Operários em Luta: Testemunhos da ocupação da fábrica MABE

image_pdfimage_print

Aldo Cordeiro Sauda  |

 

Após ficarem três meses sem receber seus salários e benefícios, os operários metalúrgicos da MABE, empresa de eletrodomésticos que produz as linhas GE e Continental, decidiram partir para a ação. Segunda-feira, após uma assembleia dos trabalhadores, eles ocuparam as duas plantas da fábrica, uma na cidade de Campinas, e a outra, na vizinha Hortolândia.

O objetivo da medida é impedir que a falência da empresa (denunciada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas como fraudulenta) leve cerca de dois mil trabalhadores ao desemprego. Não por acaso, a medida vem sendo chamada de “golpe” pelos operários que ocuparam a fábrica.

Com o intuito de dar voz aos trabalhadores em movimento, o Blog Convergência foi até Hortolândia ouvir o que aqueles operários tinham a dizer sobre a ocupação. Junto à versão escrita de nossa conversa com Flavio, um dos jovens operários que dormiram ontem na fabrica, reproduzimos abaixo a versão crua do áudio da entrevista.

Blog: Você poderia contar um pouco sobre o que esta acontecendo aqui na MABE?

Flávio: A empresa vem de uma falsa recuperação judicial, uma falsa falência. Ela veio minando a gente, tirando as verbas rescisórias, não pagando salario, 13º, atrasando. Depois ela decretou uma falência, na qual a juíza assina um dia e no outro a mesma juíza inexplicavelmente sai do fórum. Nós fizemos uma assembleia e ocupamos a fábrica para pedir nossos direitos.

O recuperador judicial já tem garantido que há viabilidade do negocio. Só que ele simplesmente quer demitir a todos, tocar a fábrica do zero, deixando várias pessoas lesionadas e amputadas para fora. Quer recontratar todo mundo ganhando menos e depois vender a fábrica para outro grupo ai e arrancar milhões. Nisto, muitos pais de família seguem passando fome.

Inclusive, ontem deram dois tiros pra cima da gente, em um ato irresponsável da guarda patrimonial da empresa.

Blog: Como foi isso ai?

Flávio: Estávamos ocupando dentro da fábrica, já tínhamos feito um acordo com eles, com o pessoal da patrimonial, pra deixar o nosso pessoal entrar e sair livremente. Nós garantimos que o patrimônio da empresa seria preservado, porque é um bem nosso, um direito nosso.

Ate então tudo bem, mas quando eles viram que o número de pessoas foi diminuindo, tentaram fechar o cerco. Começaram a nos provocar dentro da fábrica, dando risada de nossa situação. Tentaram fazer aqui dentro o que nem a policia faz na rua.

Tínhamos convocado um pessoal, eles foram subir para entrar na fábrica, aí a guarda patrimonial colocou um carro de bombeiros já virado para dispersá-los com jato d’água. Nesse momento fomos pra cima do caminhão pra impedir que eles fizessem isso, aí um irresponsável levantou o revólver e deu um tiro pra cima.

Houve a revolta dos trabalhadores, que foram pra cima dele. Num certo momento, outro segurança subiu no caminhão de bombeiros e tentou chutar a gente, só que conseguimos pegar a perna dele. Ele caiu e a arma dele caiu no chão. No meio da muvuca, alguém pegou e a gente não viu o que deu.

No meio disso o chefe, o líder da segurança, atirou no chão, no meio da gente, mais no chão. Mas nós fomos para o enfrentamento, enfrentamos. Ai a polícia veio, e depois eles falaram que queriam conversar.

Eles cometeram um crime, não poderiam atirar em todos nós, que estávamos desarmados. Eles cometeram um crime e ficaram no desespero bravo, colocaram os rapazes da segurança dentro de um carro e sumiram. Foi aberto um B.O. na delegacia, e mesmo assim continuamos acampados de noite. Por enquanto as coisas caminham bem, dentro da normalidade.

Blog: E como foi dormir aqui ontem?

Flávio: Foi tenso. Depois de tudo que aconteceu, tiro e tudo, a gente praticamente não dormiu. Qualquer barulho ficamos em alerta né, com medo que, de repente, a patrimonial fizesse alguma coisa com a gente, mas graças a Deus foi tranquilo. A gente ocupou o refeitório, não quebramos nada, só ocupamos lá, estamos fazendo nossa comida e dormindo no refeitório. Foi meio tenso, mas agora parece que as coisas estão mais tranquilas.

Blog: E como foi a ideia de ir pra ação direta, pra ocupação da fábrica e tudo mais? 

Flávio: primeiro, precisávamos mostrar que a gente quer uma nova empresa, queremos fazer parte dessa nova empresa. Se ela tem viabilidade, queremos estar dentro do negócio. Conhecemos o processo e vamos ajudar essa nova empresa. O problema tá aí

Precisava de uma assembleia. Pô, vamos fazer dentro da fábrica, partimos pra dentro da fábrica e vamos ocupar.

Queremos uma resposta da justiça, porque a juíza decreta a falência em um dia e no outro ela some, vai pra outro fórum, e a gente decidiu aqui dentro, depois da assembleia, ficar, permanecer dentro da fábrica e ocupar o que é nosso. A gente não vai ser descartado como lixo não.

Blog: Você já imaginou algum dia que iria ocupar uma fábrica? 

Flávio: olha, já imaginei greves, ocupações não passavam pela minha cabeça. A marca Continental, na qual eu produzia (a grande linha aqui era Continental e GE) é uma marca que praticamente se vende sozinha. É uma fábrica que não tem investimento, mas é uma venda certa. Você nunca imagina que uma empresa que produz um produto bom, que tem clientes fieis no mercado, fosse armar uma dessas pra gente.

Mas infelizmente já conhecíamos o histórico dos mexicanos. Lá no México quase não existem direitos trabalhistas. A gente não imaginava que eles iam aprontar exatamente dessa forma, mas, infelizmente, o dinheiro fala mais alto.

Blog: Você falou que havia muitos trabalhadores aqui que tinham muitos anos de casa, como é sua situação?

Flávio: Eu tenho 12 anos de casa, adquiri lesões no trabalho, por causa do alto ritmo de produção da empresa. Hoje, simplesmente, eles vão me descartar, pouco se importando comigo e com minha família. Pra mim o mercado de trabalho será quase impossível arrumar outra empresa devido às lesões. Mesmo que eu arrume não vou conseguir disputar de igual para igual com o resto do pessoal.

Blog: A linha branca teve vários incentivos de impostos. A empresa está de fato mal, como está a situação dela? Quando você sentiu que seria demitido?

Flávio: A empresa, na realidade, a Mabe, ela nunca esteve mal. Eles tiraram dinheiro pouco antes da recuperação judicial, tiraram uma grande quantia em milhões. Depois desta saída estranha de dinheiro, ela veio com esta história de recuperação judicial.

Tinha incentivo de IPI, apresentou um plano de recuperação judicial que ela não cumpriu, porque não quis. Temos informações que os grandes magazines fecharam uma proposta, falaram que iam ajudar comprando, mas ela não mostrou em nenhum momento intenção de recuperar o negócio. No fim do ano, já dava sintomas que eles iam aprontar alguma. Quando nos colocaram de férias remuneradas – que até agora não nos remuneraram  – a gente já imaginava esse golpe da empresa.

O golpe está claro, é uma forma de se livrar dos problemas e começar do zero. E nisso não estão se preocupando com os seres humanos que produziram esta riqueza. Muito provavelmente vem uma nova empresa, com a Mabe por trás dela, escondidinha, lá no meio, tenho certeza…

Blog: Como essa ação tem sido recepcionada entre os trabalhadores e qual a postura do sindicato?

Flávio: O sindicato foi fantástico com a gente. Desde o começo montamos o acampamento, principalmente desde as primeiras notícias na mídia, muitos moradores próximos à Mabe vêm, estão dando cestas básicas e leite. A gente esta organizando o apoio, distribuindo para as famílias, priorizando quem tem criança.

Contamos agora com a solidariedade de parentes e das pessoas em volta que se sensibilizaram pelas coisas que aconteceram. O sindicato está organizado e pronto qualquer desfecho. Na parte jurídica já atuam, e vamos aguardar aí os próximos dias.

Blog: No ano passado houve uma serie de ocupações de estudantes secundaristas. Você vê alguma relação entre a luta de vocês e a dos estudantes?

Flávio: É lutar pelo que é certo. É lutar pelo que é direito. A Mabe soltou uma nota na IPTV dizendo que ia pagar nosso fundo de garantia e o seguro-desemprego. Mentira, não vai pagar, já é nosso, nós queremos o que ela não vai pagar, que são nossas verbas rescisórias. O recuperador judicial vai continuar, beleza, mas vamos colocar todos pra dentro pra trabalhar. A gente quer trabalhar, garantir nosso emprego. A gente é contra o golpe.

Os alunos se sentiram lesados e ocuparam. Eles estão corretos, porque o brasileiro está perdendo a essência de briga, está acostumado a ficar em cima do sofá esperando as coisas caindo do céu, e não é assim. Aí a gente vê a patifaria do governo inteiro, independente de partido, eu vejo brigas de partido. Pra mim, é tudo balela, infelizmente, farinha do mesmo saco.

Mas se o povo brasileiro acordar a gente consegue mudar alguma coisa. Que nem essa lei nossa de falências aí que o cara vem lá de fora, ganha dinheiro, depois dá um golpe em um monte de trabalhador. Tudo isso sem se preocupar se seu filho esta passando fome ou não. Tem que brigar mesmo, tem que lutar pelos direitos sim. Os alunos estão de parabéns.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será divulgado


*


winterbottom.amal@mailxu.com wegge@mailxu.com