Criticar ou ocultar os erros de Moreno?

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Por Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online.

 

No dia 10 de fevereiro, eu, Jéssica, escrevi uma breve postagem de Facebook criticando a atitude de Nahuel Moreno com respeito às opressões, em particular pelo texto “A Moral e a Atividade Revolucionária, no qual o autor refere-se às lésbicas como perversão, usa o termo “pederastia”, que associa a relação homossexual à pedofilia, e cita o divórcio e a infidelidade como problemas de uma “sociedade falida ou repugnante”. Não é preciso grandes explicações teóricas para concluir que se trata de uma passagem lgbtfóbica e machista.

Alicia Sagra, no dia 10 de março, um mês depois da publicação, escreveu um longo e duro artigo criticando a minha breve postagem. O texto depois foi traduzido para o português.

No marxismo nem toda crítica é ruptura, ao contrário muitas vezes é preciso sim criticar e superar. Pensamos que no terreno das opressões isto é uma necessidade para quem reivindica a trajetória de Moreno. Não acreditamos que criticar Moreno implica em romper com os princípios de qualquer organização revolucionária e nem mesmo romper com o morenismo. Para nós, o debate deve ser franco e aberto, tanto com respeito aos acertos quanto aos erros do dirigente trotskista argentino. Acreditamos, sim, que Moreno deu uma contribuição muito importante ao marxismo e ao trotskismo em vários aspectos: no combate ao “trotskismo boêmio”, na dedicação de construir o partido no proletariado industrial, na diferenciação entre tática, estratégia e princípio, na elaboração de distintas táticas de construção do partido revolucionário (através de rupturas e fusões), na sua crítica ao Mandel e outros dirigentes que capitularam a governos burgueses ou se dissolveram em partidos stalinistas, na sua defesa da ditadura revolucionária do proletariado, entre muitos outros.

Reconhecer o valor de Nahuel Moreno nesse terreno não significa botar panos quentes sobre seus erros. Não é possível deixar de reconhecer publicamente que ele fez afirmações lgbtfóbicas e machistas. Qual é o problema de debater publicamente os erros de Moreno? Nós acreditamos que não há problema algum, aliás, pelo contrário, acreditamos que a defesa acrítica de qualquer dirigente é prejudicial para a construção de um partido revolucionário.

Quero, com esse texto, responder às acusações e desfazer as várias confusões feitas na crítica de Alicia Sagra.

 

O debate deve ser feito com respeito

 

Apesar do texto todo ser direcionado ao meu comentário, Sagra começa o texto relatando um fato envolvendo Valério Arcary.

Não formei uma opinião crítica ao tratamento que Moreno dá as pessoas oprimidas por ter sido “manipulada” por Arcary ou por qualquer outra pessoa, mas simplesmente porque li o texto em questão e também outros textos do mesmo autor.

Entretanto, eu não fui, nem de longe, a primeira pessoa a se opor ao referido texto dentro da LIT. Em muitos momentos vários militantes defenderam que a LIT fizesse uma crítica a todas as afirmações homofóbicas e machistas do Moreno e publicasse que elas não fazem parte da nossa tradição.

A minha crítica a esse texto de Nahuel Moreno nem sequer foi a primeira crítica pública. Henrique Carneiro já havia feito uma crítica muito mais densa em um texto que foi publicado no blog Junho. Alicia não quis escrever uma crítica rebatendo os argumentos de Carneiro, mas publicou uma dura crítica a um post de dois parágrafos feito no facebook.

Alicia Sagra tenta justificar por que a minha crítica foi “um dos ataques mais brutais já feitos contra Nahuel Moreno:

“[Jéssica] manifesta que sente aversão a ele, a quem qualifica de lgbtfóbico e de bruto com uma moral stalinista. Tudo isso a partir do trabalho que Moreno escreveu em 1969 quando estava preso no Peru, A moral e a atividade revolucionária, onde há uma frase (também citada no texto de Ana Cristina) que coloca o lesbianismo junto aos pederastas como exemplo das perversões sociais e da moral em crise da sociedade capitalista.”

Se Alicia tivesse lido mais atentamente os meus dois parágrafos, teria percebido que em lugar algum eu afirmei que Moreno tinha uma moral stalinista. Afirmei que ele reproduziu ideologias stalinistas, o que é bem diferente. Como Alicia Sagra mesma reconhece, Moreno afirmou que a “pederastia” e o “lesbianismo” são perversões morais burguesas. Ora, quem mais defendia isso naquela época? O stalinismo.

O livro de Hiro Okita, Homossexualidade: da opressão à libertação”, que é reivindicado pela LIT, afirma que a ideologia que prega que a homossexualidade é uma degeneração burguesa é uma ideologia stalinista. Alicia Sagra concorda ou não com essa afirmação? Se ela concorda, então fica demonstrado que Moreno reproduziu, neste texto, ao menos uma ideologia stalinista. Afirmar um fato histórico é um “ataque brutal”?

No texto em questão, Moreno afirma que as LGBTs são promíscuas, perversas, degeneradas pela moral burguesa. Neste sentido, eu pergunto à Alicia: porque que é tão difícil fazer uma crítica? Porque é preciso tanto esforço para buscar justificativas e subterfúgios?

Alicia pode não concordar com a minha crítica. Mas, nessa crítica, eu não rompi, em nenhum momento, com qualquer princípio revolucionário. O debate é, portanto, totalmente legítimo.

 

Sobre a “retratação” de Moreno

 

Mais adiante, Alicia Sagra sustenta minha crítica foi causada por desconhecimento da obra de Moreno:

“Jéssica Milaré diz que Moreno nunca se retratou sobre o que ele expressou nessa frase de 1969. Ela é uma jovem militante e pode ser que conheça pouco da obra de Moreno.”

Daí Alicia cita um longo trecho do texto “Conversando com Moreno”, de 1986, em que ele afirma que considera a homossexualidade como algo normal. O problema é que essa citação não é uma retratação. Nahuel Moreno nunca publicou uma autocrítica pelo texto de 1969. No próprio livro Conversando com Moreno afirma uma concepção errada e limitada da questão:

“Yo considero a la homosexualidad algo tan normal que me opongo a hacer propaganda.”

Fazemos propaganda porque sabemos que os homossexuais são oprimidos, violentados, mortos, a luta contra o preconceito e a LGBTfobia é uma necessidade na sociedade, na classe trabalhadora e dentro do partido revolucionário.

Em seguida o texto subestima a importância da luta contra este preconceito no interior do partido afirmando:

“Un compañero homosexual, dirigente del partido brasileño, quería hacer una corriente dentro del partido a favor de la homosexualidad. Yo me opuse, justamente porque considero a la homosexualidad tan normal como la heterosexualidad. (…)

O entrevistador contesta:

“Pero los homosexuales son reprimidos, los heterosexuales no.”

E Moreno responde:

“Ah, no, eso es completamente distinto. Dentro de la sociedad luchamos a muerte contra la opresión de los homosexuales y todo tipo de opresión: nacional, racial, etcétera. Yo me refería a que me opongo a hacer ese tipo de actividad hacia el interior del partido.”

Em outra passagem também aparece essa idealização da realidade no interior do partido:

“Ahora, también he visto el fenómeno opuesto. Tal vez las compañeras se horroricen, pero he observado en determinados escalones del partido que las compañeras dominan a sus parejas. No lo digo para criticar: hace ocho mil años que las mujeres vienen sufriendo la opresión, entonces es lógico y hasta progresivo que se invierta la situación. Pero es una realidad.”

Olhando criticamente e vendo a realidade da esquerda mundial hoje é evidente que não se pode subestimar a importância da batalha coletiva contra o machismo, o racismo e a LGBTfobia que deve ser feita em toda organização revolucionária.

Alicia Sagra continua:

“Embora  nunca tenha aparecido uma expressão similar em nenhum de seus escritos anteriores ou posteriores, a frase existiu. A única explicação que se pode dar é que é produto da cultura e do desenvolvimento da ciência da sua época, ou seja, com esta frase Moreno capitulou à cultura homofóbica imperante. Uma cultura homofóbica tão forte que na Inglaterra, um dos países mais avançados do mundo, a homossexualidade era considerada um crime até os anos 1970 e nos países mais “progressivos” deixou de ser considerada uma perversão dos manuais de psiquiatria somente em 1973.”

 

Assim, a autora tenta explicar a LGBTfobia de Nahuel Moreno pela moral burguesa dominante. Em primeiro lugar isso não serve para justificar e seria mais um motivo para a autocrítica, já que um revolucionário luta contra as ideias dominantes e não as reproduz. A burguesia sustentou por muito tempo e ainda há quem o defenda nos dias atuais que a homossexualidade é uma doença ou perversão.

Mas infelizmente não é apenas a burguesia que difundiu este tipo de ideia absurda. A contrarrevolução stalinista também o fez. A ideologia de que a homossexualidade seria uma degeneração burguesa não foi elaborada Estado inglês, nem pela burguesia, mas sim pelo stalinismo para justificar a recriminalização da homossexualidade em 1934. Foi uma ruptura com a tradição de Lenin, Trotsky, Clara Zetkin e outros bolcheviques como Grigori Batkis e Nikolai Semashko, que meio século antes, nunca defenderam que a homossexualidade era uma degeneração burguesa que precisava ser combatida. O próprio Partido Comunista Alemão foi o primeiro partido do mundo a colocar, em seu programa, a descriminalização da homossexualidade em 1926. Seguindo, é lógico, o programa que já estava sendo implementado na União Soviética, sob a supervisão de Semashko e de Lenin. August Bebel, deputado do Partido Socialdemocrata Alemão, fez o primeiro discurso público numa tribuna parlamentar contra a criminalização da homossexualidade em janeiro de 1898.

Georgi Chicherin, o Comissário do Povo para as Relações Exteriores na União Soviética de 1918 a 1930, por exemplo, era homossexual. Em nenhum momento Lenin insistiu para que ele se “curasse” de sua degeneração burguesa. Quando Trotski citou, criticou ou elogiou escritores, ele não se referiu ao fato de seus poemas conterem relações amorosas ou sexuais entre homens. Trotski escreveu um simpático artigo ao Pravda em homenagem a Sergei Iessenin, um poeta bissexual que escrevia poemas de amor para outros homens, quando ele cometeu suicídio. É lógico que nenhum deles era “perfeito”, mas ao menos eles não julgavam as pessoas homossexuais pela sua sexualidade. Isso é o mínimo que se espera de um revolucionário marxista desde o começo do século XX.

Henrique Carneiro dá uma explicação muito mais coerente historicamente. Segundo ele, o texto de Moreno, que defende o puritanismo sexual e o asceticismo, é baseado na moral guerrilheira que era predominante da América Latina. Ora, a moral guerrilheira herdou várias ideologias stalinistas, dentre elas a ideologia de que a homossexualidade é uma degeneração burguesa.

Na tentativa desesperada de dar alguma razão para Moreno Alicia Sagra o abstrai de seu contexto histórico, caindo no anacronismo:

“O texto de Moreno, como toda a nossa corrente sabe, não foi escrito para responder a Stonewall, como diz Jéssica Milaré. Não sei se ele foi escrito antes ou depois de 28 de junho de 1969. Mas tenho certeza que muito dificilmente os ecos desses acontecimentos tenham penetrado as paredes da prisão peruana onde Moreno estava preso, em uma época em que não se contava com os meios de comunicação de hoje em dia.”

“Esse texto foi escrito para responder a problemas do partido argentino que não tinham nada a ver com a homossexualidade, mas com o desenvolvimento de uma moral que partia da reivindicação do prazer e da liberdade individual, uma moral de “fazer o que tenhamos vontade“, da satisfação das próprias necessidades de cada um, sem pensar nos presos, nos novos companheiros, sem nenhum tipo de regras e normas.”

A apresentação ao texto escrita por Francisco Morais afirma que ele não estava preso quando escreveu o texto e que já tinha retornado à Argentina. “Quando voltou, encontrou no partido argentino uma situação de relaxamento nas normas morais, com manifestações concretas que afetavam o desenvolvimento da organização e de seus militantes”, afirmar Morais.

Ora, o que é este “relaxamento nas normas morais” de que Francisco Morais fala? Não sabemos qual era a situação concreta do partido. Hoje muitas vezes falamos em relaxamento da moral revolucionária para nos referirmos a existência de gravíssimos casos de machismo, LGBTfobia e racismo que muitas vezes extrapolam o erro político e atingem o terreno da moral revolucionária. É verdade que Moreno cita o fato de haver relações sexuais entre dirigentes e militantes jovens, mas em nenhum momento ele interpreta o fato como um caso de machismo. Pelo contrário, o texto aponta que a causa seria a sexualidade em si, a “promiscuidade”.

Levanto a hipótese de que o problema não é compreendido desde o ângulo do combate ao machismo, mas desde uma visão negativa do impacto do movimento contracultural que se espalhou pelo mundo na década de 1960, questionando as regras morais burguesas, reivindicando centenas de medidas progressivas como a legalização das drogas, a descriminalização da homossexualidade, o direito de ter relações sexuais pré-maritais, direito ao aborto, entre outros. Duas expressões significativas dessa juventude que questionava a moral dominante foram o Maio de 1968 francês e a Revolta de Stonewall em 1969. Na subseção “A Rebelião Burguesa e Pequeno-Burguesa Contra a Sua Moral, o Existencialismo e Espontaneísmo”, é nítido que Moreno está falando justamente sobre essa contracultura:

“É que Lewis não sabe que a classe média, durante a primeira guerra mundial, em alguns de seus extratos, de forma cada vez maior desde a segunda guerra mundial, encontra-se como que sem futuro, que a sociedade imperialista ou neocapitalista a condena ao presente de uma vida automatizada pelos reflexos do mercado, ao irracionalismo da vida sob o capitalismo, ou seja, o condena a não ter futuro e portanto a não ter moral. Produz-se então, uma rebeldia dentro dos marcos burgueses contra os valores da burguesia em nome de suas próprias categorias.”

Moreno afirma ainda que os lúmpens são “individualistas ao extremo, gozadores da vida e de todos os seus impulsos”, mas que o “mundo da necessidade” se impõe, “os manda para a prisão ou incendeia a favela”. É esta moral supostamente lúmpen, que no fundo seria supostamente burguesa, que setores da pequena burguesia tomam para si para questionar a moral burguesa. É esta a sua moral quando estão em um ascenso. A que ascenso ou ascensos Nahuel Moreno se refere?

Para responder a essa questão, retomemos o começo do texto, em que Moreno lista as supostas degenerações burguesas da juventude da época:

 

“Os companheiros que captamos, são, principalmente, estudantes, veem de uma sociedade em falência, repugnante, com pais separados ou que traem um ao outro; com amigos ou conhecidos que relatam orgias sexuais reais ou imaginarias; com filmes que se divertem em descrever todas as variantes de perversão sexual, com a leitura diária sobre a quantidade de maconha ou ácido lisérgico que consome a juventude norte-americana ou europeia; com filmes pornográficos japoneses ou suecos que superam tudo o produzido na pré-guerra pelos franceses ou alemães; com pederastas ou lésbicas; com crimes ou assaltos vários; com delinquentes públicos transformados em grandes personagens que gozam de todos os favores e prestígio social; com uma escala aristocrática onde as artistas de cinema e televisão, rodeadas de playboys, são supra sumo da moda, dos costumes, da moral; com uma frieza entre os sexos nos países avançados, onde se está produzindo a liberação da mulher, que preocupa aos sociólogos; com a pílula como elemento fundamental na liberação da mulher. Estes companheiros chegam ao partido vindos de uma sociedade totalmente corrompida, sem valores de nenhuma espécie, onde a família, a amizade e as relações entre os sexos estão totalmente em crise. Isto não pode menos que refletir-se nas próprias filas partidárias, já que não vivemos enlatados a vácuo, mas sim dentro dessa sociedade.”

 

Quais das “degenerações burguesas” acima geraram ascensos na década de 1960? Ascensos pela liberação das drogas, pelo acesso à pílula anticoncepcional e pela libertação sexual, tanto das mulheres quanto das LGBTs. Mas foram os stalinistas que primeiro classificaram esses movimentos como fundamentados em degenerações burguesas. Se Alicia Sagra não concorda que Moreno esteja se referindo à Revolta de Stonewall, poderia citar quais ascensos contra a moral burguesa Moreno está criticando e classificando como burgueses. Quaisquer que sejam as lutas referidas no texto, os fatos me dão razão: Moreno comete um erro grave.

 

Qual lição podemos tirar dos erros de Moreno

Nós, marxistas revolucionárias, temos que aprender a não fazer uma defesa cega dos teóricos marxistas, em particular quando estes romperam com o princípio de combate às opressões. É preciso, pelo contrário, admitir e debater esses erros. Afinal, este texto de Moreno tem um conteúdo homofóbico e machista. Possivelmente existiu na história da corrente morenista uma subestimação da luta contra o machismo e a LGBTfobia dentro da classe trabalhadora e dentro do partido revolucionário. Além disso, na política isso levaria o partido a erros graves, especialmente para investir em ascensos marcados pelos temas de mulheres, negros e LGBTs que foram tão fortes nos Estados Unidos e na Europa naquele momento histórico.

Outra importante lição é que não podemos descartar teóricos marxistas simplesmente por terem cometido um ou outro erro. Mesmo o fato de Moreno ter cometido esses graves erros não torna nula toda sua elaboração política e teórica.

Deve-se compreender Moreno e qualquer outro marxista em suas qualidades e seus defeitos, em seus avanços e seus retrocessos. É a partir da leitura crítica consciente que conseguiremos avançar na nossa compreensão do mundo, nas elaborações teóricas, programáticas e políticas necessárias para uma revolução socialista. Afinal, dizia o próprio Moreno, ser trotskista hoje é ser crítico do próprio trotskismo.

 

Imagem: Amália Soares

1 Comentário em Criticar ou ocultar os erros de Moreno?

  1. O texto revela uma posição muito correta sobre a forma como os marxistas devem encarar as posições que defendem seus teóricos e dirigentes, na medida em que identificam um erro. Isto não representa uma ameaça a posição do indivíduo ou ao próprio indivíduo. Reivindicar Moreno ou Lênin ou Marx ou Trotsky é antes de tudo querer superar os seus erros e limitações. Só assim a teoria marxista revolucionária pode sobreviver e cumprir o seu papel de ferramenta de transformação do mundo.

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