O duplo corpo do Papa

Henrique Carneiro

O Papa e a cristandade vivem um drama. Nos dias que faltam para o término do seu papado, Ratzinger vai usar por mais algum tempo uma condição que lhe dá um “duplo corpo”, o humano e o místico. O problema é a novidade criada a partir da sua renúncia a um desses corpos antes de morrer. Isso significa que no prazo burocrático de um determinado dia ele vai perder os poderes místicos, como o da infalibilidade, tornado dogma em 1871, pelo Papa Pio IX ao ser derrotado pela revolução da unificação italiana.

Esse novo estatuto semeia confusão na própria natureza dos dogmas, pois, se ele é infalível, é claro que ninguém pode criticar a renúncia e ela está correta, mas após perder a infalibilidade, por mais que se recate ao silêncio obsequioso de um convento, se tornará um sujeito apenas humano, ou seja, político.

O seu gesto, político, pode servir de meio de impacto e ponto de aglutinação para a tentativa de uma coalizão política dentro das facções da Igreja que possa amenizar o efeito desastroso dos problemas de corrupção, relações com a Máfia e acobertamento da pedofilia.

O porta-voz da Santa Sé declara que “não há complôs no Vaticano”. O Papa profere palavras como “hipocrisia”, “divisão da Igreja” e outras que deixam cada vez mais claro o sentido político do seu gesto de renúncia.

Ao renunciar, o Papa mais tradicionalista resolveu quebrar uma tradição num gesto claro de desafio político aos setores que se opuseram a ele, notadamente o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, que se tornará o cardeal camerlengo, ou seja, o governo interino até o novo Papa ser eleito. Foi observado pela imprensa que o Papa se recusou a abraçá-lo e não o deixou beijar o anel na última missa que Ratzinger celebrou (MAIEROVITCH, 2013).

Tarcisio Bertone que fez a carreira eclesiástica à sombra de Ratzinger e que se tornou o principal adversário do Papa vai não só desempenhar o comando interino da Igreja como tem o papel cerimonial de quebrar com um martelo o selo e cortar com uma tesoura o anel do Papa, simbolizando o seu fim, o que só acostumava ocorrer quando os Papas morriam.

O que já era um escândalo público de intrigas tornou-se um fato inédito com a decisão da renúncia e ela vai certamente estar no centro dos alinhamentos para a eleição de um novo Papa. As relações da Igreja com o Estado italiano, sempre obscuras e corruptas, também podem estar em vista diante da presença desproporcional do clero italiano no Vaticano e no número de cardeais votantes no conclave (a Itália tem 29 e o Brasil apenas 5, por exemplo). Sem um Papa italiano desde 1978 há muitos interesses em torno disso na Itália.

Mas o fulcro do problema que levou à renúncia parece estar no Banco do Vaticano, o IOR (instituto para as Obras da Religião), pois Ratzinger havia nomeado um banqueiro ligado a Opus Dei e ao Santander para presidente do IOR. Esse banqueiro, Gotti Tedeschi, também renunciou em 2012, curiosamente no mesmo dia em que o mordomo do Papa era preso. O informe secreto de Tedeschi sobre o IOR revelava que ocorriam todo tipo de negociatas, lavagem de dinheiro, inclusive do chefe da Cosa Nostra, a máfia siciliana, que tem o sugestivo nome de Matteo Massina Denaro (denaro significa dinheiro, em italiano) (EL PAPA, 2013). O novo presidente do IOR, Ernest von Freyberg, foi recém-nomeado após a renúncia do Papa e, até então, presidia um estaleiro alemão que fabricava, entre outros, navios de guerra desde o período nazista. Não se sabe se sua habilidade administrativa em construir navios será útil para sanear finanças contaminadas pelo dinheiro da máfia e de outros criminosos milionários.

Embora se trate de uma religião, o segredo para encontrar as razões dos seus dirigentes reside numa pista: seguir o dinheiro. A Revista Forbes revelou recentemente, para escândalo de alguns e gáudio para outros, as fortunas dos líderes das igrejas evangélicas brasileiras em que Edir Macedo encabeçava, seguido de Valdemiro Santiago, Silas Malafaia, R. R. Soares e o casal Hernandes. Faltou revelar a da Igreja Católica!

O poder da Igreja Católica deriva de muitos fatores, mas um significativo é o seu poder material. Em São Paulo, por exemplo, depois do Estado, o maior proprietário imobiliário do município é a Cúria Metropolitana (e com isenção de impostos!). Isso se repete em muitos países. Além da participação acionária em grandes multinacionais o IOR vem servindo para políticos italianos corruptos e a própria Máfia como instrumento financeiro. O mesmo jornalista italiano que divulgou num livro os conteúdos dos documentos obtidos pelo mordomo, Gianluigi Nuzzi, já havia publicado outro livro revelando as negociatas financeiras do clero, Vaticano S. A., também traduzido ao português (NUZZI, 2010).

Esse poder material milenar, que já chegou a possuir a maior parte das terras da Europa e a impor pelo terror inquisitorial o seu domínio, possui, no entanto uma dupla natureza: material e simbólica.

O poder simbólico da Igreja é ainda muito maior do que o seu poder material. Sua força não reside apenas no Estado do Vaticano, nos ativos financeiros do IOR, estimados em ao menos oito bilhões de dólares, nos mais de 400 mil sacerdotes e 700 mil religiosas espalhados pelo mundo, na influência política junto aos governos, mas num capital simbólico inestimável, o legado direto do deus na Terra, o papel de substituto de Cristo.

Todo monarca medieval, assim como o próprio Cristo e o Papa, possuíam essa dupla natureza, chamada de “o duplo corpo do rei”, em obra clássica de Ernst Kantorowicz (1998). Convivem neles o corpo humano e o corpo místico. Esse corpo místico possui poderes mágicos, milagrosos e extraordinários, inclusive o poder taumatúrgico de curar, como analisou o historiador Marc Bloch em Os reis taumaturgos (1993).

A fusão do corpo material e do corpo místico fundamenta toda a mitologia do cristianismo, desde a própria figura do Cristo, não é por outra razão que em torno disso se deram alguns dos debates teológicos mais candentes da história do cristianismo levando a rupturas como dos nestorianos, dos monofisistas e mesmo ao cisma de 1054, da Igreja Ortodoxa, que não aceitou a inclusão da expressão filioque no Credo, referindo-se à procedência do Espírito Santo que para os ortodoxos procede apenas do Pai, enquanto para os católicos procede “do Pai e do Filho”.

Os problemas teológicos e lógicos dessa dupla determinação afetam não só a natureza do próprio Cristo, que embora “filho”, sempre teria existido em coexistência com o Pai, antes mesmo de ter “nascido” de uma mãe humana (embora virgem!), como também de todos os demais “duplos corpos” humanos e sobrenaturais, seja dos reis e imperadores como do próprio Papa.

No campo da soberania política dos monarcas, a consagração de um rei inscrevia no seu corpo físico um poder sobrenatural. O advento do republicanismo moderno, a partir das grandes revoluções modernas, sempre em confronto com a Igreja Católica, inimiga da República laica, levou a que os fundamentos místicos dos poderes fossem substituídos por legitimações baseadas na soberania popular e nos princípios da representação.

Além do Vaticano, resistem na Europa soberanias políticas absolutistas e territoriais, como a da Igreja Ortodoxa grega que na península do Monte Athos mantém um controle absoluto, proibindo a entrada de qualquer mulher e até mesmo animais do sexo feminino!

O espaço misógino do Vaticano, onde as mulheres não têm direito à voz ou à participação decisória, vai ter de conviver agora com um ex-Papa, morando numa casa no jardim junto com seu secretário-particular, chamado pela imprensa de “o belíssimo George” e, ao mesmo tempo, com um Papa em exercício.

Essa é, talvez, a maior perda de poder simbólico que a Igreja Católica já sofreu, o esvaziamento do poder sobrenatural de um corpo simbólico, reduzido ao papel humano de um idoso, que justifica seu ato devido justamente à idade provecta.

Esse pretexto para a renúncia carrega em si duas fragilidades: por um lado, mal oculta a verdadeira causa do gesto, dando margem à compreensão de que o Papa mente ao declarar ser a saúde sua motivação. Em segundo lugar, e ainda pior, mostra a falta de força em carregar um fardo até o final da existência, destino de quase todos os Papas até hoje, o que, para quem se considera como o substituto de Cristo, é uma admissão de insuficiência de determinação e perseverança, indigna de quem quer emular o sacrifício do martírio da crucificação.

Referências bibliográficas

BLOCH, Marc. Os reis taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.

EL PAPA renuncia para limpiar el Vaticano. El Pais, 12 feb. 2013. Disponível em: http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/12/actualidad/1360703369_762736.html

KANTOROWICZ, Ernst Hartwig. Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia politica medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MAIEROVITCH, Wálter. Bento XVI pode surpreender nos soberanos 15 dias finais. Carta Capital, 14 fev. 2013. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/internacional/bento-xvi-pode-surpreender-nos-soberanos-15-dias-finais/

NUZZI, Gianluigi. Vaticano S.A. São Paulo: Larousse, 2010.

PRATES, Marcos. Fortuna de pastores brasileiros chama a atenção da Forbes. Exame, 18 jan. 2013. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/riqueza-de-pastores-no-brasil-chama-a-atencao-da-forbes

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