‘Estados Operários Burocraticamente Deformados’?

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Por: Aldo Cordeiro Sauda

Assinado entre Joachim Von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov, segundo seu titulo, ele era somente um “acordo comercial de crédito”. Mesmo assim, em agosto de 1939, o mundo entrou em estado de alerta. O totalitarismo alemão assinava um pacto com o Estado (caracterizado então por Christian Rakovsky por seus resquícios operários e comunistas) dirigido por Joseph Stalin. Enquanto vastos setores da esquerda eram pegos de surpresa, a tranquilidade reinava em Coyoacán.

Leon Trotsky, então em seu exílio mexicano e metido em mais uma das intermináveis disputas internas que marcavam o surgimento da Quarta Internacional, afirmava profeticamente em seu primeiro artigo publicado após o tratado, “Em 1933 declarei continuamente na imprensa mundial que o objetivo fundamental da política externa de Stalin é um acordo com Hitler”. (TROTSKY, 1973; p 76)

Mesmo assim, ele não deixou de manifestar certo espanto na sua dura condenação à invasão da Polônia, cometida por Moscou em comum ação com os nazistas. Sua elaboração sobre a ocupação soviética é o primeiro estudo cientifico de um desafio metodológico para o marxismo de então. Precisava-se explicar a expropriação de uma burguesia nacional – “a expropriação dos expropriadores” – não pelas organizações da classe trabalhadora, mas por um exercito sob o controle de um partido burocrático contrarrevolucionário.

Pacto Molotov-Ribentrof

Assinado dia 19 de agosto de 1939 pelos ministros das relações exteriores soviético e alemão, Trotsky escreve sobre tais acontecimentos apenas no dia 2 de setembro. Mostrava pouca pressa para abordar o tema. Inicialmente intitulado “Trotsky Escreve sobre a Guerra e o pacto nazi-soviético” o texto foi rebatizado nas obras completas do dirigente exilado para “Stalin – o contramestre de Hitler”. Escrito para o jornal “Socialist Appeal”, periódico do Socialist Workers Party (SWP), o partido trotskista norte-americano, seu foco era dimensionar o processo nos marcos da revolução mundial.

Sem revolução a derrubada de Hitler é inconcebível. Um revolução vitoriosa na Alemanha elevaria o nível da consciência de classe de amplas massas na União Soviética a um nível muito alto, tornando impossível a futura continuidade da tirania de Moscou. O Kremlin prefere o status quo, em aliança com Hitler (TROTSKY, 1973; p 77)

Olhando inicialmente ao acordo, Trotsky vê em Stalin um ator coadjuvante na invasão nazista da Polónia. O texto não transmite que aquele descrito como chapeleiro de Hitler irá, também, partir à conquista.

O pacto alemão-soviético não é nem absurdo, nem estéril – é uma aliança militar com divisão de tarefa: Hitler conduz as operações militares, Stalin age como seu contramestre. E ainda assim há pessoas que afirmam seriamente que o atual objetivo do Kremlin é a revolução mundial! (TROTSKY, 1973; p 78)

Já o segundo texto público sobre o tema foi escrito dia 4 de Setembro de 1939. Sob o título de “A aliança Alemã-Soviética”, ele foi publicado novamente no jornal norte-americano Socialist Appeal. Apresentava um Trotsky confiante na força de sua analise. Dizia ele

Tenho sido perguntado por muitos cantos porque não me expressei mais cedo sobre o pacto alemão-soviético e suas devidas consequências. Por conta de uma ocasião pessoal (doença e uma viagem da Cidade do México a um vilarejo) fui impedido de escrever. Imaginei, porem, que os eventos eram tão óbvios em si mesmo que se quer precisavam de comentário. Mais a realidade provou-se outra: em diferentes países ainda há pessoas – de fato, em números cada vez menores – que tem a coragem de descrever a traição do Kremlin como uma virtude política. (TROTSKY, 1973; p 81)

Após reforçar que desde 1933 vinha defendendo a possibilidade deste acordo, e cujo prognostico estava presente no inquérito da comissão Dewy, o ex-dirigente do exercito vermelho dedicou uma parte do texto para desconstruir a propaganda soviética que se espalhava pela esquerda mundial.

Alguns dos apoiadores menos inteligentes do Kremlin se recordaram, de repente (aparentemente eles não sabiam disto antes) que a Polónia é um “estado semi-fascista”. Aparentemente, sob a influencia benigna de Stalin, Hitler iniciou uma guerra contra o “semi-fascismo”. (TROTSKY, 1973; p 81)

A União Soviética não agia por nenhuma benevolência junto à Polônia, muito pelo contrario. Intervia, segundo Trotsky, com uma política externa inconsequente de uma burocracia contrarrevolucionária que apenas pensava nos seus interesses imediatos.

Stalin sabe muito bem o que está fazendo. Para atacar a Polônia e conduzir uma guerra contra a Inglaterra e a França, Hitler precisa da amigável “neutralidade” da URSS, além das matérias-primas soviéticas. O pacto político e comercial garantem ambos para Hitler. (…)

O Kremlin abasteceu com petróleo a invasão italiana da Etiópia. Na Espanha o Kremlin cobrou o dobro do preço pelas péssimas armas que vendeu. Agora o Kremlin quer tirar uma boa quantidade de dinheiro vendendo matérias-primas a Hitler. Os lacaios do Comintern até neste caso não tem vergonha de defender as ações do Kremlin. Todo trabalhador honesto precisa virar suas costas a esta política!

(….) Disse isto muitas vezes ao longo deste ano e repetirei novamente. O pacto alemão-soviético é uma capitulação de Stalin diante do fascismo imperialista com o objetivo de preservar a oligarquia soviética. (TROTSKY, 1973; p 81 – 82)

Entre a assinatura do “Pacto econômico de crédito”, em 19 de agosto, e a invasão soviética da Polônia, iniciada dia 17 de setembro, Trotsky escreveu, além dos dois textos acima, o artigo “Quem é responsável por iniciar a Segunda Guerra Mundial”, “Moscou se mobilizando” e “Laços de proximidade entre Hitler e Stalin estão visíveis”. Em nenhum destes textos o líder da revolução de Outubro deixa a entender que previa uma invasão russa da Polônia.

Em seu texto escrito as vésperas do ataque da URSS, “Laços de proximidade entre Hitler e Stalin estão mais visíveis”, quando já ficava claro que os estalinistas teriam um papel mais ativo na dissolução da Polónia que o de um “guarda-mestre”, Trotsky seguiu descartando uma possível ocupação soviética. Segundo ele, a escalada retórica em denuncias ao governo de Varsóvia nas paginas do Pravda tinha “dois objetivos simultâneos: 1) justificar o ataque de Hitler à Polônia; e 2) preparar cooperação mais ativa do Kremlin em apoio a Hitler”. Em momento algum Trotsky especula uma invasão propriamente preparada pela burocracia. (TROTSKY, 1973;  p 89)

Sua reação à conquista soviética da Polônia, portanto, carrega uma linguagem mais pesada na denuncia que os textos anteriores. Intitulada “Stalin – Proprietário temporário da Ucrânia” ela foi redigida no dia seguinte à invasão. A presença da questão ucraniana, e não polonesa, na capa do texto, se dá por motivações políticas e geográficas. Segundo Trotsky,

Agora o Kremlin encobre sua intervenção na Polônia com a grande preocupação na “libertação” e “unificação” dos povos russos e ucranianos. (TROTSKY, 1973; p 91)

Os soviéticos faziam isto porque a Polônia ocupava, de forma brutal, uma região da Ucrânia, cuja outra parte se encontrava na URSS. Porem, a mera unificação ucraniana pela via da ocupação militar, mesmo que executada por um regime de origem operária era algo objetivamente regressivo. Trotsky não deixa duvidas de sua total oposição à invasão da União Soviética sobre a Polônia capitalista.

As aspirações de diversos setores da nação ucraniana por sua libertação e independência são completamente legitimas e tem grande importância. Mas estas aspirações são também dirigidas contra o Kremlin. Se a invasão for vitoriosa, o povo ucraniano não se encontrará “unificado” em sua libertação nacional, mas no escravismo burocrático. Além do mais, não é possível achar uma única pessoa honesta que defenderá a “emancipação” de oito milhões de ucranianos e russos [que lá habitam], ao preço da escravidão de vinte três milhões de poloneses (TROTSKY, 1973; p 91)

Mais para frente, Trotsky aprofunda sua reflexão sobre o tema da “escravidão”, agora expressa na forma de “opressão e parasitismo burocrático”.

(…) não é uma questão de emancipar um povo oprimido, mas de expansão territorial para uma área em que a opressão burocrática e o parasitismo será praticado. (TROTSKY, 1973; p 91)

É importante ressaltar a preocupação central de Trotsky para denunciar o político, isto é, a “opressão burocrática”, a ser exercida na arena superestrutural. Não lhe importa, em nenhum dos textos, discutir sobre a economia e o modo de produção vigente. Não importava, portanto, se a economia da Polónia seria nacionalizada e planificada, ou tivesse seu comercio exterior monopolizado ou não pelo Estado.

Burocratização do mundo

Em uma carta escrita cinco dias antes da invasão russa da Polónia, Trotsky contatou James Cannon, então dirigente do SWP, contando-lhe do novo texto que escrevia, intitulado “A União Soviética na guerra”, que seria publicado no Socialist Review dia 25 de setembro de 1939. Mais tarde ele viria a integrar, prefaciado pela carta a Cannon, o primeiro texto da polemica do “Em defesa do Marxismo”.

Texto voltado para uma disputa na sessão norte-americana da Quarta Internacional, o centro teórico do “A União Soviética na guerra” era polemizar com o conceito de “coletivismo burocrático” elaborado por Bruno Rizzi. A ideia central de Rizzi, expressa em seu livro “La Bureaucratisation du monde”, era sobre “uma nova formação social, que está substituindo o capitalismo em todo o mundo (stalinismo, fascismo, New Deal etc.)” e que jogava para fora da luta de classes o centro da dinâmica política mundial. (TROTSKY, 2009) No período imediatamente anterior à Segunda Guerra tal ideia se fazia amplamente difundido entre diversos autores marxistas da época, incluindo Friedrich Pollock, fundador da Escola de Frankfurt a quem Theodor Adorno e Max Horkheimer dedicam seu livro “A Dialética do Esclarecimento”.  (ADORNO & HORKHEIMER, 1987)

Em uma parte destacada deste texto, porem, Trotsky retorna à temática presente em seus últimos artigos. Com o sub-titulo “A questão dos territórios ocupados” o revolucionário bolchevique elevava para abstrações teóricas as consequências da invasão militar de um país capitalista pela União Soviética, que segundo Trotsky ainda era um estado operário.

(…) provável que nos territórios [poloneses] que foram planejados para fazer parte da URSS, o governo de Moscou atue expropriando os grandes proprietários e estatizando os meios de produção. Esta variante é a mais provável, não porque a burocracia continue sendo fiel ao programa socialista, mas porque não deseja e nem é capaz de tomar o poder e os privilégios que comparte com a velha classe dirigente nos territórios ocupados. Aqui, é forçosa uma analogia literal. O primeiro Bonaparte deteve a revolução através de uma ditadura militar. No entanto, quando as tropas francesas invadiram a Polônia, Napoleão assinou um decreto: “A servidão está abolida”. Tal medida foi adotada, não porque Napoleão simpatizasse com os camponeses, e nem por princípios democráticos, mas pelo fato da ditadura bonapartista se basear em relações de propriedade burguesa e não feudais. À medida em que a ditadura bonapartista de Stalin se baseia na propriedade estatal e não na privada, a invasão da Polônia pelo exército vermelho levará, por si só, à abolição da propriedade privada capitalista, da mesma forma que fará com que o regime dos territórios ocupados estejam de acordo com o regime da URSS. (TROTSKY, 2009)

Trotsky em momento algum questiona até que ponto irá a expropriação na Polônia; ela mimetizará, segundo ele, a formula de planejamento estatal da União Soviética. Mesmo assim, com a estatização dos setores mais dinâmicos da economia, com o monopólio do comercio exterior, e com a planificação da economia, a ocupação da Polônia pela União Soviética é regressivo no seu sentido mais totalizante. Afirma Trotsky

Esta medida, de caráter revolucionário – “a expropriação dos expropriadores” – neste caso é levada a cabo de forma burocrático-militar. O chamado à ação independe das massas nos novos territórios – e sem tal chamado, inclusive formulado com extrema prudência é impossível constituir um novo regime – seria indubitavelmente esmagado no dia seguinte, por despiedosas medidas policialescas, visando assegurar a predominância da burocracia sobre as massas revolucionárias vigilantes. Este é um lado da questão. Mas existe o outro. Visando a possibilidade de ocupar a Polônia através de uma aliança militar com Hitler, durante muito tempo o Kremlin cansou e continua cansando as massas da URSS e no mundo inteiro, e com isso, desorganizou completamente as fileiras de sua própria Internacional Comunista. O critério político prioritário, não é, para nós, a transformação das relações de propriedade nesta ou naquela área, por mais importantes que sejam, mas a mudança na consciência e organização do proletariado mundial, a elevação de sua capacidade de defender as conquistas obtidas e conquistar outras novas. A partir deste único e decisivo ponto de vista, a política de Moscou, tomada em seu conjunto, conserva completamente o seu caráter reacionário, e é o principal obstáculo no caminho da revolução mundial. (TROTSKY, 2009)

É importante destacar que Trotsky em momento algum negou que a medida anti-capitalista da expropriação da burguesia não era progressiva. Porem, para Trotsky, o sentido político, e não econômico, era o que reinava em ultima instancia. Afirma o dirigente comunista

No entanto, nossa análise geral sobre o Kremlin e o Comintern, não modifica o fato particular de que a estatização da propriedade, nos territórios ocupados, é em si mesmo uma medida progressiva. Reconhecemos isso abertamente. Se amanhã Hitler lançar seus exércitos contra o Leste, para restaurar a “lei e a ordem” na Polônia Oriental, os operários avançados defenderão, contra Hitler, estas novas formas de propriedade estabelecidas pela burocracia bonapartista soviética. (TROTSKY, 2009)

Trotskismos

Ao analisar as posições de Trotsky frente à eliminação da burguesia polonesa pelo estalinismo, Isacc Deutscher, o mais condecorado dos biógrafos do revolucionário bolchevique, ligou-o diretamente a outra experiência histórica.  Em seu posfácio do livro “O Profeta Banido”, o ultimo da trilogia sobre o dirigente marxista, Deutscher lembrou a oposição de Trotsky, quando comandava o Exercito Vermelho, em invadir nações capitalistas. Afirma Deutscher

Por convicção teórica e instinto político, Trotsky apenas sentia desgosto da revolução pela via da conquista. Ele tinha se oposto às invasões da Polónia e da George em 1920-1, quando Lenin defendia a realização daquelas ações. Como Comissário da Guerra, ele categoricamente repudiou Tukhachevsky, um primeiro expoente do método neo-napolionico de levar revoluções a países estrangeiros. Vinte anos antes da segunda guerra ele tinha castigado os missionários armados do bolchevismo dizendo que preferia que “pendurem um tijolo no meu pescoço e me arremessem ao mar” a aplicar seus métodos de guerra. Sua atitude em 1940 foi a mesma de 1920. Ele via a revolução pela conquista como maior condutor do erro a afastamento da estrada revolucionária. (DEUTSCHER, 1963; p 420 – 421)

No posfácio de Deutscher, “vitória na derrota”, escrito em 1963, ele discordaria da proposta política de Trotsky, afirmando, porem, que em ultima instancia ele havia se saído vitorioso. Para o historiador, a União Soviética, por conta de sua natureza estrutural de estado operário, poderia cumprir um papel objetivamente progressivo ao expropriar a burguesia polonesa. Isto se dava porque a URSS era, apesar da experiência estalinista, também objetivamente progressiva. Segundo Deuscher

Esta claro que mesmo sob o estalinismo a sociedade soviética atingiu imenso progresso em muitas áreas, e esse progresso, atrelado à economia planificada e nacionalizada, atuou interrompendo e erodindo o stalinismo por de dentro. (…)

Esta claro que a sociedade soviética tem conseguido, de forma relativamente vitoriosa, se livrar de debilidades pesadas, desenvolvendo ganhos herdados da era stalinista. Há muito menos pobreza na União Soviética, muito menos desigualdade e muito menos opressão no inicio dos anos 60 que nos anos 30 ou nos anos 50. (DEUTSCHER, 1963; p 418, 414)

A consequência deste processo sobre a questão da ocupação da Polônia e subsequente expropriação da burguesia nacional por Stalin era obvia. A sociedade soviética, ao evoluir naturalmente, transformaria até a natureza da política externa da URSS, mesmo que executada de forma burocrática, em algo objetivamente progressivo.

Entre trotskismo e o stalinismo, quando o internacionalismo revolucionário se chocou com o isolacionismo bolchevique, não foi o stalinismo que se saiu bem: o isolacionismo bolchevique morreu há muito tempo. Por outro lado, a capacidade de continuar da União Soviética, mesmo isolada, era muito maior que a imaginada por Trotsky; e, ao contrario de suas expectativas, não foi o proletariado do ocidente que os tirou do isolamento. Pela ironia da história, o próprio estalinismo malgré lui-même [contra a sua vontade] rompeu seu casco nacional. (DEUTSCHER, 1963; p 418)

A invasão da Polônia, portanto, não era algo necessariamente regressivo como imaginava Trotsky. Ela poderia ser interpretada, afinal, como o romper de um “casco nacional”. Por conta das forças objetivas – essencialmente o desenvolvimento propiciado pela economia planificada – o estalinismo precisou expandir o socialismo. O neo-napolionismo que Trotsky combateu tanto nos anos 20 era na verdade o retorno do internacionalismo bolchevique nos anos 40.

Mas Deustcher, como admirador de Leon Trotsky, acreditava que se o revolucionário de Outubro retornasse aos dias de seu texto, nos anos 60, faria uma autocrítica e possivelmente defenderia a invasão russa da Polônia. Por Trotsky ser um homem de ação, Deustcher afirma

A lógica de sua atitude o levaria a aceitar a realidade da revolução no leste europeu, e a despeito de seu desgosto pelos métodos estalinistas, reconheceria as “Democracias Populares” como “estados operários”. (DEUTSCHER, 1963; p 421)

Para o historiador, a invasão da URSS a Polónia, se não em 1939/40, certamente em 1942, era na verdade o estalinismo aplicando a política do trotskismo, em outras palavras, a “vitória na derrota”. O estalinismo, portanto, foi um intervalo ideológico bárbaro na história mais global da União Soviética, que por pressões “objetivas” retornaria automaticamente ao bolchevismo clássico, superando um período de exceção totalitária. O futuro, portanto, pertencia a Leon Trotsky, e não à burocracia. Os motivos para isto eram claros, a estrutura da economia planificada gerava contradições objetivamente progressivas.

Pela modernização forçada da estrutura societal, o estalinismo trabalhou em direção à sua desconstrução e preparou o terreno para o retorno do marxismo clássico. (DEUTSCHER, 1963; p 423)

Tal realidade objetiva, portanto, permitirá o retorno do trotskismo ao Kremlin, que segundo Deutscher expressava o fio de continuidade com as ideias de Marx e Engles

Quando ele voltar, será mais que um ato atrasado de justiça à memória de um grande homem. Por este ato o estado operário anunciará que finalmente atingiu a maturidade, rompeu com as correntes da burocracia, e reencontrou-se com o marxismo clássico que havia sido banido junto a Trotsky. (DEUTSCHER, 1963; p 423)

O mundo pós-restauração

Trotsky, desde 1933, acreditava que a União Soviética iria fazer algum tipo de acordo com Hitler. Não previa, porem, que a União Soviética partiria para ocupar e anexar estados capitalistas, forçando-os a adotar seu modelo de planificação burocrática. Quando isto ocorreu, foi pego de surpresa. A burocracia, segundo ele, era anti-internacionalista por própria natureza. Mesmo que viesse a expropriar uma burguesia especifica de outra nação, a faria contra os interesses objetivos e subjetivos dos trabalhadores.

A invasão da Polônia fortalecia politicamente e socialmente o regime burocrático russo, e por tanto, não era possível reagir a ela com otimismo. Nesta linha, os textos jornalísticos de Trotsky para o Socialist Appeal expressam sua preocupação em se diferenciar da esquerda que reivindica o acordo entre Hitler e Stalin, e depois, com mais força, a ocupação da Polónia. Ao contrário dos otimistas, que viam um “regime semi-fascista” ser substituído por um que se reivindicava “socialista”, Trotsky não via razão alguma para celebrar o avanço das relações de produção presentes na URSS para outros países, essencialmente porque ela era feita pelas mãos da burocracia.

Foi no pessimismo de Trotsky, e não no otimismo de Deutscher, que a história se pronunciou. Ao contrario daquilo que Deutscher imaginava, a Polônia em momento algum evoluiu em direção ao “estado operário” com que o historiador sonhava ver Trotsky reconhecer. Os “estados sem burguesia” do leste não foram em direção a qualquer coisa remotamente similar ao socialismo da revolução de Outubro, mas, após um hiato historicamente curto e especifico, retornaram plenamente ao capitalismo. Isto significou, essencialmente, que o desaparecimento da burguesia nestes estados foi temporário, um epifenômeno. A velha-nova burguesia que surge após 1989 localiza-se em diferentes famílias e culturas coletivas que a burguesia que governava até 1939, mas, e este é o ponto central, ela retornou como classe dominante à Polônia. A ausência de burguesia no Estado polonês, portanto, foi apenas um fenômeno histórico passageiro corretamente denunciado por Trotsky.

Passada a ocupação militar soviética, que se encerrou em 1989, a Polônia tornou-se um dos países mais reacionários da Europa, sob total domínio de sua nova-velha burguesia. Entre os destaques internacionais mais aviltantes vindos de Varsóvia está a recusa abertamente racista do governo de extrema-direita polonês, contando tragicamente com respaldo popular, em receber refugiados sírios que se encontram nas fronteiras da Europa. Eis o destino da sociedade que um dia foi celebrada como pátria socialista por Deutscher.

Mantendo-nos fiel a Leon Trotsky, vale destacar que a restauração burguesa na Polônia prova sua tese central sobre a revolução permanente. Afirmava o revolucionário bolchevique:

É, entretanto, impossível negar categórica e antecipadamente a possibilidade teórica de que, sob a influência de uma combinação de circunstâncias excepcionais (guerra, derrota, quebra financeira, ofensiva revolucionária das massas etc.), os partidos pequeno-burgueses, incluídos aí os stalinistas, possam ir mais longe do que queriam no caminho da ruptura com a burguesia. Em todo caso, uma coisa está fora de dúvida: se mesmo esta variante pouco provável se realizasse um dia em algum lugar, e um “Governo operário e camponês”, no sentido acima indicado, se estabelecesse de fato, ele somente representaria um curto episódio em direção à ditadura do proletariado. (TROTSKY, 1937)

A restauração burguesa na Polônia aparenta ter vingado a Trotsky. Sua “variante pouco provável”, na prática, nunca se concretizou. Isto porque o suposto “Governo operário e camponês” da Polônia (1939-1989) não representou “um curto episódio em direção à ditadura do proletariado”, mas um curto período em relação a si mesmo. Ao não transitar, na época em que sua burguesia foi temporalmente expropriada, rumo à democracia operária e ao socialismo, a expropriação de 1939 se provou um episódio historicamente secundário e limitado. 1939 não foi, como claramente expunha Trotsky, o inicio da revolução socialista na Polônia, assim como 1989 no foi, igualmente, o seu fim.

O mesmo método de analise de Trotsky pode ser aplicado, posta a restauração burguesa em todo globo, para atualizar a compreensão das heroicas revoluções anti-capitalistas, que em países como Cuba ou China, levaram ao poder, de forma igualmente temporária e epifenomenal, regimes não-capitalistas. Porem, como assinala o ex-chefe do Exercito Vermelho, elas nunca deram surgimento a um “governo operário e camponês” que transitaria para a ditadura do proletariado, tendo rapidamente sua burguesia retornado a cena. “A mudança na consciência e organização do proletariado mundial, a elevação de sua capacidade de defender as conquistas obtidas e conquistar outras novas” era, ao menos no debate sobre a Polônia, o centro do pensamento de Trotsky. A questão do “neo-napolionismo” impedia o surgimento de qualquer coisa que se aproximava de uma democracia operária, condição que o dirigente revolucionário colocava como indispensável para o socialismo polonês. A revolução por cima, mesmo que vista por Issac Deutscher como um retorno torto ao internacionalismo bolchevique, era uma utopia reacionária.

Parece claro o que substanciava Trotsky. O revolucionário, assim como Rosa Luxemburgo, jamais expressou entusiasmo pela expansão do socialismo sem a ação direta das massas, nem mesmo quando chefe do Exercito Vermelho. Talvez por isto que anunciava a evolução da consciência como “o critério político prioritário” na analise da questão polonesa, e não “a transformação das relações de propriedade nesta ou naquela área, por mais importantes que sejam”.

Bibliografia:

ADORNO, THEODOR; HORKHEIMER, MAX. Dialectic of Enlightenment. 1987, Stanford University Press, Stanford

TROTSKY, LEON; Em Defesa do Marxismo. Proposta Editorial. Rio de Janeiro – https://www.marxists.org/portugues/trotsky/ano/defesa/index.htm (inclusão: 2009)

TROTSKY, LEON; Programa de Transição. 1937 – https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap02.htm

TROTSKY, LEON; Writings of Leon Trotsky, 1939-1940, Pathfinder Press, New York, 1973

DEUTSCHER, ISAAC; The prophet outcast, Verso books, London, 1963

*Os textos não necessariamente correspondem à posição do blog, mas sim, do autor

Foto: O Ministro do Exterior da Alemanha, Joachim Von Ribbentrop (de braços cruzados), o líder soviético, Josef Stalin (de branco), e o Ministro do Exterior da URSS, Vyacheslav Molotov (extrema direita), após a ratificação do Tratado Molotov-Ribbentrop em 23 de agosto de 1939. Fotografia: autor desconhecido.

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