 13 mar. 2013, Disponível em: http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066

LIGAÇÃO com rede de prostituição é o mais novo escândalo a envolver o Vaticano. O Globo, 4 mar. 2010.Disponível em: http://oglobo.globo.com/mundo/ligacao-com-rede-de-prostituicao-o-mais-novo-escandalo-envolver-vaticano-3045006

PLATÍA, Marta. Bergoglio con una hinchada particular. Página 12, 1 mar. 2013. Disponível em: http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215821-2013-03-15.html

TEXTO relata história política da igreja no país. Folha de S. Paulo, 3 abr.2005. Disponível: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0304200507.htm

TRIBUNAL de Argentina: la Iglesia, cómplice de crímenes de la dictadura. Contrainjerencia, 15 feb. 2013. Disponível em: http://www.contrainjerencia.com/?p=62121

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