Augusto Boal e a revolução paralisada em Portugal

Por Paulo Bio

O 25 de abril de 1974 em Portugal reverberou com enorme intensidade entre brasileiros exilados pela ditadura direitista que se alojou no poder em 1964. O diretor teatral Augusto Boal vivia na Argentina desde 1971, após ser preso e barbaramente torturado no Brasil. As notícias que chegavam sobre Portugal eram cheias de esperança. Após o golpe militar do MFA, que no início ninguém sabia bem o que significava, jornais, rádios e cartas descreviam um país em um vórtice revolucionário. Boal, como tantos outros, logo teve vivo interesse em participar daquele processo.

O diretor brasileiro desde finais da década de 1960 vinha refletindo sobre um teatro que rompesse com os paradigmas modernos da estética burguesa e que trabalhasse por alterar o sentido produtivo do aparelho cultural. Buscava um teatro alinhado aos trabalhadores na luta de classes. Enquanto ainda vivia no Brasil, desenvolveu práticas teatrais ligadas a procedimentos de agitação e propaganda (agitprop). Em 1970, por exemplo, trabalhou com técnicas de Teatro Jornal, uma forma de ação teatral rápida e direta que propunha um diálogo horizontal com o público popular a partir da leitura crítica de material jornalístico. O objetivo era criar um foco multiplicador de grupos de teatro entre trabalhadores, camponeses e estudantes.

Já no exílio latino americano desenvolve a ideia do Teatro do Oprimido, uma série de procedimentos, exercícios, propostas de intervenção e roteiros pedagógicos que, pouco a pouco, colocassem os meios de produção teatral à serviço dos trabalhadores.

A Revolução portuguesa aparecia, portanto, como campo fértil, de horizonte aberto e com o futuro a ser inventado. Ali era o ambiente no qual mais faria sentido o trabalho com o Teatro do Oprimido, esse projeto experimental que desmontava a ideia burguesa de especialização em arte. Contudo, a ditadura brasileira atravancou o processo e impediu o diretor de renovar seu passaporte, impondo um entrave jurídico e burocrático que duraria mais de um ano.

Quando Boal chegou em Lisboa, em maio de 1976, foi recebido com cravos vermelhos no aeroporto, mas já eram imagens de um passado. O processo revolucionário fora interrompido em novembro de 1975. As experiências avançadas e incontáveis de teatro amador em fábricas, bairros populares, universidades e aldeias; as campanhas de dinamização que levaram o teatro a repensar seu sistema de produção e circulação; ou a crítica das formas burguesas em arte desapareceram pouco a pouco após o contragolpe conservador de novembro.

De todo modo ainda foi um tempo efervescente, tenso e que parecia repleto daquela pólvora popular na iminência de outra explosão. Já de início, Boal tenta colocar em prática formas experimentais de aprendizagem no Conservatório Nacional, onde leciona, mas é sumariamente demitido em 1977 após propor uma nova organização curricular e pouco tempo depois de realizar sessões de Teatro Fórum nas comemorações do 25 de abril no Porto com milhares de pessoas.

Após a demissão do conservatório Boal dedica-se ao trabalho com a companhia de teatro independente A Barraca. E, não por acaso, o primeiro texto que propõe ao grupo é a peça Arena conta Tiradentes encenada pelo Teatro de Arena em São Paulo no ano de 1967. Apesar do tema histórico – a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes – trata-se de um comentário sobre o presente daquela época. A imagem que emana da peça é a de revolucionários idealistas, que sonham e falam sobre a revolução, mas furtam-se de qualquer conexão ou proximidade com os trabalhadores, com o povo. São delírios idealistas de uma elite esclarecida. E o fracasso é inevitável. Com a Barraca, Boal monta a peça justamente em um momento no qual a força revolucionária popular já se extinguira em Portugal, mas que sua terminologia ainda persistia vagando em palavras vazias ou com sentido oposto.

Nas ruas da antiga metrópole, o diretor brasileiro via as ruínas e os escombros de um breve momento que esboçou outra possibilidade de se viver. Por algum tempo, ele acreditou ser possível reacender a chama apagada. Mas logo se viu isolado, sem condições reais de avançar com um trabalho mais radical. Neste momento, Boal percebeu a importância em se assinalar a derrota. Afinal, os anos seguintes ao processo revolucionário foram (e são) comemorados como a vitória da ordem democrática sobre o caos anárquico do extremismo. Tiradentes era a lembrança do devaneio. Um comentário sobre as veleidades farsesca de uma revolução “democrática” e sem povo.