A luta na Palestina hoje

Por Waldo Mermelstein, Colunista do Blog Esquerda Online

Originalmente publicado no nº 18 da Revista Socialismo e Liberdade, da Fundação Lauro Campos, em junho de 2017

Neste ano há várias datas marcantes para a Palestina: Há 100 anos, a Declaração Balfour, da Inglaterra, favorecia a criação de um “lar nacional judaico” para os judeus, que eram 10% da população; há 70 anos, a ONU votou a Partilha da Palestina, que dividiu o país, dando 51% da área para a minoria judaica de 30% da população; logo após, os sionistas iniciavam a limpeza étnica que expulsou 80% dos palestinos; há 50 anos, em 1967, Israel ocupou “provisoriamente” o restante da Palestina.

A natureza do estado de Israel

Israel domina toda a vida na Palestina histórica, aquela do Mandato Britânico. Metade dos palestinos são refugiados, impedidos por Israel de retornar, apesar das repetidas resoluções da ONU. Outros 4 milhões vivem em um regime colonial: na Cisjordânia, cheio de muros, controles militares e 500 mil colonos judeus e em Gaza, em uma imensa prisão a céu aberto.

Para se entender como Israel manteve essa situação com o apoio esmagador da maioria judaica é preciso saber como funciona o estado. Nele, os palestinos são 20% da população. São cidadãos do estado, mas a única nacionalidade reconhecida é a judaica, o que é a fonte de todas as discriminações. O país não tem uma constituição escrita e uma das leis básicas do estado é a “lei do retorno”, que dá aos judeus o “direito” de se tornar cidadãos de Israel, ao passo que nenhum refugiado palestino o tem. As pesquisas históricas mostram como foram meticulosamente expulsos, mas mesmo se isso não fosse assim, não alteraria o seu direito de retorno.

Os palestinos têm direito de voto, mas os partidos que questionam o caráter judaico do estado são proibidos. 93% das terras são controladas pelo Fundo Nacional Judaico, que proíbe a sua concessão a não-judeus. Com o controle das instituições do estado, os judeus se beneficiam desproporcionalmente dos recursos estatais. O estado impede a construção ou expansão de bairros ou cidades palestinas desde a formação de Israel em 1948, o que explica a frequência das demolições de casas de palestinos. Os “Comitês de Admissão” locais, com maioria judaica, podem vetar legalmente a presença de “indesejados”. Cerca de 100 mil palestinos beduínos vivem em aldeias “não reconhecidas” pelo estado, sob constante ameaça de erradicação. Os melhores empregos e os empréstimos habitacionais e educativos são direcionados aos judeus, por meio do pré-requisito de ter servido o exército.

Quanto aos direitos individuais, a discriminação é constante. Por exemplo, as reunificações familiares entre palestinos cidadãos israelenses e os dos territórios ocupados são proibidas por lei. Ou então a repressão brutal quando se solidarizam com os palestinos dos territórios ocupados. As instituições do estado, em especial as de segurança, discriminam claramente os palestinos. Basta chegar no aeroporto de Tel Aviv para se ver isso. Nos territórios ocupados, os colonos são regidos pelas leis israelenses e os palestinos, por leis que remontam ao Mandato Britânico. Além disso, há 6500 presos políticos palestinos, muitos sem julgamento. Mais de 1600 deles acabaram de realizar uma greve de fome de 40 dias exigindo condições mínimas dentro das prisões e foram vitoriosos.

Essa é a essência do regime de apartheid existente nas fronteiras de Israel. Nelas, o autodenominado estado “judeu e democrático” só funciona sendo democrático para os judeus e judaico para os demais.

Alternativas para a Palestina

A solução para superar a opressão palestina oscila entre duas posições. Os que propõem dois estados de acordo com as fronteiras de antes da guerra de 1967. O que seria uma solução injusta, pois deixaria de fora os palestinos de Israel e os refugiados e levaria à formação de um estado inviável, dominado pelo vizinho poderoso. Creio que a opção de um estado democrático é a única que pode restituir os direitos dos palestinos.

Em qualquer caso, o tema dos refugiados e seus descendentes é essencial e eles deverão poder exercer seu direito de retorno às terras e propriedades originais e também de receber indenizações pelas perdas (mesmo os que não desejarem retornar). A maioria dos que vivem como refugiados nos países vizinhos e na Cisjordânia e em Gaza, assim como os deslocados internos dentro de Israel, (os chamados “ausentes-presentes” – mais um oximoro sionista) certamente o farão.

A decisão terá que ser dos refugiados, livremente e com pleno suporte financeiro internacional, como apontam suas organizações. Estudos de um importante pesquisador palestino, Salman Abu Sittah, mostram que a maior parte das terras de onde provieram os refugiados estão despovoadas, localizando-se longe dos centros urbanos de Israel. No caso de um acordo, nos lugares em que for impossível que voltem aos mesmos lugares (onde tenham sido construídas Universidades ou hospitais, por exemplo), pode-se achar outras soluções próximas, se o critério não for racista. Nas cidades que foram “judaizadas” a situação será mais complicada, mas sempre há saídas, desde que haja vontade política do estado: afinal, Israel absorveu um milhão de russos na década de 90. Inaceitáveis são os critérios demográficos racistas do establishment sionista, lamentavelmente compartilhados por setores amplos da chamada “esquerda sionista”.

Os grupos nacionais na Palestina

De fato, já existe um só estado entre o rio Jordão e o Mediterrâneo – com cerca de 12 milhões de habitantes, metade judeus e metade palestinos – dominado ferreamente por Israel.

A Palestina é o último fato colonial ocidental remanescente. Um tipo de colonialismo de povoamento, em que uma população de imigrantes, eles próprios oprimidos em suas terras de origem, conquistaram o novo país e subordinaram, pela exploração ou pela exclusão (em geral de forma combinada), a população original.

Após 70 anos, aparentemente, esses colonos- como eles próprios se denominavam- e seus descendentes constituíram uma nova nação judia-israelense que se auto identifica pela língua, economia e tradições culturais. A maioria deles, afora os mais ricos, não têm a opção de fugir para a metrópole, como os pieds-noirs da Argélia. Incluídos os 50% dos judeus israelenses oriundos dos países árabes, apesar de sofrer forte discriminação dentro da própria nacionalidade dominante.

A força inegável de Israel como potência regional e nuclear, apoiada pelos EUA e pela União Europeia, torna ainda mais importante que, como na África do Sul, um setor importante, mesmo que não majoritário, da nacionalidade opressora, seja ganho para a luta.

Essa solução terá imensas resistências dentro da população judaica. Para ganhar mais do que indivíduos isolados solidários, é necessário um programa que assegure os direitos nacionais dos judeus israelenses em um país descolonizado.

Mas não estamos perante um conflito entre direitos nacionais equivalentes. A autodeterminação nacional é um direito dos oprimidos e não dos opressores.  Como nacionalidade opressora, os judeus israelenses teriam que ceder seus privilégios para conviver em igualdade de condições e desfrutar de seus direitos nacionais (direito à língua, cultura, religião, tradições).

Os judeus israelenses precisam escolher: que futuro desejam? Um país eternamente militarizado? Continuar sendo párias no Oriente Médio, manter a fina flor de sua juventude como gendarmes de outro povo? A condenação mundial cada vez maior? A degeneração racista e a perseguição aos próprios judeus que se atrevam a dissentir, como aponta, entre outras, a lei que criminaliza a recordação da Nakba?

Novas perspectivas

Apesar de seus êxitos relativos, Israel não pode vencer no médio e longo prazos. A população palestina segue resistindo e não há hoje condições de se repetir a limpeza étnica massiva de 47-8. A sua resistência vem de longe e inclui várias formas, inclusive a resistência armada, como na defesa frente aos ataques brutais a Gaza.

A novidade desde 2005 é o movimento pelo BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que luta pela igualdade de direitos nas fronteiras de 1948, pelo fim da ocupação e pelo direito de retorno dos refugiados.

Mesmo em pouco tempo, o BDS é um enorme sucesso e começa a preocupar Israel. A mais recente adesão foi a da Federação Nacional de Sindicatos da Noruega, com 900 mil filiados.

As brutalidades de Israel fizeram com que, mesmo nos EUA, setores importantes da população se distanciassem de Israel. Um número minoritário, mas crescente, de judeus liberais vem se juntar aos antissionistas de mais longa data. Como na luta para derrubar o apartheid, o desequilíbrio de forças na Palestina torna fundamental uma pressão externa. Excluir as instituições de Israel das atividades econômicas, militares e culturais internacionais é um poderoso recado, similar ao que foi dado na luta contra o apartheid sul-africano. Um apoio material e moral à luta dos palestinos para derrubar o muro de discriminação que cerca a Palestina.




Os resultados eleitorais na Venezuela: Uma resposta a UST (seção venezuelana da LIT-QI)

 

Por Argimiro Goyo, de Caracas, Venezuela

A Liga Internacional dos Trabalhadores- Quarta Internacional (LIT-QI) publicou um artigo de seu grupo venezuelano, a Unidad Socialista de los Trabajadores (UST), intitulado “Frente aos resultados das eleições de 15 de outubro na Venezuela”.  O artigo assume como próprias as acusações da MUD contra o recente processo eleitoral do qual saiu derrotada, às vezes sem ter sequer o cuidado de verificá-las, terminando por fazer malabarismos para tentar manter-se fora de um ou outro grupo. O artigo indica que os resultados foram inesperados para “militantes honestos e ativistas de oposição” que foram votar contra o Chavismo, obviamente votando a favor da MUD.

Os processos eleitorais refletem um momento de uma realidade que pode, como no caso da Venezuela, cobrir um longo período. Esta última eleição, como os 22 processos eleitorais ocorridos nos últimos 18 anos, é mais um episódio de uma batalha entre o Chavismo e a MUD, mas expressa uma luta de classes subjacente a ela. Dependendo da perspectiva em que sejam colocados na realidade, os resultados podem ser óbvios ou surpreendentes. Embora a UST tente equiparar a MUD ao chavismo enquanto direções burguesas, fica claro no artigo que para isso se baseia na verborragia da MUD para atacar o Chavismo, denunciando a MUD por “não ter sido consequente em derrubar o governo Maduro“.

Um processo revolucionário aberto desde 1989

Para entender a realidade venezuelana, a análise não pode se restringir a um episódio eleitoral ou sequer ao espaço de um semestre dentro de um período revolucionário aberto desde o “Caracazo”. Seria necessário um livro para analisar todo o processo revolucionário, os avanços e recuos da luta de classes e dos setores de classes em todo o período aberto desde o 27 de fevereiro de 1989.

Mas, resumindo, é possível tomar quatro marcos históricos, quatro momentos críticos da luta de classes, que marcam o presente e o futuro do processo venezuelano. Há uma Venezuela antes e outra depois do “Caracazo”. Nem as instituições, nem os partidos e nem o povo são os mesmos que há trinta anos. A Venezuela teve uma virada na sua história, atribuível apenas à intensidade da luta de classes vivenciada durante esses anos.

O primeiro momento é o própio 27 de fevereiro (27F) de 1989, o “Caracazo”, uma insurreição popular espontânea contra o pacote neoliberal anunciado por Carlos Andrés Pérez (AD), um governo que apenas três meses antes havia recebido a votação mais alta de todo o regime puntofijista[1]. A população enfrentou a repressão policial, que não conseguiu contê-la, e arrasou comércios, bancos, empresas, instituições governamentais e tudo o que fosse possível saquear e destruir. Para restaurar o controle, a burguesia encurralada recorreu ao exército, que recebeu ordens de metralhar os bairros para impor um toque de recolher. Mais de três mil mortes mancharam as mãos do último governo da AD. A repressão sangrenta deteve a insurreição, mas não a derrotou. Três semanas depois, eles ainda não conseguiam que os trabalhadores retornassem a seus postos de trabalho, apesar de uma intensa campanha da mídia anunciando absoluta normalidade. Essa rebelião quebrou o regime puntofijista, que ainda viveu uma agonia de nove anos (ver o livro “A insurreição de fevereiro”, publicado pela LIT-QI em 1989).

O segundo momento foi a rebelião militar de 4 de Fevereiro (4F) de 1992. Os analistas simplificam-no como típicos golpes de Estado, históricos no cone sul do continente, ligados a uma alta oficialidade fascista. Mas o 4F não foi uma fratura vertical do alto comando militar, com altos funcionários de ambos os lados, mas uma rebelião liderada pelo médio oficialato contra o governo e o alto comando militar[2]. Não havia generais no comando. Os oficiais de mais alto escalão – Chávez, Arias e Acosta[3] – eram comandantes de tropas, abaixo do nível mais baixo dos altos oficiais. Foi uma fratura horizontal, possível apenas devido ao impacto do “Caracazo” e ao processo aberto posteriormente nas Forças Armadas.

O manifiesto rebelde acusava o puntofijismo de “haver utilizado o exército para assasinar seu própio povo”. O 4F foi, como toda aventura golpista, o ato de um grupo de conspiradores, mas indissociavelmente ligado ao processo aberto desde o “Caracazo”. Após dois dias da tentativa de golpe, as mobilizações populares exigiam a liberdade dos golpistas. Os “marxólogos” universitários identificavam em Chávez um acidente histórico. Enquanto a esquerda seguia sem entender o que havia ocorrido no “Caracazo” – alguns repetiam com o governo que era uma ação de delinquentes – os jovens oficiais do 4F a reivindicaram arriscando a vida para derrubar o governo responsável pelo massacre.

O terceiro momento se dá no terceiro ano de governo de Chávez. De mãos atadas entre a busca pela governabilidade após o pontofijismo e a mobilização popular, Chávez decreta leis que afetam os interesses históricos da burguesia nacional parasita e do império. A lei dos hidrocarbonetos, a lei da terra e a lei dos bancos, tornam-se um ponto de princípio para a burguesia que exige sua revogação imediata. Após três meses de mobilização de amplos setores da classe média contra o governo, a grande burguesia promove no dia 11 de abril, com o apoio total do alto comando militar, um golpe que coloca no governo Carmona Estanga, presidente da FEDECAMARAS, a maior entidade empresarial do país.

Em poucas horas, enquanto começava uma festa dos golpistas no palácio presidencial de Miraflores, que incluía intelectuais da esquerda que explicavam os “erros” do chavismo e a “oportunidade” que se abria para um governo de “unidade nacional”, a mobilização nas ruas contra o golpe já estava se desenvolvendo.

Os moradores dos bairros tomavam as ruas e saíram para enfrentar os efetivos policiais que apoiavam o golpe. Uma paralisação se estende a todo o país e, ao meio-dia da sexta-feira 12, os oficiais médios do exército e suas tropas se juntam, armados, às manifestações de rua, deixando o alto comando sem tropa. A polícia abandona as ruas e grupos de trabalhadores e soldados ocupam os arsenais e distribuem armas entre as pessoas. Na manhã de sábado, dia 13, depois de uma noite de choques intensos, os principais pontos das grandes cidades estão nas mãos de trabalhadores e soldados, e a cidade se prepara para a tomada de Miraflores.

A burguesia tenta negociar um novo governo que inclua o Chavismo, mas a população em armas exige: “Queremos ver Chávez!”. A tomada de Miraflores ocorre sem batalha, uma vez que a burguesia e seus lacaios bateram em retirada. Apenas alguns “desavisados” são surpreendidos no palácio.

Entre a noite do dia 13 e o início da manhã do dia 14, os últimos redutos do golpe são entregues e Chávez é resgatado da prisão para ser restaurado como presidente. “Todos 11 terão seu 13!” foi marcado como slogan na consciência da população de sua vitória sobre o golpe. Se aquela batalha triunfante do povo não passou pelas armas contra a burguesia e seus lacaios, foi porque o próprio Chávez o impediu[4].

O quarto momento ocorre no mesmo ano com a sabotagem do petróleo. O conjunto da burguesia tenta novamente retirar Chávez do governo. Com a intenção de “coordenar ações e evitar a dispersão“, é criada a “Coordenadoria Democrática”, o que hoje é a Mesa de Unidade Democrática (MUD). Em outubro, o alto comando militar se rebela contra a reestruturação do exército e deixa de reconhecer o governo. Sem tropa que os acompanhe, eles não podem dar um golpe militar, mas se instalam na Plaza Altamira, a leste de Caracas, onde se realizam as concentrações dos setores opostos ao chavismo, principalmente a classe média. Nos dias seguintes, centenas de grupos, associações empresariais, associações profissionais, grupos sindicais, associações de bairro e até clubes esportivos, anunciam sua decisão de não reconhecer o governo.

Em 2 de dezembro, os gerentes do petróleo paralisam a indústria petroleira, cortando o estoque de gasolina e gás para a população e bloqueando os portos de petróleo. Em três dias, a paralisação se estende a todo o país. Eles fecham as empresas e o comércio, não há produção ou distribuição de alimentos, a marinha mercante bloqueou os portos impedindo a atracação e descarga de navios. As estradas foram bloqueadas com barricadas, inclusive com caminhões sendo tombados contra as pontes impossibilitando o tráfego. Edifícios públicos e transportes foram atacados por grupos de manifestantes, enquanto a mídia dedicava toda a programação para transmitir “os protestos contra a ditadura“. Com um exército em crise e órgãos de polícia sob intervenção após o golpe, o governo parecia amarrado e mudo. Todo o poder do estado burguês foi lançado contra o governo. Como explicaria um líder da MUD de então: “É questão de horas, senão de dias, para que o governo (de Chávez) renuncie ou as pessoas morrerão de fome dentro de suas casas. Ninguém vai se suicidar por causa de Chávez, apenas um grupo de loucos e marginais que o acompanha[5].

Não havia comida, não havia transporte, não havia trabalho, nem salário, nem dinheiro, porém o povo trabalhador, o das ruas, não se rendeu. A solidariedade entre as pessoas permitiu organizar restaurantes comunitários para comer e quando já não havia gás, se cozinhou com lenha. Sem gasolina, caminhava-se e havia manifestações contra o locaute petroleiro. As rádios comunitárias nascidas depois do golpe de abril se uniram para romper o cerco midiático.

A mobilização popular, a luta de classes e um processo revolucionário vivo desde 1989, que alguns analistas “marxianos” esquecem, rompeu o curso que a burguesia quis imprimir. O que seriam dias, se converteram em semanas de batalhas, que logo chegaram a dois meses.

A mobilização dos trabalhadores passou da propaganda à ação. As zonas industriais foram ocupadas, reabrindo as fábricas, com ou sem patrão. Os centros de transportes tomados permitiram a circulação de caminhões de carga e de transporte público. Os centros de produção petroleiro e distribuição de gás e gasolina foram colocados em funcionamento pelos trabalhadores. Pescadores e marinheiros mobilizaram os barcos que fechavam os portos. Soldados detiveram os oficiais que tentaram colocar os quartéis contra o governo. As rodovias foram reabertas e o país foi aos poucos retomando o funcionamento. Cada dia era uma batalha ganha pelos trabalhadores e pelas classes populares.

Às vezes havia enfrentamentos com grupos de choque da “Coordenação Democrática”, em outras recuavam sem se apresentar para batalha. Na medida que avançava o movimento de massas, a classe média recuava, voltava às suas casas e as mobilizações contra o governo perdiam força. Na última semana de janeiro de 2003, os “pontos vermelhos” (grupos chavistas) se concentram nas portas dos bancos e no 30 de janeiro, a associação bancária, temendo o assalto, abandona o locaute. No 2 de fevereiro, dia 61 da sabotagem petroleira, os meios de comunicação retomaram sua programação tradicional e as praças tomadas pela “Coordenação Democrática” amanheceram vazias. O locaute petroleiro havia sido derrotado. A “Coordenação Democrática” nunca levantou o locaute, simplesmente a burguesia recuou e o povo, sem uma direção clara, deixou-a sobreviver.

A história contemporânea venezuelana, a situação atual, só pode ser entendida como expressão desses quatro momentos da luta de classes, onde a organização, consciente ou inconsciente do povo, derrotou a burguesia e a fez bater em retirada: a insurreição popular do “Caracazo” (27F), a rebelião militar do 4F, a derrota do golpe fascista do 13 de abril e a derrota do locaute petroleiro, formam parte integral da consciência revolucionária do povo venezuelano e do profundo ódio da burguesia.

Não se trata de sucessos midiáticos. Na verdade, enquanto a imprensa burguesa os oculta, o povo venezuelano os celebra todo os anos. São expressões vivas da luta de classes no marco de uma dinâmica revolucionária. Nenhum revolucionário, nenhuma organização realmente revolucionária pode evadir-se disto ao realizar uma análise sobre a Venezuela.

Para os analistas reacionários, a realidade venezuelana se reduz a uma somatória de processos eleitorais com resultados surpreendentes (ou fraudulentos) e decisões governamentais erráticas, atípicas ou ditatoriais. Uma esquerda internacional domesticada ao neoliberalismo e outra nacional que odeia o chavismo – com justificadas razões muitas vezes – faz coro como comparsa da burguesia, desprezando a realidade subjacente no movimento de massas e esquecendo a história destes últimos anos gravada na consciência do povo venezuelano.

É impossível entender a Venezuela passando por cima dessa história. A campanha midiática conseguiu internalizar na consciência de um importante setor da classe média a expressão “antes éramos felizes e não sabíamos”, quando pessoas menores de 40 anos acreditam que antes do “Caracazo” – que não viveram – havia um país próspero que deve ser recuperado. Com isso tentam destruir o importante legado histórico que construiu a mobilização popular. Como se pode ser revolucionário na Venezuela e não reivindicar o “Caracazo”, a derrota do golpe do 13 de abril ou a derrota do locaute petroleiro e, ao contrário, por essas coisas do destino terminar ao lado, e/ou defendendo, os que ordenaram o massacre sobre o povo caraquenho em 1989, aos que propiciaram o golpe de abril e orquestraram o locaute petroleiro?

Sem entender a luta ocorrida na Venezuela expressa nesses quatro momentos, não se explica o chavismo, nem a MUD, não se entende por que há um presidente de origem operária e uma oposição dirigida diretamente pelos filhos da burguesia. Não se pode explicar a profusão de processos eleitorais – 23 em 18 anos, 19 depois da derrota do locaute petroleiro – e ainda menos seus resultados. Não se entende um povo onde milhões de pessoas falam do socialismo como parte de seu cotidiano – a favor ou contra. Tampouco se pode entender como, no meio da pior crise econômica, existem programas sociais que, entre outras coisas, garantam pensão de um salário mínimo para todos com mais de 60 anos, mais de três milhões de pessoas – tenham contribuído ou não com a previdência social -, que tenha sido entregues 1,8 milhões de casas gratuitas, que se distribuam mais de quatro milhões de cestas de alimentos através dos Comitês Locais de Alimentação e Produção (CLAP).

Sem a rebelião de 4 de fevereiro e a derrota do golpe fascista em abril de 2002, não é possível entender as características do exército venezuelano, nem a existência de uma milícia com quase 200 mil voluntários, com cerca de 60% de trabalhadores. Sem conhecer a derrota do locaute petroleiro não se entende por que há mais de duas mil empresas e 2,5 milhões de hectares de terras expropriadas, o porquê da presença do Estado em determinadas áreas de produção e de serviços públicos, ou ainda, enfim, por que, apesar da grande queda dos recursos petroleiros (cerca de 735%) se pode encher um tanque de gasolina com o preço de um ovo e um botijão de gás custa menos que um quilo de carne. Afirmar que é apenas a ação de um governo populista é simplismo político e não dar a devida importância à luta de classes, às lutas do povo.

Desprezando o nível alcançado pela luta de classes na Venezuela, em particular depois da derrota do locaute petroleiro, não se entende porque em janeiro de 2005, Chávez se declara socialista e, pela primeira vez, questiona “engodos capitalistas” na Constituição de 1999. Não havia “movimento socialista internacional” pressionando-o para isso. Toda a esquerda latino-americana havia abandonado o discurso socialista, inclusive a esquerda venezuelana chavista considerava-o inconveniente. Não havia um bloco de países socialistas onde fosse obrigado a buscar refúgio da pressão do império, como ocorreu no passado com governos de direita. Por que, no momento em que ninguém era socialista e os que o haviam sido evitavam lembrar-se, Chávez assume o socialismo como proposta? Só a luta de classes, a mobilização popular na Venezuela explica tal declaração, que trouxe novamente a ideia do socialismo ao discurso de muitos revolucionários na América Latina.

Outra coisa é a discussão sobre se o chavismo foi a direção ideal do processo revolucionário, se sua condução foi errada e se ele pode dirigir o país em direção à construção do socialismo. Inclusive a discussão de se é uma direção revolucionária, pequeno burguesa ou burguesa, como diz a LIT-QI. O que estamos falando é de que lado está cada um dentro do processo revolucionário aberto desde 1989. Uma coisa é o papel da direção, revolucionária ou não, e outra o do movimento de massas.

As revoluções não são uma estrada limpa que passa no meio de um gramado verde, bonito e aparado. Ela é mais bem representada por uma estrada sinuosa, mal pavimentada, às vezes à beira de precipícios, outras vezes debaixo d’água. As revoluções são um caos que reflete as forças telúricas da luta de classes e dos grupos que compõem as classes em luta. É um ser vivo que expressa erros, confusões, acertos, avanços e recuos. Porém, toda revolução traça uma linha bastante clara que define qual é o campo revolucionário e qual é o da contrarrevolução. Lamentavelmente, há muitos que se conformam com um discurso socialista caseiro, muito crítico, porém colocando-se do outro lado.

A luta política na Venezuela, deixa muito pouco espaço, polariza a política pressionando em direção ao chavismo ou em direção à MUD, porém isso não são desculpas para um revolucionário. Por mais necessário que seja atacar a direção equivocada de um processo revolucionário, não se pode estar do lado do inimigo e, muito menos, converter-se em seu porta-voz. Em Venezuela, aconteceu isso com a UST e a LIT-QI.

Faz pouco tempo se celebraram 100 anos da revolução bolchevique. Em muitos pontos do país comemorou-se o Outubro de 1917. Muito poucos se lembram da korniloviada neste ano de 1917. Quando os bolcheviques sofriam a perseguição do governo de Kerensky que havia surgido da revolução de fevereiro, o general Kornilov preparava um golpe fascista para esmagar não somente o governo de Kerensky, mas a revolução russa. Lenin e Trotsky, corretamente, com todas as diferenças com o governo kerenkista, assumiram sua defesa, derrotaram a korniloviada e ganharam a direção do movimento de massas que tornou possível a revolução de Outubro.

Se os bolcheviques houvessem questionado o governo de Kerensky, repetindo os argumentos de Kornilov, e se houvessem esperado para ver como triunfaria a korniloviada, nunca teria acontecido a revolução de Outubro. Esta última é a forma como atua a UST e a LIT-QI com a MUD e o governo chavista na Venezuela.

O que é a MUD

A MUD se apresenta como uma frente de partidos políticos opositores ao chavismo. Alguns analistas agregam que ela é uma “frente da direita”, e alguns mais atrevidos indicam “que ela representa os interesses da burguesia venezuelana e do imperialismo”. Porém a MUD não é uma frente comum de partidos políticos.

A MUD nasceu como “Coordenadora Democrática” no ano de 2002 – logo após a derrota do golpe de abril – como um órgão de coordenação e ação da frente burguesa, não somente dos partidos políticos, para tentar um novo assalto ao governo durante a sabotagem petroleira. A derrota da sabotagem petroleira, o triunfo de Chaves no referendo revogatório e o fracasso da política de se abster nas eleições parlamentares de 2005 – apostava numa campanha internacional de ilegitimidade (que não ocorreu) obrigaria o governo a repeti-las -, acabou por decretar o término da Coordenadora Democrática e recolocar a “frente antichavista”.

No ano de 2006, ano de eleição presidencial (dezembro), aumentaram as expropriações de terras e de fábricas. O campo adquire características violentas quando os camponeses enfrentaram os grupos armados de pistoleiros. Mais de trezentos morreram na luta pela terra. As expropriações de fábricas na cidade obedeceram a conflitos de trabalhadores onde os empresários responderam com o fechamento: “Empresa fechada, empresa ocupada” foi a palavra de ordem do movimento dos trabalhadores. Chaves anunciou o fim da concessão do canal de televisão RCTV, propriedade de um dos principais e tradicionais grupos econômicos do país.

Para a burguesia venezuelana, e em geral para toda a burguesia do continente, tratou-se de um problema de classe. A intensa campanha pela “Defesa da RCTV”, acompanhada por atos políticos e civis culminou com as primeiras guarimbas[6] e a criação da Mesa da Unidade Democrática, MUD, convocada pela própria burguesia, superando as “falhas de funcionamento da Coordenadora Democrática”. Desde o princípio não se tratou de uma frente eleitoral, mas de um organismo da burguesia para a ação política contra o governo. Com exceção de casos muito individuais, na MUD está representada a burguesia como classe e toda sua superestrutura.

A MUD tem uma estrutura executiva que inclui um presidente e vários vice-presidentes – quase nunca proveniente dos partidos políticos – e equipes de trabalho profissionais em diversas áreas. A frente de partidos políticos é apenas uma das áreas de trabalho, ainda que seja a que mais reflete a combatividade, a mais pública e a mais protagonista na mídia. Porém, a MUD é integrada por organizações patronais, os restos da burocracia sindical (CTV), as ONGs financiadas pela NED e a USAID que praticamente são as porta-vozes diretas do Departamento de Estado Norte Americano, a alta hierarquia da Igreja (núncio apostólico, arcebispo) os diretores e donos dos meios de comunicação (inclusive representantes do capital mexicano e de Miami), grupos lobistas financeiros venezuelanos de Miami vinculados ao FMI, ao Banco Mundial e empresas que calculam o risco país, as corporações, a associação bancária (incluindo representantes do capital espanhol) e “representantes da sociedade civil” que incluem os grupos de choque, alguns com treinamento paramilitar na Colômbia, Panamá e México. É um aparato político onde se dirimem as disputas internas da burguesia e se coordena a ação nacional e internacional contra o governo[7].

Independentemente dos discursos eleitoreiros demagógicos de alguns dirigentes, a MUD tem um programa público que não se limita a derrubar o governo chavista. Contém um plano de medidas “para a recuperação do país”, que contempla a desregulamentação das relações trabalhistas, a restituição das garantias econômicas dos bancos e do setor imobiliário, a separação do estado da atividade econômica produtiva, a devolução das terras e empresas expropriadas a seus legítimos donos, a privatização dos serviços públicos e da atividade petroleira, a redução dos gastos públicos, a privatização da educação e da saúde, etc.

Se a MUD pode se manter como órgão disciplinado da burguesia, apesar das crises internas, é porque está unida por um profundo terror à mobilização revolucionária do povo, pois já sentiu por três vezes perto da sua jugular, e teme o povo mais do que ao chavismo. Se a burguesia conseguisse se convencer que o chavismo pudesse servir de freio ao movimento popular isso seria uma outra situação, porém até o dia de hoje tem a convicção que, ao contrário, o movimento de massas poderá passar por cima do chavismo e acabar com ela.

Não é que a MUD não queira derrubar Maduro.  Ela deseja isso intensamente, como o desejou com Chávez. Se fez isso com mais força contra um ou contra outro, tem mais a ver com oportunidades e cálculos. Ainda que Maduro e Chávez demonstraram grande habilidade política para se esquivarem das dificuldades, foi a mobilização do povo que realmente derrotou a ação da burguesia. São as profundas forças da revolução que ainda permanecem desde 1989 apesar dos erros do chavismo.

O chavismo se equivoca quando diz que coexistem uma oposição democrática e outra terrorista na MUD. A burguesia venezuelana, apêndice do imperialismo norte-americano, coordena suas ações para a derrota da revolução venezuelana: sabotagem econômica, ataques à moeda nacional, bloqueio internacional político e econômico, campanha midiática, ações violentas dos guarimbeiros, ameaça militar externa e participação eleitoral. Não há nenhuma tática privilegiada, apenas oportunidades. Os porta-vozes da MUD podem se identificar com alguns tipos de ações mais que outras, porém a burguesia em seu conjunto usou todo o arsenal que lhe foi possível. Claro que há diferenças, porém, as divergências internas refletem as relações de forças dos distintos grupos da burguesia.

A derrota da guarimba e das eleições regionais, a tendência da mobilização popular e o que fazer nos próximos meses para impedir o fortalecimento do governo são as razões das divergências internas [da MUD], que se refletem nos meios nacionais e internacionais de comunicação. O maior medo é o movimento popular que viveu um refluxo temporário pelos efeitos da difícil situação econômica. A burguesia teme isso diariamente e, por isso, o seu ódio ao chavismo que não lhe dá garantias de que a mobilização do povo não impulsione o governo chavista e coloque a burguesia contra a parede como aconteceu na derrota da sabotagem petroleira de 2003.

 

Do lado da revolução ou do outro lado da rua?

Uma intelectualidade pequeno-burguesa (de esquerda ou de direita) que tem audiência na academia universitária, cafeterias ou bares, se incomoda com a polarização imposta pela realidade venezuelana e que sejam identificados com um ou outro grupo. Proclamam “independência”, “autonomia”, etc., quando o que querem realmente é a independência em relação ao movimento de massas. Reclamam do maniqueísmo e da polarização, mas terminam orbitando em torno da política de uma ou outra parte. Tentam criar um espaço “nem nem” (nem de um lado e nem do outro), mas sem uma base social para tal. É a crise existencial do centrismo.

Essa crise não é vivida pelos os que, a partir da direita, criticam que a MUD se “presta ao jogo eleitoral” e chamam abertamente à intervenção estrangeira. Tampouco vivem essa crise, os que desde o campo revolucionário criticam a inconsequência, o burocratismo, a corrupção e a direção errática do chavismo.

Em cada crise da direita surgem grupos centristas que duram pouco tempo. Mas outros, supostamente socialistas, pequeno-burgueses que se incomodam com a “marginalia chavista” ou antigos ativistas que por diversas razões – muitas delas válidas – se enfrentaram com o chavismo, terminam oscilando para um centrismo, e nos momentos de crise terminam ao lado do inimigo, ou como meros observadores da revolução.

Durante o golpe de 2002, no locaute petroleiro e agora, no meio da guerra das “guarimbas”, alheios ao movimento de massas, sentiram-se pressionados pela campanha midiática e acreditaram realmente que seria o fim do chavismo. Não ficaram do lado da MUD já que seu centrismo não o permite, mas se colocam nas arquibancadas do estádio para ver a inevitável “queda do chavismo, produto dos seus erros”. Alguns, mais ousados, se proclamaram a si mesmos os “verdadeiros chavistas” – às vezes sem nenhuma razão que avalize tal denominação – esperando, como aves de rapina, desfrutar o cadáver do vencido.

Não perceberam o que os sintomas indicavam e que o vento soprava em outra direção, sendo surpreendidos pelos acontecimentos. Incapazes de um discurso próprio, os que entenderam ser uma “rebelião popular” a ofensiva “guarimbeira” da MUD, não compreenderam igualmente os resultados eleitorais e terminaram como bonecos de “ventríloquos”, repetindo sem nenhum pudor o discurso da direita, às vezes com mais convicção e dureza que a própria MUD. Epítetos de “fraude”, “processo fraudulento”, “ditadura”, “governo ilegítimo”, substituem os conceitos políticos, para fazer coro com a direita, sem fazer nenhuma análise séria de suas afirmações. Assim é o artigo assinado pela UST publicado pela LIT-QI. Não se trata de que tenham diferenças com o chavismo. Seria compreensível. Se trata de que estão do lado da MUD, olhando da calçada o confronto do processo revolucionário aberto desde 1989.

O resultado visível das eleições de 15 de outubro foi a polarização entre o Polo Patriótico[8] e a MUD. Ambos juntos somaram cerca de 96% de votos, e em alguns dos Estados, alcançaram 99%[9]. Em nenhum Estado da federação, outro candidato ou grupo, alcançou uma votação superior a 1%. O tão propalado crescimento de um provável centro político, supostas correntes da dissidência chavista, não ocorreram. O suposto crescimento da abstenção associada à suposta queda do chavismo também foi um fiasco. A participação (61%) foi a mais alta em trinta anos de eleições regionais (escolha de governador e prefeitos).

O moderno e automatizado sistema de votação venezuelano permite inclusive a análise geográfica e social do comportamento eleitoral. A abstenção subiu de maneira significativa apenas nos setores de classe média de Caracas (Miranda), Maracay (Aragua), Valência (Carabobo) y Barquisimeto (Lara), precisamente em todas as áreas onde ocorreram as “guarimba” do início do ano e onde ganhou o chavismo. Nos bairros operários e populares somente subiu a abstenção em Táchira, Zulia e Anzoátegui, três estados em que ganhou a MUD.

Os resultados já eram previsíveis antes de as eleições, apesar da subida dos preços dos produtos alimentícios – mais de 50% em alguns casos – na mesma semana das eleições gerando descontentamento que se chegou a pensar que favoreceria a abstenção. Uma prova da previsibilidade dos resultados é que de quase 2 mil jornalistas de agências internacionais que estavam na Venezuela cobrindo as notícias das guarimbas, cerca de 80% abandonou o país nas semanas antes das eleições. Algumas agências de notícias, que inclusive realizaram reportagens com imagens e notícias diárias das guarimbas, em especial as espanholas, deixaram de publicar notícias sobre a Venezuela desde o princípio de outubro.

Em todos os processos eleitorais desde 2004, fosse qual fosse a perspectiva eleitoral, a cartilha da MUD, concebida para a imprensa internacional, nunca variou. Até o dia da votação, pesquisas e os meios de comunicação, se dedicavam a vaticinar as inevitáveis derrotas do chavismo[10]. Desde a noite anterior das eleições, conclamavam o povo a não terem medo e a sair a votar contra o chavismo, que o governo desejava a abstenção, etc., etc., papel que corresponde ao catecismo dos meios de comunicação[11].

Durante o processo de votação, a grande mídia coleta denúncias de pressões e manipulações do chavismo “que já saberia que seria derrotado”. Imediatamente depois do fechamento das urnas, já dizem que os resultados garantem uma esmagadora vitória da oposição. No momento do anúncio dos resultados pelo Conselho Nacional Eleitoral, ocorre uma entrevista coletiva denunciando a fraude, anunciando que nas próximas horas irão apresentar as provas irrefutáveis da fraude, mas isso nunca ocorre.

Quando se esgota o tema da fraude e não aparece nenhuma prova, passam à quarta fase: o processo é fraudulento e denunciam as supostas manipulações e mecanismos antidemocráticos do processo eleitoral e, para tal, há sempre o mesmo repertorio previsto. A quinta fase corresponde ao não reconhecimento dos organismos e governos que passam a desconhecer, baseados nas “inúmeras denúncias”, as autoridades surgidas de “um processo eleitoral fraudulento”. Os venezuelanos, inclusive os seguidores da MUD, estão acostumados à cartilha, mas sempre há os desprevenidos como a UST que terminam sendo os tolos úteis da conhecida cartilha.

As denúncias da MUD e da UST

A MUD passou para a quinta fase de sua cartilha. O artigo da UST ainda se localiza na fase anterior. A fase da denúncia de fraude se esgotou muito rapidamente porque a crise interna da MUD começou a gerar polêmicas públicas. A respeito, um dos porta-vozes públicos da MUD, Ochoa Antich, presente na coletiva de imprensa da denúncia de fraude, publicou nas redes sociais, dois dias depois: “Não houve fraude, ainda que o processo seja fraudulento. Já não podemos falar de fraude porque não pode ocorrer um processo eleitoral auditado 14 vezes, nem que nossos técnicos fossem imbecis. Manter a denúncia de fraude nos compromete a demonstrá-la e existe plena consistência entre os resultados publicados e as atas que temos em nosso poder“.

A denúncia de processo fraudulento é apontada para assinalar que as pessoas não puderam expressar sua vontade por mecanismos antidemocráticos, vantagens indevidas e manipulações do regime ditatorial. Já não dizem mais que a votação foi alterada, mas poucos entendem a diferença semântica entre fraude e processo fraudulento. Há anos, o chavismo tem uma política de não responder. Em geral, o CNE ordena uma auditoria geral do processo como única resposta. Mas, já que a UST assumiu como suas as acusações da MUD, é necessário responder:

  • Partidos políticos foram ilegalizados antes das eleições. Falso. As normas eleitorais vigentes desde 1960 estabelecem que um partido regional ou nacional legal deve obter um mínimo de votação de 2%. Se não o conseguir, deve solicitar novamente sua legalização. Vários partidos ficaram de fora da legalidade nas eleições parlamentares de dezembro de 2015. Isso afetou os partidos do Polo Patriótico (salvo o PSUV), incluindo o PPT e o PCV[12], vários da MUD e muitos pequenos grupos regionais. A maioria conseguiu cumprir as exigências no ano passado, mas alguns da MUD não. A situação desses partidos da MUD é o que reclama a UST.
  • A MUD foi ilegalizada em sete estados. A MUD não é um partido, mas uma frente de partidos e, da mesma forma que o Polo Patriótico, não tem personalidade jurídica própria, mas “se apropria” da dos partidos que a constituem. Em 2016, decidiram legalizar a MUD para convertê-la no organismo impulsionador da solicitação de um referendo revogatório e organizaram uma coleta de assinaturas em nível nacional[13], mas houve denúncias de falsificação de assinaturas ou da utilização de pessoas falecidas. Pessoas afetadas ou familiares de falecidos apresentaram denúncias nos tribunais que anularam a legalização em sete estados. Isso ocorreu em outubro de 2016. Afetou a legalidade da MUD, não a dos partidos que a integram, não teve relação com essas eleições como diz a LIT-QI. Posteriormente, a MUD abandonou o processo de referendo revogatório seguindo instruções do governo dos EUA e deixou de lado o tema da legalização até agora.
  • As eleições regionais deveriam ter sido realizadas em 2016. E também é correto que o chavismo não tinha certeza naquele momento sobre os resultados, mas não foram suspensas unilateralmente pelo chavismo, como deixa entrever a denúncia. Em junho de 2016, a MUD estava centrada no referendo revogatório e o possível cronograma se sobrepunha ao das eleições para governador fixadas para dezembro. Na mesa de negociações[14], a MUD solicitou a suspensão das eleições para governador e o chavismo aceitou com muito prazer. Em seu balanço, Ochoa Antich assinalou para a MUD: “… se tivéssemos solicitado as eleições regionais em dezembro e tivéssemos escolhido os candidatos a tempo, os resultados teriam sido outros…”. Foi um erro de cálculo da MUD, que foi aproveitada pelo chavismo, mas não ilegal como diz a UST.
  • Prenderam e inabilitaram prefeitos que poderiam ter sido candidatos a governadores. É certo que alguns prefeitos foram processados por darem apoio logístico a partir da prefeitura à guarimba em seu município e não dar proteção aos habitantes. Mesmo que estejam ou tenham sido detidos, nenhum está inabilitado. Por não cumprir as normas de prestação de contas à Controladoria, existem governadores, prefeitos e outros funcionários detidos e/ou inabilitados. O caso mais famoso é o do prefeito de Caroní, na Guiana, chavista e candidato certo a governador pelo PSUV, onde certamente a votação será mais apertada. A regra foi aplicada por igual a chavistas e opositores, ainda que os últimos casos foram no ano passado e não às vésperas das eleições. Como a UST não menciona o caso de Caroní, supõe-se então que reclama dos casos que atingiram a MUD.
  • A convocatória para as eleições foi imprevista. No Primeiro de Maio, na manifestação dos trabalhadores, Maduro convocou as eleições da ANC. Anunciou que, instalada a ANC, solicitaria a fixação imediata da data para as eleições de governadores. Um mês antes, haviam iniciado a guarimba e o objetivo era a saída de Maduro. Poucos analistas acreditavam que Maduro chegaria a julho, que a ANC seria eleita e que seriam convocadas eleições para prefeitos. O imprevisto não foi a convocatória, porque foi feita desde maio, senão que ela foi cumprida. A UST passa por alto disso.
  • Foi proibida a substituição de candidatos. Falso e foi tema mais agitado pela MUD. Revisando os diários oficiais eleitorais deste processo, encontram-se 179 substituições, inclusive em partidos da MUD. O que é correto é que o processo eleitoral foi convocado pela ANC em 75 dias (15 de outubro) e como a norma eleitoral indica que as substituições devem ser feitas 60 dias antes das eleições, o prazo terminou quase ao começo do processo.

Mas o problema real vai mais além. Instalada a ANC, que significou a derrota da guarimba, explodiu a crise da MUD. Nos três dias seguintes à convocatória de eleições, enquanto alguns a rechaçavam, 214 candidatos de partidos da MUD se inscreviam, inclusive fogosos incendiários guarimbeiros como Guanipa, candidato de Primero Justicia, em Zulia. Quando foi encerrado o processo de substituições, a MUD nem sequer havia decidido que participaria, já que o Departamento de Estado dos EUA não tinha aprovado isso e vários rechaçaram participar das eleições convocadas pela ANC, entre eles Vente Venezuela e Voluntad Popular, que, junto com Primero Justicia e Acción Democrática, são os quatro principais partidos da MUD.

Apenas em 17 de setembro, a 28 dias das eleições, os partidos da MUD convocaram primárias para decidir os candidatos e em alguns estados tardaram uma semana mais, devido a choques internos. A MUD aspirava a uma prorrogação que foi negada pelo CNE, mas nem sequer a MUD indicou que isso tenha afetado os resultados. Realmente, mais do que manipulação do chavismo, foram as contradições da MUD, mas somente ela foi afetada, e é disso que reclama a UST.

  • Foram modificados os centros eleitorais. Uma conquista do processo atual é a distribuição geográfica equitativa dos centros de votação. Antes de 2004, as pessoas eram localizadas em qualquer centro. Os habitantes dos bairros deviam transladar-se a centros muito longínquos, onde se formavam grandes filas, pois tinham até vinte mil votantes. Em doze anos, multiplicaram-se os centros de votação, fazendo com que as pessoas votassem mais perto de sua residência e cada mesa tivesse poucos votantes – de 300 a 400 – o que agiliza o centro de votação e a contagem.

Durante a guarimba, para impedir a eleição da ANC, cerca de duzentos centros foram atacados e destruídos. Em outros centros localizados em edificações ou colégios privados a instalação foi sabotada. Esses centros foram mudados e levados para bairros em que a comunidade garantia o seu funcionamento. Outros foram eliminados e as pessoas a eles designadas foram distribuídas para outros centros. Isso ocorreu em julho e desde então as modificações e mudanças foram publicadas. Além disso, mediante uma mensagem telefônica de texto, todo venezuelano/a recebe a localização de seu centro eleitoral. Se alguns votantes se inteiraram no próprio dia não foi por não terem sido avisados, mas porque acreditavam que os centros voltariam ao lugar original.

Algumas pessoas de classe média ficaram incomodadas com ter que entrar em um bairro pobre para votar e é verdade que em alguns bairros grupos de jovens zombavam deles e gritavam contra os desconhecidos. Alguns meios de comunicação disseram que alguns votantes tinham sido assaltados e os mais escandalosos informaram que grupos de “coletivos”[15] armados atacavam as pessoas. Não é verdade que tenham sido afetados mais de 700 mil votantes. Não chegaram a 300 mil sobre 18 milhões – menos de 2%. Onde houve mais centros atingidos foi em Táchira, estado em que a MUD ganhou. Ao revisar-se os centros eleitorais mudados, a sua abstenção foi equivalente à de outros centros que não foram mudados, de forma que não afetaram o resultado em nenhum caso.

A respeito disso, um colunista assinalava: “se oito milhões de pessoas passaram por cima de barricadas, atravessaram quebradas, dormiram fora de suas casas para votar nas eleições para a ANC e fizeram filas em meio ao ruído de tiroteios, como vamos dizer que perdemos porque alguns poucos milhares não foram votar por medo que o centro estivesse em um bairro…”.  Por outro lado, nenhum centro de votação dos bairros operários e populares foi atingido, assim que é estranho que a UST se desespere por isso.

  • Uso abusivo dos recursos do Estado pelo chavismo. Muito correto. O chavismo usa recursos, veículos e logística dos organismos públicos para apoiar a campanha do Polo Patriótico em todas as eleições. Também se apoia nos recursos, na infraestrutura e na capacidade de mobilização das organizações sindicais, Conselhos Comunais, organizações estudantis e sociais, e na rede de emissoras comunitárias. Desde 2004, em cada bairro popular, quando há eleições, toca uma Diana[16] a partir das cinco da manhã para que as pessoas se levantem cedo para votar.

A MUD utiliza os recursos, veículos e a logística dos governos estaduais e prefeituras em seu poder. Apoia-se no financiamento estrangeiro e da empresa privada. Usa a infraestrutura da Igreja e os meios de comunicação se alinham para a campanha. No México, em Bogotá e em Madrid existem centros dedicados a bombardear as redes sociais, os telefones e computadores com propaganda eleitoral. Nestas últimas eleições, a CAVIDEA – Câmara Venezuelana de Indústrias de Alimentos – indicou aos distribuidores que aumentassem os preços dos alimentos em pelo menos 40%.

É verdade que, nas eleições venezuelanas, ainda que existam limites legais, ninguém os respeita. É uma briga de foice. A UST se preocupa com o que faça o chavismo, não com o que faça a MUD, que afete o caráter supostamente “imaculado” do jogo democrático eleitoral.

  • Amedrontamento dos fiscais. Esta é uma denúncia reiterada que se baseia em informações nunca demonstradas. São mais de quatorze mil mesas de votação e é certo que alguns fiscais da MUD têm que estar em centros de bairros onde mais de 90% da votação é chavista, e as eleições são uma festa que envolve o bairro, onde se ridicularizam os opositores, mas não se registrou nenhum incidente sério. Pode-se verificar que a MUD recebeu a cópia das atas na totalidade das mesas, o que indica a presença do/a fiscal.

Como se indicou anteriormente, essas denúncias formam parte da fase de denúncia de processo fraudulento. Há outras que são agregadas pela UST e que formam parte da fase de ilegitimidade do processo que serão vistas adiante.  Mas para desmontar a fraude ou o processo fraudulento, seria chave responder a esta pergunta: Como é possível, em um país onde existe um altíssimo rechaço ao governo e que apenas semanas atrás estava encurralado por uma “rebelião popular”, que seja realizada uma fraude e que não haja sequer uma só manifestação de protesto?

A revolução volta a derrotar a MUD

Depois de todo processo eleitoral surgem especialistas, numerólogos, estatísticos e até astrólogos, que tentam com manipulações matemáticas explicar porque não ganhou quem devia ganhar e porque ganhou quem realmente não ganhou. Nos meios de comunicação têm aparecido especialistas da MUD com esses “tecnicismos eleitorais” a que o artigo da UST recorre.

Sobre a participação eleitoral, já se mencionou que a mesma foi de 61%, a mais alta em 30 anos de eleições regionais[17], jogando por terra as previsões dos especialistas. A direita, pela boca do arcebispo, disse que o governo promovia a abstenção para evitar sua derrota. Mas não foi assim, já que a participação subiu e, além disso, o chavismo ganhou.

Para explicar tal contrassenso, comparam o resultado com as eleições parlamentares de 2015, apesar de serem processos distintos e com características distintas, onde a abstenção sempre é mais baixa que as eleições regionais e mais alta que as presidenciais.

Nestas eleições regionais, o chavismo conseguiu 5,8 milhões de votos e a MUD 4,9 milhões, com uma abstenção de 39%. Nas últimas eleições parlamentares realizadas em dezembro de 2015, o chavismo obteve 5,6 milhões de votos e a MUD 7,7 milhões, com uma abstenção de 26%. Efetivamente a participação caiu 13 pontos percentuais como indica a MUD, mas vejamos em relação às eleições regionais e parlamentares anteriores.

Nas últimas eleições para prefeito realizadas em dezembro de 2013, o chavismo obteve 5,2 milhões de votos e a MUD 4,3 milhões, com 42% de abstenção. Antes, em dezembro de 2012, houve eleições para governadores, sendo que o chavismo obteve 4,9 milhões de votos e a MUD 3.9 milhões, com 46% de abstenção. Nas eleições parlamentares de dezembro de 2010, o chavismo obteve 5,4 milhões de votos e a MUD 5,3 milhões, com 41% de abstenção. Lançados num gráfico, pode-se perceber que a votação de dezembro de 2015 não foi uma tendência, mas um pico excepcional. A constante tem sido uma votação do chavismo entre cinco e seis milhões de votos, a MUD atrás, e uma abstenção entre 39% e 46%. Em dezembro de 2015, a abstenção caiu 26% e a MUD alcançou uma votação de 7,7 milhões. Da mesma forma que o chavismo evita referir-se aos resultados dessa eleição, a MUD só se refere a eles tentando converter esse momento numa tendência.

Como não se trata de números senão de realidade política, faz-se necessário analisar o porquê desses resultados. No ano de 2014, houve uma investida forte da guarimba que teve como objetivo atacar os centros de distribuição de alimentos – ainda não existiam os CLAP. Combinado com o recrudescimento do ataque à moeda pelo dolartoday[18], o desabastecimento levou ao esvaziamento das prateleiras. O controle de preços por parte do governo se converteu numa ferramenta inútil, já que toda vez que os produtos desapareciam dos circuitos regulares de distribuição tinha-se que buscá-los no mercado negro. A venda de produtos pelos canais públicos gerava enormes filas, muitas vezes de revendedores que levavam o produto ao mercado negro. Quase todas as políticas do governo para enfrentar a crise eram erráticas e espasmódicas.

A campanha midiática da MUD se centrou em fazer com que as pessoas acreditassem que derrotando o chavismo apareceria a comida.  Com isso a preocupação pelo desabastecimento começou a superar a dos preços. “Será a última fila” dizia a campanha televisiva referindo-se a que a fila para votar na oposição nos centros de votação acabaria com as filas por comida.

As pessoas responsabilizavam o governo, mas também sabiam que os responsáveis são os patrões e os comerciantes que estão ao lado da MUD e não do governo. É muito difícil um trabalhador não se dar conta que o patrão que o explora no trabalho e o comerciante que o rouba nos preços são os que falam mal do governo e fazem propaganda a favor da MUD. Ainda que seja por instinto de classe ele sabe onde está o inimigo. Entretanto, naquela ocasião, um vasto setor da população que normalmente não participa nos processos eleitorais e que são a retaguarda da atividade política foi votar na MUD. Uma estranha lógica o levou a pensar que se votasse nos que escondiam a comida, esta apareceria e que o governo não tinha como acabar com o desabastecimento.

Neste momento passou-se a dizer que o chavismo havia perdido votos para a MUD. Entretanto, análises posteriores demonstraram que ainda que isso tenha ocorrido, não foi significativo. Embora o chavismo tenha alimentado a abstenção em alguns lugares, a votação da MUD veio muito mais da tradicional abstenção.

Nesse momento apareceram aqueles que baseados somente nestes resultados eleitorais, viram neles o fim do chavismo e logo correram para mudar de arquibancada querendo ficar do lado do time vencedor. Mas os analistas da MUD, sobretudo as ONGs financiadas e vinculadas ao império, sabiam que se tratava de um momento e não necessariamente de uma tendência. Se o império acreditasse na teoria de que seria uma tendência eleitoral teria pressionado para que se manifestasse eleitoralmente. Entretanto, apostando em aproveitar uma oportunidade que poderia não se repetir, passou a deslocar todas as forças no choque direto com o governo chavista. Não só não se acabou com a guerra econômica, senão que ela recrudesceu agregando-se situações como a desaparição do dinheiro[19]. O ataque econômico se intensificou a tal nível que colocou em risco até mesmo a sobrevivência de muitos grupos econômicos que a apoiavam. O papel da OEA e dos governos da região para alimentar a crise passou a ser descarado.

O parlamento nas mãos da MUD aprovou leis com a intenção de desmantelar os programas sociais do governo[20], ainda que soubesse que seu funcionamento estava questionado pela designação ilegal de deputados para obter a maioria de dois terços[21].  A três meses das eleições, a MUD debatia se a via para a saída de Maduro era eleitoral, através de sua inabilitação pela Assembleia Nacional (referendo revogatório), ou pela exigência de sua renuncia (guarimba). Depois de três meses de discussão acordaram aplicar todas as vias simultaneamente. O próprio presidente do parlamento, Ramos Allup, deu o prazo de 6 meses para que o governo se retirasse de Miraflores.

Fracassado o referendo e também a decisão de “destituição política” do governo aprovada pela Assembleia Nacional sem que a mesma estivesse normatizada na Constituição, lançaram-se à guarimba. Mas já nesse momento, salvo idiotas desprevenidos, a MUD sabia que não contava com a votação de 2015. Por isso, evitou participar das eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. O domínio da ANC teria proporcionado à MUD a destituição imediata do presidente e convocação de eleições nacionais. Com um proclamado apoio de 90% da população, ou ao menos a repetição da votação das eleições parlamentares, teria sido impossível perder a ANC. Mas se sabia que isso era falso. Por isso recorreu a deslegitimar a ANC e, mais ainda, a impedir pela via violenta a realização das eleições.

Era evidente que inclusive no momento de maior violência, as guarimbas não haviam conseguido incorporar nem um só bairro operário e popular. No último dia das guarimbas, deram-se conta que dentre os 8 milhões de votantes na ANC, uma parte importante – pelo menos um milhão indicam os analistas mais conservadores –  foram eleitores da direita que votaram para que as mesmas tivessem um fim.

Precisamente a isso se refere o principal dirigente da MUD, Ramos Allup, citado no artigo da UST, quando aponta que “desapareceram” 3 milhões de votos da MUD entre 2015 e agora.  Não se trata de uma acusação ao chavismo, senão diretamente à MUD, cuja crise interna se agudiza, com acusações da direção ter dilapidado o capital político alcançado em 2015. Hoje, a crise da MUD relaciona-se com o fato de que tem que decidir se a oportunidade alcançada em 2015 já se fechou e se deve voltar a começar de novo, ou se ainda existe espaço para continuar a aventura insurrecional que lhes brindou o triunfo eleitoral de 2015.

O chavismo se fortaleceu?

Outra das manipulações numéricas estão direcionadas para determinar se o chavismo saiu fortalecido. O artigo da UST tomou literalmente um balanço da MUD que indica que o “chavismo não se fortaleceu como diz o castrochavismo internacional” (usam inclusive o mesmo termo da burguesia). O texto indica que “observa-se que chavismo descende de 5,7 milhões de votos aproximadamente a 5,561 milhões de votos, uma perda de mais de cem mil votos”.

Esse argumento numérico logo veio abaixo por seu próprio peso, já que esses dados correspondiam aos escrutínios sem incorporar o estado de Bolívar, onde a pequena diferença obrigou a esperar o resultado até que se contasse o último voto. Os números finais dão ao chavismo 5.814.903 votos. Em 2015, nas eleições parlamentares, obteve 5.559.025 votos, isto é, para estas eleições regionais o chavismo não caiu 100 mil votos, senão que aumentou 215 mil votos.

Mas não se trata de números finais. A manipulação consistiu em “esquecer” que as eleições regionais não incluem o Distrito Federal – a segunda circunscrição eleitoral do país, mas que não elege governador – que nas eleições parlamentares deu ao chavismo meio milhão de votos que não foram contados dessa vez. Quer dizer, o chavismo incrementou sua votação em mais de 700 mil votos.

Entretanto, uma análise dos números não é suficiente. Em termos estritos, partindo da realidade prévia, ainda que o chavismo triunfasse em três estados onde a MUD governava, ele perdeu em cinco estados onde governava.  A MUD passou de três para cinco estados governados por ela.

O chavismo tirou a MUD do principal estado do país, Miranda, que junto com o Distrito Federal constituem a cidade de Caracas, e foi o centro mediático da guarimba. Governada até então por Capriles Radonsky, que por duas vezes foi candidato a presidente – uma contra Chávez e outra contra Maduro -, essa derrota representou um duro golpe para a estratégia da MUD. Mas a MUD conseguiu ganhar em três estados – Zulia, Táchira e Mérida – limítrofes entre si e com a Colômbia, que juntas constituem toda uma região, formando uma vasta zona fronteiriça, cuja área tem sido centro de operações do contrabando e paramilitarismo, e está na zona de influência das bases militares gringas em território colombiano o que pode, a partir de uma estratégia secessionista, ser utilizada como Benghazi na Líbia.

Os resultados eleitorais provocaram uma mudança nas relações internas dos partidos da MUD e a crise se agudiza, apesar das tentativas da burguesia e do império de disciplinar os conflitos internos. Com o controle do estado de Miranda, a direção partidária da MUD girava em torno de Primero Justicia (Capriles), mas como dos cinco governos ganhos pela oposição, quatro são da AD (Ramos Allup), esta desejará fazer valer sua nova importância internamente à MUD.  Portanto, o fortalecimento ou não do chavismo será mais produto da realidade e das batalhas que estão por vir.

A posição da MUD de que seus governadores não tomariam a posse ante a ANC, agravou sua crise.  Antes das eleições vários representantes da MUD, incluindo Ramos Allup, haviam dito que não tomariam posse ante a ANC porque esta não era legítima[22]. Argumento estúpido, já que as eleições foram convocadas pela ANC. Em meio à raiva provocada pela derrota eleitoral, reiteraram que os governadores eleitos não tomariam posse ante a ANC. Esta aceitou o desafio e aprovou uma resolução em que os governadores que não tomassem posse ante a ANC não poderiam assumir seu cargo.

A recomendação da OEA foi que os governadores tomassem posse ante Luís Almagro, secretário geral da OEA, e assumissem a sede do governo em Miami, onde já existe um Tribunal Superior de Justiça (TSJ) paralelo. Os governadores da AD, pragmáticos, não consideraram viável essa proposta e, antes que a MUD a avaliasse, se apresentaram ante a ANC, tomando posse e assumindo seus respectivos governos.

O governador de Zulia, Guanipa, de Primero Justicia, se manteve rebelde e foi declarado o abandono de seu cargo. A ANC decidiu convocar novamente as eleições de governador em Zulia junto com as eleições para prefeito em dezembro próximo.  O enfrentamento e os insultos entre os dirigentes da MUD têm ocupado as páginas da imprensa nacional e internacional. O que parece certo é que, ao menos eleitoralmente, o chavismo saiu fortalecido das eleições e, possivelmente, qualquer que seja a decisão da MUD sobre participar ou não das eleições municipais, terminará explodindo a frente partidária, apesar dos desesperados esforços da burguesia.

A UST- LIT(QI), para avaliarem as perspectivas, deveriam se perguntar, à margem do que diz a MUD: Como em meio à pior crise econômica já vivida na Venezuela a partir da agudização do desabastecimento e em plenas eleições, quando a situação econômica praticamente pulverizou as conquistas sociais e, passados quatro meses de “rebelião popular”, o chavismo conseguiu obter 54% dos votos?

Depois do “Caracazo”, a AD não conseguiu ganhar nenhuma eleição nacional. Passados 29 anos, por que o chavismo consegue ganhar depois de dois meses de uma “rebelião popular”? Por que o chavismo consegue incrementar a votação em relação a 2015 nos bairros pobres e de trabalhadores, sendo estes os setores que mais sofrem com a situação econômica? Porque nas cidades onde a MUD conseguiu consolidar uma alta votação, a diferença a favor do chavismo foi dada pelos bairros operários e populares? Em Bolívar, onde as votações foram muito apertadas, por que a votação a favor do chavismo foi dada por San Félix, bairro onde se concentram as indústrias siderúrgicas?

Guarimba ou rebelião popular?

A grande fraude da qual a UST-LIT (QI) acabou sendo vítima é a de caracterizar que a guarimba de 114 dias entre março e julho deste ano se tratou de uma “rebelião popular”. O tema de insurreições, rebeliões e lutas nas ruas, forma parte do DNA da política venezuelana nestes anos.

Um jornalista italiano que veio fazer a cobertura da “guarimba” se perguntava, lendo materiais sobre o golpe de 2002, como era possível que um povo que em 48 horas derrotou um golpe militar que contava com o apoio dos meios de comunicação, do governo norte americano e dos governos europeus, não pode em 100 dias derrubar o governo de Maduro o qual “ninguém o apoiava”. Concluía “não parece o mesmo povo”.

O problema não é somente que o povo não é o mesmo, mas que os fatos ocorridos entre março e julho não são equivalentes ao “Caracazo” ou à derrota do golpe de estado e à sabotagem petroleira. Pelo contrário, são diametralmente opostos. A direção, os objetivos, a composição social dos manifestantes, a localização social dos protestos, não deixam lugar a dúvidas. Se alguma coisa parecida houve na história recente foi a sabotagem petroleira derrotada pelo povo venezuelano em janeiro de 2003.

A guarimba foi uma ferramenta da MUD aplicada nos anos 2006, 2009, 2013, 2014 e neste ano. É verdade que nesta última houve apoio tecnológico, de armamento e de recursos muito superiores às anteriores, porém isso somente influiu nos métodos e na força, politicamente são as mesmas. A grande diferença com a sabotagem petroleira de 2003 é que o chavismo impediu por todos os meios possíveis que o povo enfrentasse as guarimbas. O argumento de que gerar enfrentamentos violentos entre a população e a guarimba provocaria um caos interno de tal magnitude que justificaria uma intervenção estrangeira ecoou na população. Contudo, nesta ocasião houve pontualmente bairros que saíram a enfrentar a guarimba e conseguiram expulsá-la da região.

Alguns argumentam que, ainda que a guarimba seja dirigida e controlada pela MUD, também se trata do povo. Isso é certo pois a MUD contou, desde 2001, com amplo apoio de setores da classe média que cresceu à sombra da renda petroleira. Inclusive setores lumpens da população estiveram decididamente participando das guarimbas e propiciando assaltos a centros públicos de distribuição de alimentos e remédios para seu próprio benefício.

No golpe de 2002, setores de trabalhadores levados pelas empresas ou pela burocracia sindical acompanharam a marcha que serviu de cobertura ao golpe militar. No começo da sabotagem petroleira os trabalhadores acompanharam os seus gerentes nos protestos. Esse fenômeno de setores da população apoiando o fascismo existiu na Europa de Hitler, Mussolini e Franco. Também se pode recordar, no Chile, as manifestações da classe média e grupos de estudantes contra o governo de Allende nos dias prévios ao golpe de Pinochet.

Nas guarimbas do princípio deste ano não há nenhuma dúvida que havia trabalhadores, mas não a classe trabalhadora: também havia pessoas dos bairros, porém os bairros não estavam na guarimba. De manhã era possível vê-los, às vezes nos transportes públicos, dirigindo-se para o leste da cidade com suas equipes de guarimbeiros[23]. Não criavam guarimbas em suas fábricas, nem em seus bairros, pois iam para o leste, para as zonas das classes médias, onde ocorria a guarimba. A conformação da guarimba foi de classe média e se desenvolveu nas zonas residenciais da classe média e não nos bairros ou zonas industriais. Como uma rebelião popular se desenvolve exclusivamente nas regiões de classe média e alta e não consegue a participação massiva em nenhum bairro operário e popular?

Ainda assim, a difícil situação econômica poderia ser a base de uma rebelião popular, ainda que fosse somente na classe média. Então caberia perguntar: por que uma rebelião popular contra a fome destrói dezenas de centros de distribuição de alimentos públicos e, diferentemente do “Caracazo”, não toca em nenhum McDonald, nem em nenhum centro de comida ou restaurante privado? Como uma rebelião popular ataca e destrói mais de 300 unidades de transporte gratuito e instalações do Metrô e, diferentemente do “Caracazo”, não toca em nenhum transporte privado, que aumentou seus preços em 500% somente neste ano? Como uma rebelião popular consegue destruir e, em um ataque coordenado, fazer desaparecer todos os centros de distribuição gratuita de medicamentos e não é afetada nenhuma farmácia ou lojas das redes privadas de medicamentos? Como é possível, em uma rebelião popular, conseguir esta precisão cirúrgica de destruir coisas públicas e respeitar as coisas privadas, o que não foi possível no “Caracazo”? O grupo Polar, principal grupo econômico e proprietário da maior rede de produção de alimentos, cujo dono não oculta sua aspiração a ser Presidente, em uma semana do “Caracazo” perdeu setenta caminhões e catorze centros de distribuição somente em Caracas e em 114 dias de guarimba em todo o país não perdeu um só caminhão. Como uma rebelião popular espontânea foi paralisada por dois dias enquanto a MUD decidia se participava ou não das eleições da Assembleia Nacional Constituinte, e dois dias depois para novamente para que a MUD fizesse um plebiscito e, em seguida, na mesma noite, essa rebelião acabou quando foi anunciado o resultado da Constituinte?

Inclusive o tema da violência que gerou mais de uma centena de mortos teve um alto conteúdo de classe. Menos da quinta parte desse total foram pessoas vinculadas à guarimba ou aos enfrentamentos. A maioria, pelo contrário, foram vítimas das ações das guarimbas. Metralhar os bairros, em particular, as casas da Misión Vivienda[24], colocar cabos de aço atravessando as ruas contra os trabalhadores que usavam motos, usar pregos, bombas e barricadas contra os veículos que transitavam pelas ruas, e disparar com franco-atiradores contra as pessoas que retiravam os obstáculos das ruas, tais foram as causas de mais de 60% dos mortos – mais de 100 – e não os enfrentamentos entre os policiais e os guarimbeiros. Inclusive houve o linchamento de uma dezena de pessoas, todos trabalhadores, que, devido à paralisação dos transportes, regressavam do seu trabalho caminhando e ficavam presos numa zona de controle das guarimbas e foram acusados de chavistas somente por serem pobres, de pele escura e evidentemente não pertencer àquela região.

A guarimba, a princípio, teve por objetivo gerar o caos interno no marco da discussão na OEA sobre a aplicação da Carta Democrática. Isto teve data fixada para o seu início e, inclusive, um dia antes o ex-presidente da Costa Rica, Oscar Arias, disse que esperava que “a situação dos próximos dias da Venezuela comoverá a comunidade internacional”.   É estranho que uma rebelião popular ‘espontânea’ seja anunciada por este tipo de personagem.

Tudo levava a crer que o que se esperava era que as pessoas dos bairros, em meio à difícil situação, apoiassem os saques ou que ficassem irritadas e partissem para os enfrentamentos de rua. Os ataques aos centros de saúde, os assaltos aos caminhões que transportavam alimentos aos bairros e os primeiros mortos[25] parecia que tinham por objetivo excitar a população para que adotasse a via de enfrentamentos e caos interno. Contudo, depois da convocatória às eleições da Assembleia Nacional Constituinte, o objetivo das guarimbas passou a ser de impedir que estas se realizassem. Quiseram infundir o terror na população para que esta não saísse às ruas, realizando o que chamavam de “trancazos”, onde ameaçavam os que se “atrevessem a circular pelas ruas”. No entanto, como as guarimbas não abarcavam toda a geografia nacional, chegou um momento em que os mais afetados por elas era a própria classe média por trás de suas linhas.

O financiamento das ações da guarimba era tão descarado que a maioria levava câmeras digitais caríssimas colocadas nos capacetes para gravar sua participação em determinadas ações e poder cobrar ou vender as imagens à imprensa internacional. Voltando a Ochoa Antich, alto dirigente da MUD, em plena crise da MUD afirmou: “o que foi derrotado não foi o rumo democrático e eleitoral. Esta derrota é filha de quatro meses de delírio extremista que cultivou a abstenção … o chavismo não é somente dádivas e orçamento. Também é um discurso reivindicador. Por isso sobrevive à pior crise que ele mesmo criou …”

A guarimba é o braço executor da violência que forma parte do programa da MUD e do imperialismo. Por isso não foi uma ação espontânea, senão que foi preparada previamente. Por isso parou por dois dias enquanto a MUD decidia o que fazer com a Assembleia Nacional Constituinte, e depois para permitir que a MUD fizesse um plebiscito. Por isso a guarimba morreu na mesma noite em que se realizaram as eleições para a Constituinte. Numa rebelião popular isso teria sido impossível.

A revolução diante de duas encruzilhadas

Depois do processo eleitoral, o governo continuou a ofensiva eleitoral contra a MUD convocando eleições municipais para aproveitar a crise interna da direita. Mas o problema não é eleitoral, a situação econômica piora cada vez mais, e este novo pico da mobilização popular deve encontrar resposta ou poderá voltar para atrás.

Essa é uma das encruzilhadas do processo revolucionário. As eleições, como se demonstrou em 2015, distorcem a realidade: os setores de retaguarda, uma efetiva campanha publicitária e o desânimo da vanguarda podem provocar um resultado eleitoral adverso.

A revolução não é irreversível e pode ser derrotada. Até agora tem demonstrado ter reservas de forças suficientes para derrotar a direita. Cada vez que o chicote da contrarrevolução tem ameaçado, demonstrou sua força para fazer o inimigo retroceder. Mas o ataque continua. Uma inflação de quase 70% na semana anterior e na seguinte às eleições, demonstram que segue em pé a guerra económica.

No mercado, um operário surpreendido pelos novos preços comentou em voz alta “…nos castigam por votarmos no chavismo e o governo não faz nada, também são uns desgraçados …“. E se voltando para o grupo que o escutava repetiu “…são uns desgraçados, mas são nossos desgraçados…”.

O povo trabalhador sabe que quem provoca a inflação e o desabastecimento são os mesmos de 89, os mesmos da sabotagem petroleira. Sabe que há uma guerra econômica, mas sente que o governo não responde. Diferente do “Caracazo“, quando buscou queimar o governo de AD, sente que este é “seu” governo. E essa é a primeira encruzilhada. Já basta de derrotas parciais, a revolução deve derrotar a direita definitivamente ou continuará a guerra, ou a qualquer momento esta pode quebrar a revolução e reverter o processo iniciado em 1989.

Porém, a segunda encruzilhada é mais difícil. O chavismo, com seus erros, é a direção objetiva do processo revolucionário venezuelano. Tem sido o responsável por suas vitórias, mas também por seus retrocessos e que as vitórias conquistadas não tenham se tornado definitivas.

O chavismo é responsável pelo triunfo sobre o golpe fascista de 2002, pela derrota da sabotagem petroleira em 2003, e por não transformar essa em uma vitória definitiva contra a burguesia, freando o povo quando esse deveria seguir avançando, criando a ilusão que a burguesia aceitaria a derrota e não seguiria tentando.

Setores da burguesia enriqueceram a partir de negócios ilícitos, de manipulação do câmbio, de contrabando, bachaqueo[26], e negócios fraudulentos com o próprio governo que serviu para financiar a própria MUD contra o governo. O fato de a burguesia seguir tendo um enorme poder econômico, que lhe permite dirigir a guerra econômica contra o povo, deve-se a que durante todos estes anos lhe foi deixado o controle de áreas-chave da economia, da produção e da distribuição. A ausência de controle do comercio exterior por parte do governo lhe permitiu a gestão das importações e o uso de dólares do Estado para seu próprio benefício e não para atender as necessidades da população. Os milhões de dólares roubados, retirados do país e entregues para importações que nunca aconteceram, ou tinham superfaturamento, ou não eram necessárias, são responsabilidades do descontrole por parte do governo.

Existe um enorme setor da classe média que respalda a MUD, não só pelo bombardeio intenso da propaganda, mas também pelas debilidades da revolução na construção do socialismo. Criaram-se ilusões de que simplesmente dando benefícios, ele passaria para o nosso lado, ignorando a carga ideológica que o capitalismo desenvolveu nesse setor.

O chavismo permitiu o crescimento de uma burocracia ineficiente que, combinada com uma burocracia sindical clientelista e economicista, abarcou as empresas do estado. A corrupção nos escalões baixos, médios e altos do governo, e que também permeou as forças armadas, tem sido muitas vezes um flagelo pior que a própria guerra econômica. A manipulação do câmbio, o ataque à moeda, o bachaquerismo, o contrabando de minérios e o mercado negro têm crescido baseados na corrupção de muitos burocratas.

As opiniões, as críticas e a disposição para a luta das organizações de base de trabalhadores, das Comunas e das organizações sociais são muitas vezes caladas e asfixiadas pelo burocratismo do governo. O “golpe do timón” que Chávez exigiu meses antes de seu desaparecimento físico, para enfrentar o burocratismo e a ineficiência do governo, não se materializou.

O povo está disposto, hoje mais que nunca, a dar a batalha contra a direita, mas quer que esta seja a última batalha. A indefinição e indecisão do chavismo contribuiu para a impunidade da direita. As pessoas não entendem que os mortos da guarimba sigam sendo a gente do povo e a direita continue se apresentando como vítima. As pessoas não entendem que os que vivem da revolução militem contra ela.

Por isso, despois de derrotar a guarimba e triunfar nas eleições regionais, o povo redobrou sua exigência ao governo chavista para que tome medidas que acabem com a guerra econômica, que acabem com as guarimbas, a corrupção e o burocratismo.

Há alguns dias, o ex-procurador Isaías Rodríguez, herói de abril de 2002 na derrota do golpe fascista e promotor da convocatória à esta ANC, se pronunciou dizendo que a ANC não poderia se reduzir a ser uma Assembleia Nacional paralela, que não tinha explicação que em 3 meses não houvesse abordado o problema econômico. O dirigente chavista Pedro Carreño lhe respondeu acusando-o até de traidor da pátria. Milhares de organizações populares e militantes de base utilizaram as redes sociais para expressar sua solidariedade a Isaías Rodríguez e rejeitar o ataque grosseiro de Pedro Carreño. Os grupos que diariamente se manifestam no entorno da ANC criaram o slogan “Mais Isaías, menos Carreño”, demonstrando a sua exigência sobre para onde deve seguir a ANC.

Em resposta à pressão das bases se instalou a Constituinte económica e funcionários do SUNDDE (Superintendência Nacional para a Defesa dos Direitos Socioeconômicos) foram atacar os centros de distribuição, transporte e comercialização de alimentos, conseguindo fazer com que os preços caíssem em até 50%, demonstrando a natureza especulativa da fixação de preços.

O povo aplaudiu esta ação do SUNDDE, mas se trata de ações espasmódicas que não dão solução definitiva. O comércio, prevendo a ação do SUNDDE, esconde os alimentos e passamos da inflação à escassez e desabastecimento. Não é possível continuar com medidas isoladas, nos faz falta um plano de ação.

O governo chavista deve se apoiar em organizações de base de trabalhadores e das comunidades, mais do que na burocracia do Estado, para enfrentar a guerra econômica e derrotar definitivamente a burguesia pela construção real do socialismo. O socialismo não é um discurso, é o planejamento centralizado da economia nas mãos do povo. Como disse Chávez: “o socialismo deve e pode ser planejado“. Há que fazê-lo. Essa é a batalha definitiva para derrotar a MUD, a burguesia e o império.

Já basta de negociações estéreis com a direita, que só levam a novos confrontos, a novas guarimbas. As pessoas querem a paz, mas não a querem para viver de joelhos, e só teremos a paz com a derrota definitiva da burguesia através do controle da economia e eliminando os vestígios do capitalismo que dominam a sociedade venezuelana, mesmo após quase trinta anos do “Caracazo“.

Caso contrário, a revolução deve tomar o caminho do questionamento da liderança chavista, assumindo o governo a partir das organizações de base do povo. É necessária uma revolução política para derrotar a burocracia e a corrupção que se apoderou de uma parte importante do governo chavista. Uma reviravolta, um “golpe de timón”, como indicou Chávez, mas do povo e com o povo.

 

[1] Após a derrubada da ditadura em 1948, e com o patrocínio dos EUA, os partidos da Ação Democrática (AD), o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI) e a União Republicana Democrática (URD), excluindo o PCV, assinaram um “pacto de governabilidade” que implicava a distribuição do governo, os mecanismos de consulta e a aprovação de políticas extra constitucionais, com o objetivo de “garantir a alternativa democrática e afastar a ameaça comunista”. O pacto foi assinado no sítio de Rafael Caldera, dirigente da Copei, conhecida como “Puntofijo“. Daí o nome do “pacto de punto fijo” e o período de dominação dos partidos AD-COPEI ser conhecido como regime puntofijista. Em 1993, como consequência do “Caracazo“, Rafael Caldera venceu as eleições, mas teve que sair por outro partido/legenda (Convergência Democrática), conseguindo obter o apoio da esquerda. AD e COPEI saíram do governo pela primeira vez desde 1948, mas o esquema puntofijista se manteve até o triunfo de Hugo Chávez em dezembro de 1998.

[2] Após o “Caracazo“, principalmente nos meses que antecederam o golpe, circulavam folhetos entre a população denunciando a corrupção do governo e sua responsabilidade no assassinato de milhares de pessoas. Os panfletos foram atribuídos aos COMACATES, um acrônimo que identifica os oficiais médios das forças armadas: Comandantes, Majores, Capitães e Tenentes.

[3] Hugo Chávez Frías, Francisco Arias Cárdenas e Joel Acosta Chirino, eram os três dirigentes do 4F, todos tinham o cargo de tenente-coronel – o mais alto do médio oficialato – e eram comandantes de tropas. Arias e Acosta romperam com Chávez durante a Assembleia Constituinte de 1999. Arias chegou a ser candidato a presidente pela oposição nas eleições realizadas em 2000. Ele voltou ao chavismo durante o golpe de abril de 2002. Atualmente, era governador do estado de Zulia e candidato a reeleição, sendo derrotado pela MUD. Por sua vez, Acosta esteve na oposição até o golpe de abril de 2002 para, logo depois, se retirar da atividade política.

Um quarto dirigente, Wilmer Castro Soteldo, da aviação, foi forçado a fazer um treinamento na Costa Rica e não pode participar do 4F. Participou de uma nova tentativa de golpe em 27 de novembro daquele ano. Ele é um dos dirigentes do chavismo. Atualmente é Ministro do Poder Popular para Agricultura e Terras.

 

 

[4] Na madrugada de 14 de abril de 2002, Chávez se dirige à população já reintegrado como presidente. Milhares de trabalhadores misturados com soldados, cercam Miraflores e se concentram nas praças das principais cidades do país. Alguns representantes da burguesia fugiram da Venezuela. Bairros de classe média que duas noites antes estavam celebrando o golpe, agora estavam em silêncio e no escuro. Chávez, apertando um crucifixo, pediu que toda a população voltasse às suas casas e os soldados para o quartel, já que este seria um momento de reconciliação nacional e não de vingança.

[5]Durante a sabotagem do petróleo (dezembro de 2002/janeiro de 2003), as mídias nacional e internacional deram muita publicidade às manifestações contra o governo. Essas manifestações eram protagonizadas por importantes setores da classe média – surgida a partir da riqueza gerada pelo petróleo -, que sempre repudiaram os moradores dos bairros que chamam de “macaco” ou “marginal”. Vale ressaltar que muitos destes têm origem nesses mesmos bairros, mas que conseguiram a duras penas uma profissão e um nível econômico que lhes proporcionaram ascensão social.

A difusão de imagens de pessoas se declarando contra o governo, de fortes confrontos com as forças da ordem pública que tentavam reabrir as estradas, das barricadas e dos incêndios, mostrou ao mundo um país onde a população estava em guerra contra o governo. Todos os dias, às seis horas da tarde, três representantes da “Coordenação Democrática” – o presidente da FEDECAMARAS, o presidente da CTV e o líder da “Gente do Petróleo” – um grupo que integrava os “trabalhadores” (de fato, os gerentes) da indústria do petróleo. Eles fizeram parte da ampla mobilização contra Chávez e, da mesma maneira que toda a “sociedade civil”, exigiam sua renúncia.

Alguns setores da esquerda, impressionados pela mídia ou oportunistas, e colunistas de imprensa, falavam do estado de “rebelião civil” contra o governo Chávez, “que perdeu o apoio popular”. Um ano depois, Chávez derrotou a direita em um referendo revogatório com 59% dos votos. Apenas a palavra “fraude” parecia servir para encobrir a incompreensão do processo aberto na Venezuela desde o “Caracazo” e a correlação de forças existente no país.

 

 

[6] Se entende como “guarimbas” as ações violentas promovidas pela MUD que contemplam o fechamento de ruas, destruição de instalações, veículos e bens públicos – incluídos centros de saúde, depósitos de alimentos e remédios, creches, não somente repartições públicas – e em muitos casos choques violentos com as equipes da ordem pública (Polícia Nacional Bolivariana e Guarda Nacional Bolivariana).

O termo “guarimba” se refere a documentos apreendidos de um produtor da RCTV, nessa ocasião o principal canal privado e publicamente promotor do golpe de abril de 2002, onde se instruía que as manifestações de rua que se preparavam para a defesa do canal RCTV deviam se dar nos bairros fechando vias, colocando barricadas, sair, atacar e destruir edifícios e veículos do governo e voltar aos bairros rapidamente, ou seja, quando a polícia chegasse havia que voltar para as casas e atacar desde os andares superiores dos edifícios, usar os bairros como guarimbas. Existe um jogo infantil “polícias e ladrões” onde um grupo de crianças persegue e pega os outros, porém existe um lugar chamado guarimba onde os perseguidos não podem ser pegos.

Nesse ano de 2006 houve uma ampla difusão da propaganda nas redes sociais de como organizar a guarimba, inclusive alguns indicavam com diagramas onde deviam se colocar os franco-atiradores que protegiam a guarimba.

[7] Depois da sabotagem petrolífera, a participação direta da burguesia no direcionamento da ação política tem sido muito visível. Inclusive os dirigentes dos principais partidos políticos do país são filhos da grande burguesia. Capriles Radonsky, dirigente de Primero Justicia, além de fazer parte de uma família das principais redes de jornais, é herdeiro da principal rede de salas de cinema e distribuição de filmes do país. Corina Machado, dirigente da Vente Venezuela, pertence às famílias aristocráticas provenientes da colônia. Ela herdaria o principal polo industrial siderúrgico que foi expropriado pelo governo em 2010 depois de um conflito trabalhista que durou seis meses. Leopoldo Lopez, dirigente da Voluntad Popular, é filho de uma família herdeira de várias outras famílias donas de empresas manufatureiras e vinculadas ao gerenciamento petroleiro e, em sua juventude, foi militante da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Todos eles, tradição da burguesia venezuelana, se formaram em colégios jesuítas e em universidades norte-americanas, sem deixar de passar por uma etapa de adesão às drogas e à boemia.

O único que escapa desse grupo é Ramos Allup, dirigente da AD. Ainda que venha da burguesia comercial de ascendência libanesa localizada na zona franca de Paranaguá, se incorporou à AD como estudante e fez carreira política nesse partido, ascendendo a cargos de direção até a crise posterior ao “Caracazo”. Depois da derrota da sabotagem petrolífera, assumiu a máxima direção da AD. Político de carreira, não oculta seu desprezo pelos filhos da burguesia que incursionam na política e os chama publicamente de “filhinhos de papai” e “metidos”.

[8] O Polo Patriótico é a frente de partidos que apoiam a revolução bolivariana. É integrado pelo PSUV, o Partido Comunista (PCV), a Unidad Popular Venezuelana (UPV), Pátria Para Todos (PPT), Movimento Tupamaro, Movimento Eleitoral do Povo (MEP), independentes pela Comunidade Nacional (IPCN), Pela Democracia Social (PODEMOS), Corrente Revolucionaria Venezuelana (CRV), Partido Redes, Aliança (NCR), Organização Renovadora Autentica (ORA). Nas eleições regionais de 15 de outubro, os demais partidos obtiveram juntos 7% dos 54% obtido pelo PSUV.

[9] Somente em dois estados, correntes distintas do Polo Patriótico ou da MUD tiveram votações superiores a 4%. No Amazonas (11%) e em Apure (9%), localizados ao sul do país na fronteira com a Colômbia, mas não se tratou de uma terceira corrente, senão de muitos grupos locais que não saíram juntos e que nenhum teve mais de 1%.

[10] Este ano uma pesquisa chegou a publicar que 85% da população rechaçava o governo e estava pela intervenção estrangeira.

[11]No domingo 15, as manchetes da imprensa burguesa foram: “Hoje todos votam contra a ditadura”.

[12] O PCV denunciou a norma como puntofijista e fez uma campanha pública pela sua não aplicação.

[13] A lei exige o apoio de 1% dos eleitores por estado em pelo menos 12 estados para ser um partido de âmbito nacional. Em julho de 2016, a MUD organizou a campanha de coleta de assinaturas para sua legalização. A imprensa nacional e internacional apontou que a coleta de assinaturas era para o referendo revogatório, o que era correto. A coleta de assinaturas para o referendo revogatório estava prevista para outubro de 2016, que foi quando os tribunais civis ordenaram parar o processo por denúncia de falsificação de assinaturas e pela utilização de pessoas falecidas, o que era correto. A MUD acusou o chavismo de ter incorporado essas assinaturas para sabotar o processo.

Posteriormente, a MUD decidiu não continuar impulsionando o referendo revogatório e, ainda que não tenha havido explicação pública do porquê, se soube que na reunião com o Departamento de Estado norte-americano lhes disseram que essa via era contraproducente porque não havia certeza de conseguir revogar Maduro eleitoralmente.

[14] Em vários momentos destes 17 anos houve mesas de negociação entre o chavismo e MUD. Durante a sabotagem petrolífera houve uma mesa de negociação impulsionada por Cesar Gaviria, à época Secretário Geral da OEA. No ano passado, o mediador foi um representante do Papa Francisco, e a negociação foi rompida pela MUD para se lançar na guarimba. A atual é composta pelos ex-presidentes Zapatero (Espanha), Torrijos (Panamá) e Fernández (República Dominicana), tendo como sede este último país.

[15] Durante todos esses anos surgiram grupos de auto-organização das pessoas, a grande maioria por fora do PSUV. A direita sempre se referiu a esses grupos como bandos armados do chavismo, aos que lhes atribuíam todo tipo de ação, inclusive as que eles próprios fazem. Quando houve o golpe de estado e a sabotagem petrolífera, eram famosos os círculos bolivarianos. Hoje em dia, são os coletivos. Os coletivos – e antes deles os círculos bolivarianos – são de todos os tipos, há núcleos de moradores ou de artistas, outros se dedicam à produção no nível comunal e, nos últimos dois anos, há muitos coletivos dedicados à organização de feiras de venda de alimentos nos bairros. Um pequeno percentual são coletivos de autodefesa, alguns dos quais estão armados, e que em geral atuam como vigilantes do bairro contra a delinquência, mas também houve casos em que os coletivos foram acusados de estar formados por bandos de delinquentes.

Alguns coletivos são de ultraesquerda, muito críticos ao chavismo e protagonizaram enfrentamentos com grupos de choque da direita. Dirigentes dos coletivos foram vítimas de pistoleiros, ações que foram atribuídas à MUD. Um dos coletivos mais conhecidos, “Alexis Vive”, está localizado no bairro popular 23 de Janeiro, em Caracas. Possuem centros de produção e venda de alimentos além de uma estação de rádio. Em 2008, ocuparam por um dia uma estação de TV para protestar por falsas denúncias. Uma semana depois, seu principal dirigente foi assassinado por um pistoleiro, daí que assumiram o nome de “Alexis Vive”.

[16] A Diana, é um toque de corneta que anuncia a alvorada nos acampamentos militares. Na mitologia romana, a deusa Diana estava relacionada com o planeta Vênus, que anuncia um novo dia. A Diana que usa o chavismo é o “toque de ataque” (som de corneta) do exército de Bolívar, que dava a ordem de avançar para a cavalaria. Hoje, salvo nas forças armadas, já não se usam cornetas, mas sons gravados. São usadas, junto com fogos de artifício, para as eleições, início de uma marcha ou para anunciar a chegada de uma coluna de manifestantes.

[17] A eleição de governadores se iniciou depois do “Caracazo”, como parte das medidas para recuperar o puntofijismo em crise. Até esse momento, prefeitos e governadores eram designados pelo Presidente da República. Mas já nesse momento o sistema eleitoral vigente estava em crise por causa do “Caracazo”, tendo uma participação de 40%. Promulgada a Constituição de 1999, a participação subiu, mas para apenas 50%. A última eleição para governadores foi duas semanas depois da última aparição pública de Chávez, quando então se anunciou que o câncer havia reaparecido, devendo submeter-se a uma operação. Nesse momento se chamou a votar pelos candidatos a governadores do Polo Patriótico, e, no caso de não poder voltar à presidência, deveriam eleger Nicolás Maduro para Presidente. Nessas eleições, a participação foi de 54%, sendo que foi superada somente agora, com 61%.

[18] Dolartoday é uma página web, publicada desde Miami e vinculada ao mercado negro em Cúcuta, cidade colombiana na fronteira com Venezuela que estabelece o valor do dólar paralelo. Os donos da página são ex-militares que fugiram durante o golpe de 2002 e lobistas vinculados ao sistema bancário instalados em Miami. Ainda que afirmem que a fixação do dólar esteja relacionada com as transações em Cúcuta, muitos economistas têm demonstrado com gráficos comparativos que a fixação do dólar por essa página está associada a eventos políticos e não a regras econométricas. Dólartoday influi diretamente na fixação do preço pelos comerciantes.

[19] Na fronteira, o papel-moeda venezuelano é comprado a 170% de seu valor nominal. Recentemente, no Paraguai, que não tem fronteira com Venezuela, um acidente com um caminhão de carga revelou que o mesmo transportava mais de 30 toneladas de papel moeda venezuelano.

[20] Um exemplo é a lei que restabeleceria a propriedade sobre as habitações entregues à população de forma subsidiada ou gratuita através da Missão Vivenda, cuja venda é proibida. A Missão Vivenda constrói em terrenos disponíveis, sem importar de quem é a propriedade, e estabelece o valor em base ao custo de produção. A ideia era que o mercado imobiliário assumisse as habitações – teriam um alto valor, já que ao eliminar a proibição da construção muitos venderiam para retornar aos seus bairros – e que o novo valor indenizasse os proprietários das terras expropriadas para construir habitações.

Outra lei esteve destinada a eliminar as emissoras comunitárias. Outra devolvia a seus legítimos donos as terras e empresas expropriadas, etc.

[21] As eleições parlamentares no estado do Amazonas, que se encontra mais ao sul do país e com uma maior população indígena, foram questionadas porque era evidente a compra de votos pelo governador que pertencia à MUD. O TSJ ordenou a suspensão dos deputados eleitos, ou seja, três da MUD e um chavista. Apesar disso, o parlamento decidiu desconhecer o TSJ e dar posse aos deputados, o que resultou num ato de desacato. Esse estado foi um dos que a MUD perdeu nas últimas eleições.

 

[22] Em seu artigo a UST afirma que a ANC é ilegítima e a votação de 30 de julho, 8 milhões, foi falsa. A ilegitimidade da ANC, a falsidade dos 8 milhões de votos à ANC e o termo “ditadura” para definir o governo, são o discurso da MUD e não corresponde ao movimento revolucionário.

Quando a MUD chamou à renúncia de Maduro e convocou eleições gerais, Maduro respondeu durante a marcha do Primero de Maio ao dizer que o povo deveria decidir entre capitalismo ou socialismo, entre paz e a guarimba, convocando para isso as eleições para a ANC que decidiria sobre uma nova Constituição.

A MUD argumentou que uma convocação das eleições para a ANC que incorporavam a eleição de deputados por setores – trabalhadores, estudantes, pescadores, camponeses, empresários, os bairros, etc. – devia ser consultada através de um referendo que, por sua vez, não estava previsto na Constituição. O critério utilizado foi que como Maduro era rechaçado pela população não poderia convocá-la, ainda que a Constituição lhe desse essa atribuição. Esse foi o argumento de ilegitimidade utilizado pela MUD sobre a ANC, no qual se baseou também a OEA.

Qual o critério em que se baseia a UST-LIT (QI)? Sobre os votantes da ANC. O processo foi submetido à auditoria na qual participa a MUD, de forma que se houvesse alguma inconsistência numérica já teria sido denunciada através de provas pela MUD. Como estratégia para a deslegitimação se utilizou desde Londres o presidente da Smartmatic – empresa encarregada da elaboração do software –, cuja gerência se retirou do país na sexta, antes das eleições. O tema é que ainda que essa empresa elabore o software, nunca teve ingerência alguma sobre o processo eleitoral. Ela se limita a entregar o software e participar de sua auditoria previamente ao processo eleitoral.

Sobre a definição de ditadura, em termos da democracia burguesia, Maduro foi eleito por eleições diretas para um período de 6 anos que venceria em abril de 2019. Só para citar a América Latina, existem presidentes que não foram eleitos diretamente por ninguém – como Temer no Brasil – ou que surgiram de eleições questionadas e não auditadas – Peru e México – e o artigo da UST não se refere a eles como uma ditadura como fazem com Maduro.  Do ponto de vista político, para a burguesia o que existe na Venezuela é uma “ditadura socialista”, coisa que a UST não coincide porque considera o chavismo uma direção burguesa. Tampouco é uma ditadura da burguesia porque senão não existiria a MUD e não haveria como sobreviver contra o império gringo. Em qual conceito marxista, marxólogo ou marxiano, a UST-LIT (QI) considera o governo de Maduro uma ditadura?

[23] O governo chavista decidiu não prender os guarimbeiros nas ruas, nem sequer durante as guarimbas, e portanto era normal encontrá-los nos transportes, tomando o café da manhã ou almoçando perto do local onde se desenvolvia uma guarimba ou nas noites em algum bar ou restaurante. Era fácil identificá-los porque quase sempre levavam algum pano que dizia “Sou um Libertador” ou levavam uma mochila onde guardavam um capacete, uma máscara e as câmeras digitais que completavam o uniforme do guarimbeiro.

Todos os presos foram produto de mandado de busca (operação “tum-tum” que era conhecida por ser semelhante ao ruído ao se bater numa porta) realizados nas residências ou centros de apoio à guarimba, não nas ruas nem nos choques com a polícia.

 

 

[24]  Nota do Tradutor: Algo parecido ao projeto “Minha Casa, Minha Vida” no Brasil.

[25] Os primeiros cinco mortos foram em circunstâncias estranhas. O primeiro foi um rapaz de 19 anos alheio à guarimba e ao chavismo, assassinado por um policial que fazia parte do controle do tráfego e não da ordem pública. Estranhamente as redes sociais da guarimba publicaram a foto do rapaz morto no chão imediatamente.

O segundo, foi um garoto de 14 anos assassinado por guarimbeiros que passavam em frente a um edifício da Misión Vivienda. O terceiro foi uma mulher de 48 anos que recebeu um golpe na cabeça por uma garrafa plástica de água congelada lançada do alto de um edifício contra uma manifestação chavista.

O quarto foi um garoto de 17 anos atingido por um disparo sem explicação de uns policiais que fugiram numa moto. O garoto estava perto de uma guarimba e um mês depois foram detidos três funcionários de segurança da prefeitura de Chacao, da MUD, que se demonstrou que os mesmos haviam se disfarçados de policiais para cometer o assassinato.

O quinto, foi uma ativista da MUD assassinada quando passava um grupo de chavistas motorizados. O responsável foi um franco atirador, dirigente da MUD. Ele reconheceu que disparou sobre a mulher para atiçar as pessoas a atacar os chavistas motorizados, responsabilizando-os pelo assassinato.

[26] O bachaquerismo e, por extensão, o bachaqueo, é a revenda de produtos taxados, a preços especulativos. Teve início com o contrabando de extração na fronteira da Venezuela com a Colômbia, onde uma pessoa comprava no lado venezuelano os artigos a preços controlados e os vendia no lado colombiano a preços livres e em dólares. Logo, com o agravamento da situação económica, essa atividade se estendeu ao interior do país com as mesmas características: a revenda de artigos de primeira necessidade com preços controlados pelo governo a preços livres. Se chama bachaqueo, porque no imaginário popular se faz um paralelo com uma formiga chamada “bachaco” e que tem uma grande capacidade de carga.




Partido Comunista da China – Modernização por uma burocracia pré-moderna?

Publicamos a entrevista com Au-Loong-Yu, veterano marxista chinês residente em Hong Kong, realizada por Pierre Rousset em 22/10, durante a realização do 19º Congresso do PC da China (PCC).  Pela importância da China, pela relevância dos novos rumos adotados pelo último Congresso e pela dificuldade de compreender o que ocorre no gigante asiático, em particular pela imensa barreira linguística existente, a entrevista que publicamos ajuda a desvendar as lutas internas do imenso aparelho burocrático que dirige a segunda maior potência capitalista do mundo.

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Au Loong Yu, é autor de numerosos estudos sobre a China e é editor do website Movimento sem Fronteiras.

Pierre Rousset – Qual é o significado do 19º Congresso do PCC?

Au Loong Yu – Além de o Congresso mostrar que Xi Jinping está consolidando ainda mais o seu poder, outro importante elemento a apontar é como ele representa uma regressão total em direção à política aristocrática. No informe de Xi, há uma seção sobre as forças armadas em que se lê, “para fortalecer a construção do partido dentro das forças armadas, devemos promover a educação sobre o tema de ‘transmitir os genes vermelhos, assumindo a responsabilidade de fortalecer as forças armadas”. “Genes vermelhos”, refere-se ao legado do partido; foi o partido que fundou o Exército de Libertação Nacional ELN), não o contrário, e esse legado deve ser reassegurado sempre. Mas a escolha das palavras, “genes vermelhos” também está alinhada com uma notória alteração recente. Menos de três meses atrás, o jornal da escola do partido publicou um artigo saudando Xi Jinping como o “núcleo do centro do partido”, e recordou os leitores dos “genes inatos” de Xi e da “linhagem de sangue vermelho”, pois ele é filho de um antigo quadro do partido, Xi Zhongxun.

Desde o período de Mao até os anos 1980, o PCC sempre evitou dar a impressão pública de que os filhos dos fundadores da República Popular da China (RPC) estavam utilizando seu background familiar para alcançar privilégios, mesmo que o estivessem fazendo.  A maioria das pessoas sabe que esses descendentes gozam de privilégios imensos, mas isso raramente penetra na esfera pública. Mesmo quando o faz, o termo é utilizado com uma palavra neutra, gaoganzidi, ou “filhos de quadros de alto escalão”, que sugere que não há conexão com a “linhagem de sangue vermelho”, sendo, portanto, um termo bem amplo. Logo após o movimento democrático de 1989, seguido do colapso da URSS, alguns veteranos altos dirigentes chegaram à conclusão de que se o PCC quisesse evitar o destino do partido russo, uma forma de fazer isso seria transmitir o poder para seus filhos. Ao mesmo tempo, alguns dos filhos dos velhos quadros começaram a circular documentos entre eles chamando o partido a assumir diretamente a posse da propriedade estatal. Todas essas campanhas foram realizadas em segredo. Nesse período, muitos outsiders, especialmente aqueles que tinham fugido para o ocidente após a repressão de 1989, começaram a utilizar um nome diferente para esses “filhos de altos dirigentes”: taizidang, ou “principezinhos”, que possui um tom pejorativo e, portanto, nunca aparece na imprensa chinesa. Quando o tema começou a emergir na imprensa, não era nem como gaoganzidi” nem “taizidang, mas “hongerdai”, ou “segunda geração vermelha”, que é elogioso. Esse termo é radicalmente diferente de gaoganzidi, pois ele aponta explicitamente para a linhagem de sangue vermelho e é, portanto, muito mais restrito do que o termo gaoganzidi. Ele exclui praticamente todos os quadros cujos genitores não eram antigos quadros. O termo começou a emergir na imprensa chinesa durante o mandato de Hu Jintao (NT, primeiro-ministro de 2002 a 2012) . Mas foi provavelmente Bo Xilai, o ex-dirigente de Chongqing, e filho de outro antigo quadro, que foi derrubado por Hu Jintao em 2012, que tornou o tema da “segunda geração vermelha” ainda mais visível, devido ao seu destacado perfil e sua promoção de “cantar canções vermelhas” (NT, referência à utilização que Bo Xilai fez de antigas canções da época maoísta em sua luta política interna no PCC). O reconhecimento público sobre a existência e o poder da “segunda geração vermelha” pela imprensa continuou mesmo após a queda de Bo em 2012, e foi adotado pela camarilha de Xi Jinping, ainda que às vezes disfarçado em diferentes termos, como “linhagem de sangue vermelho”.

O fato que principal dirigente do PCC neste momento precisa ressaltar sua “linhagem de sangue vermelho” condiz com a tendência geral dentro do partido sobre a “segunda geração vermelha”, com todo o poder político e econômico que acumularam nos últimos trinta anos, e agora necessitando cada vez mais de uma posição segura. Mesmo que essa camada esteja longe de ser homogênea, ao contrário, esteja assolada por diferenças em termos políticos, desde os liberais até os ultranacionalistas, ou mesmo fascistas; a plena utilização de sua “linhagem de sangue vermelho” é um ponto comum de todos os que são politicamente ativos. Xi não é uma exceção e agora, para poder consolidar seu poder como o “núcleo” do partido, ele está utilizando isso a fundo.  O que também significa uma certa ruptura com o passado, quando o PCC ainda falava sobre a “separação do partido e do governo”, [que] “uma reforma política é necessária”, “preservar a liderança coletiva”, “democracia como um valor universal”, “discrição em política externa”, etc. Agora existe um dirigente máximo que provém da “segunda geração vermelha” e que também proclama em alto e bom som a ascendência dessa “segunda geração vermelha” ao poder absoluto, ao passo que demonstra aberto desprezo pelo “estilo ocidental” e pela “liderança coletiva”. É uma regressão total para a aristocracia. Ocorreu uma ruptura na linha do PCC.

P.R. Mas a queda de Bo Xilai também demonstra que a segunda geração vermelha está fortemente envolvida em uma violenta luta intestina?

A.L.Y. Sim. Na verdade, chegamos a um ponto interessante nesta regressão. Há hoje dois níveis de luta política se desenvolvendo. Em primeiro lugar, a segunda geração vermelha está tentando roubar mais poder dos burocratas cujos pais não são antigos quadros. Em segundo lugar, dentro da segunda geração vermelha, a maioria quer mais poder, mas Xi quer poder absoluto, daí provém a tensão. Como demonstra a história da China imperial, o poder absoluto do imperador necessariamente se contradiz com o poder dos nobres. A autocracia absoluta entra em conflito com a aristocracia. A solução final para o imperador foi a quase total destruição dos nobres enquanto classe, e é isso que diferencia essencialmente a trajetória da China imperial das experiencias europeias. A razão pela qual Xi Jinping tem tanta sede de poder, levando-o a derrotar as cliques de Jiang Zemin e de Hu Jintao ao mesmo tempo e obter todo o poder por meio disso, é precisamente porque ele começou a partir de uma posição muito mais fraca do que seus predecessores quando iniciou a galgar o poder. Pela primeira vez na história do PCC, os candidatos a líder supremo foram escolhidos pelos pares de Xi em vez de sê-lo pelos antigos líderes, como Deng Xiaoping (NT, dirigente do PCC que liderou as reformas pró-capitalistas no país a partir de 1982) ou Chen Yun (NT – 1905-1995, veterano dirigente do PCC), que detiveram autoridade incontestada (ainda que os dirigentes aposentados, Jiang Zemin e Hu Jintao desempenharam um papel agora, mas sua autoridade não se compara à de Deng ou à de Chen). Não causa espanto que ele tenha sido desafiado por Bo Xilai, ainda que de forma secreta. Por sorte, alguém que fez o trabalho para ele. Meses antes que Xi chegasse ao poder, ele esteve no meio de uma feroz batalha entre Hu Jintao e Jiang Zemin. Isso se demonstrou benéfico para Xi, na medida em que ele pode utilizar em sua luta como uma alavanca para promover seu próprio poder e, ao final, enviar para a prisão um membro do Comitê Permanente e três membros do Bureau Político – que eram comparsas de Jiang ou de Hu. O que também prova que Xi é um político capaz, ao se recordar que ele começou a partir de uma posição muito mais fraca, sem as bênçãos dos dirigentes mais velhos. Mas para permanecer no poder além de seus dois mandatos e, se acreditarmos nos intensos boatos, precisa manter a tendência aristocrática permanentemente em xeque e destruir os que porventura se atrevam a desafiá-lo ou então sua autocracia será enfraquecida pela aristocracia. Recentemente, um confiável jornal de Hong Kong relatou quão justo e estrito é Xi: ele simplesmente ignora os pedidos de promoção de seus amigos da “segunda geração revolucionária”. Outro informe também descreveu a mesma coisa: que alguém da “segunda geração vermelha” pediu permissão para organizar uma associação especial para a “segunda geração vermelha”, mas isso foi rechaçado por Xi.

Xi certamente também precisa utilizar-se da cenoura além do porrete. Além de controlar a segunda geração vermelha, ele também precisa de seu apoio para a luta contra as outras forças dentro da burocracia. Portanto, ele precisa fazer um acordo com a segunda geração vermelha e permitir que compartilhem algum grau de poder claramente definido. Se são corretos os boatos de que a campanha contra a corrupção de Xi tem como alvo principal burocratas de origens humildes – e que raramente toca na segunda geração vermelha, então isso é um bom exemplo de um acordo de fato entre ambos os lados.

 

P.R. – Há outras forças dentro da burocracia. Quantas facções existem hoje dentro do PCC? E que posições políticas elas representam?

A.L.Y. Não sei se podemos utilizar o termo “facções” para a luta interna partidária. Prefiro utilizar a palavra “cliques”. De acordo com o senso comum, existe a clique de Shanghai e a clique da Liga da Juventude Comunista, cujos líderes são Jiang Zemin e Hu Jintao, respectivamente. Não está claro se há diferenças políticas substanciais. O êxito de Xi consiste na destruição parcial de alguns dos principais quadros de ambas as cliques e a consolidação de sua própria clique nesse processo. Mas uma análise cuidadosa das palavras e atos desses altos dirigentes poderia também nos dar algumas pistas para as respostas para a pergunta de se as batalhas partidárias internas contêm diferenças políticas. Há pessoas dentro do partido, por exemplo o ex Primeiro-Ministro Wen Jiabao, que estavam furiosas com a tendência da “linhagem de sangue vermelho e que falavam sobre a necessidade de “direitos humanos universais”.

A ascendência da “linhagem de sangue vermelho” necessariamente causa alarma entre aqueles com backgrounds humildes, e torna a divisão entre as duas componentes distintas da burocracia ainda mais visível. Independentemente do discurso sobre as cliques do PCC e o tipo de políticas que cada uma delas representa, existem dois tipos de quadros. Um tipo consiste nos burocratas de “sangue vermelho“, que chegaram ao poder por causa de seus pais. O segundo tipo provém de backgrounds mais humildes e somente subiram na carreira por meio de bons resultados nos exames (NT: uma adaptação pelo atual regime chinês do velho sistema imperial de recrutamento de funcionários públicos por exames nacionais), trabalho duro e sorte. Não é acidental que muitos da segunda componente também provêm da Liga da Juventude Comunista, considerada pelo partido como a escola preparatória para a liderança. Hu Jintao chegou ao poder por meio desse canal. Com a crescente ambição da segunda geração vermelha, os burocratas de origem humilde se sentirão ameaçados. Xi utilizou Hu para derrotar o ataque de Bo Xilai, e depois de ter êxito nisso Xi começou a fazer acordos com os chamados “tuanpai”, ou a clique da Liga da Juventude, ao acusar a Liga de ser incompetente e, como penalidade, cortar metade de seu orçamento. Esse é um sinal inequívoco do conflito entre dois tipos de burocratas. Isso não implica necessariamente diferenças políticas reais, mas significa que a fissura dentro da burocracia está se ampliando como resultado de sua regressão simultânea para uma autocracia e uma aristocracia. Talvez não seja acidental que Wen Jiabao, que expressou dissenso, também proveio de um background humilde e escalou o poder por meio de seu próprio esforço. Pessoas como ele certamente têm mais a perder se o critério da “linhagem de sangue vermelho” se tornar o primeiro para escolher os líderes máximos. Essas diferenças podem se expressar ainda mais visivelmente no futuro se houver alguma crise política.

Na verdade, isso não é novo. Na história da China imperial, a tensão entre os burocratas com origens nobres ou que eram descendentes de gongchen (estadista emérito; uma pessoa que tinha prestado serviços notáveis ao imperador) ou mandarins estabelecidos, e aqueles que tinham origens mais humildes sempre existiu e algumas vezes definiu lutas de facções durante a dinastia Tang (NT: uma das dinastias chinesas, que durou entre 618-907). Esse é também o problema da burocracia quando possui poder supremo: há uma tendência inata para que a burocracia regrida a uma aristocracia. Mas, precisamente por causa disso, ela também provoca sempre uma resposta reformista; uma resposta de contrapor-se à primeira tendência apoiando a meritocracia, a fim de assegurar que a burocracia seja capaz de se reproduzir por meio de exames e recrutamento abertos a todos, incluindo pessoas de origem humilde. Na maior parte do tempo os dois tipos de burocratas podem trabalhar juntos perfeitamente apesar de toda os empecilhos administrativos e as disfunções, mas quando sobrevêm crises sociais e políticas a tensão entre eles pode ser tornar mais aguda e começar a conter diferenças políticas.

 

P.R-  Mas como este lado da história afeta o desenvolvimento futuro do PCC quando todo o poder está concentrado nas mãos de Xi?

A.L.Y A conclusão sobre este relato acerca da história da China é que XI possa concentrar todo o poder em suas mãos de forma indefinida, o que significa ter êxito em quebrar o precedente de um número fixo de dez anos no poder, há ainda um problema insolúvel. Por trás da regressão em direção a uma aristocracia e degeneração geral da burocracia, etc., subjaz a tendência geral de a burocracia se apropriar de uma parcela cada vez maior do produto excedente produzido pelo povo trabalhador. A pilhagem do país pelo PCC chegou tão longe que hoje em dia o crescimento contínuo da China se baseia pesadamente no endividamento. Quando chegar o momento que a última gota faça transbordar o copo, um tempo de crise sobrevirá com ele.

Se examinarmos a história da dinastia imperial, ela estava sempre já em más condições muito antes que houvesse qualquer revolta dos de baixo. Já estava muito enfraquecida por suas próprias forças centrífugas movidas pela corrupção generalizada, pela perda da disciplina e pela pilhagem tanto das riquezas públicas como do bem-estar do povo. Esses foram também momentos em que mandarins mais sensatos se tornaram mais conscientes das necessidades coletivas de os burocratas erradicar a corrupção e colocar um limite na pilhagem da riqueza social. Isso começou um círculo vicioso de reforma e contrarreforma e, com ele, o aguçamento das lutas internas dentro da burocracia. De certa forma, estamos chegando a uma situação similar na China de hoje. Os esforços de Xi Jinping para eliminar a corrupção também devem ser vistos como similares à reforma no passado, ainda que a acusação de que o propósito de sua campanha seja a de centralmente se desfazer de seus opositores possa ainda ser válida. Xi pode obter êxito temporário em termos de sua campanha contra a corrupção, mas no longo prazo ele está também enfraquecendo a máquina estatal, já que isso cria grande insegurança entre os mandarins. O fato que a maior parte dos mandarins e oficiais de mais baixo rango estejam todos tentando transferir suas famílias e bens para o exterior é somente um dos sinais inequívocos das crescentes forças centrífugas dentro do PCC.

Certamente, Xi possui muito mais ferramentas mais modernas para controlar a burocracia e moldá-la ao seu gosto. Mas lhe falta uma ferramenta muito importante em comparação com os imperadores da China imperial. Enquanto o imperador, o árbitro supremo da burocracia, não se preocupava com a legitimidade de transmitir seu trono aos seus herdeiros, Xi não tem a legitimidade para ser um ditador de longa duração, e muito menos de colocar uma coroa sobre sua cabeça. Se o grande Timoneiro Mao precisou lutar (e que grande luta que foi) para atingir isso, é difícil imaginar um cenário em que uma figura menor como Xi possa simplesmente assumir seu posto e alcançar o mesmo resultado. Todas as demais cliques, tanto no nível da “segunda geração vermelha” como no dos burocratas comuns, tentarão resistir à tentativa de Xi de se tornar um imperador sem uma coroa. Em outras palavras, a concentração de poder de Xi em suas próprias mãos de forma indefinida somente resultará em mais lutas partidárias internas no futuro. Independente do fato de ele ganhar ou perder, o que é certo é que não pode haver uma paz de longa duração dentro do partido, mesmo que a luta esteja temporariamente finalizada e uma liderança partidária aparentemente harmoniosa está sendo exibida durante o congresso, em que todos os anteriores máximos dirigentes se fazem presentes.

P.R. – E se Xi se contentar com os acordos prévios, ou seja, um mandato de dez anos para o máximo dirigente, além de ter o privilégio de recomendar seus sucessores e deixar o cargo em 2022?

A.L.Y. Isso também significaria que Xi precisa se enquadrar em uma liderança coletiva. Evidentemente, não podemos excluir a possibilidade de que Xi opte por essa escolha, mas isso acarretará o risco que ele tenha o mesmo destino que seus predecessores, Jiang Zemin ou Hu Jintao, cuja influência foi desgastada quando saíram do cargo e inclusive enfrentam a possibilidade de se tornarem alvos de retaliação. Considerando o que Xi fez com as outras cliques, e que a pergunta de “por que ele?” será continuamente levantada pelos seus pares entre a segunda geração vermelha, a opção de manter a antiga regra pode não ser atrativa para Xi. Qualquer das opções não é uma solução real para o problema.

É preciso recordar que, em março de 2016, quando Xi já tinha o controle, alguns membros do partido ainda foram capazes de postar nas redes sociais sua carta pedindo a renúncia de XI. Mesmo que esse post tenha sido posteriormente deletado, não se soube de nenhuma retaliação massiva desde então.

Resumindo, creio que a principal contradição do PCC é a seguinte: ele promove enlouquecidamente a modernização, mas é uma burocracia profundamente enraizada em uma cultura política pré-moderna, ao ponto que no século 21 ainda seja incapaz de apresentar um regime estável para a sucessão do poder que seja aceitável para todos (os principais mandarins). Em contraste, o Partido Comunista soviético tinha mais ou menos alcançado isso após a morte de Stalin. Esse fracasso do PCC tem suas origens em sua cultura política medieval, formada e moldada desde que abandonou as cidades e se tornou uma força de guerrilha rural no final dos anos 1920. Havia certamente um elemento muito forte de stalinismo, além de sua influência chinesa medieval, mas a primeira não foi definitivamente nenhum remédio para o autoritarismo e o culto pessoal do PCC sob Mao. Só reforçou este último. O PCC também copiou certamente algumas práticas modernas de seus pares ocidentais em sua modernização, algo que não deve ser exagerado, mas, em vez de substituir as velhas práticas, esses elementos modernos parecem ter se adaptado bem às antigas práticas. Houve, em algum momento, vozes liberais moderadas mais fortes dentro do PCC, mas o significado da ascensão de XI ao poder representa precisamente o enfraquecimento dessas vozes.

Ao final, chegamos em um cenário em que mesmo que o PCC possa impor um regime “totalitário” sobre a população e que as perspectivas de uma rebelião ainda pareçam reduzidas, uma ruptura no sistema pode acontecer em algum outro ponto. A própria incapacidade do PCC de resolver a crise sucessória implica um regime instável, e pode provar que sua própria cultura política pré-moderna entra crescentemente em conflito e cada vez mais não consegue lidar com uma população que se urbaniza e moderniza rapidamente e que possui maiores expectativas que seus pais. Haverá uma longa disputa entre uma velha e uma nova China.




Crise de hegemonia norte-americana na geopolítica mundial: uma multipolaridade muito desigual

Por: Roberto Ramirez
Tradução: Suely Corvacho
Publicado originalmente no site da corrente internacional Socialismo ou Barbárie

Prólogo depois de 08 de novembro

A queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, foi o momento em que se afirmou que a história havia terminado. O combate entre o comunismo e o capitalismo tinha chegado ao fim. Depois de uma titânica batalha ideológica, que durou décadas após a Segunda Guerra Mundial, o livre mercado e a democracia liberal ocidental reinavam incontestes. Na madrugada de 09 de novembro de 2016, quando Donald Trump cruzou o limiar dos 270 eleitores para se tornar presidente eleito dos EUA, essa ilusão foi destruída. A história voltou … e como! Sua vitória põe em risco velhas certezas sobre os EUA e seu papel no mundo. O que vai ficar em seu lugar?”(America’s new president – The Trump era”, The Economist, 12-11-16)

Este artigo estava praticamente terminado quando as eleições presidenciais dos EUA, na terça-feira, 08 novembro, trouxeram a bomba: a vitória de Donald Trump. Isso exigiu este prólogo. De fato, como reconhece o The Economist, a ilusão do “fim da história”, de uma ordem mundial neoliberal, que imperaria do atual momento até a eternidade, presidida pelos EUA, recebeu um golpe fulminante.

Na verdade, essa ilusão já estava bastante deteriorada pela insolúvel crise econômica-social sem fim à vista, pelo indignante contraste entre a queda vertiginosa do padrão de vida e do emprego da grande maioria da população e a crescente concentração da riqueza no outro pólo, para não mencionar as intermináveis guerras ou as atrocidades, como o êxodo mundial de refugiados. Mas este golpe foi dado pela direita, não pela esquerda, embora muitos trabalhadores americanos tenham votado em Trump por falta de alternativas visíveis. Além disso, as nuvens escuras da demagogia de Trump lançam raios e trovões contra a globalização e seus efeitos, mas não indicam, com clareza e precisão, a alternativa, além de um “protecionismo” de contornos ainda imprecisos e a serem definidos.

O que é inquestionável em relação à Trump, até o momento, se dá pela negativa: expressa a crise da globalização neoliberal – agravada pela crise de 2008 -, mas não marca com exatidão os alcances e contornos das alternativas e soluções concretas que propõe. A única certeza é o seu caráter super-reacionário. Nesse sentido, não deve haver lugar para ilusões.

Comoção mundial

O triunfo de Trump implicou em uma comoção política e geopolítica mundial. E não porque a grande mídia americana (todos anti-Trump) e/ou as pesquisas haviam dado como certa a vitória de Hillary Clinton, cuja candidatura era apenas “mais do mesmo”. A comoção ocorreu porque abriu a possibilidade mas não a certeza de um rumo protecionista autárquico dos Estados Unidos, que ainda são – apesar de sua decadência e retrocessos relativos – a principal potência imperialista, tanto no nível econômico como financeiro e militar[1]. Ou seja, um giro (ou, pelo menos, um transtorno) no caminho da globalização neoliberal, empreendido, na verdade, desde antes da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética.

Se seu governo fosse a fundo nesse sentido- o que não é de forma alguma certo – poderia se iniciar uma importante mudança na ordem econômica mundial. A atual ordem mundial neoliberal poderia chegar ao fim, mas não para dar lugar a algo muito melhor. O que o trumpismo procura confusamente é um caminho protecionista-isolacionista que seria imposto a“socos e pontapés” pelos EUA a seus sócios e/ou concorrentes.

E essas mudanças – que ainda estão por vir–não implicam em que os trabalhadores seriam beneficiados. Uma coisa é a demagogia que permitiu a Trump ganhar votos da classe trabalhadora, e outra é o que fará a partir do trono de Washington.

Convém lembrar que, na história do capitalismo, livre comércio e protecionismo têm se alternado, mas como dois lados da mesma moeda capitalista. Em muitos casos, o protecionismo por parte dos Estados imperialistas, tem sido a resposta beligerante em períodos e situações de crise. No século XIX, que viu o “big bang” do capitalismo e a conformação dos imperialismos modernos, o Império Britânico, a principal potência, foi sucessivamente “protecionista” e adepta do”livre comércio”, segundo sua conveniência. Depois de conseguir uma esmagadora superioridade industrial, o Reino Unido, em meados do século XIX, passou do protecionismo a uma cruzada mundial pelo livre comércio.

Então, no período entre as guerras dev1914-1918 e 1939-45 o protecionismo e as tentativas de “autarquia” se generalizaram. Especialmente após a eclosão da Grande Depressão em 1929, tanto os « democráticos » Estados Unidos quanto os regimes nazi-fascistas de Hitler e Mussolini eram protecionistas ao extremo[2].

No final da Segunda Guerra Mundial, a bússola apontou novamente para o livre comércio. Reiniciou-se a chamada globalização da economia mundial, interrompida e retrocedida desde a Grande Guerra de 1914. Mas isto ainda era gradual e não envolvia a eliminação drástica das barreiras na produção, nas finanças e no comércio mundial. Isto seria promovido pelo neoliberalismo a partir do final dos anos 70 e, especialmente, nos anos 80, em resposta à crise que pôs fim aos “30 gloriosos”, os trinta anos após a Segunda Guerra Mundial, que foram os de maior crescimento na história do capitalismo, pelo menos nos países centrais da Europa Ocidental, Japão e EUA.

A grande questão é até onde irão os EUA com Trump neste giro. Ou seja, se este importante giro vai aprofundar as medidas já anunciadas, como a revisão drástica doNafta (Tratado de livre comércio com México e Canadá), a não aprovação doTrans-Pacific Partnership (TPP), o projeto de mercado comum dos EUA com países da Ásia-Pacífico, América Latina e Canadá, para enfrentar a China, e ao mesmo em relação à Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) dos EUA com a Europa. Hoje, essas indagações não podem ser respondidas.

Além disso, é necessário esclarecer qualquer equívoco em relação à demagogia protecionista de Trump, apresentada como um remédio à catástrofe social que o neoliberalismo significou para os EUA, especialmente para a classe operária e trabalhadora. Suas lágrimas de crocodilo por esse desastre da classe operária americana – mas apenas da classe trabalhadora branca – não pode esconder que Trump constitui um personagem ultra-reacionário, racista – especialmente contra negros, latinos e “islâmicos” -, machista repugnante e, no fundo, como todos os demagogos de extrema direita, inimigo mortal dos trabalhadores.

Ao mesmo tempo, Trump expressa também o fracasso do “progressismo” em geral e não só do Partido Democrata dos EUA. Os “democratas” americanos, as variantes social-democratas europeias (incluindo as que aparentavam serem mais “radicais” como Syriza) e, na América Latina, correntes como o chavismo, o PT brasileiro ou o kirchnerismo na Argentina, são todos muito diferentes, mas apresentam um traço comum. Estando no governo, eles nunca tomam medidas substanciais, estruturais, que afetem setores do grande capital. Nem sequer algumas reformas a sério, como tentaram, em sua época, certos governos imperialistas (como o de Roosevelt) ou alguns nacionalismos do “Terceiro Mundo”. Hoje, apenas fazem correções e remendos, e isso no melhor dos casos. Na Europa, foi o “socialista” Hollande quem liquidou grande parte das conquistas históricas do movimento operário francês. Na Grécia, o plano de austeridade mais brutal foi aplicado por Tsipras, que se apresentava como a “esquerda radical”. Nos EUA, Obama ganhou a presidência em 2008 com a palavra de ordem “Change” (mudança) … e não mudou absolutamente nada. Em todo o mundo, o reformismo pós-moderno é um reformismo sem reformas.

Isso explica por que Trump, um demagogo tão reacionário e grotesco, foi capaz de irromper no cenário político de descontentamento nos EUA e vencer primeiramente o establishmentdo Partido Republicano e, em seguida, a corrupta candidata democrata.

Há que se ter isso em mente, considerando o que está por vir. Se Trump for ratificado como uma tentativa de reordenamento econômico e político ultra-reacionário nos EUA e com projeções mundiais, isso poderia levar a enfrentamentos muito mais duros, menos “descafeinados” dos que vimos na era neoliberal nos EUA, Europa e América Latina. Em última análise, isto é o mais importante a se considerar.

Devemos nos preparar para isso, construindo alternativas políticas independentes dos partidos tradicionais do sistema, com programas revolucionários que estejam à altura destes novos desafios. É que uma agudização das contradições e dos confrontos sociais e políticos pode iluminar não apenas personagens como Trump, mas também alternativas à esquerda.

Luzes e sombras

Nessa perspectiva, e sem subestimar a importância desta vitória arqui-reacionária no interior do principal Estado imperialista, deve-se ressaltar que houve também tendências no sentido contrário.

Em primeiro lugar, Trump será presidente graças ao sistema eleitoral mais antidemocrático do planeta. Ganhou a maioria do Colégio Eleitoral, mas foi minoria no voto popular. Este sistema escandalosamente fraudulento remonta à fundação dos EUA, e foi disposto desta forma para assegurar uma maioria artificial aos pequenos estados, principalmente aos escravistas.

Mais importante ainda é que, durante o processo eleitoral, a única surpresa não tenha sido apenas Donald Trump. A outra grande novidade foi a entrada em cena de Bernie Sanders, um candidato que se proclamava “socialista” no país onde a “diabolização” do socialismo ultrapassou todos os limites. Como revelou Wikileaks, Hillary Clinton e o aparato do Partido Democrata tiveram de recorrer a manobras sujas e fraudulentas para derrotar o único pré-candidato em condições de competir comTrump na conquista de um “voto de castigo”,que finalmente foi capturado pela direita[3].

No entanto, o mais importante veio mais tarde: as mobilizações em massa – principalmente de jovens e com presença destacada de mulheres – que se registraram nas cidades das duas costas, lideradas por Nova York, Los Angeles e também Chicago, as maiores do país. Nelas participaram também afro-americanos, latinos e LGBT. E a principal palavra de ordem dessas mobilizações foi: “Not my president” (Não é meu presidente), situação insólita na história dos Estados Unidos e potencialmente muito perigosa para a estabilidade do novo governo, caso seja levada às últimas consequências.Quando em uma ocasião não se “reconheceu” (ainda que pela direita) um presidente eleito, se chegou a uma guerra civil.

Claro que não afirmamos que esta seja a situação atual. Além disso, a última canalhice de Obama e do aparato democrata, que tem pedido calma e contribuído para a desmobilização, serviu a Trump para garantir uma transição sem sobressaltos. Obama, Clinton e Cia. podem ser adversários políticos de Trump, porém, mais do que isso, são defensores da estabilidade do regime.

Finalmente, como dissemos, este artigo estava praticamente escrito em 08 de Novembro. No entanto, não houve necessidade de fazer mudanças significativas, porque o texto iniciava explicando precisamente a relativa decadência do poder dos EUA, que no âmbito geopolítico varreu as ilusões de um mundo “unipolar” e abriu caminho para outras potências mundiais – como China e Rússia – e também para potências regionais, tais como Turquia, Arábia Saudita, Irã ou Índia.

Também levamos em conta como fator fundamental do enfraquecimento relativo dos EUA os efeitos sociais contraditórios da globalização no interior da sociedade norte-americana. Eles sedimentaram as bases do enorme descontentamento social que se cristalizou no “voto de castigo” a favor de Trump.

  1. O lugar dos conflitos geopolíticos

A atual conjuntura mundial poderia ser definida como um momento marcado (ainda que não exclusivamente) por contradições e confrontos “geopolíticos”; ou seja, tensões e disputas (mais ou menos violentas ou pacíficas) no sistema mundial de estados. Nem sempre foi assim nos últimos anos.

Considerando o períodoque vai de 2007 a 2008 – quando ficou evidente a crise financeira e econômica que tinha sido “remendada” mas de forma alguma superada, alternaram-se diferentes aspectos predominantes no centro do cenário mundial.

No primeiro momento, o ator principal foi essa mesma crise econômico-financeira. A política central foi que “os de baixo” paguem o preço. Com isso, as perdas dos bancos, organismos financeiros e corporações “too big to fail” (grandes demais para falir) foram estatizadas e, em seguida, transferidas através de medidas de “austeridade” sobre os trabalhadores e os pobres. Milhões de famílias perderam suas casas nas estelionatárias hipotecas dos EUA e da Europa, mas sobram dedos de uma mão para contar as corporações financeiras das dimensões de Lehman Brothers que quebraram.

Assim, a crise foi “contida”, mas não solucionada em suas bases mais profundas. Continua presente, formando um longo ciclo de baixo crescimento ou estagnação direta, que impacta de forma desigual países e regiões, e agora põe em debate a tão alardeada “globalização”.

Depois das corridas de 2007-2008, outros acontecimentos ocorreram no cenário mundial. Foram anos marcados por intensos movimentos de protestos políticos e sociais.No auge, alguns configuraram rebeliões em massa, estenderam-se por toda uma região, derrubando governos e regimes. Algo assim já tinha se antecipado na América do Sul, com as eclosões na Bolívia, Equador, Argentina, etc., e foi o principal fator direto ou indireto que motivou a ascensão dos governos chamados “progressistas”, comoo o de Chávez, o mais notório.

Pouco tempo depois, por várias razões – desde os custos da crise econômica-financeira que os trabalhadores e setores populares começavam a pagar, até o ódio a governos e regimes autoritários -, o mapa do mundo ficou cheio de numerosos pontos “vermelhos” destes movimentos, protestos e rebeliões, de importância muito desigual e extremamente heterogêneos social e politicamente.

Entre os vários protestos e rebeliões – que, durante esse período, constituiram a característica mais proeminente da situação mundial -, podemos mencionar os movimentos dos “Indignados” do Estado espanhol, a Occupy Wall Street nos EUA, os massivos protestos operários, da juventude e populares da França em 2010, as lutas dos trabalhadores e da juventude na Grécia contra “austericídio” imposto pela Troika, as manifestações em série da “Primavera Árabe”, que começaram também em 2010 na Tunísia e, em seguida, se espalharam para o Egito, Líbia, Síria, Iêmen e outros países da região… Depois, tivemos o movimento do Parque Gezi na Turquia (2013) e outras mobilizações notáveis. Embora mais tardios e contraditórios em seus conteúdos iniciais e suas políticas resultantes, as manifestações da Ucrânia em 2014, tanto no oeste quanto no leste do país, podem também se encaixar neste fenômeno global.

No Extremo Oriente, lembremos entre outros fatos, a rebelião dos “camisas vermelhas” (2010) na Tailândia ou a primeira greve geral da Índia (2012). Mas nessa região, o que um dia pode ter importância mundial inestimável é o caminho mais “evolutivo” da China. Lá, a imensa e jovem classe operária gerada por sua revolução industrial vem despertando e realizando importantes lutas, apesar do regime ditatorial. Ainda que haja oscilações, falta de coordenação e especialmente ausência de organização e de programa político global, o conflito na China tem sido mantido e atingiu um pico no final de 2015. Além disso, em Hong Kong, em 2014, uma rebelião democrática, liderada pela juventude, pôs em apuros no enclave a ditadura dos burocratas bilionários de Pequim.

No entanto, estes protestos e rebeliões não estão hoje na primeira linha do cenário mundial. Tem havido desvios à direita; o mais terrível, a derrota da “Primavera Árabe”. Simultaneamente, houve a multiplicação dos conflitos e das crises no sistema mundial de Estados. Na primeira fila, aparecem crises “estatais” e/ou confrontos diretos ou indiretos entre estados que, no caso do Oriente Médio,resultaram em guerras. Em outras palavras, predominam os acontecimentos que se denominam “geopolíticos”.

Isso tem a ver – entre outras razões- com o fato de que essas lutas e protestos político-sociais a que aludimos anteriormente não conseguiram geralmente vitórias retumbantes nem gerar processos progressivos ou revolucionários sustentados. No momento, predominam tendências à direita, sem que isso constitua de modo algum um quadro uniformemente sombrio, nem, muito menos ainda, que não haja tendências opostas.

Em suma, sem que as lutas sociais e políticas se tenham esmorecido, muito menos solucionado a crise crônica da economia capitalista mundial, o que mais se destaca são fatos de outra natureza, os confrontos e os conflitos geopolíticos. Assim, os mais diferentes setores acadêmicos e/ou políticos elaboram esquemas e prognósticos em torno das alianças e rivalidades entre estados.

Aqui, em primeiro lugar, procuramos uma definição abrangente da atual situação geopolítica mundial, marcada por crescentes tensões e crises, onde os EUA já não representam a principal potência. Dentro deste quadro geral, consideramos o caráter da China e da Rússia como estados. É que ambos são hoje protagonistas centrais no cenário geopolítico mundial, isso ocorrendo em paralelo aos crescentes problemas geopolíticos e internos dos EUA e da União Europeia. Além disso, vemos duplamente necessária uma caracterização de sua natureza como estado, uma vez que são considerados, por diferentes setores, mais “progressistas”do que os tradicionais imperialismos dos EUA e Europa.

Finalmente, em um apêndice histórico, veremos sinteticamente definições sobre as etapas geopolíticas anteriores que precederam o mundo atual, nascidas em 1989-91 após o fim da União Soviética e da restauração capitalista em praticamente todos os Estados que se proclamavam “socialistas”.

  1. Um sistema “multipolar” mundial de Estados com tendências crescentes à instabilidade

 “Os Estados Unidos cambaleiam pelos efeitos da guerra do Iraque… A invasão do Iraque em 2003 causou danos permanentes aos EUA no mundo. Após a queda de Saddam Hussein, a violência sectária destroçou o Iraque, e o poder dos Estados Unidos começou a enfraquecer. Não só o governo de George W. Bush fracassou em sua tentativa de mudar a ordem na região através da força, mas também os custos políticos, econômicos e de poder desta aventura minaram finalmente a posição mundial dos EUA. A ilusão de um mundo unipolar desapareceu.“(Frank Steinmeier, ministro das Relações Exteriores da Alemanha, “Germany’s New Global Role”, Foreign Affairs vol. 85, no. 4, julho-agosto de 2016).

O ministro das Relações Exteriores de Merkel tem razão ao alegar que “a ilusão de um mundo unipolar desapareceu.” E se procurar caracterizar o panorama do sistema mundial de Estados na atualidade com apena suma palavra, deveria começar por defini-lo como o oposto; ou seja, como “multipolar” ou, talvez, “policêntrico”, embora, é claro, existam enormes desigualdades entre vários pólos. E, além disso, uma só palavra não é suficiente para retratar um complexo e contraditório cenário geopolítico. Da mesma forma, é muito importante acrescentar que estes “pólos” – grandes, médios e pequenos – e suas relações cruzadas, mostram hoje certa instabilidade, desequilíbrios e sobretudo tensões crescentes e conflitos, alguns em estado potencial e outros já em andamento.

As tensões ocorrem tendo como pano de fundo um ciclo recessivo de longa duração na economia global. Em 2008, a crise teve um sério pico. Mas, então, as coisas não se resolveram reiniciando um ciclo de crescimento sustentado. Tudo é “anêmico”, ainda que de forma desigual: a “anemia” da China não tem as mesmas taxas do que a da Itália. Contudo, em todo o mundo, as consequências dessa “anemia” são pagas pelas massas trabalhadoras e populares.

Isso também se reflete em outros dados quesintetizam o engessamentoda chamada “globalização”: durante os quase 25 anos antes da crise de 2008, o comércio mundial cresceu o dobro do PIB mundial. A partir de 2008, somentea duras penas consegueigualá-lo. As supostas “vantagens” do capitalismo globalizado estão cada vez mais desacreditadas! Só têm favorecido,de um lado, a concentração mais escandalosa da riqueza na história da humanidade …e, nooutrolado, o crescimento fenomenal da desigualdade e da miséria: hoje, “o 1% mais rico da população mundial acumula mais riqueza do que os 99% restantes”.[4]

Mas os governos continuam seguindo a Bíblia do capitalismo e os Evangelhos da globalização neoliberal, e continuam negociando “tratados de livre comércio”, ainda que por baixo dos panos tomem medidas protecionistas pontuais, que já indicam tendências de que a coisa não vai bem!

É verdade que “a ilusão de um mundo unipolar desapareceu” após os EUA começarem as aventuras do Iraque e do Afeganistão, as quais ainda não terminaram de sair completamente. Mas por que o “mundo unipolar” se revelou tão rapidamente uma ilusão? Só por causa do Afeganistão e do Iraque? Ou porque esses fracassos revelaram as debilidades e problemas mais sérios da “superpotência”, enquanto a China entravaem cena e a Rússia retornava?

Essa “ilusão de um mundo unipolar” tinha sua razão de ser. Nasceu em 1989-1991, com o colapso e desintegração da União Soviética. É que, geopoliticamente, o mundo pós-Segunda Guerra Mundial foi visto principalmente como “bipolar”: EUA versus União Soviética. Era o período da chamada Guerra Fria.

Mas, de repente, um dos pólos da “bipolaridade” desapareceu. Então, a definição parecia muito, muito simples, aritméticamente: 2-1 = 1. Restava um só pólo geopolítico: os Estados Unidos. Em outras palavras, estávamos no mundo unipolar!

As coisas mostraram-se mais complicadas. Issotem a ver com os processos econômicos, políticos e geopolíticos que se desenvolveram nesse mundo relativamente “bipolar”, desde seu nascimento em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Nesse pós-guerra se iniciou a Guerra Fria, que, na verdade, sempre esteve contida e regulada pelos acordos de Yalta-Potsdam, pelos quais Washington e Moscou repartiram o mundo. A União Soviética, um dos pólos, tinha se “dissolvido”. Mas o pólo triunfante, Estados Unidos, depois de quase meio século de mundo bipolar, não era igual nem mais forte do que no início, em vários aspectos fundamentais que veremos a seguir.

Poderíamos comparar isso com uma corrida de longa distância em que competem dois corredores. Um deles, a URSS, cai repentinamente vítimade um infarto. O outro corredor, EUA, atinge a linha de chegada e é o vencedor, mas isso não significa que sua saúde esteja melhor ou igual do que no momento da partida, 45 anos antes. Com efeito, durante esse longo período, os EUA, como Estado, teve seus “problemas de saúde”… ainda que não mortais, como foi o caso da União Soviética.Vejamos alguns deles.

 2.1.As guerras e suas consequências

Em 1975, pela primeira vez na história, EUA – superpotência militar jamais derrotada – perdeu uma guerra, a do Vietnã.[5] Para piorar a situação, este resultado não foi apenas militar, mas também subproduto de uma enorme mobilização das massas:juventude e classes populares nos EUA, que abriu uma crise política e também das forças armadas.

 É verdade que este movimento de massas contra a guerra, assim como o movimento dos direitos civis dos afro-americanos que o precedeu, foram, então, em grande parte “reabsorvidos” pelo sistema, mas não sem dar concessões e fazer mudançascom certas implicações.

Uma deles, de importância geopolítica, foi o giro paraum exército exclusivamente profissional, uma mudança facilitada pelos avanços tecnológicos em assuntos militares. Isto tenta evitar que se repita a rejeição popular a futuras guerras, que, no caso do Vietnã, tinhasido exacerbado pelo serviço militar obrigatório que atingia às famílias.

A profissionalização das forças armadas foi eficaz para evitar, nos casos do Iraque e do Afeganistão, a repetição de protestos em massa. Mas não solucionou o paradoxo de uma grande potência imperialista que tem de evitar os envios massivos de tropas em suas intervenções e deve substituí-los por aviação, drones e tecnologia. Problema que seus atuais rivais, Rússia e China, parecem não ter.

2.2. Do “American Dream”(sonho americano) ao pesadelo da globalização

Não se deve subestimar o tema das guerras nem, mais especificamente, o fracasso da aventura geopolítica de Bush de colonizar quase diretamente o “Grande Oriente Médio”. Mas há outro fator tão ou mais importante do que essas guerras para explicar as inesperadas debilidades do imperialismo mais poderoso, depois de ficar sozinho no palco após 1989-1991.

Referimo-nos à progressiva deterioração das condições de vida e de trabalho nos EUA, e ao crescimento paralelo da desigualdade social. Isso começou em meados dos anos 70 e vai se aprofundando cada vez mais em sintonia com a globalização que, nos anos 90, recebe outro impulso formidável, decisivo: a queda da União Soviética e a restauração capitalista na China e todo o (falso) “mundo socialista”. Depois, com a crise de 2008, apresenta-se ao mesmo tempo a oportunidade de dar mais um golpe para liquidar o que restou das concessões e conquistas dos bons tempos do pós-guerra.

Recordemos que em meados dos anos 70 terminaram os “30 anos gloriosos”, ou seja, as três décadas de bonanza do pós-guerra. Foi o maior período de crescimento econômico da história do capitalismo nos países centrais; a saber, EUA, Europa (ocidental) e  Japão. Simultaneamente, as concessões do Estado e das patronais – conhecidas como “Estado de Bem-estar social” – também foram sem precedentes naquelas décadas. Não só eram concessões possíveis em meio a essa bonanza, mas também inevitáveis por força dos movimentos operários e, também, da concorrência com o “comunismo”.

Embora com menos concessões do que os Estados europeus, os Estados Unidos, nesse período, foi o “mundo feliz” da classe operária e trabalhadora e, também, dos setores da classe média, pequenos comerciantes e empresários… claro, desde que fossem WASP (White, Anglo-saxão, Protestante).[6]

No Manufacturing Belt (cinturão industrial), que se estendia por vários estados dos Grandes Lagos ao Atlântico, estava o que quase poderíamos chamar “fábrica do mundo”. Hoje a região mudou de nome. Agora, é conhecida como o Rust Belt (cinturão da ferrugem): apenas restam ruínas de grande parte dessas fábricas e das grandes cidades industriais como Detroit.

Frente à crise que eclodiu em meados dos anos 70, o capitalismo norte-americano liderou um salto qualitativo no processo de globalização, que já se havia reiniciado no final da guerra. Isto teve vários componentes, como, por exemplo, a globalização financeira, que se instalou principalmente em duas capitais: Nova York e Londres. No entanto, o mais importante, que transformou a produção em escala mundial, foi a globalização da produção, facilitada pela revolução dos contêineres no transporte marítimo e por outros avanços tecnológicos.

Os produtos industriais não são fabricados em um só lugar ou um só país. Hoje os processos produtivos são levados a cabo em vários países, e suas partes convergem em algum ponto do planeta ondese monta o produto final, desde um automóvel a um computador.

Esta “deslocalização” mundial da produção permitiu ao grande capital – cada vez mais concentrado em oligopólios –colocar os trabalhadores do mundo inteiro competindo entre si, para explorar todos mais e melhor: o pária da Índia, China ou México contra o operário “privilegiado”dos Estados Unidos, Grã-Bretanha ou França. É um grande negócio pagar a um operário chinês ou mexicano 10% do salário de um americano para fazer o mesmo trabalho.

Apoiado nestes dois pilares, a globalização financeira e os oligopólios produtivos também globais, o capitalismo pisou no acelerador da globalização neoliberal, na qual os EUA desempenharam um papel central e, em grande parte, condutor.

 2.3. Internacionalização da produção e finanças, mas com Estados nacionais.

No entanto, ao mesmo tempo, isso desencadeou ou agravou velhas e (principalmente) novas contradições. Entre elas, a crescente contradição entre os capitais que internacionalizam cada vez mais sua produção e finanças, por um lado, e, por outro, as consequências sociais e geopolíticas em seus respectivos estados, que permanecem sendo nacionais.

A sociedade capitalista, desde sua origem, esteve cruzada pela contradição entre o caráter mundial da economia e o caráter nacional de seus estados. A globalização não a resolveu – como acreditavam alguns -, mas, pelo contrário, acirrou esta contradição a um novo nível e fez surgir novos aspectos.

Retomemos o exemplo dos EUA. Para o grande capital norte-americano globalizado foi um magnífico negócio fechar fábricas do Manufacturing Belt, convertendo-as em Rust Belt, o cinturão de ferrugem, e, simultaneamente, abrir outras na China ou no México, com salários incomparavelmente mais baixos.

Mas isso não foi apenas uma catástrofe social para os trabalhadores e classes médias, mas também para outros capitalistas que não fugiram a tempo. Além disso, do ponto de vista geopolítico, para o Estado e para o imperialismo norte-americano, teve consequências,no mínimo, contraditórias.

Em primeiro lugar, a globalização econômica e financeira proporcionou à grande burguesia imperialista dos EUA – o famoso ”1%” – lucros sem precedentes, mesmo durante a crise. Mas, ao mesmo tempo, enfraqueceu os imprescindíveis alicerces do consenso do Estado e deteriorou suas bases sociais. Isso é o que as recentes eleições refletiram, através dotriunfo muito distorcidode Trump. O descontentamento cresce cada vez mais!

É verdade que os EUA lideraram a “globalização” da produção e das finanças. No entanto, isso os fortaleceu em alguns aspectos, mas não em outros. Em 1945, os EUA produziram em seu território 50% do PIB mundial. Este ano, segundo dados do FMI, medido como PIB nominal, os EUA estaria em 24,5% (World Economic Outlook Database, International Monetary Fund. October 2016). E, medido como PPP (paridade de poder de compra), em 15,6%. Enquanto isso, a China – que em 1945 era nada comparada aos EUA – atinge 15,20%, medido pelo PIB nominal, e chegaria a 17,5%, medido como PPP (“Report for Selected Country Groups and Subjects-PPP valuation of country GDP”, International Monetary Fund, 13-6-16).

E isto não se verifica apenas nos Estados Unidos. Também se aplica à Europa. Quando o Estado imperialista britânico foi social e institucionalmente mais sólido? Quando concentrava na ilha a indústria do Império Britânico, que também rivalizava de igual para igual com a Alemanha? Agora, que se desindustrializou relativamente (apenas 14% do PIB é industrial), a principal “indústria” são os serviços, incluindo em primeiro lugar a roleta financeira da City de Londres. Os “serviços” figuram hoje nas estatísticas com quase 80% do PIB! A quem ocorreria, ademais, nas velhas épocas, propor a separação da Escócia do Reino Unido?

Hoje, as ilhas britânicas e seu estado são atravessadas por uma crise social, com regiões industriais em ruínas, similares ao Rust Belt dos EUA. Seu voto foi decisivo para o triunfo do Brexit, que desencadeou a mais grave crise geopolítica, tanto da União Europeia e como no interior do Reino Unido, em relação à possível separação da Escócia.

E, passando ao continente: o clima de descontentamento e falta de legitimação de todo o edifício comunitário está fazendo desabar a União Europeia. É obra de algum vírus desconhecido? Isso se deve apenas aos imigrantes? E antes que eles chegassem, todos eram felizes? As indústrias floresciam com empregos estáveis ​​e bons salários para todos? Ou os refugiados foram apenas a gota que transbordou o copo do descontentamento pré-existente?

2.4.O surgimento da China como grande potência: um imperialismo em construção

No entanto, estas não são as únicas consequências negativas ou,ao menos, muito contraditórias para os Estados imperialistas tradicionais. As deslocalizações da produção globalizada geraram zonas francas na América Central e no México geopoliticamente “controlável”… pelo menos até agora.

Na Ásia-Pacífico, as coisas têm sido diferentes e mais contraditórias. É que a globalização produtiva foi o mecanismo decisivo (ainda que não o único) para a emergência da China como grande potência, que agora está pisando nos calos dos Estados Unidos. Os investimentos na China e/ou o uso de sua indústria proporcionaram lucros colossais ao capital norte-americano e europeu. Mas isso, simultaneamente, implicou em um enfraquecimento geopolítico em seus Estados e crise social interna.

Com a China, surge-lhes um rival geopolítico cujo tamanho, somado ao “retorno” da Rússia, coloca os EUA cada vez mais longe do “mundo unipolar” governado por Washington, ilusão que, na década de 90, era dado como um fato. E não se trata apenas da China. A Índia também – que além de ser potência nuclear – constitui outro “peso pesado” e uma interrogação geopolítica.

Sobre um ponto específico do cenário da Ásia-Pacífico, analisaremos mais adiante a expansão da influência econômica e geopolítica da China, englobada nas iniciativas da “nova estrada da seda” e outros desenvolvimentos, bem como novas instituições internacionais promovidas por Pequim, paralelamente (e concorrentes) às fundadas pelos EUA no pós-guerra. Veremos também os crescentes atritos com os EUA e outros países da região, com ameaças de confrontos militares, especialmente depois que Obama anunciou o “giro ao Pacífico” para fazer frente ao novo “perigo amarelo”.

Aqui só veremos uma definição da China como Estado. Isto é importante, entre outros motivos, porque setores da esquerda, na América Latina e na Europa, consideram a China mais “progressista” ou, pelo menos, mais “benevolente” do que os EUA e o resto dos velhos imperialismos. Algo parecido, embora com diferentes argumentos, se dá nesses e noutros círculos com relação à Rússia.

A respeito deste tema, ocorreu durante anos uma confusão geopolítica sobre a constituição dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que colocou um falso sinal de igualdade entre Estados muito diferentes.

Parece-nos que a definição mais correta do Estado chinês – e de sua emergência como potência capaz de medir forças com os EUA – é a de Pierre Rousset: “um imperialismo em construção” (ver seu texto “China – Um imperialismo em construção”, jornal Socialismo ou Barbarie Nº 304, 11/09/14). Neste texto, polemiza com razão contra a fábula dos BRICS e dos famosos “Estados emergentes”, que tantas fantasias econômicas, políticas e geopolíticas inspiraram na década passada. Muito se especulou sobre o projeto da associação econômica-comercial das “cinco economias nacionais emergentes mais importantes do mundo”. Na verdade, a única coisa que tinham em comum como estados era sua grande extensão e população (embora a África do Sul nem isso). Mas nem os BRICS, nem o BRIC (sem a África do Sul) confirmaram esses sonhos. O impacto da crise, que começou em 2008, destacou as diferenças.

Além disso, esses países têm sido caracterizados como “sub-imperialistas” uma categoria de certa utilidade cunhada no século passado por Ruy Mauro Marini –teórico da “dependência” – para caracterizar o papel do Brasil na América do Sul sob a ditadura militar nos anos 60, quando era uma espécie de polícia continental, comissário deWashington. Mas é evidente que hoje nem a China nem a Rússia exercem o papel de sub-imperialismos regionais sob o comando de alguma outra potência global.

A burocracia maoísta (reconvertida ao capitalismo) que governa a China aproveitou a colossal oportunidade e, desde os anos 90, converteu-se na “fábrica do mundo”, o que levou a uma verdadeira revolução industrial. Sob as palavras de ordem de Deng Xiaoping, “ficar rico é maravilhoso”, a burocracia tornou-se bilionária, mas isso não significa que se converteu em lacaio sub-imperialista dos EUA, como é o caso (histórico e irremediável)da grande burguesia brasileira.

A chave principal desta diferença é a existência de uma grande revolução, a de 1949, uma das mais importantes do século passado. Não foi uma revolução operária e socialista, e sua burocracia a conduziu, ao final, a um capitalismo com padrões de exploração selvagem. Mas também realizou uma transformação social que varreu a velha burguesia subserviente aos Estados Unidos e outros imperialismos, consumou uma revolução agrária e lançou as bases da independência nacional. É sobre este terreno que a burocracia bilionária se apoiou para erigir a China como segunda potência mundial.

A peculiar formação econômico-social da China, onde uma burocracia governante gerada por uma revolução se “reconverte” em burguesia bilionária é, simultaneamente, a força ea debilidade de seu regime. O marxista chinês Au Loong Yu, ao polemizar com Giovanni Arrighi, em seu livro Adam Smith em Pequim (2007), considera a China e seu regime assim:

As experiências do Ocidente levaram a considerar a burocracia ea classe capitalista como dois grupos sociais diferentes e até opostos. No entanto, na China, a burocracia é a classe capitalista […]. Se o Estado-partido conserva a propriedade dos comandos da economia, não é por causa de qualquer adesão ao ‘socialismo’, como faz entender Arrighi. É simplesmente porque a elite dirigente não tolera abandonar os setores mais rentáveis ​​da economia. […] Mas, por mais hegemônico que seja, o Estado- partido funciona de maneira contraditória. É eficaz para controlar a população, mas perde progressivamente o controle sobre si mesmo. Não pode controlar sua própria voracidade, sua corrupção nem tampouco suas dimensões. O número de funcionários não deixa de crescer, apesar das diretrizes do governo central. Os escândalos são exemplos do lugar da corrupção, que se traduzem em desconfiança e ódio profundo da população pelos funcionários do governo; além disso,  a desintegração do tecido social coloca um número crescente de cidadãos à beira da rebelião” (Au Loong Yu, “Fin d’un modèle ou naissance d’un nouveau modèle ?”, Inprecor, N° 555, novembro 2009).

E, de fato, desde que Au Loong Yu escreveu isso, os chamados “incidentes”, tanto operários como populares, tenderam – com altos e baixos – a se multiplicar. E um caso especial foi a “rebelião dos guarda-chuvas” de Hong Kong.

Com Xi Jinping, que assume o comando do PCC em 2012, há uma tentativa de fazer frente aos desafios internos e externos. Internamente, há uma limpeza anti-corrupção, mas que muito provavelmente não acabará com uma questão que é estrutural e que faz parte do modo de dominação e distribuição da mais-valia no sistema simbiótico de burguesia-burocracia. Externamente, se lança a iniciativa da Nova Rota da Seda, que veremos mais adiante.

 2.5. Rússia: um imperialismo em reconstrução?

A atual natureza da Rússia é também um tema importante de debate como o da China. E com relação a isso, também variam muito os pontos de vista que aparecem na “esquerda” em geral. Enquanto alguns apresentam a Rússia de Putin como um imperialismo completo, no outro extremo, é descrita quase como uma inofensiva semicolônia, qua faz tudo o que pode para se defender dos provocadores da OTAN. “Rússia uma potência imperialista, parte do ‘centro’ do capitalismo global? Ou, dadas as suas características econômicas, sociais e político-militares é identificada como parte da ‘periferia’ ou ‘semiperiferia’ global; ou seja, como um dos países (maioria) que, em maior ou menor grau, são alvos de assédio e pilhagem imperialista?” (Renfrey Clarke e Roger Annis,“The Myth of ‘Russian Imperialism’: in defence of Lenin’s analyses”, Links, 29-2-16).Essa é a pergunta retórca que faz um dos muitos polemistas, cuja opinião é que a Rússia não é “uma potência imperialista.” E remetem-nos a Lênin – em “O imperialismo, fase superior do capitalismo” (1916-17) – e à definição sintética que formula acerca do imperialismo.[7] Nessa definição, evidentemente, a Rússia atual não entra totalmente. Mas tampouco entraria a Rússia czarista da época de Lênin. No entanto, a ninguém da época – nem a Lênin – ocorreria dizer que a Rússia não era um imperialismo, ainda que, obviamente, não era como o Império Britânico, Alemanha, França ou EUA, e apresentava atrasos ainda piores do que os da Rússia atual.  É que a Rússia czarista (e hoje também a Rússia de Putin) tinha uma combinação extrema de desigualdades,de traços econômicos e sociais atrasados e avançados. Em algumas cidades, havia as maiores fábricas da Europa e, em outras regiões, um atraso de séculos, com relações servis ou até tribais no campo. Financeiramente, os czares eram uma semi-colônia dos banqueiros de Paris, enquanto, ao mesmo tempo, imperavam sobre inúmeras nações não russas, etc.! Não é por acaso que foi um russo – Leon Trotsky – quem formulou a “lei do desenvolvimento desigual e combinado”, inspirando-se explicitamente na realidade russa de contrastes extremos e de “amálgama de formas arcaicas e modernas”! A Rússia que emerge após a dissolução da União Soviética em 1991, depois de mais de seis décadas de stalinismo, não era certamente a Rússia dos czares, mas tinha pouco que invejar em termos de “contrastes extremos”, por exemplo, entre uma indústria militar e aeroespacial que rivalizava e, em alguns aspectos, superava os EUA, e uma economia onde os hidrocarbonetos eram ainda a principal fonte de divisas, como o Equador ou a Venezuela. Mas não nos enganemos: no quadro geopolítico do planeta, a Rússia não é a Venezuela nem tampouco o Equador. Os privatistas e os neoliberais extremistas que governaram com Yeltsin levaram a Rússia à bancarrota em 1998. É provável que, naqueles primeiros anos, o caráter da Rússia, inclusive a possibilidade de sua fragmentação, estivessem com pontos de interrogação. Mas a reação nascida das entranhas do aparato do Estado – corporificado em Putin, que fez sua carreira no aparato militar especificamente – impôs um giro bonapartista. De maneira nenhuma, os oligarcas neoliberais que saquearam o Estado foram liquidados. Putin não tem nada de socialista ou anti-capitalista! Mas lhes impôs obediência, juntamente com nacionalizações de certa importância. Aqueles que o desafiaram acabaram presos, no exílio ou no cemitério. Claro que este clima repressivo também sopra para a esquerda … A hostilidade crescente dos Estados Unidos, a OTAN e (de foma desigual) da UE – com provocações como a guerra com a Geórgia (2008), Ucrânia (2013-14) e os destacamentos militares no Báltico e na Polônia – não fez mais do que fortalecer sua imagem no interior da Rússia. Especialmente o da Ucrânia elevou a popularidade de Putin a taxas inalcançáveis para seus colegas ocidentais. A demonstração de força na guerra da Síria, que contrastava com as vacilações dos EUA e das potências europeias, completou o quadro.  De alguma forma, a definição geopolítica da Rússia de Putin é fornecida pelo mesmo Putin. Seu projeto parte explicitamente da reivindicação histórica das Rússias, seus impérios e seus czares, de que se apresenta como continuação e reconstrução. Nesse sentido, para que não restem dúvidas, Putin acaba de erguer em frente ao Kremlin uma estátua monumental deVladimir I, fundador da Primeira Rússia em 988. “Vladimir entrou para a história como o unificador e defensor das terras russas, como um político visionário. Agora nosso dever é nos levantar e enfrentar juntos os desafios e as ameaças modernas, com base em seu legado”, disse Putin ao inaugurá-la. Outros destacados czares que construíram o poder imperial, como Pedro o Grande, também figuram no hagiológio oficial. No entanto, para Putin há uma figura abominável e culpada de todos os males na história da Rússia: Vladimir Lênin. Em janeiro passado, Putin chegou a responsabilizá-lo post mortem pela desagregação da União Soviética: “Colocou uma bomba sob a casa da Rússia, que depois explodiu” (Isabelle Mandraud, “Putin e o desafio de Lenin,” Viento Sur, fevereiro 2016). Qual é esta maldita bomba leninista, que desagregou os domínios da Rússia? O princípio defendido por Lenin (contra Stalin, ao se constituir a URSS) de “auto-determinação dos povos” com “plena igualdade” eo “direito de cada um abandonar a União” (idem). Putin, com toda franqueza, explica que vai na direção oposta. Nesse sentido, seu projecto de reconstrução, enquanto abomina Lenin, reivindica não só a Rússia imperial dos grandes czares, mas também a de Stalin, embora neste caso evite prudentemente personalizar. Para isso, toma um grande fato histórico, a luta heróica e a vitória da União Soviética sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Os desfiles militares monumentais que organiza em frente ao Kremlin, são presididos por dois escudos colossais, o da águia de duas cabeças usado pelos czares e o da foice eo martelo. Mas, como fazia Stalin, este triunfo sobre o nazi-fascismo é esvaziado do seu conteúdo internacionalista: é “a Grande Guerra Patriótica”. Esta reconstrução ou recomposição geopolítica encaminhada por Moscou olha para o Oriente e também para o Ocidente. Expressou-se tanto frente à questão da Ucrânia quanto aos projetos “euro-asiáticos” que estão em curso com a China e vários países da Ásia Central. E é baseado nela que Moscou intervém também decisivamente na guerra da Síria.

  1. Principais pontos de tensões e conflitos geopolíticos no atual cenário mundial

Conforme esclarecemos no início, este artigo foi concluído às vésperas das eleições nos EUA. A mudança de comando do imperialismo norte-americano pode também mudar, em maior ou menor medida, a situação de alguns ou de todos os cenários. Enquanto isso, aguardamos numa espécie de “limbo” geopolítico até a posse de Trump, em 20 de janeiro de 2017.

Atualmente, vemos cinco áreas principais de tensão e de conflitos geopolíticos que se desdobram mundialmente. A primeira é a do Oriente Médio, com suas várias guerras e confrontos diretos ou indiretos entre os Estados. A segunda é a da Ásia-Pacífico, cujos principais protagonistas são a China e os Estados Unidos. A terceira é a da “frente europeia”, com duas expressões: por um lado, o Brexit e a chamada “crise existencial” da União Europeia; por outro, o confronto entre EUA-UE-OTAN versus a Rússia, que hoje tem uma força militar expressiva na Ucrânia. A quarta, na América Latina, que se expressa na crise e naufrágio quase total do bloco “progressista”. A quinta e última abrange os múltiplos conflitos da África-subsaariana eNordeste da África (Chifre da África). 

3.1. Guerras no Oriente Médio depois da Primavera Árabe afogada em sangue

 Dentre esses conflitos geopolíticos, o mais impactante (mas talvez não o mais decisivo em longo prazo) se desenrola hoje no Oriente Médio. Em primeiro lugar, a guerra da Síria (ou melhor, da Síria-Iraque). A derrota da Primavera Árabe dá lugar a guerras civis combinadas com confrontos geopolíticos e intervenções de outros Estados,na Síria, Iraque, Líbia, Iêmen, etc.

Por uma combinação de fatores, que vão desde as operações das diferentes forças reacionárias (tanto locais como das potências imperialistas) até limitações sociais e políticas dos movimentos iniciais, a Primavera Árabe levou a derrotas ou retrocessos de gravidade variável. O pior foi o da Síria, também estreitamente relacionado aos processos político-sociais do Iraque e do Líbano.

Na parte oriental do “Crescente” ou “Crescente Fértil”, as mobilizações de massa que tomaram forças especialmente na Síria durante 2011, foram substituídas por aquilo que poderíamos chamar de “pluri-guerras” ou “multi-guerras”, onde não há simplesmente dois grupos combatendo, duas partes em conflito, mas uma complexa teia de atores diretos ou indiretos, locais ou externos (que trabalham, esses últimos como “sponsors” ou patrocinadores). Falamos de “pluri-guerras” ou guerras “multifacetadas” porque na Síria-Iraque, especialmente, há uma combinação flutuante de diversos conflitos armados que é necessário diferenciar, ainda que às vezes não seja fácil. A principal destas “pluri-guerras” se desenvolveu centralmente na Síria-Iraque, com confrontos que se estendem ou refletem no Curdistão turco e no Líbano.

Uma guerra parecida (embora com outras complexidades) começou também na Líbia após a queda de Gaddafi em outubro de 2011. Depois, no Iêmen, a derrubada do presidente al-Hadi, em setembro 2014, provocou um conflito no qual não só intervieram a Arábia Saudita e outros países árabes (com apoio dos EUA), como também agiram por conta própria e controlaram territórios a Al Qaeda e o Estado islâmico.

No Egito, outro grande epicentro das rebeliões no Oriente Médio, o golpe de Estado militar e a ditadura de al-Sisi impuseram uma pesada derrota que provavelmente não vai durar para sempre, mas que, até agora, não foi superada. Hoje, o regime militar parece estar em um processo de deterioração – tanto por razões econômicas como pela perda de consenso político-social – o que dá lugar, de tempos em tempos, a fortes explosões de protesto. Mas é difícil medir este declínio, embora seja evidente que o apoio inicial a al-SiSi de setores de massas (incluindo a classe operária) foi esvaziado. A ditadura tenta compensar isso com mais repressão.

Na Síria (epicentro, juntamente com o Iraque, dos confrontos armados e também  da situação geopolítica do Oriente Médio), a militarização dos conflitos tirou de cena um movimento de massas populares que não tinha nenhuma maneira de continuar sua revolta, nesse novo terreno, de forma unida e politicamente independente. Isto se agravou qualitativamente porque, diferentemente do Egito, a classe operária e trabalhadora e suas organizações não desempenharam nenhum papel no início da rebelião síria. Tudo foi exclusiva e excessivamente “popular”, com o agravante de que a Síria eo Iraque têm um mosaico étnico e sectário, que inexiste no Egito.[8]

Na época, muitas correntes de esquerda no Ocidente supervalorizaram a tendência à militarização, como se fosse um salto para um nível superior de luta da rebelião inicial. Mas a lição é que, sem fortes organizações políticas revolucionárias ,o passo para a luta armada em uma rebelião de massas, mas também caótica e sem a menor preparação político-militar, não é em si automaticamente progressiva. Pode deixar a porta aberta a situações e fatores muito adversos.

As massas mobilizadas inicialmente por palavras de ordem democráticas elementares foram substituídas por uma guerra caótica de dezenas de aparatos militares, que, em sua grande maioria, não são independentes, mas patrocinados por diferentes Estados regionais (Arábia Saudita, em primeiro lugar, seguida por outros governos do Golfo, Turquia, etc.) e/ou potências imperialistas, com os EUA, que lidera.

As primeiras e dispersas forças de autodefesa dos protestos democráticos, compostas inicialmente por desertores do exército de al-Assad, foram total ou parcialmente dispersas por aparatos militares, em sua maioria islâmicos, com combatentes, em maior ou menor medida, importados e/ou subsidiados pela Arábia Saudita ou outros Estados do Golfo, que, em muitos casos, têm pouco a ver com as populações onde atuam. Uma notável exceção nesse panorama foram as milícias curdas, operacionalmente importantes, mas que não alteraram o cenário global.[9]

Este cenário tornou-se ainda mais complexo com o surgimento do Estado Islâmico, surgido no Iraque, mas expandido na Síria, e alimentado também de jihadistas da mais variada origem, com uma parte notável da Europa Ocidental e da Rússia. Trata-se de uma guerra que terminou abertamente abrangendo dois países (Síria e Iraque) e tem envolvido cada vez mais outros estados.

É que também, do lado do governo de Damasco, outras forças e potências regionais e mundiais foram vindo à tona. O Irã – potência regional que enfrenta a Arábia Saudita – através de seu protegido no Líbano, o movimento Hezbollah, foi o primeiro a intervir principalmente contra os grupos jihadistas. As derrotas infligidas ao Estado Islâmico, que parecia irreprimível, pelos combatentes curdos a partir da batalha de Kobane (janeiro de 2015) e as operações posteriores, já tinham mudado o cenário da guerra.

Mas a grande mudança militar foi determinada pela intervenção direta da Rússia a partir de setembro de 2015. Suas operações principalmente aéreas determinaram uma reversão da guerra que favoreceu o governo de Damasco, sem que isso haja significado que o resultado da batalha esteja já decidido.

Neste giro (que ainda não é definitivo) em favor do regime de al-Assad, pesaram não só as ações militares da Rússia. Também interferiram, contraditoriamente, a magnitude e as consequências da barbárie islamita, que, para muitos, faz a ditadura “laica” de al-Assad parecer como o mal menor. E não se trata só da ameaça do Estado Islâmico e da Frente al-Nusra (Al-Qaeda). Boa parte da chamada oposição “moderada” terminou agrupando-se oficialmente na sombra da Arábia Saudita, o que implica numa definição política e programática de que regime alternativo sustentam frente à ditadura de al-Assad.[10]

Este giro militar desfavorável aos EUA e seus amigos, e especialmente a ameaça do Estado Islâmico, foram fatores decisivos para o início das negociações e da formação do Internacional Syria Support Group (ISSG) [11], com os EUA ea Rússia como co-presidentes. Isto propiciou algumas semi-tréguas na Síria, com negociações paralelas. No entanto, esta alternância de negociações e lutas não chegou,até agora, a uma definição. Neste momento, início de novembro, a sangrenta batalha de Aleppo se apresenta como o terreno onde as coisas serão decididas.

Nas dificuldades em alcançar uma saída negociada, refletem-se os diferentes interesses não só dos protagonistas sírios desta guerra, mas também, fundamentalmente, dos distintos estados mundiais e regionais, que nela intervêm direta ou indiretamente. Vejamos com mais detalhes esta complicação geopolítica.

Em primeiro lugar, como mencionamos, operam belicamente, por um lado, os Estados Unidos e dois de seus parceiros europeus menores, o Reino Unido e França; e por outro, a Rússia. Estas intervenções envolvem operações diretas, como os bombardeios aéreos na Síria e no Iraque, ainda que atuem sem tropas em terra ou com um número limitado de “especialistas”, como a Rússia e os EUA.

Mas, por sua vez, as intervenções estão interligados (ou, melhor, colidem) com as políticas (contraditórias) e os operativos das diferentes potências regionais, como a Turquia, a Arábia Saudita (e outros Estados do Golfo) e Irã. Cada uma delas tem interesses e políticas não apenas diferentes como também em maior ou menor medida contraditórias nessa zona, e também desenvolvem diferentes relações com as potências mundiais.[12]

Mais uma vez, a guerra é a continuação da política por outros meios. E os objetivos geopolíticos de cada uma dessas potências mundiais e regionais estão longe de coincidirem plenamente. Cada uma tem seu próprio programa! Portanto, cada qual faz sua própria guerra. Vejamos caso a caso.

Simplificando excessivamente, podemos dizer que os Estados Unidos queriam derrotar o Estado Islâmico mas também – em primeiro lugar? – tirar al-Assad para impor um governo pró-ocidental em Damasco que, também expulsasse os russos de suas bases navais e aéreas. Os EUA (e seus parceiros da OTAN) exigem a saída de al-Assad por ser um ditador cruel … enquanto sustentam a não menos cruel ditadura de al-Sisi no Egito, a barbárie da monarquia saudita e o genocídio de Israel contra os palestinos.

A Rússia, ao contrário, quer manter suas bases navais e aéreas, e, em geral, seu peso geopolítico na região, até agora ligado à continuidade do regime sírio. Isso inclui manter al-Assad (ou pelo menos o Ba’ath) no governo, e esmagar os islamitas, que são também um problema, tanto dentro da Rússia como nas regiões do sul do Cáucaso e na Ásia Central.

O cenário geopolítico regional é ainda mais complexo, pela maior ou menor perda de controle do imperialismo norte-americano sobre duas potências regionais, Arábia Saudita e Turquia, que hoje fazem em boa medida seu próprio jogo, ainda que sem romper abertamente com Washington. Simultaneamente, Israel também diverge das orientações de Washington sob Obama, principalmente dos acordos com o Irã.

A Arábia Saudita patrocina, na Síria e em outros países, uma variedade de grupos de islamitas ”bons” – que são apresentados como menos selvagens do que o EI ou a Frente al-Nusra (al-Qaeda da Síria) – para substituir al-Assad. Isso poderia garantir-lhe o domínio da Síria e a extensão da barbárie wahabita, variante do Islã sunita consubstancial ao poder da monarquia saudita. Além disso, à Arábia Saudita seria conveniente o colapso do governo de Bagdá no Iraque, por causa de sua estreita relação e dependência do Irã, seu grande rival como potência regional em uma competição convenientemente revestida de fanatismos religiosos: Riad, capital do Islã sunita, versus Teerã, capital política da “heresia” xiita. Esse tem sido um dos pretextos do genocídio no Iêmen nas mãos da coalizão liderada pela monarquia saudita. Para complicar este imbróglio, é preciso acrescentar que os interesses e políticas dos outros estados do Golfo também não correspondem exatamente aos da família Saud.

Na Turquia, o governo de Erdogan deseja, em primeiro lugar, um genocídio dos curdos nos dois lados da fronteira com a Síria. Com esse objetivo, rompeu as negociações de paz com o PKK, que é a principal força política na parte do Curdistão sob domínio turco. Desde então, especialmente depois do fracassado golpe, em julho passado, Erdogan embarcou em uma aventura cada vez mais autoritária, implantando uma repressão brutal contra amplos setores políticos e da intelectualidade que não tinham nada a ver com aquele golpe.

Isso também faz parte de uma concepção geopolítica mais global chamada “neo-otomanista”, que pesa em seu movimento. Ou seja, o sonho de hegemonia regional de Ancara sobre os territórios que faziam parte do Império Otomano, como Síria e Iraque. Em nome desses interesses e projetos, Erdogan, descaradamente, não se preocupou com o Estado Islâmico, pelo menos até recentemente. Facilitou suas exportações de petróleo através da fronteira com a Síria e permitiu que por ela o EI recebesse armas e combatentes. Simultaneamente, operou contra os curdos, uma das poucas forças que provou ser capaz de derrotar o EI.

Ao mesmo tempo, Erdogan veio jogando com outra alternativa geopolítica -contraria ao “otomanismo”- a integração da Turquia na União Europeia, perspectiva que estava em suspenso. A crise europeia dos refugiadosa descongelou relativamente. Por 3.000 milhões de euros, para garantir uma maior abertura das fronteiras da UE para cidadãos turcos, e pela promessa de reabrir as negociações de ingressona UE, Erdogan prometeu conter os refugiados.

Tampouco tem sido um problema para os democratas de Berlim e Bruxelas que Erdogan, além dos renovados massacres de curdos, tenha dado um giro ditatorial, com perseguições crescentes e brutais à imprensa, aos intelectuais e aos partidos de esquerda ou direita que se atrevam a criticá-lo. Seu último passo para o estabelecimento de uma ditadura presidencialista foi o de tentar retirar as imunidades dos parlamentares de esquerda para poder prendê-los “legalmente”.

Este “vai e vem” de Erdogan sofreu mudanças bruscas após a fracassada tentativa de golpe militar em julho. Além de redobrar seu curso ditatorial e repressivo, deu um giro para tecer acordos com a Rússia, com a qual vinha tendo choques graves, como a derrubada de um avião que operava na fronteira com a Síria. Tudo isso pôs em questão tanto os acordos com a UE como suas relações com Washington. No entanto, enquanto abraça Putin, Erdogan restabelece relações com Israel, rompida em 2010, após o sangrento ataque sionista aos barcos turcos que levavam ajuda humanitária à Gaza. E fez isso sem que Israel satisfaça a reivindicação de suspender o bloqueio de Gaza.

O Irã, por sua vez, apresenta, como uma potência regional, interesses contraditórios, em especial com relação à Arábia Saudita. Apoiando-se em sua condição de metrópole da outra grande corrente do Islã, o xiismo, o Irã ampliou sua influência político-militar no Iraque, Síria e Líbano. No Iraque, após a invasão de Bush em 2003 e o início da resistência, os EUA tiveram, como eixo de sua política, que estimular os enfrentamentos sectários de xiitascversus sunitas, que “de quebra” favoreceram o Irã. Esta situaçãocse agravou, ainda mais, depois da “retirada” das tropas dos EUA em 2011, deixando um governo sectário-xiita que aprofundou o apartheid com assassinatos, violações e pilhagens da população sunita. Neste forno, se cozinhou finalmente o Estado Islâmico.

O desmonte inicial do corrupto “exército” iraquianocdiante do EI obrigou a uma recomposição política e militar, procurando uma maior inclusão, embora nela se conserve a hegemonia dos partidos e setores religiosos relacionados ao Irã.

Assim mesmo, no Líbano, a derrota, em 2006, da invasão de Israel pelo partido-exército xiita Hezbollah foi mais um triunfo de grande importância geopolítica que favoreceu o Irã. Agora, na Síria, o Hezbollah tem desempenhado um papel importante na luta em favor do regime de al-Assad, sustentado por Teerã.

Finalmente, o Irã, ao assinar o acordo nuclear com as potências do P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China + Alemanha), acabou com as sanções que castigavam sua economia e o fortaleceu como potência regional.

Em resumo: Como se podem unir estes distintos atores geopolíticos, com interesses, em mais ou menor medida, opostos (ou, pelo menos, diferentes) para enfrentar seriamente o Estado Islâmico? O aspecto caótico do cenário da Síria, do Iraque e seus vizinhos tem a ver, em parte, com estas múltiplas discórdias.

O Oriente Médio combina também outros problemas geopolíticos de grande importância, ainda que hoje apareçam em segundo plano diante da Síria-Iraque. Em primeiro lugar, o do enclave colonial que é Israel, que é outra bomba-relógio geopolítica.

Hoje, as correntes políticas majoritárias em Israel abandonaram há muito tempo a farsa das “negociações pelos dois Estados”. A política de “limpeza étnica” se aplica mais do que nunca em Jerusalém e na Cisjordânia, onde se redobraram os despejos forçados de famílias palestinas para transferir suas casas e campos aos colonos sionistas. E em Gaza, o bloqueio, vigiado também pela ditadura do Egito, está levando a população a uma situação desesperadora sob todos os pontos de vista: alimentação, habitação, saneamento, provisão de água, etc.

Além disso, Israel é uma potência nuclear conduzida politicamente por setores racistas tão demenciais como provincianos(o que é comum nas experiências coloniais, desde a África do Sul “branca” até a Argélia “francesa”). Israel se habituou – já como norma – a promover periodicamente um banho de sangue que alinha sobretudo a “frente interna”. Esta situação – potencialmente perigosa – se agrava pelos relativos e crescentes deslocamentos no cenário geopolítico mundial. Washington já não é o árbitro final, o “super-imperialismo”, que punha ordem no mundo e também em seu próprio campo.

3.2. Tambores de guerra na Ásia-Pacífico: China versus EUA-Japão

Outra área do planeta onde os confrontos geopolíticos estão na “ordem do dia”- embora sem derramamento de sangue – é o da Ásia-Pacífico. Ali, sem muito barulho, como no Oriente Médio, ocorre o confronto geopolítico mais importante e profundo do século XXI. Este confronto – ainda que tenha como epicentro a Ásia-Pacífico – é muito menos “regional” do que os do Oriente Médio, e tem consequências mais diretamente globais. Mas, ao mesmo tempo, faz menos “ruído” do que o do Oriente Médio, porque este confronto é ainda potencial em nível militar. Até agora não foi disparado um só tiro, muito menos um míssil. Os principais antagonistas são China e Estados Unidos (seguido, de perto, pelo Japão). Cada um tem seu séquito de acompanhantes com distintos graus de fidelidade e compromissos (inclusive há vários que tentam colocar um pé em cada lado!). Isso se exacerbou depois do “giro ao Pacifico”, a reorientação geopolítica anunciada por Obama no final de 2011. A reorientação pretendia substituir a malfadada aventura dos Bush e dos “neocons”, a tentativade colonizar diretamente o “Grande Oriente Médio”, que foi iniciada com as invasões do Afeganistão e do Iraque.[13]  Para os EUA, o núcleo geopolítico do “giro ao Pacífico” é o enfrentamento com a China, o que pode levar a conflitos de alcances mais amplos e de consequências muito mais graves do que as atuais do Oriente Médio. Isto inclui um conjunto de medidas, em primeiro lugar militares: mais de 60% da frota dos EUA mudaram-se para o Pacífico, e estão sendo construídas mais bases norte-americanas nas Filipinas, Austrália e outros países. Mas há também medidas políticas e econômicas, tais como o projeto de acordo do livre comércio TPP (Trans-Pacific Partnership). Em nível militar, isso implica um destacamento bélico em ambos os lados, de dimensões sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, já que inclui, como dissemos, o rearmamento do imperialismo japonês como aliado número um dos Estados Unidos. Sob seu atual governo de direita, o Japão abandonou a linha do “pacifismo” e de forças armadas “defensivas”, que foi sua política de Estado desde a pós-guerra. Ao mesmo tempo, a China está fazendo um giro não menos radical, composto por um leque de operativos políticos, econômicos e militares. Além de iniciar um vasto programa de reestruturação militar, que a transformará de potência terrestre-defensiva em potência marítima-ofensiva (como são os EUA ou o que foi o Império Britânico), a China iniciou vários projetos gigantescos financeiros eeconômicos globais. Para estender seus braços sobretodo o mundo – e, em primeiro lugar, sobrea a região Ásia-Pacífico-Índico em direção à Europa -, a China começou por fundar novas instituições financeiras globais como a Asian Infrastructure Investment Bank (em paralelo ao Banco Mundial), o New Development Bank (onde está associada à Rússia, Índia, Brasil e outros países) e o New Silk Road (Fundo para a Nova Rota da Seda). Este último diz respeito a um projeto estratégico chave de expansão de sua influência, tanto econômica e financeira, quanto política e militar. A antiga “rota da seda” era terrestre[14]. A nova combina diferentes “traçados”, por terra e por mar, o que a amplia significativamente de Norte a Sul, abarcando desde a Rússia até a África, o Oceano Índico e o Pacífico. Estas rotas definem, respectivamente, dois operativos distintos de desenvolvimento: o do Silk Road Belt Economic Belt e o do Maritime Silk Road. O primeiro tem a ver com as rotas por terra; o segundo, com as vias marítimas, o que inclui também bases, ilhas artificiais e portos sob seu controle. Assim, na Grécia, a COSCO, colossal empresa estatal chinesa de transporte de containers, apoderou-se do estratégico porto do Pireu, a partir do qual se pode chegar rapidamente a toda a Europa. A “nova rota da seda” visa não só ao comércio com a Europa (tembifurcações também para a África e América Latina), mas também conseguir, ao longo destas rotas terrestres e marítimas, clientes e/ou parceiros em diferentes empresas e projetos produtivos ou de infra-estrutura, com diferentes graus de compromisso, tanto em nível estatal como privado. Com o Irã, por exemplo, Xi Jinping assinou, em janeiro passado, “acordos de cooperação” em 17 campos diferentes. Porém, ao embarcar no avião, não regressou diretamente à China, mas desceu na Arábia Saudita (o arqui-inimigo de Teerã), onde fez negociações similares, que incluiram também outros países do Golfo. Neste contexto, a China também vem desenvolvendo laços com a Rússia que parecem estar crescendo, e não apenas economicamente. Eles vão desde a construção da monumental ferrovia recém-inaugurada de quase 6.000 km (para comparar, lembremos que a distância entre Nova York e San Francisco é de 4.200 km) e Harbin-Ecaterimburgo (de onde se conectam a redes de ambos os países) até diversos acordos (como a “Aliança Energética” desde 2014). Esta Aliança é uma alternativa frente aos mercados europeus, que criaram problemas para a Rússia, as sanções do Ocidente em função da Ucrânia. A China assinou também acordos milionários de compra de armamentos, especialmente caça-bombardeiros e mísseis, áreas nas quais a Rússia rivaliza em condições de igualdade com os EUA. No início de 1996, a Rússia e a China formaram a Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Esta entidade agrupa também – com diferentes graus de compromisso (membros plenos, observadores, convidados, etc.) – outros Estados, como as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, Irã, etc. A OCX tem ainda uma seção militar, ainda que esteja a anos-luz de ser algo comparável à OTAN. A Rússia e a China realizaram, por exemplo, exercícios militares conjuntos. Recentemente, a frota russa do Pacífico e a de Pequim fizeram, pela primeira vez, exercícios conjuntos no Mar da China Meridional, zona disputada, onde os EUA questionam a soberania chinesa e desencadeiam incidentes periodicamente. No entanto, embora as políticas internacionais da Rússia e da China tendam a uma convergência, não são exatamente as mesmas. Enquanto a Rússia na Síria bombardeia os islamitas patrocinados, em sua maioria, pela Arábia Saudita; Xi Jinping viaja simultaneamente a Teerã e a Riad para fazer negócios, no projeto da ”Rota da Seda”. O notável giro militar da China aponta fundamentalmente em outro sentido: em primeiro lugar, para a Ásia-Pacífico e, em especial, para o domínio dos mares adjacentes ao seu território, pelos quais circula mais de 40% do comércio mundial. Neste contexto, a China quer, acima de tudo, equilibrar ou superar o poder bélico dos EUA na região. Para isso, está fortalecendo rapidamente sua marinha e aviação, além de estar construindo bases nas várias ilhas e recifes dos mares da China, cuja soberania está em disputa. No Mar da China Oriental, são disputadas as ilhas Diaoyu (reivindicadas pelo Japão, que as denomina Senkaku), e no Mar da China Meridional, as ilhas Spratly e as Paracelso, reivindicadas pelas Filipinas e Vietnã. Isto não só incentivou essas disputas entre os países da zona, mas também estimulou provocações militares sistemáticas dos EUA.[15] O domínio militar desses mares costeiros ou vizinhos é o objetivo imediato. Mas isso significa, como dissemos antes, uma mudança militar radical: passando de potência militar terrestre a marítima, o que revela algo muito além de seus limites costeiros.

Isso reflete mudanças mais globais nas relações de força. Inicialmente, na época maoísta, a postura era defensiva, baseada nas dimensões do território da China – um país-continente – e no número de sua população, que permitiaarregimentar enormes exércitos, mas que não podiam ir muito além de seu território. Isso desanimava só um hipotético invasor terrestre. Enquanto isso, os mares da China, do Mar Amarelo até o Mar da China Meridional, eram controlados por porta-aviões da frota norte-americana, e o mesmo ocorria em todo o Pacífico.

Agora, isto é intolerável para a China, segunda potência econômica mundial, com planos de expansão global, como já foi explicado. O giro para potência marítima inclui a construção de mais porta-aviões e de uma frota de submarinos, e o desenvolvimento de várias ilhas artificiais e bases militares, que isolam seus mares costeiros.

No entanto, a distância entre a China e os EUA como potências marítimas é ainda colossal. Os EUA não só levam enorme vantagem no número de porta-aviões, como também, de forma geeral, em tecnologia. Mas a China está encurtando estas distâncias. Anunciou, por exemplo, um novo míssil – o Dong Feng-21D-, chamado “assassino de porta-aviões”. Supostamente, a partir de 1.500 quilômetros, é capaz de atingi-los e afundá-los. Além disso, desenvolveu um caça dos chamados “de quinta geração”.

Contudo, a presença militar chinesa já não se reduz a seus próprios mares. Simultaneamente, começou a instalação de sua primeira base militar no exterior, em Djibouti, no Chifre da África, de onde controla a estratégica entrada para o Mar Vermelho e, portanto, as rotas marítimas para a Europa. Instalou-a perto da antiga base dos EUA. Os uivos de protesto de Washington não comoveram o governo de Djibuti, que hoje é apenas um dentre a extensa clientela de Pequim na África.

Claro, isso é ainda incomparável às centenas de bases dos EUA e da OTAN em quase todo o planeta. Mas a expansão econômica global desenvolvida pela China, bem como os vários operativos de diferente natureza incluindo os projetos das “rotas da seda”, estão anexando elementos militares, especialmente em regiões consideradas “inseguras”, como a África ou o Oriente Médio.[16]

Consideramos que, há aproximadamente sete anos, a China é o principal parceiro comercial da África. Em 2014, seus intercâmbios chegaram a 210.000 milhões de dólares. Os investimentos diretos chineses multiplicaram-se por trinta em uma década, e mais de 2.500 empresas chinesas fazem negócios na África, em setores como finanças, telecomunicações, energia, manufaturas, agricultura e extração de matérias-primas.

Embora tenham respondido, desde o final de 2011, com o “giro ao Pacífico”, os EUA ainda precisam assegurar a eficácia e a magnitude deste giro. Especula-se que os EUA não podem sair ainda do pântano do Oriente Médio, para se dedicarem então plenamente ao novo eixo de confronto com a China. Os acordos com o Irã ajudaram, mas não resolveram tudo para os EUA na região. Além disso, é evidente que os EUA não conseguiram uma sólida “frente única” anti-chinesa, comparável à coalizão do Ocidente contra a União Soviética após a Segunda Guerra Mundial.

O imperialismo japonês é, por razões óbvias, o parceiro mais fervoroso na cruzada contra Pequim; engtretanto, até os aliados incondicionais dos Estados Unidos, como Coreia do Sul, preferem ser cautelosos e manterem, ao mesmo tempo, boas relações com China.[17] Outro caso ainda mais decepcionante para Obama foi a adesão imediata do Reino Unido – o mais próximo aliado histórico de Washington – ao Asian Infrastructure Investment Bank, rival chinês do Banco Mundial gerido pelos EUA. Os uivos de raiva em Washington pela deslealdade da “pérfida Albion” foram ouvidos em todo o mundo. Até mesmo a Austrália, importante membro da TPP, optou por ter um pé em cada canoa e se juntou ao AIIB.[18]

Outro exemplo da “variação do pêndulo” vem do Afeganistão e Paquistão, região estratégica para a rota da seda e para o domínio do Oceano Índico. Após a retirada da União Soviética do Afeganistão (1989) e de Bush invadi-lo, em 2001, a região do Afeganistão-Paquistão tornou-se território sob a única e incontestável hegemonia dos Estados Unidos, ainda que, com essa invasão irresponsável de 2001, tenha começado também o seu relativo declínio. Agora é a China que está pisando duro lá.

Isso se deve a alguns gigantescos empreendimentos chineses nos dois países, mas principalmente, no Paquistão, todos relacionados aos projetos da “Rota da Seda”. Por exemplo, a iniciativa de um” corredor sino-paquistanês” – composto por rodovias, trens e oleodutos – que, partindo do leste da China atravessará o Paquistão até Gwadar, antigo porto no Mar de Omã ou Mar da Arábia (no Oceano Índico). Lá, a China está construindo um novo e enorme porto.

Outros giros notáveis acabam de ser dados nas Filipinas e Malásia. Os dois países reivindicam o Mar da China Meridional, onde a China constrói suas ilhas artificiais e há frequentes incidentes navais e aéreos com os EUA. Mas, surpreendentemente, no final de outubro e novembro, os dois governos fizeram sua “peregrinação” a Pequim e juraram amizade e lealdade à China, virando as costas, ostensivamente, aos EUA.

O aspecto mais grave disso – como fato e como sintoma – é o das Filipinas, domínio colonial dos EUA desde o final do século XIX, quando foram instaladas várias das principais bases militares dos Estados Unidos no Pacífico. Em seu retorno da China, Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, exigiu a retirada das forças militares dos EUA, no prazo de dois anos.

Em suma, com todas as contradições e complexidades, a geopolítica da Ásia-Pacífico está marcada pela ascensão da China e pelo confronto com os EUA em virtude dessa ascensão.

Hoje, a grande questão é quais desdobramentos geopolíticos decorrerão da crise que se manifesta na economia chinesa. É difícil prever, tanto em nível estritamente econômico-financeiro como no âmbito político e geopolítico. Os dados “oficiais” da economia chinesa são duvidosos. É muito provável que as coisas sejam piores do que Pequim reconhece. Mas isso não significa, automaticamente, que as iniciativas expansionistas das”Rotas da Seda” e outros planos ousados se ​​desacelerem, incluindo os aspectos político-militares que, em última instância, são o componente número um dos confrontos geopolíticos. Em vez disso, podem receber mais impulso.

É que muitas vezes na história as classes dominantes, com seus governos e estados, respondem à crise e aos problemas internos por intermédio de operações de expansão econômicas, políticas e militares no exterior. As dimensões da China como segunda potência mundial – com uma economia para qual é imprescindível a expansão em dois sentidos, de ida e de volta – torna difícil conceber uma tendência de fechamento em si. O principal obstáculo a isso seria se a crise econômica produzisse explosões e lutas sociais e políticas em grande escala, especialmente,se protagonizadas pelo imenso proletariado chinês, o mais numeroso e jovem do mundo.

3.3. O Brexit, a Ucrânia e as rachaduras no projeto da União Europeia.

A Europa apresenta uma agudização das tensões geopolíticas, inéditas desde a queda do Muro de Berlim e a desintegração da Iugoslávia, que tiveram sinais diferentes dos atuais. Na região, duas posições controversas se destacam hoje.

Na primeira linha está o Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia, resultado do referendo de 23 de junho passado. Este fato revela uma crise que abarca o conjunto da UE como tal. A isto se somam outras rachaduras que apontam para rupturas potenciais nos estados europeus, entre os quais a Escócia em relação ao Reino Unido, Catalunha a respeito do Estado espanhol, Flanders a respeito da Bélgica,etc.

Além disso, na Europa há uma outra frente de tensões geopolíticas que se expressam na crise, a secessão e a guerra civil na Ucrânia, que faz parte de uma operação geopolítica mais ampla, estimulada principalmente por Washington: o cerco militar dos EUA-UE-OTAN contra a Rússia . Isto envolve diretamente – como “carne para canhão” real ou potencial – uma quantidade de estados menores, em um arco que se estende do Mar Báltico ao Cáucaso, e onde a Ucrânia vem sendo a principal vítima.

O Brexit e a crise da União Europeia

O relativamente inesperado Brexit é um fato de grande importância. Mas, precisamente por isso, há que se demarcar seus limites. É que, inicialmente, motivou caracterizações “catastrofistas” e desmesuradas. Marine Le Pen -por exemplo –a definiu como “de longe, o maior evento histórico que se conheceu em nosso continente desde a queda do Muro de Berlim”. Definições como essa se repetiram na Europa e no mundo. A queda do Muro em 1989 e sua consequência quase imediatamente, a dissolução da União Soviética em 1990-91, marcaram uma mudança mundial de época. Finalizou todo um ciclo histórico, que o marxismo definiu como de “crises, guerras e revoluções”, iniciado com a Primeira Guerra Mundial 1914-18 ea Revolução Russa de 1917. Uma de suas gigantescas consequências é que, a partir daí, se inicia a restauração do capitalismo em todos os Estados supostamente “socialistas” do planeta[19], incluindo, por exemplo, a China e o Vietnã, que não tinham nada a ver diretamente com a queda do Muro de Berlim. Outra consequência, não menos importante, foi o desaparecimento do Estado soviético, que, durante todo esse período, havia desempenhado um papel mundial de liderança, ainda que extremamente contraditório. Como dissemos, a separação do Reino Unido da União Europeia é, indiscutivelmente, um fato de suma importância. E, além disso, não é apenas uma disputa entre o Estado e a União Europeia. Indica uma crise grave,”existencial” da UE, com perda de legitimidade e de consenso na Europa, mas suas consequências últimas (e suas dimensões) ainda estão por se ver.  O primeiro aspecto a se considerar é que a campanha para que o Reino Unido rompesse com a União Europeia teve a hegemonia de setores de direita e extrema-direita. O eixo de propaganda da campanha foi a advertência sobre as “hordas de imigrantes selvagens ”africanos, poloneses e romenos » que invadiriam o Reino Unido por causa da UE. Essas hordas não só eliminariam os postos de trabalhos dos britânicos, mas também “colocariam as mulheres britânicas diante do perigo de violações em massa” (como disse Nigel Farage, líder do UKIP, às vésperas do referendo). Foi uma campanha demagógica, que explorou medos e percepções relacionados à deterioração das condições de vida de amplos setores de trabalhadores, atribuindo-a aos imigrantes e não ao verdadeiro culpado, o grande capital. Também questiona a globalização, mas de um ângulo nacional imperialista e protecionista, que procura exaltar a “glória perdida” do Império Britânico (um ângulo similar ao que Trump adotou nos EUA, para que o imperialismo norte-americano recuperasse sua “grandeza nacional”). Em síntese: o Brexit é uma ruptura com a União Europeia… mas pela direita, não pela esquerda. É verdade que no voto para sair da UE (como também no voto por permanecer) entraram outras razões, diversas daquelas que as campanhas oficiais do “Leave” e do “Remain” apregoaram. São motivações contraditórias e opostas a essas campanhas oficiais. Por exemplo, o repúdio à austeridade e às privatizações, que são a “marca de fábrica” da União Europeia. Também a rejeição ao governo conservador de David Cameron, que era o chefe da campanha para permanecer na UE e que tem um recorde de ataques aos trabalhadores. Mas esses motivos ficaram difusos.

Para compreender melhor estas contradições, é necessário comparar o referendo do Brexit com o realizado na Grécia, em julho de 2015, cujo resultado foi o categórico “Não” ao plano de austeridade que a União Europeia e a Troika pretendiam impor. Um plano que, entre outros, estabeleceu abertamente um protetorado colonial Berlin-Bruxelas sobre o país. Se, a partir dali, fosse a um “Grexit”, teria sido uma ruptura com a União Europeia, mas pela esquerda. Ou seja, oposta à do Reino Unido. Teria tido também um impacto sobre o conjunto da UE, mas em sentido contrário ao Brexit, um impacto para a esquerda.

A traição de Tsipras e do Syriza, ao capitular à Troika, não só impediu isso, mas também gerou internacionalmente desmoralização e desorientação da oposição, tanto frente aos planos de austeridade como frente à miséria que vinha crescendo na Europa.

É um fato que a vitória do Brexit provocou uma comoção europeia e mundial. Fortalece as tendências para a desagregação da ordem mundial erguida nas últimas décadas. E isso não é apenas um problema britânico: o Brexit é uma bomba continental. É a União Europeia como um todo que é questionada. O Brexit só reflete a crise e a deslegitimação global em dois aspectos fundamentais.

O primeiro aspecto é que a UE é uma instituição dedicada a aplicar essencialmente políticas neoliberais de privatização e de austeridade contra os trabalhadores, as massas populares e a juventude. Trabalha exclusivamente para o benefício do capital financeiro e das grandes corporações, sendo, em primeiro lugar, os bancos alemães e franceses. O segundo é o caráter profundamente anti-democrático da UE. O “Parlamento” europeu é apenas uma farsa sem qualquer poder. Esse “Charlamento” existe para dissimular que altos funcionários escolhidos a dedo por esses poderes discretamente resolvem tudo.

Já é visível, cada vez mais, a irritante hierarquia de Estados: a Alemanha ordena e comanda, assistida pela França, que são os dois principais imperialismos continentais. Abaixo, estão as nações como a Grécia, cuja relação com a UE é a de protetorado colonial. E a distância entre os dois extremos cresce. Os de baixo, além de estarem na miséria, perderam suas soberanias nacionais, mas não para serem parte de uma suposta “soberania europeia”, mas para obedecer o que ditam os políticos e os banqueiros alemães e franceses a partir de Berlim e Bruxelas.

Estamos agora diante da deslegitimação e da crise mais grave dessas criações dos imperialismos europeus, que tem início com a fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) em 1950-1951, do Mercado Comum Europeu (CEE) em 1957, e, finalmente, de sua sucessora, a atual UE. De acordo com pesquisas, num eventual referendo, ganharia o voto de ruptura total ou parcial.

Diante desta crise, é imperativo que a esquerda socialista e revolucionária europeia defenda um programa independente. Há de se descartar as utopias de “reformar” a UE, mas também evitar as alternativas de direita, de retornar à total fragmentação dos estados nacionais. A crise da UE volta a colocar a atualidade do programa de “Estados Unidos Socialistas da Europa” ou da federação socialista.

A guerra da Ucrânia: EUA, UE e OTAN contra Rússia

Outra questão crucial é a da frente europeia no confronto EUA-OTAN com a Rússia. Aqui, a UE e seus Estados – inclusive “os que mandam” em toda a Europa, como a Alemanha – desempenham um papel extremamente subordinado a Washington.

O crescente confronto com a Rússia tem sido descrito por alguns como a “nova Guerra Fria”. Esta definição aponta para características semelhantes – por exemplo, Washington vs. Moscou -, mas tem o perigo de negligenciar as diferenças estratosféricas com a verdadeira Guerra Fria, do Pós-Guerra.[20]

Este confronto reflete, acima de tudo, que os EUA (juntamente com imperialismos europeus de diversas matizes, unidos na OTAN) tinham e têm como norte impedir que a Rússia volte a levantar a cabeça, recuperando, em maior ou menor medida, o peso geopolítico da antiga União Soviética.

Claro, a atual Rússia de Putin está longe disso. Mas, se comparada, não com a ex-URSS em momentos altos, mas com a ruína quase semicolonial dos tempos do alcoolizado Boris Yeltsin, há de se concluir que conseguiu uma recuperação notável como potência mundial e regional. Na verdade, na Síria, os EUA tiveram de engolir vários sapos, e aceitar tratar o Kremlin de igual a igual.

No âmbito europeu, o caso da Ucrânia marca o confronto mais retumbante nessa região. Mas é só um último elo do cerco geopolítico e militar que os EUA ea OTAN foram formando ao redor da Rússia, do Báltico ao Cáucaso, imediatamente após o colapso da URSS.

O caso da Ucrânia também é um exemplo de como duas rebeliões populares – a primeira em Kiev e a segunda no Leste -, ambas com motivos inicialmente legítimos, foram finalmente controladas e enquadradas por forças políticas superiores afinadas com o imperialismo norte-americano e Moscou, respectivamente, uma vez que não existiam outras alternativas.

Como observado anteriormente, depois da dissolução da União Soviética em 1991, foi ignorada a solene promessa dos EUA à Rússia de que não tentaria estabelecer um cercomilitar da OTAN. Contudo, essa foi a política sem variações de Washington: formar e estender esse cerco, apesar de, por longo tempo, não só sob Yeltsin, mas também sob Putin, o Kremlin inicialmente tentou evitar o confronto com os EUA, cedendo e cedendo. Apesar disso, o cerco militar foi estendido do Báltico ao Cáucaso, na maioria dos casos mediante a incorporação à Otan de estados próximos ou fronteiriços (como a Polônia, a Romênia, etc.), e a instalação de bases de mísseis que apontam provocativamente para o coração da Rússia.

Nem a carta de intenção, que inicialmente os sucessivos governos russos fizeram, nem as desastrosas aventuras coloniais de Bush no Oriente Médio, suspenderam esse operativo de assédio. Assim, em 2008, Washington encorajou Mikhail Saakashvili – um aventureiro corrupto georgiano-americano que tinha conseguido assumir a presidência da ex-república soviética da Geórgia – a iniciar provocações bélicas contra a Rússia. Em poucos dias, isto terminou em uma catástrofe militar para os georgianos.

O caso da Ucrânia foi muito mais grave. Na inicial rebelião popular em Kiev, setores principalmente de jovens e de classe média da capital foram rapidamente cooptados: na base, pela militância de direita, e por cima, pelos políticos subordinados aos EUA. Entraram para a história as difundidas gravações telefônicas de Victoria Noland (responsável pelos Assuntos Europeus no Departamento de Estado), ditando a seus fantoches de Kiev a política e a composição do futuro governo “ucranianas”, e referindo-se à União Europeia e seus governantes em termos obscenos e depreciativos por vacilarem no confronto com Moscou.

Mas a política desses fantoches de Kiev – como a tentativa de proibir o idioma russo e, em geral, a hostilidade para com a Rússia – atingiu cerca de metade, ou mais, da população do país, a que vive no leste da Ucrânia, é russófona e deseja mais a união com a Rússia do que com a UE. Isso possibilitou a Moscou, apoiando-se nesses setores, recuperar a Criméia, e, no leste da Ucrânia, desencadear uma segunda rebelião pela ruptura total ou parcial com Kiev e pela aproximação à Rússia. A guerra civil que se seguiu não terminou ainda, apesar das sucessivas negociações e “tréguas”. Continua em câmara lenta, prolongando uma situação que “não é de paz nem de guerra”.

Simultaneamente, isso levou não só à divisão, de fato, da Ucrânia, mas também à ruína de suas duas partes. Um economista ucraniano (pró-ocidente) resume, em poucas palavras, o panorama visto a partir de Kiev: “desindustrialização, degradação e despovoamento”, em um quadro de corrupção escandaloso (“A corrupção e a crise econômica ameaçam desmoronar a Ucrânia”, El País, 15- 2-16).

O que interessa ressaltar são algumas consequências geopolíticas. A linha de cerco, provocações e, finalmente, sanções impostas pelos EUA e acatadas pela União Europeia, longe de colocarem a Rússia de joelhos, levaram o Kremlin, sob Putin, a abandonar as políticas de conciliação a todo custo.[21] Melhor dizendo, em meio a uma grave crise econômica alimentada pela queda dos preços do petróleo, a linha de auto-afirmação do Estado russo se fortaleceu, em um cocktail estranho no qual se misturam a exaltação do Império dos czares, da Igreja Ortodoxa Russa, do regime de Stalin (juntamente com o categórico repúdio a Lenin) e da vitória na “Grande Guerra Pátria” contra a Alemanha nazista.

Finalmente, é provável que, sem a colisão geopolítica da Ucrânia, Putin teria pensado duas vezes antes de intervir na Síria, o que obrigou os EUA a buscarem uma saída política, tratando-o de igual para igual.

Além disso, as sanções econômicas impostas pelo Ocidente não conduziram à rendição de Moscou, mas ao giro à China. A dependência da União Europeia com relação à venda de petróleo russo se revelou geopoliticamente perigosa. Portanto, desde a crise da Ucrânia, Moscou está fechando acordos de venda com a China, substituindo a Alemanha como principal comprador.

3.4. América Latina: crise e naufrágio do bloco “progressista”

Na América Latina, particularmente na América do Sul, as crises econômicas e políticas na Venezuela e em outros estados, o escandaloso processo “destituinte” do Brasil, e a ascensão, em Buenos Aires, de um governo neoliberal raivoso que se proclama abertamente servo de Washington, abrem a oportunidade para que os EUA tentem restaurar a submissão dos anos noventa. Isso não só preocupa as relações de cada um dos estados com o amo do Norte, mas também põe em causa vários agrupamentos e instituições latino-americanos, como o Mercosul, a CELAC (Comunidade de Estados da América Latina e Caribe), a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), etc., que expressam -muito timidamente – pretensões a uma maior independência dos EUA.

É óbvio que os EUA desejam liquidar o Mercosul – como, em dado momento, tentou George W. Bush com relação à ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e fracassou – e desejam também que seus membros adiram à Trans-Pacific Partnership (TPP, que, com Trump, pode ser liquidada). O mesmo se aplica em relação à CELAC, nascida em 2010, no auge da influência do chavismo e dos governos “progressistas” latino-americanos. Ainda que a CELAC esteja longe de ter enfrentado a sério o imperialismo americano, tem um pecado de nascença: nela, não participam os EUA ou o Canadá. Só a sua existência já é um fato “preocupante”. Por isso, os EUA desejariam voltar à “normalidade”, isto é, ficar apenas a tradicional OEA (Organização dos Estados Americanos), com sede em Washington, que tem sido (com nomes diferentes) seu ministério das colônias desde o final do século XIX.

As crises econômicas e políticas que derrubaram ou enfraqueceram, em maior ou menor medida, os governos “progressistas” se inscrevem em alguns denominadores comuns. Estes incluem o fim do ciclo de bonança dos preços das matérias-primas (commodities) e, acima de tudo, o fato de que nenhum destes governos, de Chavez a Lula, passando pelos Kirchner, aproveitou a oportunidade para capitalizar e revolucionar sua matriz produtiva típica de países dependentes, ou, ao menos, tomar medidas preventivas contra uma queda. E, claro, isto sem falar de uma mudança real, revolucionária, do sistema social.

No âmbito geopolítico, isto tende agora a agravar a dependência ea submissão desses Estados frente ao imperialismo americano, em primeiro lugar. No entanto, o panorama não chega a ser inteiramente monocolor, como nos anos noventa. Em algumas situações, o pêndulo pode começar a se mover na direção oposta. É que tudo é qualitativamente mais instável do que nos anos noventa, a década de glória da contra-revolução neoliberal. Este poderia ser o caso da Argentina, com Macri. E é possível que o Brasil vá no mesmo caminho, haja visto os personagens que depuseram Dilma Roussef e as medidas econômicas e políticas brutais que começam a ser aplicadas. O pior, o mais desfavorável e com repercussões mundiais, é o caso da Venezuela. O regime chavista – que apareceu falsamente como o mais “progressista”, “revolucionário” e até mesmo “socialista” – é o que levou à situação mais catastrófica. Até o momento, com prudência, o imperialismo norte-americano está deixando apodrecer, embora apoiando, mediática e financeiramente, a oposição de direita, que já ultrapassa eleitoralmente o desgastado presidente Maduro. É que um intervencionismo demasiado direto e aberto poderia ativar os anticorpos anti-imperialistas na Venezuela e no continente. Além disso, a Washington, bem como aos governos e às burguesias europeias, convêm o espetáculo trágico e grotesco do desastre do chavismo. Graças a Maduro, os imperialismos do Ocidente conseguiram montar na mídia uma reprise do “fracasso do socialismo”, a tragédia protagonizada por Gorbachev e Yeltsin que, no final dos anos oitenta e início dos noventa, liquidaram a União Soviética. Mas a reprise toma a forma de uma obra grotesca de Valle-Inclán. Agora, o fracasso da Venezuela – embora de muito menor envergatura do que o desmonte da União Soviética-é usado no mesmo sentido. Assim, nas reiteradas eleições espanholas, o desastre do “socialismo” na Venezuela foi um dos principais temas de campanha da direita conservadora (PP e Ciudadanos) e social-liberal (PSOE).

3.5. África subsaariana e seus “frágeis estados”

Por último, a África subsaariana apresenta um panorama geopolítico particular. Um especialista o define dizendo que, nesta região, se concentram esmagadoramente os estados mais frágeis do planeta, que estão em situações de “conflito abertos ou enrustidos, pós-conflito ou em reconstrução”. Essas situações surgem ou degradam a região com muita rapidez.

O primeiro aspecto a ser considerado é que o conceito “subsaariano” é questionável. Na África há quase sessenta “entidades” estatais ou paraestatais. A grande maioria são estados reconhecidos e formalmente “soberanos”.[22] Mas desses, apenas cinco países (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egipto), que dão para o Mediterrâneo, não são classificados como “subsaarianos”.

Na verdade, esses países e estados são parte do mundo cultural e políticoárabe, e não é errado considerá-los, geopoliticamente, parte do Oriente Médio, tomado no sentido amplo. Mas, ao mesmo tempo, há vasos comunicantes mais ou menos importantes entre as duas regiões da África. Assim, em vários dos estados “subsaarianos”, vem sendo um sério problema as organizaçõesislamistas jihadistas, como Boko Haram na Nigéria, Camarões, Chade, Níger e Mali, as quais se reivindicamtambém parte do Estado Islâmico. Algo semelhante acontece na Somália e seus vizinhos.

Há ainda outra região geopolítica africana de certa importância cuja inclusão nas duas já mencionada sé duvidosa. Referimo-nos ao chamado Corno da África, que dá para o Mar Vermelho. Ali estão a Abissínia, a Eritreia, Djibuti, a Somalilândia e, em parte, a Somália. Hoje esta região está convulsionada por crises políticas (Abissínia), recrudecimento de conflitos armados (Abissínia vs. Eritreia); guerrilhas e lutas de clãs (Somália), etc.

Por outro lado, o conjunto “subsaariano” engloba estados com tantas ou mais diferenças ​​do que as existentes em relação aos países africanos do Mediterrâneo. A África do Sul, por exemplo, no extremo sul, foi considerada um dos BRICS juntamente com Brasil, Rússia, Índia e China, ou seja, um dos chamados “países emergentes”. Embora hoje a África do Sul atravesse uma grave crise econômica, apresenta um panorama muito diferente dos países que se localizam na faixa que se estende do Saara até mais abaixo da linha equatorial (paralelo 0°). É nessa faixa onde a fragmentação estatal, as guerras e os conflitos sangrentos têm sido mais notáveis e generalizados. É também nessa faixa, que se encontram as maiores desigualdades e os níveis de pobreza.

Esta “fragilidade” crônica de muitos Estados africanos – especialmente dos últimos mencionados – decorre de uma complexa combinação de causas. Em primeiro lugar, o que é decisivo, é a sua pré-história colonial, que a independência formal não resolveu. A ação da Europa significou a mais brutal exploração e submissão, que incluiu a “caça ao homem” (e mulheres) para serem exportados como escravos para as Américas, e depois a exploração dos colonialismos europeus. Mas não parou aí. Na África, a predação dos colonialismos foi ainda mais atroz do que nas sociedades pré-capitalistas mais desenvolvidas, como as da Ásia e do Oriente Médio. As independências posteriores à Segunda Guerra Mundial, que implicaram na criação de estados próprios, nasceram carregadas de problemas. Em primeiro lugar, os novos estados foram construídos nas fronteiras (e fundações) das antigas colônias, o que já revela que, por trás dessa mudança, havia também uma continuidade. Isto balcanizou o continente em um número absurdo de estados; o pior foi que esta fragmentação geralmente tinha pouco a ver com as reais diferenças etno-tribais, linguísticas, etc., de seus povos. Sobre essas complexas estruturas sociais – nas quais o capitalismo se combina com formações socioeconômicas pré-capitalistas – superestruturas estatais copiadas em suas formas dos estados europeus foram impostas. Houve dois modelos, um pior que o outro: ou o dos países europeus que haviam colonizado a região, ou o dos regimes stalinistas de partido único que ainda passavam por “socialistas”. Na prática, em ambos os casos, por trás democrático-liberal ou pseudo- “socialista”, uma elite civil e/ou militar, inicialmente formada e educada durante a colônia, geralmente separada por um abismo do resto da população, assumia a totalidade do poder. A partir daí, sob diferentes rótulos, inclusive “socialista”, as ditaduras mais atrozes com presidentes reeleitos cem vezes foram se sucedendo… até que uma guerra e/ou  um golpe militar os derrubasse, apenas para substituí-los por personagens parecidos.

Diferenças e tensões étnico-tribais, e a intervenção dos estados e corporações estrangeiras para a pilhagem das matérias-primas, resultaram em horrores como a Guerra de Coltan ou “Guerra Mundial Africana” que causou um número estimado de 4 milhões de vítimas, diretamente ou por fome e doenças provocadas por ela. Esta guerra, que envolveu nove estados e cerca de vinte diferentes facções armadas, começou em 1998 e, com intervalos de “paz”, foi se prolongando porto da a primeira década deste século.

A chave da guerra mais mortífera da história africana foi a disputa entre as corporações dos EUA e da União Europeia, na qual a China se entrou em seguida, pelo coltan, mineral imprescindível para a fabricação de equipamentos eletrônicos. Este exemplo ilustra por que a África, o continente mais rico em recursos naturais do planeta, tem os piores indicadores de desenvolvimento socioeconômico.

Do ponto de vista geopolítico, nos últimos anos, a mudança provavelmente mais importante parece ser o ingresso e a influência da China nas disputas. Como dissemos, os chineses se tornaram os principais parceiros comerciais da África. E os planos da “Rota da Seda” contemplam também empreendimentos portuários e ferroviários, em especial nos países que dão para o Oceano Índico.

Um mundo sob o signo do descontentamento e as crises

Se hoje existe uma nuance ou um signo comum que, sob distintas formas, atravessa os mais diversos países e situações, é o signo do descontentamento. Hoje, o descontentamento está presente nas falas de todos os idiomas do planeta, ainda que haja desigualdades de extensão, profundidade e consequências emcada país ou região. Um descontentamento que, também, se projeta em direção ao futuro. No horizonte, as massas não percebem amanheceres cor de rosa … e com toda razão.

Se há algo que, na maioria dos países, os trabalhadores e setores populares percebem nesta era neoliberal é que hoje sua situação está pior do que a de seus pais, e que, amanhã, a situação de seus filhos estará pior do que a deles. No entanto, essa percepção não implica automaticamentea adesão às alternativas revolucionárias, socialistas ou, pelo menos, progressistas.

O descontentamento estava por trás do “Brexit” no Reino Unido. Na França, o descontentamento levou setores de massa entre jovens e trabalhadores para a luta contra a lei El Khomri de liquidação de mais de um século de conquistas operárias, mas também vai empurrar muitos a votar na Front National de extrema direita como voto de castigo por essa inqualificável traição do partido que se diz “socialista”. Nos EUA, o descontentamento de amplos setores alimentou simultaneamente duas expressões políticas muito diferentes, as candidaturas de Sanders e especialmente a de Trump. E assim poderíamos continuar com mais e mais exemplos.

Em última instância, a grande questão (ea grande luta política) é como este “clima” mundial irá se decantando e para onde será canalizado? Para a esquerda ou para a direita? Na perspectiva do fortalecimento da alternativa socialista? Ou par a abismos ainda piores do que a atual catástrofe neoliberal? Portudo isso, são previsíveis tambémuma maior polarização e dureza das lutas políticas e sociais.

Isso tem suas relações de “ida e volta” com os cenários geopolíticos que descrevemos. Muitos caracterizam a atual situação geopolítica como semelhante ao período de “Paz Armada”, que precedeu a Primeira Guerra Mundial. Na verdade, existem algumas semelhanças … e não são tranquilizadoras. Antes de 1914, existia – como agora – uma grande potência mundial, o Império Britânico, mas que estava em declínio em relação aos novos imperialismos como Alemanha, EUA, Japão, etc. Também, como agora, se multiplicavam fricções, tensões e disputas, em um paralelo duplamente preocupante para o presente, porque nos anos da Paz Armada não havia armas nucleares.

 A crise do capitalismo neoliberal globalizado

Hoje, a atual situação se dá em um contexto de crise do capitalismo neoliberal globalizado. Desde o início dos anos 80, como “modo de regulação” do capitalismo, houve, além de muitas falências nacionais e regionais, três crise recessivas mundiais, a de 1990-91, a de 2000-01 e a que se iniciou em 2008 …que não terminou, mas se estende. Isto foi batizado de “a nova normalidade” das economias do Ocidente: baixo crescimento, baixo investimento e alto desemprego. Outros economistas, como Michael Roberts, caracterizam isso diretamente como a Longa Depressão … e é provável que estejam certos.

Durante um breve período, a China e outras economias emergiram como um mundo à parte dessa realidade global. Mas hoje tudo tende ao nivelamento… por baixo.

Crise ecológica mundial: os problemas do Antropoceno

Mas a diferença com a época da “Paz Armada” não é apenas que muitos Estados têm armas atômicas. Há também outras realidades globais mais preocupantes. Por exemplo, os riscos mortais que se esboçam no terreno da ecologia.

A espécie humana adquiriu um poder de transformação (e destruição) da natureza e do planeta como nenhuma outra. Por isso, vários cientistas propõem que a época geológica atual dentro do período Quaternário já não é o Holoceno, mas o “Antropoceno”, dado o domínio e as consequências avassaladoras das atividades da espécie humana no planeta.

Estas atividades não seguiram nenhum plano racional em uma escala planetária, mas os interesses imediatos das classes dominantes e de seus Estados. Entre as consequências acumuladas desta exploração caótica da natureza, apresentamos as seguintes:

1) Entre a terça parte e a metade da superfície terrestre foi transformada pela ação humana.

2) A concentração de dióxido de carbono na atmosfera tem aumentado em mais de 30%  desde o começo da revolução industrial.

3) A ação humana fixa mais nitrogênio atmosférico do que a combinação das fontes terrestres naturais.

4) A humanidade usa mais da metade de toda a água doce acessível na superfície do planeta.

5) Aproximadamente um quarto das espécies de aves do planeta foi extinto pela ação humana.

6) As duas terças partes dos principais redutos pesqueiros (reservas marinhas) estão superexploradas ou esgotadas” (Florent Marcellesi, “Que é a crise ecológica?” ecoportal.net, 15/01/13).

E se há um problema que os Estados não demonstraram capacidade de enfrentar conjuntamente é o da ecologia. As conferências mundiais sobre o tema terminam, na melhor das hipóteses, votando aspirinas como remédio para curar um câncer que pode extinguir a espécie humana.

Agora, a vitória de Trump leva isto a um nível muito mais perigoso. Um “negacionista” da mudança climática irá governar o maior Estado poluidor do mundo, ao lado da China!

Necessidade de um Estado mundial… que só poderia ser socialista

O sistema mundial de estados nacionais tem demonstrado ad nauseam a sua incapacidade de enfrentar os problemas e desafios globais da humanidade. Pode ter sido progressivo no período neolítico, mas hoje a humanidade precisa de outra coisa.

É que cada estado representa, em última análise, os interesses contraditórios de diferentes burguesias. Nas épocas de bonança, podem se pôr, mais ou menos, de acordo. Mas, em tempos de vacas magras, predomina a luta de todos contra todos. A atual crise na União Europeia – a tentativa mais ambiciosa de um grupo de burguesias para a relativa superação de seus estados nacionais – é resultado do fracasso. Séculos atrás, os Estados particulares, esse mecanismo sangrento e seus instrumentos, podiam ser, ao mesmo tempo, eficazes. Mas hoje, a longo prazo, eles ameaçam a própria sobrevivência da humanidade.

É que hoje, mais do que nunca, a humanidade enfrenta desafios mundiais, que vão desde a economia cada vez mais globalizada, até as ameaças de mudanças que a atividade humana provoca no clima e na natureza.

Mas um estado mundial não pode ser capitalista. Um Estado mundial exigiria das burguesias a abdicação de seus interesses particulares. Somente os trabalhadores têm um grau de interesse comum que permite a construção de um Estado de toda a humanidade.

E só o socialismo, baseado na propriedade comum dos meios de produção, daria base para acabar com esta guerra de todos contra todos, e passar a trabalhar juntos.

22 – Dezembro – 2016

[1] . Para uma análise mais ampla de Trump, sua vitória eleitoral e suas perspectivas, ver José Luis Rojo, “Un demagogo llega a la presidencia de los Estados Unidos”, Socialismo o Barbarie 405, 10-11-16.

[2]. Evidentemente que, em termos de protecionismo, isso tem a ver também com o tipo de Estado e suas relações com os imperialismos e o capitalismo mundial. Em um Estado operário, como foi inicialmente a União Soviética, é imprescindível o monopólio estatal do comércio exterior e o mais estrito protecionismo diante das pressões da economia capitalista mundial. Assim mesmo, com todas suas limitações, podem ser progressivas as medidas protecionistas, tomadas pelo Estado de um país atrasado e dependente, frente à concorrência desigual do capital imperialista.

[3] . Ainda que, no final, as pesquisas e sondagens de opiniãose mostraram pouco confiáveis, Sanders apareceu na maioria delas como o único candidato democrata capaz de derrotar, por uma boa margem , Donald Trump. Clinton apareceu também como vencedora, mas com cifras mais baixas. Para derrubar Sanders, o establishment do Partido Democrata deu a Trump a totalidade do “voto de castigo”.

[4]. “O fosso entre ricos e pobres – conforme o relatório da Oxfam de 2016 – está atingindo novos patamares. Recentemente, o Credit Suisse revelou que o 1% mais rico da população mundial acumula mais riqueza do que os 99% restantes. Ao mesmo tempo, a riqueza nas mãos da metade mais pobre da humanidade foi reduzida em em um bilhão de dólares ao longo dos últimos cinco anos. […] A desigualdade no mundo atingiu níveis sem precedentes em pouco mais de um século. […] Existe uma crise de desigualdade que está fora de controle. […] Em 2015, apenas 62 pessoas tinham a mesma riqueza do que 3 milhões e 600 mil (a metade mais pobre da humanidade). Há pouco tempo atrás, em 2010, eram 388 pessoas … A riqueza nas mãos dessas 62 pessoas mais ricas do mundo aumentou em 45% em apenas cinco anos, pouco mais de meio trilhão de dólares (542.000 milhões) desde 2010, até atingir 1,76 trilhões de dólares. Enquanto isso, a riqueza nas mãos da metade  mais pobre da população caiu em mais de um bilhão de dólares no mesmo período, uma queda de 38% “(“Uma economia a serviço do 1% “, relatório da Oxfam 2016 , 18/1/16).

[5].   Embora seja conhecida geralmente como a “Guerra do Vietnã”, o conflito terminado em 1975 abrangeu toda a Indochina, incluindo Laos e Camboja. Além disso, é necessário lembrar que a Guerra da Coreia (1950-53) – na qual os EUA liderou a coalizão  “ocidental” contra a Coreia do Norte e a China – terminou em “empate” que ainda continua. Os EUA não foram derrotados definitivamente, como no Vietnã, mas também não foram  vencedores. No entanto, a Coreia não provocou uma crise política com tão profundas consequências como a Indochina.

[6]. Em um relatório recente, um velho operário americano lembra: “Quando eu era jovem, todos trabalhavam e o normal era ficar toda a vida na mesma empresa. Tínhamos uma casa, seguro de saúde, uma aposentadoria e uma família. Agora, tudo isso já não existe.” (Ricardo Mir de Francia, correspondente nos EUA,”A revolta da América branca”,El Periódico, 5-11-16).

[7]. “1) A concentração da produção e do capital se desenvolveu a tal ponto que criou monopólios que desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o industrial e a criação sobre a base desse capital ‘financeiro’ de uma oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire excepcional importância; 4) a formação de associações capitalistas monopolistas internacionais que dividem o mundo entre si; 5) o encerramento da repartição territorial de todo o mundo entre as grandes potências” (Lenine, O  imperialismo, etapa superior do capitalismo).

[8] . Além do peso social e político da classe trabalhadora no Egito, as tensões entre muçulmanos e coptas, ou entre diferentes correntes do Islã ou outras religiões, são insignificantes em comparação com a Síria e Iraque.

[9] .Nesse cenário tão complexo da Síria, o combatente que aparece se apoiando na mobilização popular e com  posições mais independentes e progressistas são os curdos, que ocupam um pequeno território ali… Isso não é novidade, mas a continuação de uma longa luta deste povo na Turquia e no Iraque, principalmente. Digamos que, por uma série de lutas anteriores (muitas delas militares), que incluem historicamente a guerrilha do KPD de Mustafá Barzani, desenvolvida principalmente no Curdistão iraquiano com o apoio inicial da União Soviética, e depoiso mais radicalizado no PKK de Abdullah Öcalan na Turquia, os curdos tinham uma preparação prévia superior para enrfrentar este giro “militar” da situação. As YPG-YPJ da Síria estão intimamente relacionadas ao PKK.

[10]. A Arábia Saudita é um regime retrógrado, no qual, em 2015, 150 pessoas foram condenadas à decapitação ou apedrejamento, várias por “delitos” como “bruxaria”, “adultério” ou por escrever “poesias ateias” (como o caso do famoso poeta palestino Ashraf Fayadh). Os protestos e o escândalo mundial por esta última atrocidade obrigaram a certa indulgência: o atrevido poeta teve sua pena de morte alterada para oito anos de prisão e 800 chibatadas. E este regime de barbárie não é apenas membro do International Syria Support Group (ISSG), que esteve negociando a paz, mas também seagrupa oficialmente em Riada oposição síria reconhecida pelo ISSG. Para não sermos unilaterais, é preciso acrescentar que a ditadura teocrática dos aiatolás xiitas no Irã tem pouco a invejar com relação à barbárie da monarquia sunita-wahabita de Riad. A grande diferença entre a Arábia Saudita eo Irã consiste em que a sociedade iraniana é qualitativamente mais moderna e ilustrada, o que põe osaiatolás em dificuldades e os obriga a fazer concessões.

[11] . O Internacional Syria Support Group (ISSG) inclui também outros estados e organismos internacionais: Arábia Saudita, Alemanha, Emirados Árabes, China, Egito, França, Itália, Irã, Iraque, Jordânia, Líbano, Omã, Qatar, Reino Unido, Turquia e os organismos da Liga Árabe, das Nações Unidas e da União Europeia.

[12] . Egito e Israel aparecem mais à margem desta “multiguerra”, o que não significa que não intervenham ocasionalmente, em especial o Estado sionista, por exemplo, com bombardeios às forças do Hezbollah (milícia do Líbano) que combatem junto do governo de Damasco.

[13]. Inspirados pelas (duvidosas) teorias da geopolítica clássica sobre o “Heartland” e, acima de tudo, por sua sede de petróleo antes de desenvolver a alternativa do fracking, o imperialismo norte-americano, com os Bush, buscou a impor um poder mais direto, mais colonial, no “Grande Oriente Médio”. Tentava aproveitar o vazio geopolítico deixado pela dissolução da União Soviética em 1989/91. Assim, Bush (pai) iniciou a primeira guerra contra o Iraque (1991). Em seguida, seu filho G. W. Bush, depois de ocupar o Afeganistão em 2001, invadiu o Iraque em 2003. Os respectivos pretextos foram as Torres Gêmeas e a fábula das “armas de destruição em massa”, que o Iraque supostamente possuia. Na verdade, esta orientação já tinha sido exposta publicamente na década de 90 pelos “neocons” (neoconservadores), em seu manifesto“Project for the New American Century”, assinado por aqueles que seriam, em seguida, a equipe de governo de Bush, (filho). Sintetizando: os EUA deviam se ratificar como super-imperialismo do século XXI, lançando uma política externa “ousada”, com intervenções militares e sem levar em conta a ONU ou os vacilantes imperialismos europeus. O primeiro passo seria a “remodelação” do Grande Oriente Médio, como dizia Condoleeza Rice. Assim, o mundo “unipolar” seria consolidado, sob o comando exclusivo dos EUA, esboçado após o desmoronamento da União Soviética.

[14].  A “Rota da Seda” foi, na verdade, várias rotas comerciais, principalmente terrestres, que ligaram a China à Europa desde antes da era cristã (há muitas discussões sobre as datas). Ao longo da história, a Rota da Seda se manteve, ainda que com grandes oscilações, até que, a partir do final do século XV, foi superada pelas rotas marítimas dominadas por potências europeias, que davam a volta pela África através do Cabo da Boa Esperança e chegavam, desta forma, à China e à Índia. Comparativamente, até a primeira metade do século XV, a China havia sido uma potência marítima com navios de dimensões e técnicas muito superiores às europeias. Mas diversos fatores, crises e conflitos internos levaram a China a retroceder e se fechar sobre si mesma, liquidando sua frota. Pouco tempo depois, a Europa começou o desenvolvimento de uma economia-mundo capitalista facilitada pela circunavegação da África e pelo “descobrimento” e conquista da América, que foram praticamente simultâneos.

[15].  É política de Washington provocar regularmente “incidentes” para deixar claro que desconhece a soberania da China. Em outubro passado, enviou um navio de guerra para as Ilhas Spratly, no Mar da China Meridional, que superou as 12 milhas de mar territorial. Antes, em maio, havia enviado um avião militar com os jornalistas da CNN para sobrevoar o território chinês sem autorização. Logo depois, Pequim respondeu enviando cinco navios de guerra ao Alasca que ultrapassou também as 12 milhas. Um aviso a Obama, que naquele dia estava visitando o Alasca!

[16]. A África Subsaariana, por exemplo, é um importante fornecedor de matérias-primas para a China, e Pequim é seu maior parceiro comercial. Neste contexto, a China começará a construir um porto colossal na Namíbia (o de Walvis Bay), estratégico para o controle do Oceano Índico. Claro que deverá ser vigiado, por terra e por mar.

[17].  Outro aliado dos EUA para formar o bloco anti-chinês é … o Vietnã, ainda que não esteja claro se isto se estenderá ao terreno militar. A visita de Obama a Hanói, em maio passado, visa a aprofundar uma aproximação que vem de longe. Isto pode parecer surpreendente, dadas as atrocidades cometidas pelo imperialismo norte-americano na guerra, mesmo que tenha acabado com a humilhante derrota dos EUA em 1975. Mas recordemos que, pouco tempo depois, em fevereiro de 1979, as burocracias de Pequim e Hanói estavam engajadas em uma guerra fratricida que terminou em uma semiderrota da China. Além disso, o Vietnã é hoje um dos principais atores na luta contra a China pelas ilhas Spratly e Paracelso, como comentamos anteriormente.

[18].  Bom ou mau? A Austrália assinou com Washington em 2014 um acordo para instalar uma base da Marinha em Darwin, cidade-porto estratégica no norte do país, e que desempenhou um papel importante na Segunda Guerra Mundial. Mas como estamos em tempos pós-modernos, se estabelece que a Marinha só a utilizará para – não riam – “trabalhos humanitários”. Como Guantánamo?

[19].  Cuba seguiu esse caminho com mais lentidão, uma vez que a política inicial de Washington pretendia uma mudança de regime e, ao mesmo tempo, a devolução do poder à burguesia “gusana” de Miami.

[20] . No Pós-Guerra, a União Soviética e outros estados (do Leste europeu, depois da China, etc.), embora não fossem realmente “socialistas”, haviam expropriado o o capitalismo. Isto estabelecia diferenças radicais com o resto, ainda que de conjunto – considerada como uma totalidade – a economia mundial era capitalista. Hoje, depois das restaurações dos anos noventa, não só a economia mundial, de conjunto, é capitalista, mas também cada uma de suas partes, inclusive a Rússia, os países do Leste, etc.

[21].  Isso alimenta as fabulações de alguns setores da esquerda, tanto europeus como latino-americanos (por exemplo, o castrismo e o chavismo), a verem na Rússia e também na China potências mais “benevolentes” ou “progressistas” do que o imperialismo americano.

[22]. Mas há também outros tipos de “entidades”, como enclaves europeus (por exemplo, Ceuta e Melilla), territórios de soberania duvidosa (como a República Árabe Saaraui Democrática), secessões de fato, etc.




O fim da notícia mundial

 

Alex Callinicos | Tradução de Wilma Olmo Corrêa

Edição: 153

Postado em 15 de dezembro de 2016

 

A derrota da terceira via

O filósofo Jacques Derrida escreveu certa vez um ensaio intitulado “Sobre um Tom Apocalíptico Recentemente Adotado na Filosofia”. 1 Esse tom, desde 8 de novembro de 2016, migrou para a discussão política cotidiana. Para a esquerda liberal, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos é simplesmente a maior queda em uma avalanche de reação. Outros incluem, naturalmente, dois referendos europeus – Reino Unido em 23 de junho e Itália em 4 de dezembro. Inegavelmente, a alta política burguesa deslocou-se para a direita. Mas isso não significa que tudo o que tem acontecido possa ser amalgamado em um fenômeno singular, todos, cujos elementos têm o mesmo significado.

Por um lado, como esta revista tem consistentemente afirmado, há uma circunstância progressiva e poderosa contra a União Europeia. O fato de que isso não tenha sido fortemente expresso na campanha do referendo britânico é lamentável, mas não faz da UE o farol de iluminação em um mundo nebuloso que, absurdamente, a esquerda liberal está retratando-a como. 2

O referendo italiano referia-se a um pacote de mudanças constitucionais destinadas a aumentar os poderes do governo central e promovido pelo primeiro-ministro Matteo Renzi, ao lado de uma lei de reforma eleitoral (“Italicum”) favorecendo os grandes partidos com os quais ele havia acordado juntamente com Silvio Berlusconi. O referendo se opunha, como diz Armanda Cetrulo, a “um grupo diversificado constituído por partidários antifascistas, sindicatos, constitucionalistas, movimentos da esquerda radical, Lega, Forza Italia e o Movimento 5 Estrelas”. Um fator importante na oposição da esquerda foi a lei trabalhista de 2014, onde “Renzi conseguiu fazer o que nem mesmo os governos de direita conseguiram: a abolição do direito dos novos trabalhadores serem reintegrados em caso de demissão injusta, sem justa causa”.3

A tentativa da Comissão Europeia e sua câmara de eco no The Guardian de retratar a derrota esmagadora de Renzi “como mais uma vitória para as forças populistas e anti-europeias” é risível 4. Como observou o The Independente:

O claro tamanho do voto no ‘Não’ desacredita interpretações simplistas do resultado como mais uma expressão de fervor populista. Em vez disso, a votação foi a expressão de uma gama de diferentes tipos de Não: um Não às reformas constitucionais específicas que estão sendo propostas; Um Não às elites políticas em geral; Um Não ao atual mal-estar econômico e social; e acima de tudo um Não ao governo Renzi. 5

Donald Trump, no entanto, é outra proposição. O próprio homem pode ter poucas opiniões políticas positivas, além do instintivo racismo e sexismo – um incorporador imobiliário oportunista, duvidoso demais, até mesmo para Wall Street. Mas sua vitória (por meio do Colégio Eleitoral, em vez do voto popular, mas poucos Democratas se queixariam se Hillary Clinton ganhasse dessa forma) representa uma mudança brusca à direita da cena política burguesa nos EUA.

O supostamente respeitável “establishment” Republicano na nova administração – por exemplo, o vice-presidente eleito Mike Pence – foram ideólogos marginais na era de George W. Bush. Mais preocupante ainda, Trump está expondo à luz do dia (piscando com surpresa como criaturas habituadas a viver debaixo de uma pedra quando esta é repentinamente removida) figuras pertencentes ao mundo “alt-right” (Direita Alternativa) de racismo aberto e elitismo, e de um, não mais, armário de fascistas. Ele está trazendo algumas destas figuras – notadamente Stephen Bannon, editor do site de notícias de extrema direita Breitbart News – para a Casa Branca.

Portanto, há diferenças muito importantes entre os eventos que, desde junho de 2016, têm abalado a ordem capitalista liberal ocidental. Mas isso não significa que eles não têm nada em comum. Simplificando, 40 anos de neoliberalismo e quase dez anos do que Michael Roberts chama de “Depressão Longa” – estão começando a desestabilizar os sistemas políticos dos estados capitalistas avançados. 6

Diante do colapso de 2007-8, as classes dominantes ocidentais abandonaram a cartilha neoliberal e recorreram ao Estado para resgatá-las. Mas, uma vez que se asseguraram que o sistema estava seguro, elas procuraram se conduzir por meio de uma versão renovada do neoliberalismo. Esta nova versão do neoliberalismo não é capaz de fornecer uma boa política para o regime gerir o capitalismo – afinal, todas as grandes nações capitalistas avançadas (Estados Unidos, Zona do Euro, Japão e Reino Unido), continuam a depender de medidas extraordinárias por parte dos bancos centrais (flexibilização quantitativa, taxas de juros extremamente baixas ou até mesmo taxas de juros negativas) para manter o sistema financeiro na superfície. Mas o neoliberalismo funciona muito bem para enriquecer os ricos. A conta a ser paga foi deixada a cargo das pessoas comuns através de planos de austeridade e padrões de vida extremamente baixos.

Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman encontraram em um estudo recente que:

A metade inferior (Base da Pirâmide Social) da distribuição de renda nos Estados Unidos foi completamente excluída do crescimento econômico desde a década de 1970. De 1980 a 2014, o rendimento médio nacional por adulto cresceu 61 por cento nos Estados Unidos, no entanto a renda média individual antes dos impostos dos 50 por cento da base da pirâmide social, ou seja, dos assalariados, estagnou em cerca de US$ 16.000 por adulto após o ajuste pela inflação. Em contraste, a renda subiu rapidamente para aqueles no topo da pirâmide social, subindo 121 por cento para os 10 por cento do topo, 205 por cento para o 1 por cento do topo e 636 por cento para o 0,001 por cento do topo.7

O Reino Unido também é um exemplo disso, supostamente uma economia relativamente “forte” e, certamente, muito melhor do que as previsões do Tesouro e do Banco da Inglaterra antes do referendo. No entanto, a Fundação Resolução argumenta que os números divulgados pelo Escritório de Responsabilidade Orçamental para o chanceler do erário público, Philip Hammond, em novembro último sugerem que os ganhos reais serão:

não superiores em 2020-21 do que em 2006-07. Significaria também que o crescimento salarial durante a década a partir de 2010 seria o mais fraco desde os anos 1900. O crescimento total de apenas 1,6% na década de 2020 compara-se com o crescimento de 12,7% na década de 2000 e acima de 20% em todas as outras décadas desde a década de 1920.8

A Figura 1 coloca este arrocho salarial em um contexto histórico. Como observa o historiador econômico Adam Tooze, “o final do século XVIII, a era pós-napoleônica, o período pré-1914 e os anos a partir de 2008 se destacam” como tempos em que os trabalhadores sofreram uma queda acentuada em seus padrões de vida. 9  Um olhar sobre a queda acentuada nos ganhos reais desde o início da crise financeira é suficiente para explicar o voto para deixar a UE.

Figura 1: Crescimento decenal dos ganhos semanais reais desde os anos 1700 Variação percentual na remuneração média entre os últimos 10 anos e os 10 anos anteriores (CPI e predecessores ajustados). Fonte: Resolution Foundation.

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Seguir as agitações resultantes da recente votação tem sido a tendência de muitas das vítimas do neoliberalismo, da crise e da austeridade para se rebelarem contra o establishment responsável pelo seu sofrimento. Em nossa última edição, Charlie Kimber documentou isso para o referendo do Brexit.10  O caso das eleições presidenciais dos Estados Unidos é mais complexo, como mostra Josh Hollands em outra parte desta edição. A mobilização de Trump do racismo branco Anglo fez com que muitos dos mais pobres, afro-americanos e latinos se mantivessem no campo Democrata, mesmo que tivessem tido votado em uma escala menor do que tinham feito antes para Obama. Na verdade, esta foi uma eleição que Clinton perdeu; muito mais do que uma eleição que Trump ganhou.

Konstantin Kilibarda e Daria Roithmayr argumentam que isso foi verdade nos cinco estados do Cinturão de Ferrugem (Rust Belt) no meio-Oeste americano (Iowa, Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin) que permitiram que Trump conseguisse votos suficientes para chegar à Casa Branca: “Com relação à eleição de 2012, o apoio aos Democratas no Cinturão de Ferrugem desmoronou, uma vez que um grande número de Democratas ficou em casa ou, (em menor medida), votou em um terceiro partido. Trump realmente não reverteu os eleitores brancos da classe trabalhadora no Cinturão de Ferrugem (Rust Belt). Em sua maioria, os Democratas os perderam”.11

No entanto, é surpreendente que o The Economist tenha descoberto que o melhor preditor de onde Trump fez melhor do que Mitt Romney, o candidato Republicano em 2012, foi:

dados em nível de condado sobre a expectativa de vida e a prevalência de obesidade, diabetes, alcoolismo e atividade física regular (ou falta dela) … A crise no sistema de saúde pública que se desdobra para toda a classe operária branca da América não é um segredo. No ano passado, Angus Deaton, economista vencedor do Prêmio Nobel, descobriu que a taxa de mortalidade entre os cidadãos brancos de meia-idade e menos instruídos do país havia subido desde a década de 1990, mesmo que a taxa para os hispânicos e negros da mesma idade tivesse caído. Alcoolismo, suicídio e uma crescente epidemia de abuso de opiáceos são amplamente vistos como as causas mais prováveis. Alguns argumentam que a deterioração da saúde está ligada à desindustrialização: taxas de desemprego mais elevadas preveem ambos: – uma expectativa de vida mais baixa e – apoio ao Sr. Trump, mesmo depois de controlar uma série de variáveis demográficas.

Os dados da votação sugerem que, no seu conjunto, os apoiadores do Sr. Trump estão enfrentando uma situação ruim ou têm muito pouco dinheiro: dentro de qualquer nível de escolaridade alcançada, os respondentes com rendimentos mais elevados apresentam maior probabilidade de votar no Partido Republicano. Mas o que os números geográficos realmente mostram é que o subconjunto específico dos eleitores do Sr. Trump que o ajudaram a ganhar a eleição – aqueles nos condados onde ele superou Romney por grandes margens – vivem em comunidades que estão literalmente morrendo. Mesmo que as políticas do Sr. Trump não sejam susceptíveis de atenuar a sua situação, não é difícil compreender porque votaram a favor da mudança. 12

O referendo italiano diferiu em muitos aspectos da eleição dos EUA. No entanto, de acordo com o Financial Times:

O descontentamento económico também desempenhou um papel no encerramento prematuro do mandato de Renzi. A análise revela que taxas de desemprego mais altas e níveis mais baixos de renda per capita estavam associados a votos mais enfáticos para rejeitar a reforma constitucional… Embora seja verdade que o descontentamento econômico estava associado a um maior apoio ao Movimento Cinco Estrelas e ao partido de Berlusconi nas eleições gerais de 2013, sua correlação com o resultado do referendo foi ainda mais forte, sugerindo uma motivação de protesto mais profunda por trás do voto do referendo. 13

Evidentemente, uma multiplicidade de fatores esteve envolvida em todos esses resultados – as preocupações democráticas e o oportunismo político ajudaram a mobilizar a oposição a Renzi, que reconheceu a variedade de descontentamentos alinhados contra ele, descartando desinteressadamente os ativistas do ‘Não’ como um ‘accozzaglia’ (desordem) ou tumulto. No entanto, se as motivações para a revolta se diferenciavam, a natureza do que estava sendo rejeitado é bastante clara. Mais do que qualquer outra coisa, a principal vítima dessas reviravoltas foi a Terceiro Via – a tentativa liderada por Tony Blair e Bill Clinton nos anos 1990 de casar a social democracia tradicional e o neoliberalismo. Ambos, Cameron e Renzi são grandes admiradores de Blair, enquanto Hillary Clinton estava, naturalmente, presente na criação. O liberalismo social está em apuros em outros lugares, como é sinalizado pela decisão do desafortunado presidente francês, François Hollande, de tomar a indicação fornecida pelo seu índice de aprovação de 4 por cento e não concorrer à reeleição.

 

Fascismo em marcha?

A Terceira Via merece morrer. A Grande Depressão mostrou definitivamente que a promessa de Blair de casar o mercado com a justiça social é irrealizável. O pacto do diabo de Gordon Brown com a cidade afundou o anterior governo Laborista, e as alianças de Clinton com Wall Street ajudaram a afundar suas esperanças presidenciais. O problema é que os principais beneficiários políticos vieram de indivíduos mais à direita. Na verdade, tornou-se moda falar de um “autoritário internacional” se espalhando da Rússia de Vladimir Putin para a Turquia sob Recep Tayyip Erdoğan, os EUA sob Trump, e – o que vem a seguir? A França sob Marine Le Pen após as eleições presidenciais em abril e maio?

Mais uma vez, é importante diferenciar. A tentativa de Putin de reconstruir o poder imperial russo baseado em uma economia exportadora de energia altamente dependente dos mercados mundiais é muito diferente do neoliberalismo de Erdoğan e seu islamismo cada vez mais autoritário, que está ligado à nova e devota burguesia industrial da Anatólia. Há uma tentação de amalgamar e definir todas essas diferentes figuras como “populistas” – de fato, um índice da recusa das classes dirigentes ocidentais em entender o que está acontecendo é sua propensão, e aquela de seus meios de comunicação e auxiliares acadêmicos, a espalhar a palavra “populismo” que se tornou um termo abrangente e genérico usado simultaneamente para liberar e assimilar todos os desafios ao status quo neoliberal. 14

Usado mais restritamente, o “populismo” é útil na identificação de uma gama de partidos da direita racista que se tornaram mais proeminentes recentemente. O UKIP (Partido de Independência do Reino Unido) é um caso paradigmático: ele afirma representar uma nação britânica cujos interesses foram negados por uma elite ligada à UE. Isto é típico do que Ernesto Laclau chama de “lógica da equivalência” no populismo: o povo é construído como uma totalidade através do seu antagonismo com um “elemento excluído” – neste caso, a elite pró-UE, mas também, obviamente, os migrantes do resto da Europa, com quem esta elite tem, de acordo com o UKIP, inundado o país. 15. Partidos da direita populista, como o UKIP, são racistas sem nenhuma dúvida; de fato, o sucesso de Nigel Farage jaz no fato de ele casar o Euroceticismo com o racismo anti-migrante e em seguida usar este coquetel tóxico para arrastar os principais partidos, os convencionais, ainda mais à direita. No processo, o UKIP e seus homólogos em outros lugares sugaram parte da raiva gerada pelo sofrimento econômico causado pelo neoliberalismo e a crise e converteram esta raiva em votos.

Agora, no entanto, para muitos, há um cheiro de fascismo no ar. Não são apenas os democratas chamando Trump de fascista. Aqui é o neoconservador Robert Kagan:

É assim que o fascismo vem para a América, não com botas de cano alto e saudações fascistas (embora tenha havido saudações, e um sopro de violência), mas como um mascate da televisão, um bilionário falso, um “livro texto” (discurso) egomaníaco “tocando em” ressentimentos e inseguranças populares e com a totalidade de um partido político nacional – por ambição ou lealdade cega ao partido, ou simplesmente por medo – aderem a ele. 16

Um nazista na Casa Branca é de fato uma perspectiva assustadora. Mas o que significa “fascismo” neste contexto? É mais do que um palavrão ou uma expressão de ódio contra a demagogia racista de Trump? A política americana produziu muitos demagogos racistas – Huey Long na década de 1930, George Wallace na década de 1960. É claro que é terrível que alguém tenha conseguido vencer a presidência onde essas figuras anteriores falharam, especialmente porque ele sucede o primeiro presidente negro. Mas um fascista seria uma coisa completamente diferente.

Na tradição marxista clássica, sobretudo nos escritos de Leon Trotsky sobre a ascensão de Hitler ao poder, o fascismo significa “um tipo distinto de movimento de massas” (cito aqui a minha própria reafirmação da teoria de Trotsky):

O nacional-socialismo representou uma resposta particular às intensas contradições sociais e econômicas sofridas pela sociedade alemã no início da “Crise Geral e Guerra dos Trinta Anos do século XX” de Arno Mayer. Enquanto mobilizava seus seguidores em apoio a um projeto contrarrevolucionário – a destruição do trabalho organizado e a reabilitação do imperialismo alemão – prometeu-lhes uma visão aparentemente revolucionária de uma Volksgemeinschaft, uma utopia racial da qual tanto o conflito de classes como os povos de outras nações (os dois unidos na ideologia nazista na figura do judeu colocando alemão contra alemão) tinham sido banidos. 17

Os nazistas forjaram o que eu chamo de “uma parceria conflituosa” com o capital alemão:

Baseava-se numa limitada convergência de interesses entre os nazistas e setores do capital alemão (particularmente aqueles associados à indústria pesada) que compartilhavam objetivos comuns, notadamente a destruição da classe trabalhadora organizada e a construção de um programa imperial de expansão para o Oriente. Mesmo antes do início da Grande Depressão, os líderes da indústria pesada se revoltaram contra a república de Weimar, denunciando-a como um “estado sindical” cujo compromisso com o bem-estar social e a negociação coletiva institucionalizada impunham custos excessivamente elevados ao capitalismo alemão: a respeito disso o lock-out das indústrias de ferro e de aço de novembro de 1928 marcou um ponto de viragem. Desde a queda da Grande Coalizão, em março de 1930 em diante, a intransigência dos industriais no contexto de uma situação econômica espetacularmente em deterioração ajudou a condenar a democracia liberal na Alemanha. 18

Esta compreensão do nacional-socialismo corresponde notavelmente à definição mais ampla de fascismo oferecida por Robert O Paxton, um dos principais estudiosos da corrente dominante neste campo:

Fascismo pode ser definido como uma forma de comportamento político marcado por uma preocupação obsessiva com o declínio, humilhação ou vitimização da comunidade, e por cultos compensatórios de unidade, energia e pureza, em que um partido político de massas composto por militantes nacionalistas comprometidos, que trabalham em uma colaboração desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e persegue, com violência redentora e sem restrições éticas ou legais, os objetivos de limpeza interna e expansão externa. 19

Como essa concepção do fascismo se ajusta a Trump? O próprio Paxton observou semelhanças em ambos os temas que Trump interpreta – os estereótipos étnicos que ele usa e a maneira como ele persistentemente fala a respeito do tema “declínio nacional” dos EUA – e seu estilo político altamente personalizado e operístico. Mas Paxton destaca duas diferenças importantes. Primeiro, em nível da ideologia:

os fascistas se ofereceram como um remédio para o individualismo agressivo, que eles acreditam ter sido a fonte da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e o declínio da Itália, o fracasso da Itália. Eles culpavam o individualismo pela a Primeira Guerra Mundial, o declínio nacional percebido, e sua solução era submeter o indivíduo aos interesses da comunidade. Trump, e os republicanos em geral, e de fato uma grande camada da sociedade americana têm celebrado o individualismo ao extremo total e absoluto. 20

Em segundo lugar, o contexto histórico em que Mussolini e Hitler triunfaram foi muito diferente:

Foi uma escolha consciente em ambos os países considerar os socialistas e os comunistas uma ameaça muito maior do que os nazistas e fascistas, e houve uma decisão consciente tomada pelos conservadores que ainda estavam no poder em trazer os fascistas e os nazistas para o sistema a fim de lutarem com maior eficiência contra a esquerda. Essa dinâmica particular obviamente não existe agora. Houve uma escolha consciente na Alemanha, no final de 1932, em usar os seguidores em massa de Hitler para esmagar a democracia social na Alemanha. A mesma estratégia [escolha] foi feita na Itália. Eu não vejo atualmente nenhuma daquela dinâmica. A velha guarda está contra Trump. Eles não estão tentando usá-lo, embora, eles possam mudar, eles podem decidir que se Trump continuar tão bem sucedido, ele poderá ser útil. 21

Este último ponto é decisivo. A Grande Depressão desenvolveu-se no contexto de uma prolongada estagnação ou declínio nos salários reais da massa da classe trabalhadora. É claro que os chefes querem forçar os padrões de vida dos trabalhadores ainda mais para baixo, a fim de restaurar a competitividade e rentabilidade. 22  Mas o enfraquecimento da organização sindical na era neoliberal significa que o movimento operário não representa o tipo de obstáculo ao avanço dos interesses capitalistas que precisa ser desmontado à força. No período entre guerras, a atração específica dos fascistas pelos grandes negócios residia no movimento de massas paramilitares que eles ofereciam para despedaçar a classe operária organizada, como dizia Trotsky, “arrasando nas suas bases todas as instituições da democracia proletária”:

No momento em que os recursos policiais e militares “normais” da ditadura burguesa, juntamente com seus anteparos parlamentares, já não são suficientes para manter a sociedade em equilíbrio, a virada ao regime fascista se aproxima. Através da agência fascista, o capitalismo põe em movimento as massas da pequena burguesia enfurecida, e bandos do lumpenproletariado desclassificado e desmoralizado; todos os incontáveis seres humanos que o próprio capital financeiro trouxe ao desespero e ao frenesi. Do fascismo, a burguesia exige um trabalho completo… E a agência fascista, utilizando a pequena burguesia como um aríete, esmagando todos os obstáculos em seu caminho, faz um trabalho completo.  23

Os chefes não apenas não estão se voltando para os fascistas para fornecer este “aríete”, como também não há nenhum movimento de massa fascista – o que Paxton chama de “um partido de massa de comprometidos militantes nacionalistas” – capaz de desempenhar esse papel nos Estados Unidos. Trump conquistou a presidência ao ganhar a candidatura de um dos dois principais partidos burgueses. Que ele tenha conseguido fazê-lo apesar da oposição do establishment republicano é um sintoma de um dos fenômenos típicos do neoliberalismo, o enfraquecimento geral das organizações políticas estruturadas. Em vez de construir um novo partido, ele explorou a decadência dos antigos.

A ascensão do alt-right (direita alternativa) é um processo extremamente repulsivo. Mas precisamos obter sua dimensão. São racistas, elitistas, isolacionistas e protecionistas. Dois deles, Allum Bokhari e Milo Yiannopoulos, expressam o que chamam uma cosmovisão “conservadora natural” como:

uma preferência pela homogeneidade sobre a diversidade, pela estabilidade sobre a mudança, e pela hierarquia e ordem sobre o igualitarismo radical … Um republicano do establishment, com sua crença predominante na glória do livre mercado, poderia ser mobilizado a derrubar uma catedral e substituí-la por uma Shopping Center se isto fizer sentido economicamente. Tal ato horrorizaria um conservador natural. A política de imigração segue um padrão semelhante: pelos números, trabalhadores estrangeiros com baixos salários com vistos H1B fazem sentido economicamente, de forma perfeita. Mas os conservadores naturais têm outras preocupações: principalmente, a preservação de sua própria tribo e sua cultura. 24

Da mesma forma, o historiador Paul Gottfried, que foi chamado de o “arquiteto” do alt-right – (direita alternativa), procurou distanciar esta corrente do fascismo clássico: “Como fenômeno histórico, o fascismo não tem nada a ver com a defesa de uma política externa isolacionista, tentando restringir a imigração do Terceiro Mundo ou favorecer uma distribuição de renda significativa para alcançar maior igualdade social”.  25  A lista de políticas implicitamente favorecida por Gottfried sublinha a distância da alt-right – (direita alternativa), dos neoconservadores tão influentes na administração de George W. Bush. Muitos deles renegados do Partido Democrata, os neoconservadores são, por assim dizer, universalistas imperialistas. Em outras palavras, argumentavam que a validade universal dos valores democráticos americanos justificava o uso do poder militar do Pentágono para forçar a propagação do modelo norte-americano de capitalismo neoliberal. 26  Mas a alt-right – (direita alternativa), geralmente se opõe a aventuras militares estrangeiras, criticam os efeitos das políticas econômicas neoliberais sobre os empregos e padrões de vida norte-americanos e rejeitam o universalismo. Como Bokhari e Yiannopoulos afirmam, “os intelectuais da alt-right também argumentariam que a cultura é inseparável da raça. Os alt-right acreditam que algum grau de separação entre os povos é necessário para que uma cultura seja preservada”. 27  Como tantas vezes no racismo pós-1960, “cultura” é um marcador para a raça. Daí os alt-right serem ferozmente opostos à compreensão mais multicultural da identidade americana simbolizada por Barack Obama e sua presidência.

Isso é realmente uma coisa muito sórdida: tirou força do movimento antirracista e ajudou a legitimar a hostilidade racista a Obama implícita na campanha “birther” que Trump liderou e em elementos do movimento Tea Party. O ambiente político resultante é aquele onde as ideias abertamente fascistas podem ser articuladas. O notório discurso (recebido com saudações nazistas) pelo ex-protegido de Gottfried, Richard Spencer, ao seu Instituto Nacional de Política em 19 de novembro – “Hail Trump! Salve nosso povo! Salve a nossa vitória! – é um excelente exemplo”. Ele disse a um entrevistador: “Acho que talvez precisemos de um pouco mais de caos em nossa política, talvez precisemos de um pouco desse espírito fascista em nossa política”. 28

Até agora, no entanto, performances como as de Spencer se parecem mais a de Nazistas requintados do que qualquer coisa semelhante a um movimento fascista organizado. Sua plateia em 19 de novembro parecia ser mais de nerds do que de storm-troopers. Os nazistas organizados nos EUA permanecem como grupelhos dispersos. Mas isso não é motivo para complacência. Os gostos de Spencer e do Breitbart Notícias têm uma gigantesca presença on-line. Não se deve permitir que as ideias nazistas se tornem respeitáveis. Aqueles que se expressam ou até mesmo se engajam com eles devem ser objeto do que Herbert Marcuse chamou de “intolerância libertadora”. A eleição de um racista como presidente dos Estados Unidos, e as figuras mais à direita que ele traz em sua comitiva encorajam todos os racistas, todos os policiais brancos que atiram desavisadamente em supostos suspeitos negros, todos os milicianos brancos nos EUA. Em condições mais agravadas, isso pode ajudar a promover o desenvolvimento de movimentos fascistas reais. E estes já existem na Europa – geralmente sob o disfarce de partidos tradicionais supostamente mais racistas populistas, que têm núcleos fascistas (por exemplo, a Frente Nacional na França e Jobbik na Hungria), mas às vezes em forma muito mais aberta (acima de tudo Chrysi Avgi – Aurora Dourada – na Grécia).

A ameaça mais imediata nos EUA de uma presidência de Trump é o reforço de tendências existentes – o racismo de Estado desafiado pelo movimento Black Lives Matter (A vida do povo negro importa) – e os mecanismos de vigilância, repressão e execução por drones que a “guerra contra o terror” permitiu que Bush e Obama construíssem. Sob ambos, o poder do chamado “estado de segurança nacional” continuou a crescer. Michael J Glennon (baseado em uma ideia do escritor liberal do século XIX Walter Bagehot) argumenta que:

o poder nos Estados Unidos estava inicialmente inserido em um conjunto de instituições – a Presidência, o Congresso e os Tribunais. Estas são as instituições “dignas” da América. Mais tarde, no entanto, uma segunda instituição surgiu para salvaguardar a segurança do país. Esta, a instituição “eficiente” dos Estados Unidos (na verdade… mais uma rede do que uma instituição), consiste em várias centenas de funcionários executivos que estão alocados acima dos departamentos militares, de inteligência, diplomacia e de aplicação da lei e de agências que têm como missão a proteção interna e externa da América… Em suma, os Estados Unidos passaram de uma mera presidência imperial para um sistema bifurcado – uma estrutura de duplo governo – em que até mesmo o presidente exerce pouco controle substancial sobre a direção geral da política de segurança nacional dos EUA. 29

A existência desta rede deve proporcionar alguma tranquilidade à classe dominante americana, na medida em que poderia pôr em curto-circuito as tentativas de Trump de se envolver em aventuras na política externa. Mas a evidência da história é equívoca. No auge da crise de Watergate em outubro de 1973, altos funcionários de segurança nacional ignoraram um presidente bêbado, Richard Nixon, ao lidar com um confronto potencial com a URSS sobre a guerra árabe-israelense. 30  Mas Nixon realmente mudou a direção da política externa dos EUA quando entrou na Casa Branca, em particular através da decisão de cercar a União Soviética através de uma abertura para a China de Mao. Antes dele, John F Kennedy desconsiderou o conselho do Pentágono de montar um ataque militar contra Cuba em outubro de 1962 e, em vez disso, fez um acordo secreto com o líder soviético, Nikita Khrushchev, para que os mísseis nucleares russos fossem removidos imediatamente da ilha enquanto os mísseis americanos na Turquia seriam retirados mais tarde. 31 E Obama bloqueou solidamente as pressões do establishment da segurança nacional dos EUA para intervir militarmente na guerra civil síria.

Assim, embora o poder institucional do que Glennon chama a “rede Trumanita” (porque foi criada no final dos anos 1940 na administração do presidente Harry S Truman) seja inegável, quem quer que ocupe a Casa Branca faz a diferença para a direção da política dos EUA. Qualquer administração enfrenta as restrições internas impostas por esta rede (e a burocracia de Washington de modo mais geral) e as restrições externas decorrentes do Congresso e dos governos estaduais, a agora altamente diversificada mídia, os bancos e corporações dos EUA e sua ampla ala de lobby e os mercados financeiros. Juntas, esta confluência de forças pressiona fortemente a favor da manutenção do status quo – uma ordem internacional capitalista liberal liderada pelo imperialismo dos EUA e apoiada pelo seu poder militar.

Trump ganhou a presidência fazendo campanha contra esta ordem. Um colunista do Financial Times  observa com tristeza:

Seria difícil exagerar o significado histórico da eleição de Trump. A ordem internacional liderada pelos Estados Unidos como sabíamos por 70 anos, acabou. A era da política do grande poder está de volta. Uma Rússia efervescente, liderada pelo poderoso Putin, e uma China cada vez mais confiante, liderada por um homem forte, Xi Jinping, lidará com uma América ferida liderada por um homem forte, Trump. 32

De fato, “a ordem internacional norte-americana” é uma forma de “política de grande poder”, destinada a manter a hegemonia do capitalismo americano. Essa hegemonia realmente “acabou”? Não: está sob pressão devido ao declínio econômico relativo dos EUA, mas isso tem sido verdade há algum tempo. A Rússia é consideravelmente mais fraca do que era nos dias da União Soviética e o fato de que o governo chinês estar fazendo esforços cada vez mais árduos para conter a saída de capital e evitar o declínio do renminbi (o oposto do que Trump a acusa) dificilmente sugere que tudo está bem em Pequim. Que diferença Trump fará realmente? Em primeiro lugar, a sua vontade será certamente uma presidência mais autoritária, disposta a usar os poderes constitucionais extras do aparelho de segurança nacional com ainda menos inibição do que Bush e Obama. O fato de ele estar preenchendo seu gabinete com militares é uma indicação disso. Sua posição é ainda mais forte porque os Republicanos controlam as duas casas do Congresso. As divisões que surgiram (não pela primeira vez) entre a CIA e o FBI sobre a eleição provavelmente funcionarão a seu favor.

Em segundo lugar, é muito menos claro o quanto representará uma ruptura de Trump com o neoliberalismo, como observa Paxton. Trump tem como alvo um dos principais pilares da globalização neoliberal, a liberalização do comércio. A Parceria Trans-Pacífico (TPP, em sua sigla em inglês), que Trump prometeu denunciar em seu primeiro dia no cargo, foi construída meticulosamente por Obama para restringir a China. Trata-se, portanto, de um retrocesso geopolítico, bem como de um golpe aos interesses das corporações transnacionais dos EUA. O acordo de contrapartida com a União Europeia, a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, em sua sigla em inglês), que já estava com problemas, parece agora estar sem nenhuma chance de sucesso.

Mas o comércio global já está desacelerando abruptamente desde a crise financeira, por isso não está claro como esses acordos são vitais, de um ponto de vista estritamente econômico. As outras políticas de Trump – cortar impostos dos ricos, conceder incentivos fiscais às corporações dos EUA para repatriar os enormes lucros que elas têm mantido no exterior, impulsionando o investimento em infraestrutura, relaxando a regulamentação bancária – estão sendo comemoradas em Wall Street. Grandes setores de negócios americanos parecem estar esperando o tipo de impulso para a economia privada que eles associam com a presidência de Ronald Reagan na década de 1980. Há muita esperança aqui – a recuperação econômica dos EUA sob Reagan dependia fortemente de uma combinação de repressão salarial, do keynesianismo militar e taxas de juros decrescentes que estimularam a primeira de uma série de bolhas financeiras que levaram o capitalismo americano até a crise.  Mas a queda dos preços dos títulos e os pronunciamentos da política do Conselho da Reserva Federal sugerem que as taxas de juros começarão a subir. Isto, junto com o fortalecimento do dólar, poderia travar o crescimento, embora outra bolha seja possível. Nada disso vai melhorar radicalmente a situação dos 50 por cento da base da pirâmide social, cuja renda real não aumentou desde que Reagan foi eleito.

O quadro é igualmente incerto, finalmente, no domínio da política externa. Trump pode agradar a Putin, mas já há muitas vozes nas classes dirigentes ocidentais argumentando que a política Obama-UE de isolar a Rússia foi um erro. A China é uma proposta diferente. A decisão de Trump de receber um telefonema do presidente taiwanês Tsai Ing-wen, de acordo com o Washington Post, não foi uma gafe: “A comunicação histórica – a primeira entre os líderes dos Estados Unidos e Taiwan desde 1979 – foi o produto de meses de silenciosas preparações e deliberações entre os conselheiros de Trump sobre uma nova estratégia de engajamento com Taiwan”. 33  Mais uma vez, isso retorna às profundezas na história republicana: Reagan e outros à direita criticaram a decisão do presidente Jimmy Carter em 1979 de abrir relações formais com a República Popular da China e deixar de reconhecer Taiwan. Eles viram essa política de “Uma China” como uma traição de um aliado da Guerra Fria. Mas, como os tweets subsequentes de Trump deixaram claro, a conversa também foi uma mensagem para Pequim, que afirma que Taiwan faz parte da China e deixou claro que iria à guerra para impedir que a ilha se tornasse independente (o Partido Progressista Democrático de Tsai apoiou historicamente a independência). Trump posteriormente disse à Fox News: “Eu não sei por que temos que ficar presos a uma política de “Uma China”, a menos que façamos um acordo com a China referindo-se a outras coisas, incluindo o comércio”.

O episódio sugere uma linha mais dura em relação à China, embora a forma como este episódio se relaciona ao famoso “pivô” de Obama em relação à Ásia, que já procurou conter Pequim, ainda está para ser visto. No geral, a presidência de Trump parece destinada a ser uma administração republicana de extrema-direita em vez de uma ruptura com as normas da política burguesa nos EUA. Os executivos de empresas que, ao lado dos ex-generais, estão sendo alinhados para cargos no gabinete, liderados por Rex Tillerson, o presidente da ExxonMobil indicado como secretário de Estado, sugerem igualmente que a presidência do Trump estará menos inapropriada aos interesses do capital do que alguns dos seus pronunciamentos de campanha sugeriram. Sua administração ainda é uma péssima notícia para os trabalhadores comuns e especialmente para as pessoas de cor. Isso reduzirá o escopo já limitado para a democracia nos EUA, tornará mais provável o início do caos climático e estimulará os racistas e fascistas em todos os lugares.

 

A luta que se seguirá

Qualquer resposta da esquerda radical e revolucionária depende, em última análise, de nossa capacidade de oferecer às vítimas do neoliberalismo uma alternativa convincente, democrática e progressista. Mas existe um perigo real de nossas divisões ficarem pelo caminho. Primeiro, o referendo de Brexit e, em seguida, as eleições americanas dividiram amargamente as atitudes da esquerda sobre a UE e logo em seguida sobre se Clinton representava o “mal menor” em relação a Trump. Aqueles da esquerda que votaram no “Sair” e se recusaram a votar em Clinton foram duramente atacados por capitularem ao racismo (e, no caso dos EUA, ao sexismo também).

Esses tipos de ataques são duplamente problemáticos. No primeiro caso, eles são falsos e injustos. O Partido Socialista dos Trabalhadores, que apoiou a campanha do Lexit durante o referendo, tem estado durante muitos anos na vanguarda do enfrentamento ao racismo e ao fascismo no Reino Unido. Nos Estados Unidos existe um poderoso argumento para emancipar a esquerda da hegemonia do Partido Democrata, cujo apoio ao neoliberalismo e a subserviência aos bancos e corporações foi particularmente evidente na campanha de Clinton.

Mas, em segundo lugar, há o perigo de que essas divisões signifiquem a impossibilidade de a esquerda usar uma linguagem comum para articular as diferenças e (mais importante) os nossos acordos. Assim, para alguns na esquerda britânica, o projeto utópico de reverter o resultado do referendo tornou-se sua principal preocupação. Isso é problemático porque pode alinhá-los com aqueles interesses capitalistas interessados ao mínimo em fazer o Brexit tão suave quanto possível para suas próprias razões e interesses. Mas também pode levar a uma postura cada vez mais apologética em relação à própria UE – por exemplo, defender o Mercado Único Europeu, apesar do fato de que ele tem sido um dos principais mecanismos que conduzem o neoliberalismo à economia política da UE e dos seus Estados-Membros. 34

Não há absolutamente nenhum sinal de que a UE vá mudar suas posições. O recente Acordo Econômico e Comercial Abrangente com o Canadá (CETA, na sigla em inglês) quase naufragou por causa da mesma disposição dos painéis de investidores, dando às empresas transnacionais o poder de processar os governos que têm levado a tal oposição, tanto à Parceria de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês) quanto à Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês). E a ideia de que a chanceler alemã Angela Merkel se tornou campeã dos valores liberais tradicionais morreu quando ela lançou sua campanha para as eleições federais do próximo ano ao anunciar que ela apoia a proibição da burka.

A maneira óbvia através da qual a esquerda radical pode se re-unir apesar de suas diferenças, é através da construção de movimentos contra o racismo e contra a Islamofobia. No Reino Unido o ‘Stand Up to Racism’ – (‘Levante-se Contra o Racismo’) está se tornando cada vez mais importante. Estrategicamente, a questão da liberdade de circulação na Europa é central. É o espinho na garganta da classe dominante britânica à medida que ela enfrenta a existência do Brexit. Tanto os conservadores como a direita trabalhista interpretam o resultado do referendo como a rejeição do direito dos cidadãos da UE de circular e trabalhar livremente no Reino Unido. Theresa May procurou reunificar seu partido e recuperar o terreno eleitoral perdido para o UKIP (Partido de Independência do Reino Unido) pregando esta rejeição a seu mastro na conferência do partido Conservador (Tory) em outubro. Os mercados financeiros imediatamente a derrubaram, provocando a queda da libra esterlina para um valor ainda mais do que já havia caído. A razão é simples. A UE deixou claro que, sem manter a liberdade de circulação dos cidadãos da UE, o Reino Unido não pode permanecer no Mercado Comum e os bancos e as empresas com sede no Reino Unido estão desesperados por permanecer no Mercado Comum.

Ao longo das tortuosas negociações do Brexit, que começarão na primavera britânica, essa contradição será dominante, à medida que a elite política britânica se contorcer e voltar-se à capitulação ao racismo e à manutenção da paz para o capital. A demonstração de força de May em assumir o cargo agora parece muito vazia, na medida em que seu governo fratura-se publicamente. Isto torna a liberdade de circulação dentro da Europa uma questão-chave em torno da qual a esquerda radical pode se reunificar independentemente de como votaram no referendo. Tal como está, milhões de trabalhadores no Reino Unido perderão os seus direitos existentes e (de acordo com o Secretário de Assuntos Internos e Migração, Amber Rudd) serão obrigados a levar documentos de identidade especiais porque eles vêm de outras partes da UE. Isso enfraquecerá toda a classe trabalhadora no Reino Unido. Felizmente, há dois políticos defendendo a liberdade de movimento contra a enorme pressão da mídia conservadora e da direita trabalhista. Eles são o líder do Partido Trabalhista e o Ministro do Interior, Jeremy Corbyn e Diane Abbott. Lutar pela liberdade de movimento como parte de uma campanha antirracista mais ampla é, portanto, uma forma de se fortalecer contra a direita. Mas, qualquer que seja o alinhamento político, isto seria necessário de qualquer maneira.

O desafio aqui no Reino Unido, no resto da Europa e nos Estados Unidos, é construir movimentos de massa antirracistas amplos e unidos que possam afastar os gostos de Trump e May, Farage e Le Pen. A chegada de um aventureiro de direita à frente da principal potência imperialista não é bem-vinda. Mas o poder de Trump pode ser quebrado através do tipo de combinação de pressões externas vindas de cima, divisões internas vindas de dentro, e resistências massivas vindas de baixo, que têm removido muitos indivíduos de sua laia diante dele. As manifestações gigantes em Seul que forçaram a Assembleia Nacional da Coreia do Sul a impedir outro presidente da direita, Park Geun-hye, sublinham como a arrogância pode ser rapidamente transformada em inimizade.

Alex Callinicos é professor de Estudos Europeus no King’s College London e editor do International Socialism

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Notas

1 Derrida, 1984. O título de meu artigo foi tomado de empréstimo de um romance de Anthony Burgess, publicado ao mesmo tempo que o de Derria, próximo ao momento mais perigoso da Segunda Guerra Fria—Burgess, 1983.

2 Callinicos, 2015 and 2016.

3 Cetrulo, 2016.

4 Kirchgaessner, 2016.

5 Newell, 2016.

6 Roberts, 2016.

7 Piketty, Saez and Zucman, 2016.

8 Corlett, Finch, Gardiner and Whittaker, 2016, p17.

9 https://twitter.com/adam_tooze/status/802491789936574464/photo/1

10 Kimber, 2016.

11 Kilibarda and Roithmayr, 2016.

12 Economist, 2016.

13 Romei, 2016.

14 D’Eramo, 2013.

15 Laclau, 2005.

16 Kagan, 2016.

17 Callinicos, 2001, developing the arguments in Trotsky, 1971.

18 Callinicos, 2001.

19 Paxton, 2004, p218.

20 Paxton interviewed in Chotiner, 2016.

21 Chotiner, 2016.

22 See, for the case of Europe, Pradella, 2015.

23 Trotsky, 1971, pp159 and 155.

24 Bokhari and Yiannopoulous, 2016.

25 Gottfried, 2016, Kindle loc 90. Ver também o interessante perfil de Gottfried em Siegel, 2016. O livro de Gottfried é uma coletânea de ensaios eruditos que procura diferenciar o “radicalismo” do nazismo do “fascismo genérico”, que ele iguala principalmente ao fascismo italiano. O retrato relativamente simpatico do ultimo indica o propósito apologético de Gottfried, apesar que ele afirme que o momento do fascismo passou.

26 Callinicos, 2003, and Mann, 2004.

27 Bokhari and Yiannopolous, 2016.

28 Siegel, 2016.

29 Glennon, 2014, pp6-7.

30 Dallek, 2007, pp529-332.

31 Freedman, 2000, part III.

32 Luce, 2016.

33 Gearen, Drucker and Denyer, 2016.

34 Socialist Worker, 2016.

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Referencias

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Open Society: “sociedade aberta” para quem?

Marcus Correia |

 

I.

Um fenômeno intrigante do processo conhecido como globalização é a disseminação da participação de organizações não-governamentais (ONGs) e fundações privadas na política internacional. Com o enfraquecimento ainda maior das já precárias políticas públicas nos países periféricos, a partir, sobretudo, da hegemonia neoliberal dos anos 90, tais entidades apareceram como uma oportunidade de redenção de grupos sociais vulneráveis e como solução instantânea para problemas (e conflitos) sociais latentes.

Por trás de intenções aparentemente descompromissadas dessas entidades transnacionais e apesar da boa-fé de parte dos indivíduos envolvidos nas suas ações, existem questões ainda obscuras a serem exploradas acerca da atuação desses atores na política global. Tome-se como exemplo a segunda maior fundação privada, dita filantrópica, do mundo: a Open Society Foundations.

Criada pelo megainvestidor húngaro-americano George Soros, nos últimos anos, a Open Society Foundations direcionou seu holofote humanitário para a América Latina e, em particular, para o Brasil. Apenas em 2016, a fundação destinará cerca de US$ 34 milhões de dólares para projetos parceiros na América Latina [1]. Quando questionados, seus representantes procuram sempre ressaltar que os interesses empresariais de George Soros não interferem na política da entidade, cujos principais objetivos seriam a promoção da democracia, dos direitos humanos e a colaboração com iniciativas que desenvolvam novas formas de participação. Em 2014, a Open Society até mesmo abriu um escritório na cidade do Rio de Janeiro.

II.

Fundada, na sua configuração atual, em 1993, as primeiras ações do Open Society Institute (rebatizado de Open Society Foundations em 2011) ocorreram em países do Leste Europeu, do Cáucaso e da Ásia Central, onde não é possível dizer que por lá tenha tido uma atuação propriamente humanitária, muito pelo contrário. Na verdade, Soros iniciou suas atividades “filantrópicas” já em 1979, quando financiou com US$ 3 milhões anuais movimentos políticos e veículos de comunicação de dissidentes dos regimes do Bloco Soviético, a exemplo do Solidariedade, na Polônia.[2]

Nos anos 1990, na antiga Iugoslávia, por exemplo, por meio da Open Society, Soros destinou US$ 100 milhões de dólares para movimentos políticos como o OTPOR (Resistência), para assim auxiliar na derrubada do presidente Milosevic, ocorrida em 2000. Um dos interesses que estavam em jogo era a compra do complexo siderúrgico de Trepca, avaliado à época em US$ 5 BILHÕES de dólares, uma vez que a abertura do regime facilitaria sua privatização[3]. A Iugoslávia passou por uma sangrenta guerra civil, desintegrou-se e desapareceu do mapa.

Em 2003, Soros destinou US$ 42 milhões para apoiar organizações políticas na Geórgia, como o KMARA, igualmente para a derrubada do ex-ministro das Relações Exteriores da União Soviética e então presidente Eduard Shevardnadze. Com recursos da Open Society, mil ativistas obtiveram treinamento em técnicas de desestabilização com membros do antigo OTPOR iugoslavo e do Centre for Applied Non-Violent Actions and Strategies, localizado em Belgrado, para a desestabilização do governo. Shevardnadze renunciou em novembro de 2003.

Em 2005, as ações de George Soros intensificaram-se e estenderam-se à Ucrânia, ao Quirguistão e ao Azerbaijão. Neste último país, as ações para a derrubada do presidente Ilham Aliyev, sob a alegação de fraude nas eleições e a promoção de massivas manifestações da classe-média local foram, no entanto, frustradas. Tanto Open Society como demais ONGs e fundações européias e estadunidenses destinaram recursos financeiros para organizações e veículos de comunicação de oposição ao recém re-eleito presidente, que até hoje governa o país.

Na Ucrânia, enquanto a Soros financiava o movimento Vidroszhenya (Reviver), suas congêneres européias patrocinavam demais ações e organizações para levar à queda o presidente Leonid Kuchma, o que, de fato, ocorreu. Kuchma havia sido membro do Partido Comunista da União Soviética de 1960 até 1991. Já no Quirguistão, os recursos da Open Society, por intermédio da entidade local Sociedade Civil contra a Corrupção, contribuiram para o golpe de Estado ocorrido em março de 2005, que levou o presidente Askar Akayev a refugiar-se no Cazaquistão. As alegações foram as mesmas: supostas fraudes eleitorais e corrupção, seguidas por manifestações da classe-média, influenciadas pela mídia [4]

Esses são apenas alguns poucos exemplos que compõem o quadro das chamadas Revoluções Coloridas e que não se diferenciam muito da Primavera Árabe, no que respeita exclusivamente à intervenção encoberta estrangeira, realizada por meio de ONGs, fundações e dos serviços de inteligência das principais potências ocidentais, em parte dos setores descontentes com os governos de países do Norte da África e do Oriente Médio. Cabe destacar que é bastante provável que muitos ativistas e militantes dos países envolvidos nessas ações imperialistas sequer sabiam que os recursos dos movimentos de que participavam vinham de fora do país.

Com receio de tal intervenção “colorida”, a Rússia, em 2015, pediu investigação e baniu do seu território cerca de 12 ONGs e fundações estrangeiras, entre as quais a própria Open Society Foundations, sob a alegação de ameaça à ordem constitucional e à segurança nacional do país [5].

Não é possível desconsiderar ainda alguns dos indivíduos que, ao longo dos anos, foram sócios ou assessoraram Soros na suas ações financeiras e filatrópicas pelo mundo. No International Crisis Group, financiado pela Open Society, estavam ninguém menos que Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional da administração de Jimmy Carter, bem como o general estadunidense Wesley Clark, ex-comandante supremo da OTAN na Europa. No Carlyle Group, do qual Soros é sócio, estão o ex-secretário de Estado dos EUA de George Bush, pai, James Baker e o ex-secretário de Defesa de Ronald Reagan, Frank Carlucci [6]. Vale lembrar que, entre 1993 e 1999, o principal diretor de investimentos do Soros Fund Management LLC  foi o brasileiro Armínio Fraga, que, subsequentemente, ocupou o cargo de presidente do Banco Central do Brasil (1999-2002).

III.

O historiador e cientista político brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu livro publicado em 2013 e intitulado A Segunda Guerra Fria: geopolítica e dimensão estratégica dos EUA, traz farta documentação a respeito do papel de fundações e ONGs internacionais, como a Open Society, a National Endowment for Democracy, a Freedom House, a Human Rights Watch, entre outras, como linhas auxiliares da política externa dos Estados Unidos na aplicação da chamada agenda de “exportação da democracia”. Embora o autor ressalve que tais entidades possam eventualmente atuar de modo autônomo em relação ao Departamento de Estado, ao Pentágono e aos órgãos de inteligência estadunidenses, ele afirma que as políticas são sempre convergentes. O livro traz dados interessantes sobre as ações da Open Society Foudations e que podem servir para uma discussão mais ampla sobre quais os reais interesses dessa entidade na sua atuação também no Brasil.

Existe fundamentalmente um padrão de atividade de movimentos de desestabilização, financiados por essas entidades transnacionais, cujo livro – Da Ditadura à Democracia – escrito pelo professor da University of Massachussets e diretor do Albert Einstein Institute, Gene Sharp, resume como uma espécie de manual popular daquilo que classifica como “revolução não-violenta”. É evidente que em cada país há particularidades que modificam sobremaneira o modo de agir imperialista. Entretanto, o intuito geral da agenda de “exportação da democracia” vem sendo o de subsidiar, com recursos e treinamento, a desestabilização e a mudança de regimes ou governos não-alinhados a uma política de abertura de mercados, de privatizações, de pilhagem de recursos naturais e de favorecimento à especulação cambial e financeira.

Para essas finalidades, as entidades buscam fomentar pautas políticas, encabeçadas por movimentos locais, que encontram, por sua vez, dificuldades de financiamento local. A pretexto de apoio descompromissado a demandas, quase sempre, legítimas da população, as ações dessas entidades transnacionais escondem interesses subreptícios. Tais conjuntos de interesses são tanto mais imediatos quanto estratégicos. No primeiro deles, encontram-se a ampliação de oportunidades de negócios a partir de demandas que levem a isso bem como oportunidades de especulação cambial e financeira a partir da promoção da desestabilização econômica do país. No segundo, a formação de uma hegemonia (neo)liberal e “democrática” a partir da mudança de regime ou governo, levando à quase impossibilidade de ascensão de opositores não-alinhados à política imperialista.

A não ser que se considere George Soros um humanista a serviço do bem-estar dos povos, enquanto sua atividade empresarial é predatória, não há razão para acreditar que, nas últimas décadas, ele tenha dispendido seguramente BILHÕES de dólares para ações “filantrópicas” da Open Society Foundations fora dos Estados Unidos, que não interesses econômicos e sociais espúrios.

Há, inclusive, uma política de confidencialidade de ações, explicitamente descrita no sítio eletrônico da instituição [7].

IV.

No Brasil, desde 2013, Soros ampliou ainda mais sua já antiga presença financeira e empresarial no país. Em dezembro de 2014, por exemplo, com a desvalorização das ações da Petrobrás no mercado financeiro, Soros investiu em grande compra de ações da companhia petrolífera [8], ao passo que um dos seus financiamentos “filantrópicos” no Brasil é voltado a entidades de combate à corrupção! O mesmo conflito de interesses ocorre com o apoio de Soros ao movimento de mídia dita alternativa, uma vez que ele tem investimentos também nessa área no Brasil, através dos grupos Sunrise e On Telecom [9].

Com o golpe ocorrido este ano no país, surgiram alguns artigos na mídia dita alternativa sobre financiadores estrangeiros de movimentos de direita, como o Movimento Brasil Livre, Vem Pra Rua etc.[10]. Ocorre que, nos últimos anos, esse financiamento estrangeiro não se restringe a movimentos de direita tampouco a entidades sem fins políticos explícitos. Parte significativa de ONGs, veículos de comunicação, entidades e pesquisadores identificados com a esquerda no Brasil vem recebendo volumosas somas de aportes financeiros dessa natureza e, em particular, da Open Society.

Não cabe arrolá-los nesse espaço, pois basta uma pesquisa rápida na rede mundial de computadores para saber quem são, ainda que nem todos tenham uma política de transparência dos financiadores. A pergunta que surge é a seguinte: Deve a esquerda brasileira receber recursos financeiros oriundos de fundações, ONGs, empresários e financistas das principais potências estrangeiras para lutas políticas no Brasil, considerando ainda o histórico desses ignóbeis filantropos?

NOTAS:

[1] Claudia Antunes (2015). O embaixador de Soros. Valor Econômico, 30 out. 2015. Em 2013, foram destinados US$ 28 milhões para a América Latina.

[2] George Soros: “The billionaire trader has become eastern Europe’s uncrowned king and the prophet of “the open society”. But open to what? by Neil Clark, New Statesman, June 2, 2003. Review by Karen Talbot. http://www.globalresearch.ca/articles/TAL307A.html

[3] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A segunda guerra fria: geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

[4] Assim como os dados sobre a Iugoslávia, sobre a Ucrânia, Azerbaijão e Quirguistão foram igualmente retirados de BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A segunda guerra fria: geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

[5]  Rodrigo Fernandez. Senado russo pede investigação de 12 ONGs internacionais. El Pais, 9 jul. 2015. http://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/08/internacional/1436359865_897102.html  ; Shaun Walker. Russia bans two Soros foundations from disbursing grants. The Guardian, 30 nov. 2015. https://www.theguardian.com/world/2015/nov/30/russia-bans-two-george-soros-foundations-from-giving-grants

[6] George Soros: “The billionaire trader has become eastern Europe’s uncrowned king and the prophet of “the open society”. But open to what? by Neil Clark, New Statesman, June 2, 2003. Review by Karen Talbot. http://www.globalresearch.ca/articles/TAL307A.html

[7] https://www.opensocietyfoundations.org/about/policies/confidentiality

[8] Altamiro Silva Júnior. Megainvestidor George Soros compra mais ações da Petrobrás. O Estado de S. Paulo, 19 dez. 2014. http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,megainvestidor-george-soros-compra-mais-acoes-da-petrobras,1609845

[9] Nelson de Sá. Quem paga a conta? http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed762_quem_paga_a_conta/

[10] Alguns exemplos são: Marina Amaral (2015) – A nova roupa da direita http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/ ; Pedro Marin (2016) – Golpe no Brasil: a conexão internacional http://outraspalavras.net/brasil/golpe-no-brasil-a-conexao-internacional/




A revolução esmagada

Aldo Cordeiro Sauda |

Há cinco anos, o exército egípcio cometia seu primeiro massacre em grande escala na Primavera Árabe. Assassinavam 28 civis, todos membros da minoria copta cristã, que protestavam por liberdades religiosas.

O Massacre de Maspiro, como ficou conhecido o evento, entrou para a história do movimento social egípcio como a mais cruel das ações da contra-revolução. Sua importância está mais relacionada ao significado político-social do ataque que à quantidade de caídos. O número, inclusive, é tímido quando comparado aos mais de 800 mortos na praça de Rabia Al Adawya, no banho de sangue contra a Irmandade Muçulmana que marcou o fim da aliança entre o exército e os islamistas.

Diferente daquele ato, das batalhas de barricadas ou dos outros protestos esmagados pelo exército, em Maspiro as vítimas caíram sem resistência. Pior, foram massacradas pelo mesmo exército ao qual os coptas clamavam por proteção contra os repetidos incêndios em seus templos, realizados por fundamentalistas islâmicos.

Esta semana, a União da Juventude de Maspiro – um grupo pró-democracia que organiza membros da minoria religiosa – planejava uma homenagem pública às vitimas. Eles foram, porém, expressamente proibidos pelo Ministério do Interior de realizar qualquer ato que lembrasse o crime do exército. Os ativistas responsáveis por enviar o pedido de autorização ao governo, tem sofrido, desde então, ameaças de morte por membros do serviço secreto local.

Em defesa da memória de Maspiro, resgatamos, abaixo, uma versão editada da narrativa do massacre e análise política do evento, que publiquei originalmente no site Passa Palavra. Escrito há cinco anos, o documento carrega muito do otimismo revolucionário presente no Cairo durante o período após a queda de Mubarak. Apesar dos erros políticos, principalmente a ilusão na radicalização dos coptas e do movimento operário, o documento merece ser revisitado, por registrar algo que hoje se tenta apagar da memória coletiva.

Aldo, 2016

https://www.youtube.com/watch?v=00t-0NEwc3E

Os Mártires de Maspiro

Eram 17. Todos enfileirados em meio à rua. Caixões inteiramente fechados, alguns traziam sobre si antigas fotos dos mortos. Os corpos, levados ao hospital cristão copta durante a noite do domingo, foram escondidos da autopsia pelo exercito egípcio. Encobria-se, ali, um massacre.

No pequeno espaço do necrotério, milhares de egípcios, cristãos e muçulmanos, prestavam suas homenagens às mais novas vítimas da junta militar. Nas calçadas em frente ao hospital, dominadas pela comoção e lamento, a maior comunidade cristã do Oriente Médio chorava a morte dos seus.

Não foram poucos os que desmaiavam ao se aproximar do conglomerado de caixões. Sob o sol escaldante da África, mulheres, inteiramente vestidas de preto, com o cabelo coberto por um fino véu, gritavam, choravam e gesticulavam. Há alguns metros de distância um grupo composto por homens cantavam, embaixo de cruzes improvisadas, pela derrubada do regime.

Ninguém sabe ao certo o número de mortos no “Massacre de Maspiro”. O número oficial registra 25, porém diversas pessoas afirmam terem testemunhado o exército egípcio atirar corpos de manifestantes no Rio Nilo. A luz dos eventos de domingo não se pode descartar essa hipótese.

O crime perpetrado pelo exército carregava os resquícios típicos da crueldade das ditaduras militares latino-americanas. “Os tanques passaram por cima da cabeça dos nossos meninos, eu vi a cabeça deles explodir”, afirmava George Daut, um dos presentes na manifestação de domingo. “Elas pareciam bexigas d’água”. Entre choros e suspiros, George afirmava não manter nenhum ressentimento contra os muçulmanos egípcios. “Nossos filhos não foram assassinados pelos muçulmanos, ele foram assassinados pelo exército do Marechal Hussein Tantawi”.

A consolidação da aliança militar-islamista se encontra no plano de fundo do massacre de Maspiro. Como era de se esperar, a minoria cristã está sendo utilizada pelo regime como bode expiatório para a construção de um novo bloco política e social, que inclui uma aliança entre o exercito e a Irmandade Muçulmana. Alem disto, os crimes de Maspiro permitem ao governo lançar mão do argumento da estabilidade política contra as incertezas da continuidade da revolução. Estabilidade esta, segundo o discurso oficial, somente pode ser garantida pelo exército.

Hospital copta no dia seguinte ao massacre

Hospital copta no dia seguinte ao massacre

Sectarismo religioso

No início da tarde de domingo, quando milhares de manifestantes marcharam em direção à sede da televisão estatal egípcia, local tradicional das manifestações da minoria copta desde o inicio da revolução, ninguém imaginava que o dia terminaria em tragédia. O ato, um protesto contra a destruição de uma igreja na província de Aswan, no interior do Egito, não era algo novo. Há anos radicais islâmicos, com a conivência ou proteção do Estado, têm atacado os templos da minoria, que, desde a queda do regime Mubarak, vem manifestado seu descontentamento publicamente.

Baseadas em um conjunto de éditos do Império Otomano, redigidos em 1856, a legislação egípcia na prática impede a execução de obras nas igrejas coptas do país. Segundo a regulamentação, qualquer construção ou reforma de um templo não islâmico requer uma série de documentos específicos e a aprovação do governo local, algo quase sempre impossível. Não são raros os casos em que, sob argumentos da ausência de documentação correta, radicais islâmicos assumem para si a responsabilidade de impor a lei, vandalizando templos cristãos. Quase sempre os agressores são inocentados pelo Estado.

Seria um erro, obviamente, afirmar que não existem tensões religiosas no país; porém, a forma com que elas se desencadearam no domingo foi de inteira e exclusiva responsabilidade da junta militar. A caminhada do ato, que saiu do bairro cristão de Shubra em direção à região de Maspiro, no entorno da praça Tahirir, era inteiramente pacífica. Ela era composta de mulheres, homens e crianças, carregando algumas cruzes, velas e imagens da Virgem Maria.

Assim como tem sido comum em quase todas as manifestações críticas ao governo, em certo momento, um grupo de rapazes, partindo por de trás das linhas policiais, atacou os manifestantes com paus, pedras e coquetéis molotov. O ataque à manifestação por parte dos agentes provocadores, conhecidos no Egito como “Baltajiyyah”, ocorreu em clara coordenação com a polícia e as forças armadas.

Um pouco após a ação do lumpesinato, o exército, pela primeira vez de forma clara e direta desde o início da revolução, começou a atacar os manifestantes. Entre bombas de gás lacrimogêneo e rajadas de fuzil, os militares desencadearam uma brutal repressão contra a minoria. Em meio aos ataques, blindados do exército avançaram contra os civis, esmagando até à morte no mínimo 10 manifestantes.

Hospital copta

Hospital copta

Mensagem aos “cidadãos de bem”

Ao longo do dia, a TV Estatal, canal mais assistido do Egito, iniciou uma ampla campanha de agitação e propaganda contra a minoria copta. Imagens de soldados supostamente feridos no “confronto” começaram a ser veiculadas pela TV, dando a impressão de que uma suposta guerra estava se desenrolando. Junto com a imagem de militares feridos a televisão do governo, no melhor estilo “Rádio Ruanda”, exibiu uma entrevista ao vivo com um militar descrevendo os coptas, que supostamente o atacaram, como “cães”.

O canal estatal, que opera sobre firme controle do Ministério da Informação, anunciou que três soldados tinham se tornado “mártires” na “batalha” contra a turba. Logo em seguida, começaram a circular pelos rádios da cidade rumores de que os coptas portavam metralhadoras e as utilizavam contra o exército. Em meio a um tom apocalíptico, a apresentadora responsável por conduzir o noticiário da TV convocou os “cidadãos de bem” para proteger o seu exército do ataque cristão.

Para além do show televisivo, não havia nenhum soldado morto. Os manifestantes coptas, que carregavam apenas artefatos religiosos, foram massacrados pelo exército. No dia seguinte, o canal estatal anunciou que a jornalista havia ficado “nervosa” e se confundido na hora de transmitir a notícia da morte dos militares. Quanto à convocatória aos “cidadãos de bem”, nenhuma explicação oficial foi dada, para além da afirmação do Ministro da Informação de que o canal estatal é “imparcial” e “objetivo”.

Com a divulgação ao vivo das notícias dos confrontos, centenas de manifestantes deslocaram-se as ruas do centro, aderindo a ambos os lados em embate. Alterando o caráter originalmente confessional da manifestação iniciada na tarde de domingo, o ato tornou-se um grande enfrentamento no entorno da praça Tahrir. Não que a marcha contra o ataque à igreja em Aswan fosse composta originalmente apenas por cristãos; mas durante seu desenrolar na madrugada o conflito tornou-se um ato tipicamente anti-junta militar, composto igualmente por cristãos e muçulmanos.

Nacionalismo e islamismo 

A tensão social entre cristãos coptas (10% da população egípcia) e a maioria muçulmana não é nova. O processo de islamização da sociedade, capitaneada pelo Estado há 30 anos, tem sido o principal combustível para estas explosões de ódio sectário.

Durante a era pan-arabista e nacionalista de Gamal Abdel Nasser, entre 1954 e 1970, o Egito, ligado politicamente à União Soviética, viveu um processo relativo de integração das diferentes comunidades religiosas. A iniciativa, dirigida pelo estado, foi revertida em nível internacional pelas vitorias políticas e militares do imperialismo.

Após os acordos de paz firmados entre Israel e Egito, em 1979, e a consequente expulsão dos conselheiros soviéticos do país pelo então presidente Anwar Saddat, que sucedeu Nasser após sua morte em 1970, o Estado egípcio passou por um longo processo de alteração de seu paradigma ideológico central. O nacionalismo pan-arabista não se fazia mais útil à nova configuração política, interna e externa, do país.

Novo aliado de Israel e do Ocidente, iniciando um processo de liberalização econômica, o Egito de Saddat buscou no Islã ponto de apoio para sua legitimidade política. Também conhecido como “O presidente Fiel”, Awnar Saddat, e futuramente seu herdeiro político Hosni Mubarak, aprofundaram, por meio do Estado, a inserção da identidade religiosa no espaço público. Trabalhando ostensivamente para expurgar resquícios do pan-arabismo, a islamização da sociedade eliminou os principais opositores à nova aliança política e econômica com os Estados Unidos.

O processo de islamização, eventualmente, incluiu uma aproximação entre o Estado e a Irmandade Muçulmana, que de organização banida e criminalizada por Nasser, passou a ser tolerada. Mesmo que excluída parcialmente do espectro político-parlamentar durante os anos Mubarak, a organização ganhou força por meio de trabalhos de caridade e presença no movimento estudantil.

A queda do ditador, que contou em seus últimos dias com a participação ativa da Irmandade – principalmente de sua juventude, que empurrou a direção a aderir ao movimento – de forma alguma implicou no fim da cooperação entre ela e o exército. O processo revolucionário enfraqueceu os elementos de sustentação social das forças armadas, tornando a Irmandade potencialmente um dos mais viáveis instrumentos de apoio do regime. O fim do partido de Mubarak, somado ao enfraquecimento moral dos intelectuais  orgânicos ligados ao exército e o desmantelamento da central sindical oficial, empurram os militares em busca de novas alianças sociais.

Os islamistas, ao que tudo indica, em nada pretendem alterar o controle direto do exército e da burguesia sobre os meios de produção. Eles têm se mostrado, consequentemente, candidatos perfeitos ao Partido da Ordem como sócios minoritários das Forças Armadas.

missa lembrando um mês do massacre

missa lembrando um mês do massacre

As minorias e a Revolução

Se para a ampla gama do povo egípcio o exército tem se colocado como guardião da estabilidade, tal fato é ainda mais verdadeiro frente à comunidade cristã. Inevitavelmente as revoluções obrigam as minorias a fazer duras escolhas: de um lado, a antiga “ordem social”, na qual certamente serão oprimidos como anteriormente, porém dentro de limites preestabelecidos que não colocam em risco a sua existência física; de outro, a possibilidade de liberdade e emancipação, permeada sempre pela possível reversão das relações sociais, na qual a antiga ordem opressora pode ser substituída por um estado de coisas ainda pior, em que sua eliminação física se dará quase como certa.

Não por acaso, diversas lideranças coptas se colocaram contrárias à revolução. O temor de um fortalecimento do campo radical islamista, que potencialmente implicaria na destruição da comunidade fazem de muitos coptas conservadores por natureza. No Egito revolucionário pós-Mubarak, com o aumento dos ataques aos templos cristãos, muitos membros da comunidade enxergavam o exército como único agente social capaz de os proteger. Não que os coptas desconheçam a pouca simpatia que existe por eles nas forças armadas; mas, ao mesmo tempo, muitos acreditam que estas sejam a única força capaz de impedir o avanço dos islamistas, que, por sua vez, compõem desde o inicio da revolução o bloco político-social de apoio aos militares. A contradição é evidente.

O massacre de Maspiro, porém, pode ter contribuído para alterar esta equação. Se a relação entre os radicais islâmicos e o exército antes não se era clara aos coptas, agora certamente é. Provavelmente serão poucos os membros da comunidade que procurarão refúgio entre os militares. Não que os coptas não se oponham em algum grau à junta, muito pelo contrário, sempre fora comum ouvir nos atos políticos da minoria chamados pela a derrubada do governo, porém agora os mesmos chamados tomam uma nova dimensão.

Para onde vai o Egito?

Os eventos do domingo, inevitavelmente, contribuem para a radicalização da comunidade cristã e sua consolidação no bloco contrário à junta militar. Apesar de tal fato, é difícil captar o sentimento da maioria islâmica, alimentada pela imprensa com contínuo ódio religioso. Em uma região com pouca tradição de imprensa livre e um déficit histórico de participação popular, teorias da conspiração, na qual coptas subversivos em conjunto com estrangeiros estão tentando assumir o controle do país, tendem a encontrar solo fértil.

Ao longo de todo domingo boatos que circularam na mídia anunciavam que os Estados Unidos pretendiam mandar tropas ao Egito para proteger os templos cristãos, independente da vontade do governo local. Suposição esta inteiramente descolada da realidade, principalmente dado os fortes vínculos entre Washington e a Junta Militar. Mesmo assim, tais argumentos tendem a seduzir muitos egípcios, os levando a se unir ao seu governo contra o suposto inimigo externo.

A relação entre as diferentes comunidades religiosas do país, porem, é complexa. Em meio aos funerais das vítimas, Nagiba Shenouda, uma jovem estudante copta, fazia questão de enfatizar esta especificidade. “Isto aqui não é o Líbano” afirmava. “Por mais que ao longo dos últimos 30 anos cristãos e muçulmanos tenham se afastado uns dos outros, nossas vidas continuam entrelaçadas. Aqui no Cairo, ao contrário de cidades libanesas como Beirute, existe uma constante interação social entre as comunidades. Cristãos e muçulmanos muitas vezes residem nos mesmos bairros, estudam nas mesmas escolas e trabalham nas mesmas empresas”, dizia a jovem. “Existem problemas entre as comunidades, um cristão médio sofre mais dificuldades sociais do que um muçulmano médio, mas daí para um conflito sectário é uma distância muito grande”, concluía Nagiba.

As greves continuam

O massacre realizado pelo exército à manifestação é também um aviso a toda oposição. No Egito as regras do jogo podem estar mudando. O descontentamento cada vez maior com a junta militar, expresso abertamente nas recentes críticas feitas pelos partidos liberal-burgueses ao processo de transição, somado à onda de greves vitoriosas, desencadeadas nos últimos dois meses, revelam um acirramento das tensões sociais no país. A tentativa orquestrada pelo regime de fomentar a divisão entre as massas pode muito bem indicar que a junta militar precisa aumentar o grau de coerção frente à clara redução do consentimento.

Na cidade de Mahallah, coração industrial do Egito, uma nova onda de greves na indústria têxtil pode mais uma vez eclodir em meio à crise de Maspiro. Enquanto a central sindical independente cresce a cada dia, a contradição central da sociedade, aquela que coloca os proprietários dos meios de produção no campo oposto aos produtores, parece estar longe de ser esquecida pela classe trabalhadora. Por mais que a junta do Mareshal Tantawi insista na tecla religiosa, nada garante a estabilidade de seu emprego. Mesmo após o tenebroso massacre do domingo, como diz a velha expressão militante, a luta continua. Que os mártires de Maspiro não tenham caído em vão.




A guerra russo-americana à Síria

Aldo Cordeiro Sauda

O colapso da proposta de cessar-fogo na Síria, firmado por John Kerry, secretário de Estado norte americano, e Sergei Lavrov, ministro das relações exteriores da Rússia, significa, inevitavelmente, o prolongamento da total destruição do país.

O potencial pacto russo-americano serviu mais para explicitar, na prática, que as duas maiores potências nucleares do mundo têm importantes pontos estratégicos em comum para Damasco. Ambas buscam preservar do colapso total os pilares político-militares do Estado sírio, assim como a essência de seu regime em Damasco, visando seus interesses na região.

Segundo o próprio Barak Obama, o acordo assinado dia 10 de setembro em Genebra foi firmado em meio à “desconfiança”. Nunca desde a queda do muro de Berlin a rivalidade mundial entre ambos os países foi tão grande. Além da atuação militar em campos distintos na guerra civil ucraniana e da política de sanções estadunidenses por conta da anexação russa da Criméia, novos elementos ligados à crise política eleitoral americana afetam a relação EUA-Rússia. Talvez a mais curiosa delas sejam as declarações de admiração dadas pelo ultradireitista Donald Trump, candidato à presidência pelo partido republicano, ao presidente russo Vladimir Putin.

Mas a Síria é o principal tema de disputa entre ambos. Maior intervenção militar russa desde a guerra no Afeganistão, o esmagamento da oposição armada a Assad serviu para relocalizar a Rússia politicamente no mundo. O acordo Kerry-Lavrov, é, na prática, a admissão norte americana de que a Rússia ocupa hoje um novo papel geopolítico no Oriente Médio.

Trauma Iraquiano

Ao firmar o pacto de Genebra, os Estados Unidos parecem ter cedido a Putin e até recuado parcialmente em sua proposta por uma “solução iemenita” para a Síria. Isto significava dar um fim a Bashar Al Assad de forma similar ao que foi feito pelos sauditas com Abdel Saleh, presidente que governou o Iêmen por 24 anos. Por meio de um acordo regional, o chefe de estado iemenita assinou um pacto em Riad – capital da Arábia Saudita – que transferia o poder ao seu vice-presidente enquanto todo resto do regime manteve-se intacto.

Desde a retirada americana no Iraque –  sem conseguir os objetivos de dominar de forma estável a segunda reserva petrolífera do mundo – a ideia de desintegrar os pilares militares e administrativos do estado inimigo como estratégia imperialista de dominação foi abandonada no Oriente Médio. Segundo o balanço acumulado no Pentágono e no Departamento de Estado americano, o fracasso da ocupação do país, iniciada em 2003, se deve ao fato de os EUA terem desmontado os dois principais pilares do estado nacional iraquiano; o Partido Baath e o Exército.

Ao ter de lidar com as consequências de uma anarquia incontrolável em Bagdá, Washington concluiu que uma nova estratégia mais racional, inclusive para combater a Al Qaeda e o Estado Islâmico, passava pela preservação de aparatos militares cujos estados mantivessem possíveis posições hostis aos EUA. Foi esta a fórmula política aplicada por Obama à “primavera árabe” frente ao levante pró-democracia que afetou aliados e adversários norte-americanos na região.

Após a concretização deste novo método no Iêmen e na Tunísia – no qual o presidente tunisiano, Ben Ali, foi sequestrado em seu avião e despachado na Arábia Saudita enquanto a velha guarda manejou um processo de transição política – tentou-se ao máximo aplicar a estratégia pós-iraquiana à Líbia e Síria. Em Trípoli, a política americana de mediação com o ditador Muamar Kadafi, que dirigia o pais a quase 40 anos, era negociada através de seus filhos. Ela apenas fracassou devido a recusa do tirano em reconhecer a inevitabilidade de sua derrota militar frente o levante.

Já o caso sírio tem ganhado contornos próprios. Desde o início da onda de refugiados à Europa e os atentados do Estado Islâmico, que apanhou os norte-americanos desprevenidos, Washington parece estar recuando cada vez mais da “proposta iemenita” para a Síria de aplicar limitada pressão político-militar sob Damasco para forçar um acordo que preservasse o regime ditatorial, mas retirasse Bashar Al Assad de sua direção.

Zig-zag ianque 

O crescente papel da Russia na região atuou em parte como um empecilho à estratégia de Obama. Porém, para a sorte de Damasco, ela foi usada na contenção à oposição militar a Assad. Neste caso, a estratégia melhor se expressou no veto americano à venda de equipamento antiaéreo para os rebeldes. Ao proibir seus aliados internacionais que patrocinavam a oposição síria de ceder lançadores antiaéreos tipo MANPAD e mísseis FIM-92H Stinger-RMP, cujo preço da unidade fabricado nos EUA é de menos de 45 mil dólares, Obama impediu Assad de cair.

Inesperadamente, frente à enorme resistência militar dos rebeldes, a ausência em sua parte de armamentos decisivos acabou prolongando interminavelmente o conflito e empurrando os próprios guerrilheiros (formado por diversos grupos e frentes militares) mais e mais nas mãos dos principados do Golfo – principalmente o Qatar e a Arábia Saudita – para o financiamento cotidiano de suas atividades. Enquanto Washington impedia estes países de enviar armas pesadas aos grupos que patrocinavam, enxergavam com bons olhos a distribuição de armas leves, que igualmente impedissem que Assad e os russos se saíssem inteiramente vitoriosos por lá.

O movimento pro-democracia, consequentemente, viu-se espremido de todos os lados, e os setores minoritários dos rebeldes ligados a eles, sem esperança de vitória militar, foram lentamente sendo cooptados pelo capital vindo dos países do Golfo. Esses estados, atrelados político-ideologicamente ao fundamentalismo islâmico, formaram uma das duas grandes fontes contrarrevolucionárias que, ao menos temporariamente, conseguiram esmagar o levante democrático em toda região.

Como afirma o trotskista libanês Gilbert Achcar, a “primavera árabe”, diferentemente da maioria dos processos revolucionários do século XX, contou com dois grandes eixos igualmente contrarrevolucionários, que entraram repetidamente em choques armados entre si. Estes dois polos, compostos de um lado pelos antigos regimes ditatoriais, como os de Assad, Mubarak e Ben Ali, foram desafiados por potências igualmente contrarrevolucionárias, como o emirado do Qatar ou o governo turco de Erdogan. Esta dinâmica política, alimentada por aparatos multibilionários, concretamente anulou a força política do polo revolucionário, formado por jovens trabalhadores organizados pela internet que saíram as ruas ao longo de 2011-2012.

Guerra ao Terror

Os detalhes do pacto Kerry-Lavrov, por deliberação dos americanos, foram mantidos em sigilo. O que se sabe dele, portanto, é o que foi anunciado pelos dois governos na coletiva conjunta de imprensa. Ele seria, segundo os ministros, composto por duas fases. A primeira duraria uma semana, caso ela desse certo, se iniciaria a segunda.

Durante a primeira semana, se garantiria um cessar fogo entre rebeldes e o governo sírio, porém, se continuaria a guerra de todas as outras forças contra o Estado Islâmico e a Al Qaeda. Ao longo deste primeiro período, o exército sírio teria de permitir a entrada de alimentos para as cidades controladas pela oposição e sitiadas por Assad.

Mesmo que o cessar fogo tenha sido aplicado por alguns dias, a permissão à entrada de alimentos em cidades como Alepo foram impedidas pela ditadura. Símbolo maior disto foram os dois comboios de ajuda humanitária, composto por 40 caminhões da ONU destinados à zona leste de Alepo, que ficaram parados na fronteira entre Síria e Turquia. A recusa do exército de Bashar al-Assad em permitir a chegada da assistência, capaz de alimentar 185 mil pessoas por um mês, ganhou contornos sádicos alguns dias depois, quando, logo após anunciar o fim do cessar-fogo, comboios com alimentos foram bombardeados pelo ar pelas forças Russo-sírias.

Na segunda fase do pacto entre Moscou e Washington (caso a primeira fase se saísse vitoriosa) Rússia e EUA se uniriam, militarmente, no confronto contra o Estado Islâmico e o grupo Nusra – antiga sessão da Al Qaeda na Síria – e bombardeariam, em conjunto, as regiões do pais controlada pelos “jihadistas”. Afirma o New York Times, em uma tentativa de embelezar o tratado:

O elemento chave é que a Rússia precisa, portanto, impedir as forças do Presidente Bashar al-Assad de realizar operações aéreas sobre áreas controladas pela Al-Nusra e as outras forças da oposição. Os EUA esperam que isso termine com o uso indiscriminado de “bombas de barril” [barris de TNT ou pólvora atirados de helicópteros sem alvos determinados em zonas urbanas] – incluindo ataques com gás cloro – que tem permeado o conflito.

 

Em contrapartida, os EUA terão de persuadir os setores da oposição sob o qual mantêm influência de que eles se separem da Al-Nusra. Assad tem atacado a oposição muitas vezes sob o pretexto de estar atacando guerrilheiros da Al-Nusra.

A argumentação do NYT é curiosa. Afinal, se a grande preocupação dos americanos fossem impedir os bombardeios aéreos com bombas de barril, porque então Washington proibiu a vende de armas antiaéreas aos rebeldes? O eixo do acordo, portanto, parece ser outro, o de tentar introduzir uma vitória mínima à diplomacia americana na véspera das eleições presidenciais frente o debacle sírio.

Independente das intenções de Washington, o acordo foi mal visto pelos rebeldes. Frente aos avanços contínuos de Assad, qualquer cessar-fogo, de certa forma, é melhor que nenhum cessar-fogo, e por isto, ele foi aceito pelos grupos armados anti-regime. Porém, não a ideia de jogar os rebeldes contra a antiga Jabhat al-Nusra.

A proposta de atacar a antiga Nusra se diferencia daquela que propõem unidade contra o Estado Islâmico. Ao contrário do EI, que está em guerra permanente contra os rebeldes, muitas vezes em unidade de ação com o próprio Assad, a relação da oposição armada à ditadura e sua base social com a antiga Al-Nusra é muito mais complexa. Ao contrário do Estado Islâmico, comandado por estrangeiros sem compromisso com a derrubada de Assad, a antiga Al-Nusra, que rompeu no mês passado sua filiação internacional com a Al Qaeda, integra de fato o campo de oposição militar à ditadura de Damasco. Segundo afirma o Observer, em uma matéria parcialmente produzida no norte da Síria:

Jabhat Fateh al-Sham [o novo nome do grupo jihadista Jabhat al-Nusra] está de fato entre nós,” afirmou Dawood Mahmudi, importante dirigente rebelde do leste de Alepo. “Eles estão aqui porque ninguém mais está. Eles mantiveram a cidade aberta e a reabriram quando estávamos sitiados. Onde estavam a Rússia e os EUA à época? Eu lhes direi onde estavam: os EUA não estavam em lugar algum e a Rússia estava nos bombardeando. E agora eles dizem, ‘confiem em nós”.

 

Na província de Idlib, no Noroeste de Alepo, onde Jabhat Fateh al-Sham tem uma presença maior do que em Alepo, também havia resistência para a rendição de grupos jihadistas que surgiram em meio ao caos da guerra civil síria como protetores de algumas regiões. “Eles são daqui e eles são parte de nós” disse Abu Towfik, um ancião do vilarejo de Saraqeb, cujos três irmãos lutam com o grupo jihadista. “Eles não seriam o grupo mais forte daqui se a ajuda tivesse chegado antes.”

Unidade Obama-Putin-Assad?

As turbulências mundiais causadas pelas crescentes ondas de refugiados sírios deram mais peso à “pacificação” do país árabe na agenda imperialista mundial. O caminho proposto pelas potências ocidentais, porém, apenas intensificará a destruição da nação e sua sociedade. Ela transforma os estados imperialistas ocidentais em coautores dos crimes da Assad.

Ao invés de reconhecerem a realidade política, de que jamais haverá paz na Síria sem destituição de Assad e a construção de um regime de transição, o imperialismo tem buscado se associar ao ditador para “lutar contra o terror”. Afirmou o jornal Guardian, ao cobrir a assinatura do acordo

Em sua fala, Kerry sugeriu que o regime Assad poderia conduzir ataques aéreos contra a frente al-Nusra (que recentemente mudou seu nome oficial para Jabhat Fateh al-Sham) se tivessem a aprovação dos russos e dos americanos.

Mais tarde, segundo o jornal, John Kirby, porta-voz oficial do Departamento de Estado, afirmou que não haverá qualquer tipo de unidade com Assad por parte dos Estados Unidos. Segundo Kirby, “o objetivo do JIC [a cooperação militar aérea], se e quando ele for estabelecido, seria para coordenar a ação militar entre os EUA e a Rússia, não para outros atores”.

Inevitavelmente, a proposta do Secretário de Estado norte-americano serviu para fortalecer Assad, não só diplomaticamente, mais também no campo militar. Ao propor uma tentativa de solução diplomática sem uma perspectiva política de transição, que incluísse a saída do ditador do poder, os americanos apenas deram mais tempo para as tropas de Damasco prepararem tranquilamente uma nova ofensiva sobre Alepo. Melhor síntese das ações criminosas de Kerry foi dada por Gilbert Achcar, em um texto recente na revista The Nation:

Foi anunciado (isto é, vazado) que os estrategistas militares norte-americanos não confiavam na possibilidade do regime Sírio e seus patrocinadores russos e iranianos de aplicar um cessar-fogo ligado a um compromisso político. Além do mais, o Pentágono não possui intenção de compartilhar dados militares sobre a oposição síria com os russos por temer que ela possa ser usada para aprofundar o bombardeio da oposição a Assad. E eles tem razão da suspeita. Kerry já conquistou seu ligar na história como incrível personificação da diplomacia naif, i.e. sua crença na capacidade de resolver conflitos em mesas de negociação sem o apoio de ações concretas na realidade (acertadamente descrito pelo Financial Times como uma “interminável confiança em sua própria habilidade de solucionar problemas caso ele apenas consiga juntar os diferentes lados dentro de uma sala”), e suas incríveis ilusões com relação a disposição de Moscou a ajudar os EUA a sair da encruzilhada síria.

É improvável, porém, que Barak Obama – alguém que dificilmente pode ser suspeito de ingenuidade – compartilha das idiossincrasias de seu Secretário de Estado. O presidente norte americano tem teimosamente rejeitado mudar sua atitude perante a Síria ao longo dos últimos quatro anos a pesar das enormes evidencias de que ele estava permitindo o conflito se degenerar em uma catástrofe para o povo sírio e mais um enorme desastre para a política externa dos EUA após Iraque e Afeganistão. Ao fazer isto, Obama apenas conseguiu convencer a maior parte da opinião pública árabe de que os EUA, que invadiram o Iraque e bombardearam a Líbia por muito menos do que tem ocorrido na Síria ao longo dos últimos cinco anos, apenas se preocupam com países ricos em petróleo. Se alguém na região tinha ilusões nos pretextos democráticos e humanitários invocados por Washington em suas últimas guerras, devem tê-los perdido inteiramente agora. Como Anthony Cordsman, um dos mais astutos observadores da situação político-militar do Oriente Médio recentemente afirmou, o presidente americano está inteiramente centrado em uma “estratégia de saída” – não da crise síria, mais de seu próprio escritório.




Grã-Bretanha: Por que eles ainda têm tanto medo de León Trotsky?

Daniel Taylor  |

Os líderes do establishment do partido trabalhista da Grã-Bretanha se lançaram desesperadamente em uma campanha para desalojar Jeremy Corbyn da liderança do partido, após uma vitória expressiva deste nas eleições internas (da qual participam os membros do partido) no ano passado. Corbyn representa uma ala esquerda do partido que há muitos anos era mantida fora da liderança, cuja função é dirigir a oposição ao governo conservador e apresenta o líder como candidato a primeiro-ministro caso o partido vença as eleições parlamentares. O programa da liderança de Corbyn, embora apresente as importantes limitações comuns a todo projeto reformista, representa um giro à esquerda inaceitável para a maioria da fração parlamentar do partido (seu programa inclui a defesa da estatização de setores estratégicos da economia – como as ferrovias -, a oposição a iniciativas imperialistas e à permanência do Reino Unido na OTAN, e a recusa da utilização do orçamento em gastos militares correspondentes a estes projetos, como o caso dos submarinos nucleares Trident).

Após a votação do “Brexit” no plebiscito no final de junho uma maioria dos parlamentares do partido se mobilizou para destituir Corbyn da liderança buscando um nome mais “aceitável” para a burguesia inglesa e que permitisse uma “unificação” com a ala direita. A conspiração da direita do partido incluiu uma tentativa de impedir até mesmo que o nome de Corbyn constasse da votação para a escolha de um novo líder, movimento que só foi barrado por uma intensa mobilização dos membros do partido organizados em torno do movimento “momentum“, que inclui alguns dos principais sindicatos britânicos. A nova eleição para a liderança do partido ocorre este mês, e as pesquisas indicam uma nova vitória avassaladora de Corbyn contra o candidato da direita, Owen Smith. Esta situação gerou todo um desespero nos setores de centro na política britânica, incluindo uma estranha campanha midiática contra o “Trotsquismo”. O texto abaixo, de Daniel Taylor, busca expor as raízes desta intensa campanha anti-trotsquista da imprensa britânica. O texto foi publicado originalmente no Jornal Red Flag, da Austrália. Introdução e tradução de Patrick G. de Paula.

Jeremy Corbyn empurrou a sociedade britânica à esquerda de maneiras diversas. Ele tem encorajado um revival de uma série de noções supostamente antiquadas: a nacionalização em larga escala, a greve e o protesto. Mas talvez o mais surpreendente de tudo é que Corbyn (ou, mais especificamente, a campanha contra ele) trouxe o nome de Leon Trotsky para o mainstream do debate político na Grã-Bretanha.

Trotsky chegou às manchetes quando o vice-líder do Partido Trabalhista Tom Watson afirmou que “entristas trotsquistas” que estavam “influenciando os mais jovens”, foram responsáveis pela crescente popularidade de Corbyn. Watson até começou a ventilar um “dossier” de evidências de que novos membros do Partido Trabalhista e as maciças manifestações pró-Corbyn na Grã-Bretanha comprovariam que os “trotsquistas” estariam “voltando para o partido”.

Depois disso, a imprensa britânica – sempre aberta à novas maneiras de atacar Corbyn – desenvolveu a ideia com força. A BBC publicou uma cartilha muito interessante chamada “O que é um trotsquista?” e os líderes do movimento trotsquista britânico foram convidados a explicar-se em público, obviamente, na esperança de que sua retórica revolucionária sem maquiagens incriminasse Corbyn por associação (e no final eles até foram bastante bem-educados…).

A obsessão Trotsky-Corbyn já está aí há algum tempo. Mesmo durante a primeira campanha de liderança de Corbyn no ano passado, o aparato do partido trabalhista tentou manipular a eleição ao excluir novos membros da participação; eles chamaram este pequeno projeto de “Operation Ice Pick” (operação picareta) em referência à arma usada por um agente stalinista para assassinar Trotsky em 1940.

No início de 2016, o jornalista político Michael Crick reeditou seu livro de “caça-as-bruxas” Militant, uma narrativa que exalta a forma pela qual o último agrupamento trotsquista de tamanho considerável dentro do partido trabalhista foi detonado e expulso do partido. Tom Watson descreveu o livro como uma “leitura obrigatória para ativistas trabalhistas”.

Em certo sentido, esta é apenas a mais recente numa longa lista de calúnias cada vez mais enlouquecidas contra Corbyn: que ele é um anti-semita; que ele é um simpatizante do ISIS; que ele é muito relutante em destruir a humanidade em um holocausto nuclear global; que ele fingiu sentar-se no chão de um trem…

Cada acusação teve apenas algumas semanas de execução na imprensa. Mas as acusações sobre o trotsquismo são diferentes: os acusadores realmente parecem acreditar nelas. Eles publicam e divulgam o “dossier” de Watson e o “manual de guerra” anti-Militant de Crick com um ar de pânico que sugere que eles realmente têm algo a temer dos “trotsquistas”. O que explica isso?

Trotsky sempre foi igualmente aterrorizante e impressionante para políticos do establishment. Winston Churchill escreveu que ele combinou “o comando organizativo de um Carnot, a fria inteligência individual de um Maquiavel, a oratória popular de um Cleon, a ferocidade de Jack, o estripador, e a dureza de Titus Oates.”

Um oficial da Cruz Vermelha Americana que executava um trabalho “diplomático” na Rússia pós-revolucionária observou que Trotsky era “um tremendo filho-da-puta, mas também o maior judeu desde Jesus Cristo”.

Mas para a classe operária russa e para os trabalhadores do movimento revolucionário que surgiu em toda a Europa nos anos seguintes Primeira Guerra Mundial, Trotsky foi visto, principalmente, como o “organizador da vitória”.

Depois de anos de exílio, Trotsky havia retornado para a Rússia em 1917, quando a revolução estava em pleno vôo. Ao longo de 1917 ele defendeu, com todo o poder de um dos grandes oradores da política moderna, que a classe operária deve tomar o poder para si. Em outubro, ele ajudou a organizar o levante mais aberto e democrático da história.

Não é de admirar que ele apareça em pesadelos dos modernos burocratas do partido trabalhista, cuja imediata sobrevivência política depende de “operações picareta”, e para quem a participação ativa das pessoas da classe trabalhadora na política é uma ameaça, não um objetivo.

A capacidade de Trotsky para assustar os privilegiados e motivar os oprimidos atingiu o seu apogeu nos anos seguintes a 1917. Como organizador, fundador e líder do Exército Vermelho, ele liderou a defesa militar bem sucedida da revolução russa contra a brutalidade chocante da contra-revolução capitalista.

Quatorze exércitos invadiram a Rússia, na tentativa de exterminar o movimento revolucionário dos trabalhadores; O Exército Vermelho de Trotsky derrotou todos eles. E no período que se seguiu, como uma figura importante no movimento revolucionário internacional, Trotsky trabalhou para encorajar os trabalhadores através de fronteiras a trabalhar juntos para derrubar seus exploradores.

Foi neste momento que Trotsky esteve sujeito às mais grotescas calúnias anti-semitas, anti-comunistas e anti-operárias, retratando-o como um subversivo judeu que tinha evocado uma multidão selvagem de analfabetos para abater as pessoas civilizadas e para conquistar o mundo.

Esta difamação é agora direcionada contra Corbyn, que é acusado pela imprensa e os seus inimigos trabalhistas de simpatia por Trotsky, o suposto autor da “matança em massa”. Mas matança em massa não é nem nunca foi um problema para a classe dominante: Apenas há duas semanas atrás, eles estavam criticando Corbyn por sua recusa a endossar o uso de armas nucleares. E ele o tempo todo foi atacado por sua hostilidade à sangria imperialista do Oriente Médio.

A classe dominante em todo o mundo deu um suspiro de alívio quando a Revolução Russa foi estrangulada por Stálin e sua essência emancipadora substituída pela ditadura autoritária. Trotsky foi exilado, e depois assassinado por agentes de Stálin. É revelador que os inimigos de Corbyn no partido trabalhista se identifiquem com este crime (ainda que “brincando”), quando eles se envolvem em expurgos anti-esquerda.

Esta época do exílio e e o período subsequente foi também o momento de “trotsquismo”: quando primeiro Trotsky e depois seus sucessores – enfrentando a repressão brutal de stalinistas, fascistas e “democratas” igualmente – trabalharam incansavelmente para manter uma corrente política que era ao mesmo tempo revolucionária, marxista e anti-stalinista.

Foi um período de resistência heroica nas circunstâncias mais difíceis, na qual os apoiadores de Trotsky foram empurrados para as margens do movimento dos trabalhadores. Por muitas décadas, parecia que os únicos caminhos possíveis para a política da classe trabalhadora eram o estalinismo autoritário ou um reformismo cada vez mais morno. Os líderes dessas correntes se convenceram de que a ameaça de uma classe operária radical estava terminada e que o “trotsquismo” era apenas uma piada de mau gosto.

That joke isn’t funny anymore. Esta piada parece não ter mais graça. Certamente, a paranoia de Tom Watson é um absurdo. Oitenta anos atrás, Stálin acusou trotsquistas de colaborar com os nazistas para explodir minas e ferrovias russas; Agora, o desafiante de Corbyn, Owen Smith, acusa “entristas” de organizar as pessoas para rir dele durante os debates da disputa pela liderança.

Não é o poltergeist de Trotsky que está colocando os jovens Corbynistas em movimento; grupos políticos trotsquistas não estão dirigindo o despertar político de centenas de milhares de esquerdistas na Grã-Bretanha galvanizados por Corbyn.

Mas a aposta do trotsquismo ainda está valendo a pena. A história não terminou a chegada ao poder de Stálin, nem com Thatcher, nem com Blair. Centenas de milhares – talvez milhões – de pessoas jovens, os trabalhadores organizados e os socialistas podem vir a desafiar as ordens dos respeitáveis políticos trabalhistas.

Manifestações de massa, novas organizações políticas e velhas questões sobre socialismo e capitalismo podem voltar a aparecer dentro do movimento do trabalhadores. Aqueles que ganham a vida com a administração do atual sistema político têm razão para temer este processo. As coisas estão apenas começando agora, mas a vida e as idéias de Trotsky indicam onde tudo pode acabar – com os trabalhadores se livrando de seus grilhões e assumindo o comando de seu destino!

Publicado originalmente em Red Flag.




Rentismo crônico e a crise venezuelana 1/3

Edgardo Lander

O principal motivo para a crise que hoje atravessa a Venezuela, mas obviamente não a única causa, foi o colapso dos preços do petróleo ao longo dos últimos três anos. Em 2013, o preço médio do petróleo venezuelano foi de 100 dólares, em 2014, baixou para 88,42 dólares e, em 2015, para 44,65 dólares. Em fevereiro 2016, o petróleo chegou ao nível mais baixo, com um preço médio de 24,25 dólares.1 O governo do presidente Chávez, longe de assumir que uma alternativa ao capitalismo tinha necessariamente de ser uma alternativa ao modelo predatório de desenvolvimento do crescimento sem fim, longe de questionar o modelo rentista do petróleo, o que fez foi radicalizá-lo a níveis historicamente sem precedentes no país. Nos 17 anos do processo bolivariano, a economia foi-se tornando sistematicamente cada vez mais dependente das receitas do petróleo, receitas sem as quais não é possível importar bens necessários para satisfazer as necessidades básicas da população, incluindo uma ampla gama de produtos que antes eram produzidos no país. Durante estes anos, deu-se a prioridade à política assistencialista sobre a transformação do modelo económico, reduziu-se a pobreza sem alterar as condições estruturais da exclusão.

Identificando socialismo com estatismo, mediante sucessivas nacionalizações, o governo bolivariano expandiu a esfera estatal muito para além da sua capacidade de gestão. Em consequência, o estado é agora maior, mas também mais débil e mais ineficaz, menos transparente, mais corrupto. A prolongada presença militar na gestão de organismos estatais contribuiu significativamente para estes resultados. A maioria das empresas que foram estatizadas, nos casos em que continuaram a operar fizeram-no graças ao subsídio das receitas do petróleo. As políticas sociais, que melhoraram significativamente as condições de vida da população, tal como as múltiplas iniciativas de solidariedade e integração no contexto latino-americano, só foram possíveis graças aos elevados preços do petróleo. Ignorando a experiência histórica em relação ao caráter cíclico dos preços das commodities, o governo agiu como se os preços do petróleo se fossem manter indefinidamente acima de cem dólares por barril.

Uma vez que o petróleo passou a constituir 96% do valor total das exportações, a quase totalidade das divisas que entraram no país nestes anos foi por meio do Estado. Através de uma política de controle de câmbios, acentuou-se uma paridade insustentável da moeda, o que significou um subsídio ao conjunto da economia. Os diferenciais de taxa de câmbio que caracterizaram esta política chegaram a ser de mais de cem para um. Isto, juntamente com a discricionariedade com que os funcionários podem dar ou não as divisas solicitadas, fez com que a gestão das divisas se tornasse a espinha dorsal da corrupção no país.2

No tempo das vacas gordas toda a receita fiscal extraordinária foi gasta, incorrendo-se mesmo em elevados níveis de endividamento. Não se criaram fundos de reserva para quando os preços do petróleo descessem. Quando estes colapsaram, o inevitável aconteceu, a economia entrou numa recessão profunda e prolongada e o projeto político do chavismo começou a meter água.

O PIB caiu 3,9% em 2014 e 5,7% em 2015.3 Para 2016, a Cepal prevê uma queda de 7%.4 Há um importante e crescente défice fiscal. Segundo a CEPAL, a dívida externa duplicou entre 2008 e 20135. Ainda que em percentagem do PIB não seja alarmante, a redução drástica das receitas em divisas dificulta o seu pagamento.6 Houve uma forte queda das reservas internacionais. Em junho de 2016, as reservas representavam 41% do montante correspondente no final de 2012.7 O acesso a novos financiamentos externos está limitado pela incerteza sobre o futuro do mercado petrolífero, a falta de acesso aos mercados financeiros ocidentais e as muito elevadas taxas de juros que são exigidas atualmente ao país.

Acresce a isto que a taxa de inflação é a mais alta do planeta. Segundo dados oficiais, em 2015 a inflação foi de 180,9%, e a inflação dos produtos alimentares e bebidas não-alcoólicas foi de 315%.8 E, certamente, está subestimada. Não há dados oficiais disponíveis, mas a taxa de inflação na primeira metade deste ano, particularmente nos produtos alimentares, foi muito superior à do ano anterior.

Esta severa recessão económica poderá levar a uma crise humanitária. Há uma escassez geral de alimentos, medicamentos e produtos domésticos. As famílias venezuelanas têm de passar mais tempo percorrendo estabelecimentos e fazendo filas em busca de alimentos que não estejam além do seu poder de compra. Está a produzir-se uma redução significativa no consumo de alimentos por parte da população. Da situação em que a FAO fez um “reconhecimento de progressos notáveis e excecionais na luta contra a fome”, baseada nos dados até ao ano de 2013, assinalando que havia uma proporção de menos de 6,7% de pessoas subnutridas,9 passou-se para uma situação de crescente dificuldade na obtenção de alimentos e onde a fome se tornou um tema de conversa de todos os dias. De acordo com as últimas estatísticas oficiais, a partir de 2013 veio produzindo-se uma descida sustentada no consumo de praticamente todos os tipos de alimentos. Em alguns casos de forma muito pronunciada. Entre o segundo semestre de 2012 e o primeiro semestre de 2014, o consumo de leite reduziu-se para menos de metade.10 Estes dados são anteriores ao aprofundamento da escassez e da inflação, que ocorreram no último ano. As sondagens registam que é cada vez maior o número de famílias que deixou de comer três vezes ao dia, aumentando mesmo a percentagem de famílias que afirma que só come uma vez por dia. De acordo com o inquérito Venebarómetro, a grande maioria da população (86,3%) afirma que compra menos ou muito menos comida do que antes.11

No campo do acesso a medicamentos e serviços de saúde, a situação é igualmente crítica. Os hospitais e outros centros de saúde apresentam elevados níveis de escassez de produtos básicos e falta de equipamentos e instrumentos médicos devido a limitações no acesso a peças de reposição e outros materiais, nacionais ou importados. Nos hospitais e centros de saúde, é comum que só se possa atender e alimentar os doentes se a família puder fornecer os produtos e alimentos necessários. São frequentes as suspensões de operações devido à falta de equipamentos, produtos ou pessoal médico. Pacientes que necessitam de diálise não recebem tratamento. Escasseiam severamente os medicamentos indispensáveis para o tratamento de doenças como a diabetes, a hipertensão e o cancro.

O governo não reconhece a possibilidade de o país estara entrar numa situação de emergência que requeira ajuda do exterior. Por um lado, porque isso seria visto como uma admissão do fracasso da sua gestão. Mas também para impedir que esse reconhecimento possa servir como porta de entrada para aoperação de dispositivos de intervencionismo humanitário, armado se considerado necessário, cujas consequências são bem conhecidas.

Nos últimos anos, o governo lançou várias operações e mecanismos de distribuição de alimentos, que foram de curta duração e, em geral, falharam por ineficiência e altos níveis de corrupção. Não conseguiram desmantelar as redes mafiosas, governamentais e privadas, que operam em cada um dos elos das cadeias de comercialização, dos portos à venda a retalho. Por outro lado, todos esses mecanismos têm estado concentrados na distribuição, sem abordar de forma sistemática a profunda crise existente na produção nacional.

A mais recente iniciativa são os Comités Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), orientados principalmente para a venda, diretamente em casa, de sacos com alimentos subsidiados. Foi este mecanismo muito polémico, entre outras coisas porque não há alimentos disponíveis que cheguem a todos, e por operarem através das estruturas do partido (PSUV). Com muito pouco tempo de funcionamento, já foram feitas múltiplas denúncias tanto pelo seu caráter político excludente dos que não se identificam como partidários do governo, como, mais uma vez, por corrupção.

Com exceção de Caracas, durante meses, em 2016, houve racionamento de energia elétrica, com a suspensão do serviço por quatro horas por dia.12 Para poupar eletricidade, os estabelecimentos públicos em todo o país só trabalham dois dias por semana, durante meses e com um horário diário reduzido, enfraquecendo ainda mais a limitada capacidade de gestão do Estado venezuelano. A distribuição de água foi racionada, afetando desproporcionalmente os setores populares. Há também uma grave crise nos transportes públicos devido à falta de peças de reposição, mesmo as mais comuns como baterias e pneus.

Tudo isto se traduz numa grave deterioração das condições de vida da população, levando à perda acelerada de melhorias sociais que se tinham conseguido em anos anteriores. O governo deixou de publicar, ou só publica com muito atraso, a maior parte das principais estatísticas económicas e sociais. Por isso, as únicas fontes atualizada ssão alguns estudos universitários e sondagens privadas.13 No mais recente estudo divulgado por um projeto interuniversitário,14 sobre rendimento e capacidade de aquisição do que definem como a cesta padrão de alimentos, caracteriza-se como pobre 75,6% da população e metade da população como extremamente pobre.15 Isto, mais do que uma deterioração, é um colapso do poder de compra da maioria parte da população.

A redução do poder de compra é generalizada, mas não afeta por igual todos os setores da população, o que provoca um aumento das desigualdades sociais. A redução das desigualdades de rendimento tinha sido uma das conquistas mais importantes do processo bolivariano. A atual deterioração do poder de compra afeta em primeiro lugar quem vive de um rendimento fixo, como salários e pensões. Ao contrário, quem tem acesso a divisas que compram cada vez mais bolívares, e aqueles que participam nos múltiplos mecanismos especulativos chamados bachaqueo (mercado negro), com frequência acabam favorecidos pela escassez/inflação.

Nas condições atuais, o governo já não conta com os recursos que seriam necessários para abastecer a população através de programas massivos de importação de alimentos. Pelas mesmas razões, a incidência das políticas sociais, as Misiones, é marcada por uma deterioração acentuada.

Pela via dos fatos, a política económica do governo opera como uma política de ajustamento que contribui para a deterioração das condições de vida da população. Deu-se prioridade ao pagamento da dívida externa sobre as necessidades alimentares e de saúde da população venezuelana. Segundo o vice-presidente para a Área Económica, Miguel Perez Abad, a Venezuela cortará, neste ano, as importações substancialmente, para cumprir os compromissos da dívida.16 Foi anunciado que o montante total de divisas disponível para importações não petrolíferas em 2016 será de apenas 15 mil milhões de dólares17, o que representa um quarto do volume das importações de 2012. E, no entanto, o presidente Maduro informou que “… o estado venezuelano pagou nos últimos 20 meses 35 mil milhões de dólares aos credores internacionais… “18 Isto é extremamente grave, tendo em conta os elevados níveis de dependência que a alimentação básica da população tem das importações.

Várias propostas têm vindo a ser formuladas tanto por organizações políticas e académicas como por movimentos populares, sobre possíveis maneiras de obter os recursos necessários para responder às necessidades urgentes da população. Entre estasdestaca-se a Plataforma de Auditoria Pública e do Cidadão,19 que exige a realização de uma investigação completa dos extraordinários níveis de corrupção com que operaram os processos de entrega, por parte de organismos do Estado, de divisas subsidiadas para as importações.20 Esta auditoria iria começar os processos de recuperação dos recursos subtraídos à nação. Esta possibilidade foi rejeitada pelo governo. Seria abrir uma caixa de Pandora que, certamente, implicaria tanto altos funcionários públicos, civis e militares, como empresários privados.

Igualmente importante seria a realização de uma auditoria da dívida externa, a fim de identificar que parte desta é legítima e que parte não é. A partir daí, propor-se-ia uma renegociação das condições de pagamento da dívida, partindo do que é prioritário para responder às necessidades imediatas de alimentação e de saúde da população sobre o pagamento aos credores. Defendeu-se igualmente a conveniência de um imposto extraordinário sobre os bens de venezuelanos no exterior, assim como uma reforma fiscal para aumentar a contribuição das grandes fortunas, especialmente do setor financeiro, que pagam taxas muito baixas.

Nada disto, é claro, teria impacto se não se criassem mecanismos efetivos de controle social para assegurar que, neste contexto de corrupção generalizada, esses bens chegam a quem deles necessita.

Primeira parte do artigo “A implosão da Venezuela rentista21 de Edgardo Lander publicado em julho de 2016 em aporrea.orgTradução de Carlos Santos para esquerda.net


1 Nos meses de maio e junho de 2016 houve uma lenta recuperação dos preços do petróleo, o crude venezuelano aproximou-se dos 40 dólares, muito abaixo, no entanto, do preço necessário para alcançar um equilíbrio orçamental.

2 De acordo com o ex-ministro do governo do presidente Chavez, Hector Navarro, “cerca de 300 mil milhões de dólares, do bilião de dólares entrado entre 2003 e 2012, desapareceram das arcas da nação, sem que os responsáveis tenham sido castigados.” Mayela Armas, “Hector Navarro: Isto não é socialismo … é vagabundagem. Fracassou o capitalismo de Estado e a corrupção’” Aporrea, Caracas 12 de dezembro de 2015.

3 Banco Central da Venezuela, Resultados do índice nacional de preços ao consumidor, produto interno bruto ebalança de pagamentos , Caracas, 18 de fevereiro de 2016.

4 “CEPAL prevê que a economia venezuelana se contraia 7% este ano”, El Nacional, Caracas, 8 de julho de 2016.

5 CEPAL, Anuário Estatístico da América Latina e do Caribe 2015. Santiago do Chile 2016.

6 Na realidade não há acesso público transparente aos valores da dívida. Esta tem diversos componentes, entre os quais a dívida da PDVSA e a dívida que se define como interna, mas que tem de ser paga em dólares.

7 Banco Central da Venezuela, Informação estatística.

8 Instituto Nacional de Estatística, Quadro 1. Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Variações percentuais, 2008 – Dezembro de 2015.

9 Reconhecimento da FAO à Venezuela, Departamento Regional da FAO para a América Latina e Caribe, Roma, 26 de junho de 2013.

10Instituto Nacional de Estatística, Inquérito ao consumo de alimentos (ESCA). Relatório Semestral, do segundo semestre de 2012 ao primeiro semestre de 2014.

11 Venebarómetro 2016, Croes, Gutierrez e Associados abril de 2016.

12 Uma elevada proporção da energia elétrica gerada no país é hidroelétrica. O governo atribuiu a crise elétrica exclusivamente ao fenómeno do El Niño. A seca tem, sem dúvida, um impacto elevado, mas não basta para explicar a profundidade da crise. São igualmente importantes a devastação das bacias hidrográficas dos rios da Amazónia venezuelana, como consequência da exploração do ouro por milhares de mineiros informais, e a ausência das previsões e dos investimentos necessários para fornecer métodos alternativos de geração de energia elétrica, quando este fenómeno de caráter cíclico se voltar a repetir. Os investimentos em energias renováveis têm sido praticamente inexistentes.

13 A velocidade com que as coisas estão a ocorrer na Venezuela é tal que todas as estatísticas citadas no texto estão necessariamente atrasadas em relação à realidade em mudança.

14 Inquérito de Condições de Vida na Venezuela. ENCOVI, Pobreza e Missões Sociais em Novembro de 2015,Universidade Católica Andrés Bello, Universidade Central da Venezuela, Universidade Simon Bolívar e outras instituições. Caracas de 2016.

15Este estudo, assim como todos os que se realizam atualmente na Venezuela, tem sérios problemas metodológicos. Uma proporção significativa das receitas, assim como do consumo da população venezuelana ocorre hoje por meio de mecanismos informais, ilegais e até mesmo mafiosos, mecanismos que estão longe da transparência. Por conseguinte, é extremamente difícil obter acesso a informação medianamente confiável.

16“Perez Abad anuncia restrição de divisas para cumprir dívidas da PDVSA”, Caracas 16 de maio de 2016.

17 Perez Abad calculou importações não petrolíferas em 2016 de apenas 15 mil milhões, El Cambure, Caracas 12 de maio de 2016.

18 Correo del Orinoco, 17 de maio de 2016.

19 VerPlataforma de Auditoria Pública e Cidadã.

20 Segundo Edmeé Betancourt, que na época presidia ao Banco Central da Venezuela, do total de 59.000 milhões de dólares em divisas subsidiadas entregues somente num ano, em 2012, cerca de 20.000 milhões de dólares foram entregues a “empresas offshore”, uma “procura artificial” “não associada com atividades de produção”. “Presidente do BCV: Parte do 59.000 milhões entregues em 2012 foi para ’empresas offshore'” – www.aporrea.org, Caracas 25 de maio de 2013.

21 Este texto foi escrito como contributo para os debates do Grupo de Trabalho Permanente sobre Alternativas ao Desenvolvimento, promovido, em Quito, pelo Departamento Regional Andino da Fundação Rosa Luxemburgo.