Brexit: Um giro histórico-mundial

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Alex Callinicos  | Tradução e Introdução: Aldo Sauda  | Revisão Técnica: Waldo Mermelstein  |

Em meio à campanha monotemática da imprensa mundial e brasileira sobre a natureza retrógrada, se não abertamente reacionária, do voto pelo Leave, uma leitura atenta às vozes críticas vindas do Reino Unido é tarefa central. O texto abaixo, cuja primeira versão foi publicada na revista bi-mensal International Socialism Journal, órgão teórico da International Socialist Tendency (cujo principal partido nacional é o SWP britânico) é certamente uma delas.

Seu maior valor é ir no sentido oposto ao senso comum que reduziu o Brexit a uma mera onda xenofóbica de trabalhadores brancos racistas movidos por uma irracionalidade anti-imigrante. À luz de uma leitura marxista sobre o papel desempenhado pelo Reino Unido no sistema imperial norte-americano, ele busca analisar, sem secundarizar o tema do racismo, a dinâmica que levou a maioria dos trabalhadores britânicos a votarem contra a orientação do governo, dos dois principais partidos do pais, das entidades representantes do capital financeiro e industrial, assim como da burocracia sindical.

O marxismo revolucionário britânico, além dos contornos de seu espaço politico, é em geral desconhecido pelo ativismo no Brasil. Não deixa de ser curioso que a própria tradição teórica da IST tenha pouco peso intelectual na America Latina, porém exista, mesmo que de forma marginal, em partes importantes da Africa, da Ásia e do mundo árabe. Contraditoriamente, essa relevância se relaciona diretamente ao anterior peso colonial britânico naquela parte do mundo. Talvez não seja um exagero afirmar que o papel central desempenhado pela cultura estado-unidense no continente americano, primeira parte do mundo em que Londres foi substituída por Washington, blindou-nos não só das influências imperialistas da tradição política britânica, mas também de sua rica produção anti-imperialista. A tradução do texto abaixo, redigido por Alex Calinicos, professor de Estudos Europeus da Universidade de Londres (King`s College) e dirigente do SWP-UK e da IST, é uma pequena contribuição, pela via anticapitalista, de aproximar espaços políticos tão distintos.

Aldo Sauda


O voto britânico do dia 23 de junho para sair da União Europeia é um evento de enorme importância geopolítica. (1) Ele terá como efeito a desorganização do nexos de alianças pelos quais as potências imperialistas ocidentais, dirigidas pelos EUA, administram o capitalismo global. Ele é também um golpe duro contra a União Europeia. Mesmo que os diplomatas europeus tentem transparecer resiliência, perder o segundo maior pais da UE, assim como seu principal centro financeiro e militar, não é pouca coisa. A vitoria do Leave é também a repetição de uma série de referendos nos quais as instituições e iniciativas da União Europeia foram rejeitadas pelo voto popular – Grécia (2015), Irlanda (2001 e 2008), Holanda (2005), França (2005), Suécia (2003), Dinamarca (1992). Segundo especulação do colunista do Financial Times Wolfgang Munchau, caso o primeiro ministro italiano Matteo Renzi perca o referendo constitucional marcado para outubro, a Itália também pode estar caminhando para a ruptura (2).

O voto inglês fez tremer o mercado financeiro mundial, cuja força já estava abalada com a decisão do conselho do Banco Central norte-americano, semanas antes, de adiar seu plano de aumento da taxa de juros para “normalizar” a economia depois da crise. (3) A manchete do Washington Post do sábado, dia 25 de junho, resumia de forma sucinta a situação: “Voto do Brexit sacode o globo”.

Na própria Grã Bretanha, o voto no Brexit colocou em crise os dois principais partidos do país. David Cameron achou que seria uma manobra inteligente propor o referendo para apaziguar a ala direita dos conservadores. O Financial Times publicou esta anedota reveladora sobre seu estado de espirito quando ele apresentou o referendo em 2013:

Quando questionado em 2014 em Chequers por Herman Van Rompuy, respeitado ex-dirigente do Conselho Europeu, porque Cameron não tinha conseguido evitar a situação tão precária na qual se encontrava, o primeiro ministro respondeu fazendo um paralelo da situação com o referendo pela independência escocesa. “vou ganhar fácil o referendo e me livrarei da questão escocesa por mais 20 anos” disse ao seu convidado “o mesmo ocorrerá para a Europa” (4)

o excesso de confiança de Cameron sobre o tema escocês quase lhe custou a unidade do pais. Ele apenas conseguiu uma apertada vitoria graças ao apoio que recebeu do partido trabalhista, que, por conta disso, perdeu boa parte de sua base eleitoral na Escócia. Na perspectiva da classe dominante, o voto do Brexit é muito mais danoso (e pode precipitar, de qualquer jeito, a independência escocesa). Cameron também conseguiu estilhaçar seu partido e governo, assim como encerrar seu mandato como primeiro ministro um ano após ganhar inesperadamente uma eleição geral.

Os conservadores participaram do referendo afirmando terem aprendido as lições dos anos 90, quando as divisões em torno da Europa levaram ao fim o governo de John Major [primeiro ministro conservador sucessor de Thatcher]. Mas, nas semanas finais da campanha, a suposta lição foi esquecida e os dois lados começaram a se atacar violentamente. Estes crescentes choques foram bem resumidos por Andrew Rawnsley no Observer:

Todo o veneno gestado no partido conservador durante as ultimas décadas agora borbulha na superfície. Em fevereiro, quando iniciou-se o tiroteio, ambos os lados fizeram declarações comportadas de que não levariam ao terreno pessoal as disputas. Adoro a citação de Iain Duncan Smith [ministro da previdência], pedindo para os conservadores fazer uma disputa limpa. “não marque o jogador, marque a bola” afirmou o capitão do FairPlay. Algumas semanas depois, Iain Duncan Smith se referia a Cameron como ‘Pinocchio’. (5)

As tensões pre-existentes no governo, as manobras para suceder Cameron, que ja havia prometido se aposentar antes das próximas eleições gerais de 2020, as disputas do próprio referendo, que reacenderam os ódios dos anos 90 – todos esses venenos irão pairar sobre a batalha pela substituição de Cameron e a reestabilização do governo e do capitalismo britânicos.

A crise no partido conservador nos coloca duas perguntas. Primeiro, porque desenvolveram-se antagonismos tão intensos? Segundo, é possível que eles sejam facilmente superados e o governo se reconstitua sob uma nova liderança? Três apoiadores da campanha pelo “Fica”, Caroline Lucas, parlamentar do partido verde, John McDonnell, parlamentar responsável por fiscalizar a política externa do pais, e o ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, têm uma resposta fácil à primeira pergunta: “se saímos da União Europeia, quem se candidatada a ganhar mais? As elites políticas e financeiras deste pais”. (6)

Se esta declaração se refere aos interesses do capitalismo britânico, ela é pura bobagem. As repetidas declarações dos empresários atacando o Brexit podem ter sido de fato orquestradas pelo governo, mas elas eram inteiramente genuínas. Grandes bancos de investimento e corporações transnacionais, como CBI, o Banco da Inglaterra, Lloyds, a Mesa Redonda dos Industrialistas Europeus, o FMI, a OECD… estas são todas as instituições que melhor expressam as posições do capital, e todas foram contra o Brexit. A principal exceção foram os hedge funds, setor que mais tem tido dificuldades pós crise de 2008, dos quais muitos dos chefes venais e com mentalidade de curto prazo não gostam das ameaças da UE de maior regulação sobre eles. Comparando, por exemplo, aos debates dos anos 80 e 90 sobre se o Reino Unido deveria primeiro se juntar ou não ao ERM (Mecanismo de Cambio) do Sistema Monetário Europeu e depois ao Euro, existe menos divisão no grande capital hoje sobre a questão europeia. (7) Se alguém tem alguma dúvida sobre os desejos do capital, basta olhar as tremendas quedas no mercado financeiro por todo mundo no dia seguinte ao referendo para tirar suas duvidas.

Pelo seu jeito oportunista de sempre, Cameron havia conseguido fechar em fevereiro um acordo com a UE que atendia em termos gerais aos interesses do capital britânico (digo isso dessa forma por conta da natureza altamente internacionalizada do capitalismo britânico que faz com que seja difícil distinguir entre os interesse das firmas sob controle britânico das estrangeiras – por exemplo, bancos e montadoras de automóveis dos EUA, Japão e Europa – com significativos investimentos no Reino Unido). O Financial Times explica que na véspera da renegociação dos acordos com o resto da UE:

Cameron e [o ministro das finanças George] Osborne… tomaram uma importante decisão estratégica. Enquanto os dirigentes britânicos anteriores afirmavam de forma pouco convincente que estavam “no coração da Europa”, agora os conservadores aproveitavam-se que a Grã Bretanha estava nas margens: não estavam nem no Euro, nem no espaço Schengen de livre circulação, e, portanto, a certa distância da crise econômica e dos refugiados que atingiam o continente. Se o resto da Europa quisesse se integrar mais, sem problemas. Mas os britânicos exigiriam algumas garantias (8).

O possível acordo – cuja deliberação mais importante aumentava as garantias do status da City de Londres como o  centro financeiro offshore da zona do euro e permitia que os imigrantes da Europa tivessem negado seu acesso inicial a benefícios sociais – correspondia à natureza peculiar da posição dentro-fora dos britânicos na Europa. O historiador Brendan Simms argumenta em um novo livro que a segurança do estado britânico (e antes, do inglês) sempre dependeu em parte no controle destas ilhas (daí a incorporação da Escócia e a subjugação do País de Gales e da Irlanda) e por outro lado em construir alianças na Europa para impedir o surgimento de uma força hegemônica rival (9).

Mas o que deu ao estado britânico sua dianteira na competição com outras potências europeias foi ter se tornado a plataforma de lançamento do capitalismo industrial e, estreitamente associado a isso, o desenvolvimento de seu império global. A Índia foi, de muitas formas, a chave, garantindo às firmas britânicas mercados e ao estado recursos e soldados. Lord Salisbury, primeiro ministro conservador do século 19, descrevia a Índia como “um quartel britânico nos mares do oriente de onde podemos extrair a quantidade de tropas que quisermos sem ter de pagar por elas”(10). Graças ao exército indiano, os britânicos conseguiram mover o dobro de tropas que os EUA no front do Pacifico durante a segunda guerra mundial, mesmo que os americanos tenham liderado a campanha aliada contra o Japão (11).

Mesmo depois de 1947, quando obrigados a abandonar a India depois da revolta colonial que sobrecarregava o império, os britânicos recusaram-se a abraçar a integração europeia. Tanto antes quanto depois da segunda guerra mundial, Winston Churchill advogava pelos Estados Unidos da Europa – porém sem o Reino Unido. “Estamos com a Europa, mas não na Europa” escreveu em 1930. “Estamos ligados, mas não comprometidos”. (12) O governo trabalhista do pós-guerra adotou a mesma linha, distanciando-se dos primeiros passos da integração, expressa na Comunidade Europeia do Carvão e Aço (CECA) em 1951. Como seus sucessores conservadores, os trabalhistas imaginavam que o imperialismo britânico tinha o potencial de tornar-se a “terceira grande potência”, depois dos EUA e da União Soviética. Para isso utilizariam o resto de seu império como carta para manter-se no andar de cima, na forma de aliado mais leal de Washington entre seus parceiros europeus. (13)

Dois eventos de 1956 arrasaram brutalmente essa fantasia. Primeiramente, quando os EUA forçou a França e o Reino Unido a abandonar sua tentativa de derrubar o governo nacionalista de Gamal Abdel Nesser. Esse desastre foi acompanhado pela rápida liquidação da maior parte dos impérios coloniais europeus sobreviventes. O outro evento foi quando os seis membros da CECA acordaram os termos para criar a Comunidade Econômica Europeia (ou Mercado Comum) no tratado de Roma de março de 1957. Foi dentro desses marcos que as economias do continente conseguiram dar um salto à frente do capital britânico, que se enfrentava com seu problema crônico de falta de competitividade. Os movimentos dos governos trabalhistas e conservadores nos anos 60 para se integrarem à CEE foram um produto dessa sensação de derrota e até mesmo de desespero, expressa de forma clara em um relatório do ministério de relações exteriores para ao gabinete de ministros:

Ao longo dos últimos 20 anos, o pais está a deriva. Em resumo, temos vivido um período de declínio no nosso papel e poder internacionais. Isso tem ajudado a consolidar um sentimento nacional de frustração e de incertezas. Não sabemos qual direção seguir e isso tem abalado nossa autoconfiança. Talvez tenhamos chegado ao momento em que a busca de um novo objetivo e um novo compromisso poderia dar ao país como um todo um foco em torno do qual poderíamos cristalizar nossas esperanças e energias. A entrada na Europa pode servir como alvo e estimulo para isso. (14)

Uma atitude similar ocorria no Ministério de Economia e Finanças que, segundo Hugo Young, “manteve-se oficialmente contra a entrada britânica” na CEE em 1973,(15) e que continua com a reputação de eurocetíco. Sir Alan Budd, conselheiro chefe do Ministério nos anos 90, disse ao Financial Times recentemente que “era tão grande o desespero para gerir a economia no início dos anos 70 que o departamento achava que unir-se ao Mercado Comum era irrelevante. A prosperidade britânica não seria garantida e a filiação à CEE seria apenas uma espécie de  ‘gesto fútil”. (16)

Na prática, a CEE e mais tarde a UE deu aos britânicos uma base sobre a qual foram capazes de se reconstruir com grande sucesso. A integração europeia sempre teve um objetivo imperialista duplo – primeiro, ela foi promovida pelos EUA para garantir um sócio minoritário próspero e estável na Eurásia ocidental e, segundo, ela serviu como um marco para as forças imperialistas europeias que, apesar de sua subordinação geopolítica a Washington, buscavam seus interesses na esfera global. (17) O Reino Unido também usou a UE da segunda forma, mas de um jeito mais ambíguo que a França ou a Alemanha, porque simultaneamente precisava preservar seu status como principal parceiro dos EUA no manejo do capitalismo global.

Essa posição ambígua possui base material na própria evolução do capitalismo britânico. Em um novo livro de grande importância, escrito por Tony Norfield, ressalta-se o ressurgimento nas últimas décadas da City de Londres como o grande centro financeiro internacional (Wall Street pode rivalizar em tamanho, mas está altamente envolvido em prover serviços financeiros para uma economia nacional muito maior). Londres domina as transações em moedas estrangeiras, de derivados em mercado de balcão, de títulos internacionais, assim como o mercado de empréstimos bancários internacionais. Norfield localiza esse esforço dos sucessivos governos britânicos  para apoiar a City desde os anos 50, alguns momentos em conflito com as políticas americanas, que ele descreve como “parte de um mecanismo através do qual os capitalistas ingleses operam e do qual extraem rendas do resto do mundo, algo que define o status britânico como um poder imperialista.”  (18)

Norfield, porém, relaciona o papel central de Londres em mercados financeiros chave a um controle internacional mais amplo exercido também sobre o capital produtivo:

Em 2013, o Reino Unido tinha a segunda maior quantidade de investimento estrangeiro direto, cujo valor atingia 1,885 trilhão… Enquanto o montante britânico representa apenas 30% do total de investimento norte-americano, em 6,350 trilhões, ele era maior proporcionalmente na economia nacional. Dados da tabela do Financial Times com as 500 principais corporações mundiais em 2011 revelam localização similar. O Reino Unido atingiu o segundo lugar depois dos EUA, com 34 companhias acumulando valor total de mercado em 2.085 trlhões. Os EUA tinham 160 empresas avaliadas em 9.602 trlhões. Outra pesquisa indicou que, das 100 maiores corporações não-financeiras em 2013, elencadas segundo o valor de seus ativos externos, 23 eram americanas, 16 britânicas e 11 francesas, enquanto Japão e Alemanha possuíam cada uma 10. As três maiores corporações sediadas no Reino Unido ocupavam o segundo, sexto e sétimo lugar: Royal Dutch/Shell Group plc, BP plc e Vodafone plc. (19)

O capitalismo britânico continua sendo, como desde a revolução industrial, o mais internacionalizado das grandes economias. Isso lhe dá uma orientação global, e ajuda a explicar os esforços feitos pelo estado britânico em continuar sendo uma das principais potências militares do mundo, porém quase sempre operando em conjunto com os EUA. Utilizando-se de cinco medidores de poder – PIB nominal, quantidade de investimento estrangeiro direto, ativos e passivos bancários internacionais, peso da moeda em transições internacionais e gastos militares – Norfield coloca a Grã Bretanha em um “distante segundo lugar atrás dos EUA”, porém à frente de China, Japão, Alemanha e França. (20) Desde uma perspectiva liberal, Simms concorda, chamando “o Reino Unido de a última grande potência europeia”, atrás apenas dos EUA e da China. (21)

A localização global do capitalismo britânico o fez um difícil parceiro da UE. Seu status semi-independente ganhou força quando optou por ficar do lado de fora do euro no tratado de Maastricht de 1992, seguido rapidamente pela retirada da Libra do ERM na quarta-feira “negra” do dia 16 de setembro de 1992. A proteção da City foi uma das principais razões pelas quais Gordon Brown, quando chanceler no governo trabalhista, bloqueou a entrada dos britânicos no euro ao final dos anos 90. (22) Tony Blair tentou compensar a não participação no Euro promovendo maior cooperação militar europeia sob direção norte-americana, cujo ponto mais alto foi a campanha de bombardeios da OTAN contra a Yugoslavia em 1999. A intensa participação de Blair na invasão do Iraque, frente à oposição francesa e alemã, acabou com esse processo. (23)

A grande ironia é que, apesar da insistência britânica em manter a Libra, e, portanto, ficar de fora do principal projeto europeu desde o tratado de Roma, isso não impediu que Londres se tornasse a capital financeira da zona do euro. Não apenas a City domina o comércio cambial da moeda, como, segundo relata o Financial Times, “três quartos do mercado de capitais e rendimentos de bancos de investimento são transacionados no Reino Unido, segundo Oliver Wyman, a empresa de consultoria”(24) As medidas adotadas nos últimos anos para aprofundar a integração da zona do euro em resposta à sua crise quase terminal colocou em risco esta equação delicada – por exemplo, tentando forçar que as transições da moeda ocorram apenas na zona do euro. Porém, Cameron garantiu concessões em Bruxelas, protegendo o status da City assim como um reconhecimento do status especial dos britânicos (por exemplo, estar de fora do compromisso afirmado no Tratado de Roma por uma “união cada vez mais estreita”). Ao longo da campanha do referendo, a Comissão Europeia prometeu facilitar aos hedge funds da City operações em toda UE. (25) Agora, tudo isso acabou. Os bancos de investimento baseados em Londres podem acabar ficando do lado de forma do mercado único.

Portanto, se os interesses do capitalismo britânico estão tão firmemente atrelados à campanha do Remain, porque tanta discussão no partido conservador? A resposta provavelmente pode ser sintetizada em duas palavras – Thatcher e UKIP. Margaret Thatcher se comprometia a reverter o declínio britânico. Ela atingiu significativos sucessos – lançando uma intensa ofensiva neoliberal, impondo grandes derrotas à classe operária organizada, e reforçando a transição econômica em direção à City com a desregulamentação Big Bang de 1986. Mas restaurar as glórias imperiais britânicas estava mais além de seu poder (ou de suas intenções). Há humilhações de sobra – quarta-feira “negra”, os fracassos militares no Afeganistão e Iraque, a quebra de 2008 – ressaltando a vulnerabilidade do capitalismo britânico em um sistema global em rápida transformação no qual a distribuição de poder está mudando.

Para a ala Thatcherista do partido conservador, em estado de quase rebelião sob o governo Major e (ao contrário de Cameron e Osborne) hostil às tentativas de Blair de fundir o neoliberalismo à social democracia, a União Europeia tornou-se o inimigo simbólico, no qual despejavam todas as suas frustrações. Livrar-se da UE tornou-se a Grande Escapada que permitirá à Grã Bretanha recuperar um nível de soberania que de certa forma nem mesmo os Estados Unidos possuem. Alguns conservadores, como Michael Gove e o ex ministro da defesa Liam Fox, que se pavoneiam como versões neoconservadoras britânicas, também aderem a outra fantasia ideológica, a de que o Reino Unido teria um futuro irradiante em um mercado livre “anglófono” junto com os EUA e outras ex-colônias brancas, como Canadá e Austrália.

O único detalhe dessa proposta é que ela é intensamente rejeitada pelos  supostos parceiros. A vigorosa intervenção de Barak Obama no debate sobre Brexit em sua visita ao Reino Unido em abril foi para reafirmar a tradicional política norte americana de promover a integração europeia e apoiar a permanência britânica exatamente para garantir que Washington tenha um aliado poderoso e simpático para as decisões tomadas em Bruxelas. Assim como Donald Trump se apropriou do partido republicano a partir de uma proposta que rompe com a estratégia imperial norte americana desde os anos 40 de construir uma ordem liberal capitalista global sustentada no poder militar norte americano, temos um paradoxo no qual o principal partido do grande empresariado esta se afastando dos interesses do capital.

Segundo o trecho famoso de Karl Marx: “A forma específica em que o trabalho excedente não pago é extraído dos produtores diretos determina a relação de dominação e servidão, tal como esta surge diretamente da própria produção e reage por sua vez sobre ela como um determinante” (NT: tradução nossa feita da citação da edição inglesa referida pelo autor)26 Certamente, os antagonismos na superestrutura política, nesse caso, reagiram sobre a base econômica do capitalimo britânico com um toque de vingança.

O Brexit, portanto, não pode ser visto como base de uma estratégia alternativa do capitalismo britânico. O que lhe deu força foi um processo de recomposição geracional da base ativista dos conservadores. Nele, o euroceticismo é norma, reduzindo a ala pro-UE do partido a um amontoado de idosos representado por figuras do passado, como Michael Heseltine e Ken Clarke. Essa transformação foi reforçada pelo crescimento do UKIP. O legado de Nigel Farage [principal eurodeputado do partido] foi remodelar as preocupações daquilo que tradicionalmente sempre foi uma pequena minoria, que identificava ameaças à soberania britânica por um “superestado” europeu, em uma causa popular, colocando no centro da questão europeia o tema da imigração e explorando a chegada de imigrantes da Europa central e oriental desde a expansão da União Europeia para o leste iniciada em 2004. Os avanços do UKIP na base eleitoral de ambos os principais partidos empurrou o debate sobre imigração à direita, mas ele também energizou o partido conservador em sua tentativa de reassumir o controle sobre a questão europeia.

Como isso se expressou na campanha do referendo em si? Sob bombardeio constante do capital sobre os malefícios do Brexit, os dirigentes conservadores da campanha pelo Leave foram entrando mais e mais no terreno do UKIP, prometendo que a saída da UE significaria que o Reino Unido “retomaria o controle de suas fronteiras”. Isso é mais uma fantasia ideológica: é a dependência do capitalismo contemporâneo do trabalho imigrante que está redesenhando a demografia na Grã Bretanha, assim como em outros lugares, e não o princípio da União Europeia de livre circulação do trabalho. Porém, o racismo provavelmente não foi o principal fator que levou as pessoas para o campo do Leave.

O UKIP ja tinha se beneficiado da repulsa dos eleitores comuns contra toda a elite política e econômica. Nesse caso a campanha do referendo apontou sinais contraditórios. Por um lado, o debate mais geral resumiu-se a playboys engravatados do partido conservador batendo boca entre si – dificilmente uma boa fórmula para aproximar o eleitorado. Ao mesmo tempo, a unanimidade do establishment em sua oposição ao Brexit provavelmente empurrou muitas pessoas em direção ao Leave simplesmente como um ato de desafio. Pesquisas do Yougov indicam grandes empresas (36%), banqueiros e políticos (ambos com 32%) como os três principais beneficiários da existência da UE, enquanto os perdedores seriam pequenos negócios (26%), pessoas de baixa renda (25%) e aposentados (14%). (27)

Há outra questão muito importante relativa às pesquisas. Todas indicam que quanto mais pobre a pessoa, maior a chance de votar Leave. (28) Isso significa que milhões de votos da classe trabalhadora não foram representados pelas correntes majoritárias do movimento operário. Como no caso do voto parlamentar sobre a intervenção militar aérea na Síria em dezembro, os principais parlamentares do partido trabalhista demonstraram estar profundamente comprometidos com o Blairismo. Vergonhosamente, os dirigentes sindicais, depois de assinarem um acordo com o governo em que conseguiram algumas poucas concessões frente à proposta de uma nova lei anti-sindical, lançaram-se vigorosamente no campo do Remain (apesar de três sindicatos importantes dirigidos pela esquerda, ASLEF, BFAWU e o RMT, terem sido uma nobre exceção (29)). Assim como a campanha “uma outra Europa é possível”, marginalmente à esquerda da campanha oficial por ficar na UE, os dirigentes sindicais passaram seu tempo contando a lorota de que a União Europeia era a iniciadora e garantidora de reformas sociais progressivas. Esse discurso serviu não apenas para encobrir a enorme ofensiva neoliberal dirigida pela UE contra o modelo social europeu, mas na prática apagou o papel dos movimentos sociais e da luta dos de baixo na conquista de reformas.

Na pior das situações, isso significou replicar no campo do Remain o tipo de política frente-populista que viu no início da campanha [pelo Leave o famoso parlamentar pro-árabe de esquerda] George Galloway discursando ao lado de Farage. Consequentemente, Sadiq Khan, o recém-eleito prefeito de Londres, dividiu um palanque com Cameron. Já a parlamentar do Partido Verde, Caroline Lucas, ao ocupar um posto no conselho da campanha “Grã Bretanha mais forte na Europa”, dirigida pelo partido conservador, aplaudiu John Major – que enquanto primeiro ministro fechou as minas de carvão, privatizou as ferrovias e iniciou a mercantilização do sistema de saúde – quando criticava Boris Johnson [o conservador que dirigiu a campanha pelo Leave].

Comparado à mistura de apologia pro-UE e à política de colaboração de classes, Jeremy Corbyn [recentemente eleito dirigente do partido trabalhista, vindo de sua minúscula extrema esquerda] posicionou-se de forma mais inteligente. Forçado pelos Bairristas do gabinete paralelo a pronunciar-se a favor de continuar na UE quando assumiu a direção do partido, ele deixou claro a ausência de qualquer entusiasmo na campanha do Remain. Assim como McDonnell [seu principal aliado na bancada parlamentar], Corbyn recusou-se a colaborar com o partido conservador, e aquilo que era para ser seu discurso pro União Europeia no inicio de Julho,  foi na verdade uma fala de ataques à campanha do Remain dirigida pelos conservadores e à própria UE. Como má vontade o New Statesmen reconheceu:

Ele emitiu a quantidade suficiente de ruídos pro UE para fazer com que as críticas do setor mais rancoroso dos trabalhistas europeístas parecessem mais insurrecionais do que produtivas. Ele atiçou sua base mais radical, batendo no TTIP [proposta de livre comercio entre Estados Unidos e União Europeia] – que como projeto de tratado ja aparenta estar natimorto – e reafirmando o compromisso de que um futuro governo trabalhista [sob sua direção] reestatizaria as ferrovias. E, crucialmente, ele deu indicativos suficientes para os poucos parlamentares e ativistas anti-europeus do trabalhismo que ele poderia, muito possivelmente, ainda estar, na pratica, do lado deles. (30)

O calculo de Corbyn era de que, provavelmente, o referendo seria um problema dos conservadores e que os trabalhistas poderiam ganhar ao assisti-los brigarem entre si. O problema desse tipo de manobra é que ele pode ter emitido sinais em código aos milhares de eleitores tradicionais do trabalhismo que votaram pelo Leave, mas foi incapaz de oferecer-lhes uma direção política clara. Se Corbyn tivesse desde o início atrelado a questão da União Europeia à oposição à austeridade, ele teria consolidado a ampla coalizão que surgiu das eleições que o elegeu para a direção do trabalhismo em setembro. Segundo Freddie Sayers, do YouGov:

A Corbynmania foi um movimento da juventude e das redes sociais, mas foi também um movimento da classe trabalhadora. Como grupo, a coalizão trabalhista que votou na disputa interna do partido trabalhista era em geral mais rica e com mais alto nível educacional que o resto da população, mas dentro desse espaço o grupo mais “normal” eram os apoiadores de Corbyn. Apenas 26% dos apoiadores de Corbyn tinham renda familiar acima de 40 mil libras, um pouco a menos que a média nacional, de 27%. ([os outros candidatos] Andy Burnham, Yvette Cooper e Liz Kandal tinham base de apoiadores mais ricos, com 29%, 32% e 44%.) Portanto, Corbyn conseguiu juntar os “jovens descolados” à esquerda operária. (31)

Porém, o equívoco de Corbyn na prática empurrou a classe trabalhadora que queria o Leave em direção a Farage e Johnson. É importante, mesmo assim, analisar cuidadosamente os diferentes elementos da situação. Muitos na esquerda radical e moderada se convenceram que ao longo do referendo o voto pelo Leave foi turbinado por sentimentos racistas cuja vitoria aprofundaria os Thatcheristas no poder. Isto foi resumido em uma postagem no twitter por Billy Bragg, que dizia “nem todo apoiador do Leave é racista, mas todo racista é apoiador do Leave”. (32) A lógica desse argumento era claramente furada – Cameron e Osbourne, ao longo de seus seis anos de governo, empurraram o neoliberalismo muito além de Thatcher. E o ataque, feito pelo odioso Alan Sugar, apoiador do Remain, dirigido contra Gisela Stuart, a parlamentar trabalhista pro Leave, dizendo que ela era “uma imigrante de 1974… querendo dizer aos britânicos o que fazer” deixa claro que os racistas não estavam todos de um lado só. (33)

Mas o diagnostico parece ser corroborado pelo sinistro assassinato da parlamentar trabalhista Jo Cox por um fascista convicto. O assassinato colocou os seguidores do Leave em crise, e incentivou seus opositores do lado Remain a apresentarem o referendo como um plebicito sobre o racismo. Esta linha foi adotada inicialmente pela direção do trabalhismo, e depois encampada por Cameron e a campanha Grã Bretanha mais forte na Europa. Ao mesmo tempo, dirigentes trabalhistas como o vice-líder partidário Tom Watson, o parlamentar responsável pela política externa John McDonnell, e o secretario geral do sindicato Unite Len McCluskey, anunciaram apoiar um aumento na restrição do livre movimento de trabalhadores dentro da UE.

Essa movimentação foi uma resposta à descoberta pela maioria dos parlamentares trabalhistas que apoiavam o Remain, assim como pelos dirigentes sindicais, que amplos setores da classe trabalhadora iram votar no Leave. Assumiu-se que suas motivações eram racistas. E obviamente apenas um tolo negaria que o racismo é uma forca poderosa e crescente no Reino Unido assim de fato em toda a toda a  Europa. Apesar do horroroso assassinato de Cox, o problema não é exatamente uma direita fascista e assumida – composta na Grã Bretanha por grupúsculos em guerra entre si, que apesar disso ainda são uma ameaça que exige atenção e quando necessário contra-mobilizações vigorosas.

Inquestionavelmente, milhões de pessoas votaram no Leave sob a influência diluída de um racismo anti-imigrante. Porém, como mencionávamos, ao menos igualmente poderoso foi a alienação em relação a uma elite econômica e política que vem cristalizando a experiência de 40 anos de neoliberalismo e quase 10 anos de crise expressa na queda ou estagnação dos salários, desemprego, habitação social decrescente e um estado de bem estar social que só encolhe. Incarnação do neoliberalismo e do desdém pela democracia, a União Europeia é o símbolo perfeito de todos esses descontentamentos. Londres, um centro financeiro mundial, pode até ter votado Remain, mas todas as outras regiões inglesas e todo Pais de Gales votou pelo Leave. Dados do YouGov sugerem que um comparecimento maior e inesperado às urnas no norte da Inglaterra comparado ao sul desequilibrou o resultado. (34) Will Davies comenta de forma sagaz os votos das regiões norte, nordeste e do País de Gales que foram para o Brexit:

Elas são amplamente reconhecidas como bastiões históricos do trabalhismo, localizados nas minas de carvão ou em cidades centradas em estaleiros navais. De fato, fora de Londres e Escócia, foram os únicos pontos vermelhos do trabalhismo presentes no mapa eleitoral de 2015. Não há razões para crer que eles não continuariam sendo vermelhos caso tivéssemos eleições no outono. Mas na linguagem dos geógrafos marxistas, elas não tiveram um “ajuste espacial” vitorioso desde a crise de inflação/estagnação dos anos 70. O thatcherismo os esvaziou com o fechamento das minas e o monetarismo, mas não gerou empregos no setor privado para preencher o espaço. Os investimentos empresariais que o neoliberalismo sempre acreditou estar logo ali na esquina nunca se materializaram.

A solução apresentada pelo trabalhismo foi a de distribuir renda em sua direção utilizando-se de políticas fiscais: empregos na administração publica foram estrategicamente relocalizados para o sul do País de Gales e o nordeste para aliviar a desindustrialização, enquanto incentivos fiscais garantiram que empregos de baixa produtividade em serviços fossem socialmente mais viáveis. Isso na prática criou um estado de bem-estar secundário do qual nunca se falava publicamente, e que coexistia com uma cultura política que condenava a dependência. O comentário infame de Peter Mandelson [ex-parlamentar trabalhista], de que os bastiões do partido iriam sempre votar no trabalhismo, independente de qualquer coisa, “porque eles não têm para onde fugir” refletia uma perspectiva geral. Nos termos de Nancy Fraser, o New Labour [ala blairista social-liberal do trabalhismo] oferecia “redistribuição”, mais não, “reconhecimento”.

A contradição cultural, assim como a geográfica, era insustentável. Não apenas o “ajuste espacial” foi de curto prazo, posto que dependia do aumento na receita fiscal no sudeste e de um governo de centro-esquerda disposto a despejar bastante dinheiro (ainda que de forma discreta) na região, ele também fracassou por não levar aos eleitores do Brexit aquilo que provavelmente mais queriam: a dignidade da auto-suficiência, não necessariamente em um sentido neoliberal, mas certamente de uma forma comunal, familiar e fraterna. (35)

A pesquisa realizada por Lord Ashcroft no dia da votação revelou que cerca de 49% dos que votaram Leave disseram que a principal razão para deixar a UE baseava-se no “princípio segundo o qual as decisões sobre o Reino Unido devem ser tomadas no Reino Unido”, comparado a 33% que argumentavam que votar Leave “apresentava a melhor oportunidade do Reino Unido retomar o controle sobre a imigração e suas próprias fronteiras”. Houve também uma quantidade significativa de negros e integrantes de minorias étnicas concordando com eles: “brancos votaram por sair da UE na escala de 53% para 47%. Dois terços (67%) de pessoas que se auto-declaram asiáticas votaram Remain, assim como três quartos (73%) do voto negro. Cerca de seis em cada dez (58%) cristãos declararam votar no Leave; sete em cada dez muçulmanos votaram Remain” (36)

Porém, em uma campanha dominada pelas duas alas do partido conservador, sob pressão constante do UKIP, raça e imigração acabaram tornando-se a forma com que o debate foi enquadrado. Isso não era inevitável. Os dirigentes do movimento trabalhista possuem grande responsabilidade por não expor uma crítica à União Europeia de uma perspectiva de esquerda  – não digo necessariamente uma visão internacionalista e anti-capitalista: a crítica da esquerda reformista elaborada por Tony Benn [falecido líder histórico da esquerda trabalhista] já seria bem suficiente.

Existe aqui uma importante lição para a esquerda radical europeia, que segue defendendo a política de “ficar e reformar” advogada por Corbyn  durante o referendo, apesar do esmagamento do governo Syriza na Grécia há um ano pelo estados que dominam a UE e o Banco Central Europeu. Não apenas essa perspectiva é ineficaz, como ela entrega à direita racista e facista a bandeira de oposição à União Europeia. A lealdade do Die Linke, o partido da esquerda alemã, ao projeto europeu significou que ele foi atropelado pelo Alternative für Deutschland, que fundiu a oposição ao Euro com o racismo anti-imigrante e a islamofobia.

Mas voltemos ao segundo ponto: é possível juntar os cacos depois do voto no Brexit? O governo Cameron já era frágil. Desde a eleição geral, fez um recuo atras do outro, na maioria das vezes em políticas defendidas por Osborne – isenções fiscais, subsídios aos deficientes, trabalho aos domingos, isenção de imposto nas pensões, reorganização escolar forçada, crianças refugiadas. Por detrás desses giros existe um pequeno grupo de parlamentares conservadores, da extrema direita do partido, hostis a Cameron e a Osborne, que aproveitaram a pequena margem parlamentar do governo. Fortalecidos com o voto do Brexit, pressionarão um governo frágil a uma ruptura rápida com a UE.

O governo decapitado terá a tarefa de fazer três coisas potencialmente incompatíveis. Primeiro, terá que encontrar um novo primeiro ministro, através de um processo de seleção no partido conservador que provavelmente azedará ainda mais as relações dentro do partido. Segundo, ele terá de transmitir segurança aos mercados – uma tarefa nada fácil posta a importância da UE para o capitalismo no Reino Unido. A Quarta-feira “negra” foi apenas um dia – mas a libra e as garantias britânicas podem acabar atravessando um longo período de mau tempo. Por fim, ele terá de se envolver naquilo que os especialistas preveem ser um processo difícil e prolongado de negociações com Bruxelas sobre a saída do Reino Unido da UE, enquanto tenta garantir um parlamento em que o governo na melhor das hipóteses tem uma maioria pequena e a maior parte dos parlamentares são contra o Brexit, enquanto o andar de cima da classe dominante estará tentando reverter o curso e esvaziar as decisões do referendo.

Hugo Young escreveu sobre o referendo de 1975: “ele foi resolvido, com base em um comum acordo, mais pelo medo que pela exaltação: o medo do desconhecido, expresso por um mundo existente fora da Europa que a campanha do Não era incapaz de descrever de forma convincente”. (37) Desta vez, os ressentimentos acumulados da era neoliberal sobrepujaram o medo. Mas o vazio segue existindo, enquanto os lideres do Leave desajeitadamente procuram uma orientação alternativa para o capitalismo britânico.

Corbyn pode se localizar bem para oferecer uma alternativa à confusão. A distância que manteve da União Europeia durante o referendo coloca-o em uma boa posição para reconectar-se aos eleitores do trabalhismo que optaram pelo Leave. Infelizmente, seu gabinete paralelo no parlamento [de inspiração no ex-primeiro ministro Tony Blair] está mais preocupado em tentar derrubá-lo da liderança partidária por não ter garantido uma vitória no plebicito do Remain. É um ato de incrível arrogância: dado que os organizadores do golpe estiveram na direção do partido trabalhista há muito mais tempo que Corbyn, eles tem grande responsabilidade pela queda no apoio eleitoral dos trabalhistas. Assim como Cameron, Remain foi a causa deles, Brexit, a derrota deles. É igualmente um crime rachar o trabalhismo ao meio quando os conservadores poderiam estar sendo forçados a chamarem novas eleições, mas pessoas como Hillary Benn aparentam acreditar que aplicar a tática de terra arrasada é a única forma de salvar os últimos cacos do New Labour.

Esta claro que o tema da livre circulação dos trabalhadores dentro da UE continuará dominando a política britânica durante os próximos meses, e talvez anos. Isto é verdade para os conservadores: Johnson e Grove prometeram que o Brexit permitiria à Grã Bretanha romper com esse princípio. Mas seja lá quem suceda a Cameron haverá enorme pressão do grande capital para manter a Grã Bretanha no mercado único europeu (o que permitiria à City continuar a exportar seus serviços financeiros para a UE), e Bruxelas insistiria que isso exige liberdade de movimento. Corbyn usou essa exigência da UE ao longo do referendo para resistir-se a definir um teto no número de imigrantes, mas agora será pressionado a ceder para preservar sua liderança. Incrivelmente, até figuras importantes da esquerda radical, como Paul Mason, que defendeu votar Remain como um ato progressivo e internacionalista, agora está defendendo abandonar o direito ao livre movimento do trabalho. (38)

O referendo claramente reforçou as ondas racistas que existem por toda sociedade britânica. Mas não podemos deixar de enfatizar que Conservadores, UKIP e Nazistas não estão ganhando todas. A enorme onda de solidariedade com os refugiados que tomou conta da Europa no início do outono de 2015 não desapareceu. Pelo contrário, uma intensa rede de iniciativas locais de ajuda material e psicológica aos refugiados de Calais a Lesbos se cristalizou por toda Grã Bretanha. Em setembro do ano passado já havia cerca de 31% da população britânica dando algum tipo de assistência aos refugiados. (39) Tirando esse ou aquele pronunciamento de Corbyn e seus aliados, esse notável movimento auto-organizado existe sem representação política de peso. Além de sua própria existência, ele é um poderoso contrapeso aos racistas. A derrota da asquerosa campanha islamofóbica de Zac Goldsmith nas eleições para a prefeitura de Londres revelou outra barreira à ofensiva racista – os hábitos de integração que têm se desenvolvido a partir da diversidade, das entrelaçadas vidas das pessoas nas grandes cidades.

Essas profundas tendências anti-racistas precisam ser organizadas. Isso está começando a ocorrer de forma ampla com a formação do “Stand Up to Racism”, principal animador do dia de ação anti-racista no 19 de Março e copatrocinador do Comboio para Calais do dia 18 de Junho. Mas é preciso também uma perspectiva mais solidamente socialista para ligar o anti-racismo de forma classista à luta mais ampla contra a austeridade. O surgimento da campanha pelo Lexit, defendendo uma oposição de esquerda e internacionalista à União Europeia, foi um dos sucessos do referendo. Não por ter mudado um grande de votos, mas porque unificou um importante espectro de forças da esquerda radical para uma campanha pelo Leave baseado em uma perspectiva anti-capitalista e anti-racista e (ao contrário de outras campanhas contra a UE organizadas pela esquerda) não deu espaço para a perseguição de imigrantes.

O Lexit proporcionou uma voz política, mesmo que pequena, para os trabalhadores que queriam rejeitar a União Europeia em bases classistas. Ela ofereceu, portanto, uma alternativa ao desvio para políticas de colaboração de classes defendidas por alguns dirigentes do “outra Europa é possível”. Acima de tudo, dada a terrível fragmentação e regressão que viveu a extrema esquerda britânica nos últimos anos, a colaboração vitoriosa de diferentes organizações e tradições foi um importante passo adiante. Mas o Lexit foi minoritário na esquerda mais ampla, a maioria da qual se convenceu que a União Europeia é uma trincheira contra o neoliberalismo e o racismo. Isso envenenou os debates, especialmente nas altas temperaturas das redes sociais, na reta final e depois da votação.

Nessa situação perigosa e turbulenta que o Brexit abriu é essencial manter as discordâncias na esquerda britânica radical sobre a Europa dentro de uma perspectiva razoável. A verdade é que todos enfrentamos uma escolha difícil – entre a monstruosidade imperialista neoliberal que é a União Europeia, fortemente apoiada pelos altos escalões do capital britânico, e os thatcheristas racistas e xenófobos que dominaram a campanha pelo Leave. Inevitavelmente, em um referendo produto de divisões internas dos conservadores em que é preciso decidir sobre uma questão binária – nesse caso, ficar ou sair? – vamos todos ter que assinalar a mesma alternativa que alguns conservadores. (a menos que nos abstivéssemos, o que significaria ficar do lado de fora do maior debate politico da Grã Bretanha há muitos anos.) O que distingue uma perspectiva de esquerda em tal situação são as razões que damos para as respostas de como (e com quem) iremos fazer campanha. Essas são as zonas de legitima discordância. Mas essas diferenças não podem obscurecer aquilo que temos em comum.

O capitalismo britânico, e talvez mundial, está entrando em águas muito turbulentas. Ao tentar navegar por elas, os conservadores certamente tentarão organizar mais ataques – por exemplo, forçando mais cortes como garantias para os mercados. Ao mesmo tempo, como previ há um ano “questões constitucionais continuarão a atuar como o para-raios da política britânica no futuro imediato”(40) De um lado, haverá  as negociações do Brexit, em que os detalhes de como o estado britânico se desligará da Europa serão de grande importância – a luta para preservar a liberdade de movimento é o exemplo mais obvio. Ao mesmo tempo, poderá haver referendos para dividir o Reino Unido, provavelmente na Escócia, possivelmente no Norte da Irlanda. Háa também uma luta imediata a ser travada contra os Bourbons da ala direita do trabalhismo. É necessária de forma urgente a unidade contra o racismo, a austeridade e a guerra, e para preservar a abertura política marcada pela eleição de Corbyn.

Notas

1 O presente texto pode ser encontrado no seguinte endereço http://isj.org.uk/brexit-a-world-historic-turn/

International Socialism Journal, numero 151 – 27 de Junho de 2016

2 Münchau, 2016.

3 Roberts, 2016.

4 Parker e Barker, 2016.

5 Rawnsley, 2016.

6 Lucas, McDonnell, e Varoufakis, 2016.

7 Para discussões anteriores sobre as divisões dentro da classe dominante britânica e o partido conservador, ver Callinicos, 1997.

8 Parker e Barker, 2016.

9 Simms, 2016.

10 Citado em Arrighi, 2007, p136.

11 Hastings, 2008, pp8-9. Ver resumo da importância econômica da Índia para o imperialismo britânico em Callinicos, 2009, pp153-156.

12 Citado em Young, 1998, p13.

13 Darwin, 2009, capítulos 12 e 13.

14 Citado em Young, 1998, p190.

15 Young, 1998, p225.

16 Giles, 2016.

17 Callinicos, 2015.

18 Norfield, 2016, Kindle loc. 3374.

19 Norfield, 2016, Kindle loc. 134.

20 Norfield, 2016, Kindle loc. 2055.

21 Simms, 2016, Kindle loc. 4339.

22 Norfield, 2016, Kindle loc. 1229.

23 Simms, 2016, capitulo 8.

24 Agnew, 2015.

25 Brundsen, 2016.

26 Marx, 1981, p797.

27 Moore, 2016.

28 Ver por exemplo Parker e Cocco, 2016, e Ashcroft, 2016.

29 ir para www.rmt.org.uk/news/aslef-bfawu-rmt/

30 Bush, 2016.

31 Sayers, 2016.

32 https://twitter.com/billybragg/status/743408035167633408?lang=en-gb

33 https://twitter.com/Lord_Sugar/status/745351864762392576?lang=en-gb

34 https://yougov.co.uk/news/2016/06/24/brexit-follows-close-run-campaign/

35 Davies, 2016.

36 Ashcroft, 2016.

37 Young, 1998, p296.

38 Mason, 2016.

39 Travis, 2015.

40 Callinicos, 2015a.


 

Referências

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