Inverno russo de 1993: crônicas da contrarrevolução

Bandeira com as cores da Russia Imperial, e da Russia Soviética, nas barricadas contra Yeltsin.
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Henrique Carneiro |

Cheguei a Moscou, em 18 de setembro de 1993, para cursar introdução à língua russa no Instituto Pushkin. Terminei o primeiro semestre letivo, obtive um certificado e retornei, em 3 de fevereiro de 1994, ao Brasil. Passei pouco mais de quatro meses durante um dos períodos mais decisivos, dramáticos e sangrentos da história contemporânea russa. Vivenciei o último capítulo do processo de colapso da URSS e da transição para a formação da Rússia e dos demais 14 países em que a URSS se dividiu: Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldova, Lituânia, Letônia, Estônia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Casaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão (para não mencionar enclaves anômalos como a Transnístria).

Este também foi o processo pelo qual o capitalismo se estabeleceu em uma forma particularmente violenta de disputa entre máfias oligárquicas derivadas de quadros ex-comunistas com antigas posições no aparelho de estado e de novas atividades lucrativas emergentes.

Balanço histórico

Em primeiro lugar, é preciso dizer que tudo que eu previ que não iria ocorrer facilmente no texto abaixo, que publico pela primeira vez agora, de fato ocorreu. Ou seja, a implantação de um tipo particularmente predatório de capitalismo, de fato ocorreu e de forma ainda mais rápida e pior do que eu podia supor. O desajeitado e ridículo Yeltsin foi substituído por um ex-KGB de perfil esportivo e campeão de judô que se tornou primeiro-ministro em 1999 e presidente em 2000.

O regime econômico se tornou cada vez mais uma pilhagem sem limites dos recursos nacionais por oligarquias mafiosas de ex-comunistas convertidos em neo-capitalistas predadores. A resistência social foi praticamente neutralizada.

O regime político se consolidou na era yeltsinista como um bonapartismo particularmente repressivo, em que os métodos da KGB se uniram aos recursos tecnológicos de propaganda da mídia eletrônica mais moderna. O militarismo evoluiu do intervencionismo fracassado no Afeganistão, para uma guerra na Chechênia que adquiriu características de genocídio.

Revendo a literatura produzida sobre o colapso da URSS, me dei conta que o período exato que testemunhei e relatei nessa crônica: o do conflito entre Yeltsin e o parlamento, em 1993, que terminou com o bombardeio deste último pelos tanques do exército, é muito pouco examinado e analisado.

A resistência ao golpe contra Gorbachev, em 18 de agosto de 1991, e o conflito armado do parlamento sitiado contra o presidente Yeltsin, em outubro de 1993, foram os dois episódios mais importantes de todo o processo. Foram os únicos em que se deu uma irrupção de massas populares nas ruas e, no caso do segundo, foi o episódio mais violento desde o segundo pós-guerra em Moscou, com uma cifra oficial de algumas dezenas de mortos e conjeturas de que teriam sido várias centenas.

Vou, de forma muito sumária, portanto, situar o período em questão. Para quem quiser se aprofundar, menciono alguma bibliografia produzida sobre ele[1]. A história da URSS, de 1917 a 1991, resume de certa forma o século XX.  Por isso, Eric Hobsbawm intitulou sua história do século XX como A Era dos Extremos. O breve século XX 1914-1991 (São Paulo, Companhia das Letras, 1995), balizando com o início da Primeira Guerra Mundial e o fim da URSS os dois pontos culminantes do século.

A importância deste país plurinacional com o maior território entre todas as nações e que se tornou a segunda potência mundial, liderando num momento a corrida espacial e servindo de referência para praticamente todos os movimentos de trabalhadores e de libertação nacional e anti-colonial só é comparável a dos EUA na história contemporânea. Mas, a experiência soviética acabou e seu colapso é um dos temas ainda mais controversos do final do século XX.

Algumas questões permanecem centrais no debate:

  1. Como a URSS foi capaz de ter uma primeira fase de expansão econômica, ao final dos anos de 1930, mas, especialmente no período do pós-guerra até o final dos anos de 1960?
  2.  Por que essa expansão econômica entrou em crise no final do período Brezhnev?
  3. Por que após 1985, o governo Gorbachev adotou medidas econômicas de reintegração capitalista com abertura do comércio exterior, aprofundando as joint-ventures e outras formas de parceria que já existiam?
  4. Por que a ala gorbachevista, das reformas controladas, foi suplantada pela ala de Yeltsin, que aplicou a “terapia de choque” do plano Gaidar para uma restauração capitalista abrupta e, ao mesmo tempo, adotou um regime político ultra-bonapartista, com características semi-fascistas que permanecem até hoje?
  5. E, finalmente, qual o significado político global desse colapso soviético e do advento dos períodos de Yeltsin e Putin?

A primeira questão trata da análise da capacidade da URSS ter conseguido uma grande industrialização e índices de crescimento da produção num período assolado pela segunda guerra mundial, na qual os povos soviéticos, especialmente ucranianos e russos pagaram o pior preço em sacrifício. Apesar disso, até os anos de 1960, a experiência soviética conseguiu manter-se num relativo isolamento em concorrência com o mercado capitalista global. As formas de integração havidas no COMECON, pacto econômico do leste europeu e da URSS se ampliaram, no entanto, para parcerias com a Europa Ocidental.

A partir dos anos de 1960, surgiram joint ventures, que vieram desde o período brezhnevista, como é o caso da famosa cidade automobilística rebatizada de Stavropol para Togliatti, onde a Fiat e o estado soviético começaram a fabricar os veículos Lada na AutoVAZ desde 1966. O líder comunista italiano nomeando a cidade onde um dos maiores grupos capitalistas italianos se associava ao estado soviético não parecia ironia àquela época.

A propriedade estatizada e a planificação centralizada conseguiu expandir a URSS numa taxa de crescimento excepcional desde os anos de 1930. Isso também ocorreu apesar (ou justamente por causa) do preço social que foi pago por camponeses coletivizados à força, por nacionalidades oprimidas como os ucranianos, por exemplo, que sofreram a “Grande Fome” e por um regime opressivo e prisional que chegou a ter nos campos de trabalhos forçados um setor significativo da produção industrial.

Isso produziu um enorme debate sobre a natureza desse regime, se era um “socialismo realmente existente”, um “estado operário degenerado”, um “capitalismo de Estado” ou uma nova formação de tipo “burocrático-totalitária”. Essa bibliografia é de dimensão esmagadora e não irei aqui entrar nestas polêmicas.

A segunda questão, sobre o declínio econômico da URSS ao longo dos anos da guerra fria, e particularmente sobre seu atraso tecnocientífico comparado aos avanços obtidos no Ocidente, relacionado à ausência de liberdades e ao obscurantismo que chegou a condenar ramos avançados da ciência como a física quântica ou a genética, a cibernética ou a psicanálise, também é objeto de um intenso debate.

As outras três questões, sobre as reformas de Gorbachev, seu fracasso e seus resultados, já interessam mais. Elas representam a oficialização de uma nova política econômica voltada para a restauração de mecanismos de mercado na flutuação de preços e do câmbio e de oficialização de investimentos capitalistas. Seu projeto, de uma reforma gradual, com um caráter mais social-democrata foi, no entanto, vencido pelos adeptos da “terapia de choque” que encontraram na figura de Yeltsin o seu representante.

A transição para a restauração capitalista

O golpe contra Gorbachev, dado pelos próprios gorbachevistas, ocorreu num momento de grande efervescência social, com greves de mineiros por condições básicas, como o abastecimento de sabonetes. Após a queda do muro de Berlim, o desmonte da Europa do Leste e da URSS parecia se aproximar. No Primeiro de Maio de 1991, pela primeira vez na história, o povo vaiou as autoridades na tribuna, incluindo Gorbachev, que terminaram por se retirar. Na Lituânia e na Geórgia houve dezenas de mortos na repressão.

Gorbachev queria um modelo de capitalismo controlado pelo partido comunista e com concessões aos direitos civis. Seu gabinete, entretanto, apostou numa saída de tipo golpista que fracassou assim que na primeira aparição na TV, em 18 de agosto de 1991, as mãos de Gennady Yannaiev, o vice golpista, tremiam enquanto ele falava!

Cem mil pessoas vão às ruas contra os 500 tanques que haviam entrado em Moscou. Yeltsin os lidera ao subir sobre um deles e declarar-se contra os golpistas. Ele envia um avião para resgatar Gorbachev, preso na Crimeia pelos golpistas, e um mês depois está votando a proibição do partido comunista na Rússia e logo em seguida Gorbachev renuncia e a URSS é dissolvida.

Yeltsin aplica então um plano capitalista de privatizações, mas enfrenta resistências de todos os setores. Da grande burocracia das estatais, como a Gazprom, de setores populares afetados pelo aumento dos preços e pela diminuição das aposentadorias, de setores militares que perdiam suas bases nos países da ex-URSS no Báltico ou no Cáucaso. A junção de todas estas resistências desemboca no conflito que testemunhei e descrevo no texto a seguir. Nele, Yeltsin se enfrentou com a rebelião do parlamento russo e de seu vice-presidente, Rutskoi, e tentaram se depor mutuamente.

O parlamento permaneceu semanas cercado por tropas, até que uma manifestação bem sucedida rompeu o bloqueio precipitando uma tentativa de tomada da torre da televisão que permitiu a Yeltsin reunificar o exército para dar um golpe decisivo na oposição que se rende após o bombardeio do palácio.

Esse “detalhe” parece sempre esquecido na narrativa que apresenta a evolução da Rússia para a “democracia”: isso foi feito com centenas de mortos e com tanques do exército bombardeando o prédio do parlamento até seu incêndio completo. Um ano depois, e se iniciava a primeira das guerras contra a Chechênia[2].

O regime pós-soviético

Depois disso, se instala o regime que está vigente até hoje: um bonapartismo forte com eleições, sempre vencidas por larga margem pelo partido Rússia Unida, de Putin. Subsiste apenas uma oposição, do que restou do PCUS e que mantém o nome de comunista, o Partido Comunista da Federação Russa, de Zyuganov, mas que defende a política externa militarista de Putin.

Há também uma oposição ultra-nacionalista xenofóbica do partido de Jirinovski, o PLD (Partido Liberal-Democrático), extrema-direita que ocupa uns dez por cento na Duma (Parlamento). Esse setor, abertamente fascista, se caracteriza pelas bravatas belicistas, ameaçando “bombardear a Alemanha” ou acenando com o arsenal nuclear.

Oponentes mais ativos e extra-parlamentares costumam ser assassinados, inclusive com uso de metais radioativos no exterior, como Litvinenko, em Londres. O caso recente de Nemtsov, um ex-ministro de Yeltsin baleado ao lado do Kremlin, é apenas mais um numa longa lista. Na Chechênia, após três guerras, um regime títere se mantém como apoio muçulmano à Putin. O controle do estado, aliado da Igreja Ortodoxa, com enorme poder econômico restaurado, mantém o setor oligárquico pró-Putin sob uma ideologia neo-imperial conservadora e com um polo de aliança com a extrema-direita europeia em sua xenofobia, homofobia, militarismo e racismo assemelhados.

Tendo na Rússia de hoje, e em seus parceiros como a Bielo-Rússia ou o Casaquistão, regimes de tipo bonapartista ou semi-fascista, e com intervenções militares na Ucrânia e na Síria, cabe responder à quarta questão que apontei, ou seja, qual foi o significado da vitória da ala Yeltsin da burocracia?

Foi a vitória de uma contra-revolução que acabou com o latente movimento social que se expressava em seus primeiros ensaios como a greve mineira de 1991 e impôs um regime policial, após derrotar a oposição com o bombardeio do parlamento em 1993.

Não se pode, assim, afirmar que houve uma revolução na URSS, mas sim levantes sociais localizados que foram em geral sufocados e uma disputa sangrenta entre duas alas da burocracia do PCUS: uma mais social-democrata, de Gorbachev, derrotada; e outra, hiper-liberal em economia, pró-imperialista e semi-fascista, que venceu com Yeltsin e se consolidou com Putin/Medvedev/Putin. A transição da URSS para a CEI foi uma enorme derrota social que levou a uma fase de grande decréscimo em índices sociais e no crescimento de uma economia fortemente polarizada pela exportação de energia e de armas.

O centenário da Revolução de Outubro no ano que vem deverá ser comemorada como parte de uma memória que foi não só destruída fisicamente desde os anos de 1930 com centenas de milhares de assassinatos, mas, ainda pior, foi depois corrompida nos regimes que se seguiram. O atual regime, destituído de qualquer referência ao comunismo, ainda faz uso desses símbolos quando servem aos seus propósitos de propaganda imperial, como na comemoração do septuagésimo Dia da Vitória em 2015.

A Rússia de hoje é um polo do atraso na Europa. O movimento social, desde o massacre de 1993, só voltou às ruas para protestar contra a sucessão de Putin em 2011, no rastro de todos os levantes daquele ano contagiante. O nacionalismo exacerbado pelas guerras de agressão em andamento na Ucrânia e na Síria apoia um governo cada vez mais agressivo. O agravamento da crise econômica, com o PIB russo em queda acelerada nos últimos anos deve aumentar as características autoritárias do regime.

Espero que o relato do que vivi em 1993, possa ser relido hoje como expressão de uma tentativa de compreender o que se passou nesta “sexta parte do mundo” ao longo da década de 1990 e que resultou no regime e no governo atualmente existente, expressões de uma contra-revolução vitoriosa.

 

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Parlamento: Imagem da sede Legislativa, conhecida popularmente como Casa Branca, bombardeada. Arquivo Próprio HC

Cronicas da Russia de 1993 e 1994

Ontem, na noite de 21 de setembro de 1993, o presidente da Rússia, Boris Yeltsin, decretou a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições parlamentares e presidenciais para o mês de dezembro. O parlamento não aceitou a medida anticonstitucional e, por sua vez, destituiu Yeltsin e nomeou outro presidente, o seu vice, Alexander Rutskoi. Durante a madrugada, a Casa Branca, como é conhecido o edifício do parlamento russo, viveu cenas parecidas com aquelas de dois anos atrás, quando milhares de pessoas reuniram-se para impedir o acesso dos tanques, quando do fracassado golpe de 19 de agosto de 1991. Dessa vez, contudo, não havia tanques e as pessoas contavam-se às centenas, embora também tenham sido levantadas barricadas. A ironia da história é que dessa vez o golpista é Yeltsin e os manifestantes são uma bizarra coligação de comunistas, monarquistas e nacionalistas, muitos dos quais apoiaram fervorosamente a tentativa golpista de 1991 e outros que a ela se opuseram ao lado de Yeltsin, como o general Alexander Rutskoi, herói do Afeganistão e Ruslan Khasbulatov, presidente checheno do parlamento russo.

As bandeiras vermelhas coloriam a praça defronte à Casa Branca, mas, além da foice e do martelo, havia também estandartes rubros com a efígie do Cristo da Igreja Ortodoxa e junto aos veteranos e idosos ex-membros do partido comunista encontravam-se até mesmo “popes” vestidos de negro e entoando litanias religiosas que se misturavam aos acordes dos antigos hinos soviéticos. Aparentemente a resistência ao ukaze (decreto) yeltsinista não encontra o mesmo entusiasmo da luta anti-golpista de 1991. Embora mesmo naquela época houvesse uma resistência limitada a setores juvenis, chegaram a reunir-se algumas dezenas de milhares de pessoas. Desta vez os resistentes não passavam de 3 ou 4 mil e a média etária era bem mais elevada.

Tendo acabado de renomear o economista Gaidar para o comando da economia russa, o que indica sua intenção de executar um plano cujos contornos neo-liberais estão sendo desenhados em acordo estrito ao figurino do FMI, o que certamente irá agravar a situação dos setores populares, Yeltsin parece ter optado por retomar a iniciativa política buscando apoio eleitoral num duplo pleito para o executivo e para o legislativo. Operação arriscada, pois não apenas acirra a divisão na cúpula dirigente russa, onde diversos setores, todos oriundos do antigo PC, disputam as fatias da propriedade estatal, como abre um espaço para a intervenção das massas num momento em que é necessário o máximo de centralização governamental para a execução de um programa que todos os analistas concordam que, para ser viável, necessita um governo forte, uma “mão de ferro”, como muitos gostam de afirmar, lembrando o exemplo chileno.

Para Yeltsin ser um Pinochet será preciso antes um esmagamento das reivindicações dos trabalhadores da mesma natureza que a realizada em Santiago, conseguindo neutralizar um movimento de massas que já realizou greves poderosas e começou a construir organizações independentes, a exemplo das que surgiram na Ucrânia no último mês de junho. O endurecimento do regime que Yeltsin ambiciona com o seu decreto dirige-se mais às massas populares, que precisarão ser reprimidas, do que aos seus pares e antigos burocratas. Mas além dos movimentos grevistas e sociais, o presidente russo precisará também vencer seus antigos aliados. Destes, o mais importante é o vice-presidente Rutskoi, que na mesma madrugada em que o parlamento era dissolvido, era nomeado por esse mesmo parlamento como novo presidente da Rússia. Neste momento existem dois presidentes na Rússia. Embora Rutskoi seja um general, as forças armadas aparentemente deram apoio a Yeltsin, da mesma forma que os países da CEI (Comunidade de Estados Independentes, formada por países da ex-URSS), que confirmaram a sua vinda para a reunião marcada para o próximo dia 26.

Entre as massas que já reclamam da situação de fome e as máfias que proliferam em Moscou como principais candidatos a serem a nova burguesia Yeltsin dificilmente encontrará qualquer solução de consenso. A nova burguesia forma-se entre os diversos setores da antiga nomenklatura entre os quais disputa-se uma luta mortal pelo controle dos novos privilégios. Para tornar-se um Bonaparte, Yeltsin precisará conseguir unidade no alto para submeter as multidões de baixo. Nem uma coisa nem outra parecem factíveis com uma inflação de cerca de 30%, um desemprego inevitável, caso o plano Gaidar seja executado, e uma economia não mais centralmente coordenada e sem qualquer saída visível que não seja a semicolonização da segunda potência nuclear do planeta pelo FMI e o sistema financeiro internacional.

A disputa palaciana permanece no pátio do palácio

Na madrugada em que Yelstin anunciou a dissolução do parlamento, a “Casa Branca” viveu novamente cenas que, para um observador desprevenido, poderiam parecer aparentemente semelhantes àquelas vividas em 19 de agosto de 1991. Naquela ocasião, a presença de milhares de pessoas representou a principal mobilização contra o golpe chefiado por Gennad Yanaiev. Na atual situação, contudo, os papéis inverteram-se. O golpista desta vez é Yeltsin e os manifestantes que foram levantar barricadas ao redor da Casa Branca são os membros do antigo PC, aliados com diversos setores hipernacionalistas. Os atores da cúpula são os mesmos, com papéis invertidos, mas além de faltar o ator principal, que em 1991 foram as massas, o roteiro também mudou, pois  o que foi um verdadeiro drama, hoje assume tons de farsa.

As bandeiras vermelhas da foice e do martelo se juntam com o pavilhão branco, amarelo e negro dos monarquistas. Enquanto a maioria da população demonstrava uma desconfiada indiferença, os manifestantes na Casa Branca reuniam os saudosistas do velho regime, os anti-semitas da organização “Centúrias negras”, os monarquistas que querem a restauração da dinastia Romanof, cossacos e militares nacionalistas da “União dos Oficiais”. Estes últimos protagonizaram o único incidente sangrento da primeira semana, quando tentaram, num pequeno grupo, assaltar o comando militar das forças armadas da CEI, resultando o enfrentamento num balanço de dois mortos: um policial e uma aposentada que, ao sair na janela, foi vítima de um tiro perdido.

Se, no ano de 1991, a presença de milhares de pessoas na defesa da Casa Branca foi a expressão de uma disposição de mobilização de setores juvenis, que no auge dos protestos dirigiram-se à sede do KGB, na Praça Lubianka, para derrubar a estátua de Félix Dzerjinsky, a atual mobilização da aliança  stalinista-monarquista-nacionalista contra Yeltsin refletiu apenas os estertores dos saudosistas, tanto do stalinismo como do passado imperial da Rússia.

O conflito palaciano das alas da antiga nomenklatura que buscam pilhar os despojos da propriedade estatal ainda não extravasou para as ruas, chegando apenas aos pátios do palácio. Os verdadeiros atores potenciais do drama social russo permanecem ausentes. O proletariado, na ausência de qualquer direção independente, permaneceu passivo assistindo antigos aliados travarem uma batalha em que não se sentem representados. Quando as consequências sociais do plano econômico yeltsinista se fizerem sentir, talvez o vetor do conflito inverta-se passando de uma luta entre alas da cúpula para uma luta entre o alto e o baixo social.

A antiga “nomenklatura” do partido comunista dividiu-se em diversas camarilhas que disputam o espólio da propriedade estatal soviética. Além dos diversos interesses regionais e locais, a cúpula central do poder russo dividiu-se atualmente em dois grandes blocos: de um lado o setor dominante de Yeltsin que, com o apoio do imperialismo, tem buscado um processo de privatização acelerado, mediante a vaucherização[3], a abertura aos capitais estrangeiros e a aplicação de medidas econômicas ditadas pelo FMI. Após um primeiro recuo, quando no início de 1992 foi obrigado a demitir Gaidar, o ministro da economia, Yeltsin chama novamente esse economista para dirigir seu plano de restauração capitalista. De outro lado, estão os antigos aliados de Yeltsin, como o vice-presidente Alexander Rutskoi, que se aliam aos stalinistas e aos nacionalistas extremados para exigir uma privatização não tão acelerada, que mantenha os privilégios dos setores da alta administração e do complexo  industrial-militar. Na essência de seus programas econômicos, entretanto, não há grandes diferenças.

Bandeiras

Barricadas: Defesa do Parlamento com bandeiras soviéticas e cristãs ortodoxas. Arquivo pessoal de HC

Após dez dias da última ofensiva de Yeltsin contra a ala de Rutskoi e de Khasbulatov, que detém a maioria do parlamento, e um pequeno setor de vanguarda começa a irromper na cena política do atual impasse. Inicialmente tratava-se de uma luta entre camarilhas da cúpula, mas o fato do governo Yeltsin cercar o edifício do parlamento e mantê-lo sitiado por mais de uma semana sem água e sem luz e com um violento cordão policial que se dedicou a reprimir todas as manifestações pró-parlamento configurou uma situação de ofensiva de uma das alas da burocracia contra as conquistas democráticas populares. Após diversos entreveros, o aparente controle da situação que Yeltsin demonstrava começa a erodir-se. De um lado, as regiões que constituem os chamados 89 sujeitos políticos da federação começaram a ameaçar secessões e, após uma reunião em Novasibirski, 60 delas deram um ultimatum a Yeltsin. Além dessa ameaça siberiana, o centro da capital viveu no fim de semana de 2 e 3 de  outubro graves enfrentamentos entre uma multidão pró-parlamento e as forças repressivas.

Na tarde de sábado, durante as comemorações dos 500 anos da Arbat, tradicional rua de pedestres no centro moscovita, manifestantes ergueram uma imensa barricada que durante várias horas bloqueou a principal avenida e deteve os assédios policiais. Após os violentos choques da noite de sábado, os manifestantes anti-Yeltsin conseguiram, no domingo, reunir umas dez mil pessoas que se lançaram contra o bloqueio do parlamento obtendo uma vitória. As forças da OMOM e da polícia tiveram de recuar e o parlamento foi liberado e novamente cercado por barricadas dos anti-yeltsinistas.

A coluna de cerca de 5 a 10 mil manifestantes avançou desde a praça Oktiabriskaia quando, na altura do parque Gorki, encontrou sobre a ponte do rio Moscou o primeiro bloqueio das tropas de choque da OMOM. Os soldados, cuja juventude quase imberbe contrastava com os imensos escudos e coletes à prova de balas que carregavam, postaram-se diante da passeata fechando o caminho da ponte. Os manifestantes quebravam o asfalto para juntar pedaços de pedras e avançaram em formação cerrada. Após alguns minutos de pausa diante do bloqueio, com alguns mais velhos sendo levados para as calçadas, o cortejo avançou empunhando barras de ferro e atirando pedras e bombas caseiras.

Após um primeiro choque a polícia recua e a multidão, aos gritos de: “Hurra!” e “OMOM fascista!”, avança em direção à ponte que leva ao parlamento russo. Todos os seguintes bloqueios são rompidos da mesma forma. Equipes da Cruz Vermelha vão socorrendo os feridos pelo caminho. Os caminhões das tropas são atacados pelos manifestantes que deixam um rastro de dezenas deles destruídos pelo caminho da avenida que constitui o anel circundante de Moscou. Vários desses caminhões são tomados pelos manifestantes que os utilizam como arietes para ir abrindo o caminho para o parlamento proibido.  Os escudos e capacetes da polícia são tomados pelos populares e logo dezenas de adolescentes empunham seus novos instrumentos de combate.

Um ônibus cheio de policiais é cercado pela multidão que ameaça tombá-lo deixando os policiais que se refugiaram em seu interior lívidos de medo. O ônibus é apenas levado para a calçada e a marcha prossegue. Diante da Casa Branca a polícia dispara rajadas de metralhadora para o alto, mas isso não demove os manifestantes que também atiram e lançam caminhões da polícia, agora nas mãos dos manifestantes, contra o bloqueio erguido com arame farpado e caminhões-pipa. A maré humana vence e penetra no local proibido. Aos gritos de “Hurra” se juntam as consignas de “Todo o poder aos sovietes”, “O fascismo não passará”, “Rutskoi Presidente” e “União Soviética”.

Após se assenhorarem do espaço que Yeltsin havia proibido, os manifestantes passam a ocupar todas as ruas dos arredores, menos aquela que conduz à embaixada norte-americana onde se refugiam as tropas policiais com um tanque em sua retaguarda. Em seguida a um comício na frente do parlamento, os manifestantes lançam-se contra esse último reduto da polícia. Mas dessa vez à frente da massa armada de pedras e barras de ferro, vão diversos membros da milícia de defensores do parlamento armados de metralhadoras. Esses homens são em grande parte membros de um grupo fascista e usam braçadeiras com uma suástica estilizada. O tanque é cercado por caminhões e diversos homens da milícia sobem sobre ele tentando tomá-lo, enquanto outro grupo tenta penetrar no hotel “MIR” onde se abrigava uma parte das tropas policiais.

De súbito, rajadas de metralhadora ecoam por todos os lados, os manifestantes atiram-se ao chão e os membros da milícia entrincheiram-se. Um casal de velhos, músicos de rua que tocam acordeon no metrô em troca de moedas, executam canções enquanto a batalha se trava. A música dá um tom irreal ao combate, enquanto grupos começam a trazer os primeiros feridos de bala que são carregados sangrando para receberem os socorros médicos. De repente, o tanque cercado joga-se contra a fileira de caminhões que o bloqueava arrastando-os em seu caminho. Diversos coquetéis molotov o atingem, mas ele foge em chamas. A polícia recua junto com o tanque para longe. Dentro do hotel a guarnição rende-se e ao desfilar na direção do parlamento é aplaudida. No topo do mastro da prefeitura a bandeira tricolor russa é substituída, sob os aplausos frenéticos da multidão, pela bandeira vermelha soviética.

Após o triunfo, os manifestantes vão em direção a outros pontos da cidade. Um oficial do exército de megafone tenta liderar algumas centenas de civis vestidos com escudos e capacetes tomados das tropas de choque. Jipes e caminhões da polícia também tomados pelos manifestantes apinham-se de civis que, empunhando bandeiras vermelhas e amarelas e negras, transformam-nos em esquadrão motorizado da passeata. O oficial consulta os presentes aparentemente desacostumados com essa tarefa e após um confuso pleito decidem a direção a tomar. Vão pela Nova Arbat. Quando cruzam a avenida do “Caltsó” (Anel), surge da direção da “Smolenskaia” uma multidão de milhares de pessoas. O general com o megafone sem perceber que havia outra passeata chegando prossegue em seu papel de condutor de multidão quando percebe que esta tinha vontade própria e que já havia se dirigido para confraternizar com a nova multidão que chegava. Os ônibus e os caminhões da polícia são tomados. Adolescentes com kalachnikovs ocupam as cabines onde antes estavam os oficiais da polícia. O cortejo segue pelo “caltsó” em direção ao Novinski boulevard. Após algumas quadras, passam diante da embaixada norte-americana. Os mais exaltados começam a apedrejá-la, mas são contidos aos gritos de “camaradas, não é preciso!”. Mais à frente, porém, ninguém consegue impedir a multidão de atacar todos os outdoors que exibem propaganda de cigarros norte-americana. Os cartazes de “Venha para a terra de Malboro” são todos arrebentados e a massa prossegue por dezenas de quadras do “caltsó”, arrancando os símbolos das mercadorias norte-americanas e gritando “O fascismo não passará”, “O fascismo não passou”, “União Soviética”, “Rutskói presidente” e “Yeltsin caput”.

O que nem todos sabem na multidão é que os caminhões carregados de adolescentes armados, comandados pelos homens da milícia fascista que usa suásticas estilizadas na ombreira dos uniformes, já chegaram ao seu destino, apenas alguns minutos após a chegada dos membros de um comando especial das forças de elite “Alfa”. O comando do governo ocupou o prédio da mais alta construção da Europa, a torre da Ostankino, 585 metros, que transmite as ondas para todas as regiões vastíssimas do extremo-norte, do Oriente longínquo, da Ásia Central e impediu o seu assalto pelas forças irregulares e uma multidão despreparada, que grita contra o fascismo e é dirigida por uma milícia de nacional-patrióticos e hitleristas confessos.

Yeltsin não conseguirá ser um Pinochet

O sangrento fim de semana que abalou Moscou e o mundo começou no ensolarado sábado outonal de dois de outubro. Nesse dia centenas de manifestantes pela primeira vez desde o início do conflito levaram a luta para fora do perímetro da sede cercada do parlamento. Barricadas foram levantadas na rua Arbat, que comemorava o seu quinto centenário e um cenário insólito passou a combinar representações teatrais e shows musicais, numa das extremidades da rua, com uma barricada, no outro extremo, que durante oito hora permaneceu de pé, mantendo a polícia do outro lado à força de pedradas e garrafadas.

A antiga Frente de Salvação Nacional, que agrupava os diversos setores comunistas, herdeiros do PCUS, e os nacionalistas e monarquistas, fazia parte do grupo de deputados que resistia. O partido de Rutskoi, um pequeno partido sem origem direta no PC, e personalidades nacionalistas como Baburin, que formaram o “governo” alternativo dentro do parlamento, nomearam o general Baranikof, implicado na tentativa de golpe de 1991 para chefiar suas “Forças Armadas”. O mesmo que havia militarmente calculado a invasão da Casa Branca em 1991, agora luta para defendê-la. A milícia formada dos voluntários dos partidos fascistas, de egressos militares dos retirados do Báltico, de cossacos, de militares da república do Dniester (Transnístria), enclave russo encravado entre a Moldova e a Ucrânia, se encarrega de agrupar as armas e os grupos comunistas, entre os quais o Partido Comunista Revolucionário da Rússia, do vereador de Moscou, Victor Ampilof, se encarregam de promover uma agitação pública que começa a encontrar grande simpatia em muitos setores empobrecidos por Yeltsin.

A partir de sábado, dia 2, começou a haver batalhas de rua com adesão de setores urbanos contra a polícia. Não eram mais apenas as velhinhas stalinistas que se enfrentavam com as tropas que mantinham o parlamento cercado com cerca de uma centena de deputados sitiados com mais algumas centenas de defensores, sem eletricidade e sem telefone

No dia seguinte, domingo, 3 de outubro, os manifestantes marcaram uma concentração na praça Oktiabriskaia, de onde saíram em direção ao parlamento cercado. O que se seguiu foi o início da mais violenta jornada da história de Moscou desde a revolução de 1917.

A entrada em cena de alguns milhares de manifestantes foi suficiente para reduzir a polícia e as forças de segurança a um bando apavorado de jovens soldados em fuga. Um após outro, os bloqueios policiais foram rompidos. Esse fato trouxe a primeira lição: a polícia russa não estava preparada para enfrentar manifestantes determinados. Como admitiu francamente o ministro do Interior, “É muito difícil atirar contra o povo”, concluindo que as forças de segurança da Rússia necessitam uma urgente remodelação para equipará-las à eficiência das polícias ocidentais. Após mais de dez dias de impasse político, os soldados da OMOM debandaram em pânico diante de uma multidão armada não só de pedras e de bombas caseiras, mas também de algumas metralhadoras. Esse triunfo foi suficiente para desatar uma embriaguez insurrecional que se combinou tragicamente com a disposição aventureira da ala da burocracia que permanecia ocupando o parlamento e que, diante de uma pequena irrupção de vanguarda, acreditou ser possível responder ao golpe de Yeltsin com um contra-golpe.

Após a ruptura do bloqueio da Casa Branca, os líderes do parlamento – cientes de que o exército não havia intervindo por duas razões: a primeira sendo a covardia dos altos comandos receosos de dar um passo em falso e preferindo esperar para ver de que lado o vento da vitória sopraria, e a segunda, extremamente importante, porque começara a ocorrer um fenômeno de deserção em massa e até mesmo de alguns soldados que começavam a passar para o outro lado com armas e bagagens – resolveram levar a vitória de uma pequena manifestação que, nas proporções da Rússia, era pequena (cerca de 15 ou no máximo uns 20 mil manifestantes), para uma tentativa putchista de tomada do poder. Ao invés de manter-se na Casa Branca reconquistada na luta e tentar ampliar um apoio popular que começava a surgir, Rutskoi clama aos manifestantes que assaltem a TV e a prefeitura.

A partir desse momento uma pequena multidão começou a percorrer as ruas de Moscou enquanto alguns caminhões da milícia fascista-comunista dos defensores do parlamento comandados pelo general Makachov dirigiam-se para a torre da TV. A intervenção, por questão de minutos de um pequeno grupo de elite impediu que o assalto à TV fosse bem-sucedido e, possivelmente, garantiu o governo de Yeltsin. Este, segundo um jornalista que estava no Kremlin, permanecia em pânico sem qualquer capacidade de auto-controle até a chegada de seu conselheiro e eminência parda, Burbulis. Nem sequer aparecer na televisão para acalmar o país Yeltsin conseguia, deixando esta tarefa para Gaidar, que é quem fala ao povo em nome do presidente pedindo que se mobilizem para sustentar o governo, o que leva cerca de 3 mil pessoas a organizarem barricadas ao redor do Kremlin onde se mantém em vigília em apoio à Yeltsin.

Quando na Ostankino cercada por uma multidão de manifestantes e um batalhão de jornalistas começa o tiroteio pesado entre a milícia e as tropas entrincheiradas no prédio a batalha repercute no país inteiro. A TV sai do ar por várias horas e não se sabe o que de fato irá acontecer. Morrem cerca de 60 pessoas, muitos jornalistas e civis, e a TV não foi tomada. A derrota da tomada da Ostankino foi o fator que definiu a posição do exército que, após muitas horas de indecisão, resolveu, já na madrugada de 2º feira, intervir cumprindo as ordens presidenciais. O fato sintomático, contudo, é que os generais esperaram horas e horas após a decretação do estado de emergência por Yeltsin na tarde do domingo e após todo o desenrolar da batalha da torre de TV para dar-lhe a sustentação militar. Depois de decidirem não foi preciso mais do que um verdadeiro tiro ao alvo com tanque, para esmagar em poucas horas a resistência de uma milícia que não tinha canhões, e que sofreu a maior parte das perdas humanas – os números variam de 150 a 300 pessoas, a maioria jovens – para defender o parlamento.

Quais as principais conclusões a se tirar da terrível batalha que transformou o prédio do parlamento russo em escombros fumegantes com um saldo de mortos que se contam às centenas?

A primeira é que Yeltsin, longe de uma vitória estável, demonstrou sua incapacidade total para controlar a situação. Um ex-comunista que é a última herança de um regime o qual pretende sepultar, e cuja fraqueza, alcoolismo e indecisão são flagrantes, não poderá ser um projeto de longo prazo para o imperialismo, por mais que ele se disponha a acabar com todos os antigos símbolos do comunismo, até mesmo tirando a múmia de Lênin do mausoléu da praça Vermelha.

A segunda é que um setor de vanguarda, limitado e sem enraizamento social significativo, saiu às ruas disposto a ações insurrecionais. Esses grupos foram dispersados, mas não foram esmagados.

A terceira lição é que a crise de direção permanece como o problema fundamental da situação russa. A coragem e determinação das massas viram-se manipuladas por grupos nos quais o povo russo absolutamente não confia. A combinação nefasta de stalinistas, fascistas e monarquistas jamais poderia dirigir uma revolução nem ganhar a confiança do proletariado. A presença de militantes nacionalistas fazendo a saudação fascista diante do parlamento, registrado numa foto publicada na capa do “Isvestia” (jornal yeltsinista), era um dos principais argumentos de Yeltsin para denunciar os defensores do parlamento como um bando de malucos e terroristas fascistas ensandecidos.

Mas a conclusão fundamental é que tudo isto foi apenas um começo. Não haverá estabilidade na Rússia para a aplicação dos planos do FMI. Gaidar jamais conseguirá implementar suas medidas sem resistência. A própria debilidade do estado de emergência de Yeltsin, desafiado não apenas por franco-atiradores, mas por centenas de moscovitas que permanecem nas ruas em círculos apaixonados de discussão e debate, os quais as tropas de choque, mesmo após o banho de sangue, não conseguem dispersar, é o fenômeno essencial que demonstra a coragem de um povo que tomou a sua primeira lição de sangue. As “babushkas” (avózinhas) que continuam nas ruas insultando e invectivando contra as tropas mesmo diante dos canos das metralhadoras, e que são chamadas jocosamente pela imprensa de língua inglesa de “red babushkas” são a ponta do iceberg do sentimento popular. Yeltsin não consegue ser um Pinochet.

Dispositivo Militar: Dia do bombardeio à Casa Branca. arquivo próprio de HC

Dispositivo Militar: Dia do bombardeio à Casa Branca. arquivo próprio de HC

Além dos caucasianos e dos direitos democráticos em geral, Yeltsin desfere também ataques contra a juventude. A revogação de uma disposição que existia há 15 anos e que assegurava o direito de dispensa do serviço militar para os jovens que estivessem cursando escolas técnicas irá afetar estudantes de cerca de 6 mil escolas de toda a Rússia, atendendo uma reivindicação dos oficiais militares que precisam suprir a carência de recrutas para o exército russo.

Mas o principal dos ataques yeltsinistas contra o povo manifestou-se na inédita suspensão de todos os subsídios estatais para a produção de pão. Tal medida, que completa a liberação geral dos preços, iniciada no primeiro semestre de 92, irá trazer duras consequências para a dieta popular que, há muito tempo, já substitui a carne e outros gêneros pelo pão, o qual ao menos permanecia barato. Junto ao fim dos subsídios para o pão duplicou o preço dos ônibus urbanos e triplicou o do bilhete do metrô que, tendo permanecido por mais de 40 anos em cinco kopeques, sobe agora para 30 rublos. A unidade fracionária da moeda russa, aliás, já não tem mais existência real.

O escândalo provocado pelo derramamento de 900 toneladas de lixo radioativo por um navio russo no mar do Japão, exatamente dois dias após a visita de Yeltsin a esse país, acrescenta-se a esse cenário trágico, desvendando-se outra perigosa ameaça da gestão burocrática da ex-URSS, que a restauração capitalista agrava ainda mais. Existem ao menos 100 mil fontes radioativas potencialmente perigosas em instalações civis na Rússia. O lixo radioativo está sendo simplesmente atirado nos rios, o que levou o nível de radiação do mar Cáspio a subir 100 vezes acima do normal. A usina de Chernobyl, na Ucrânia, continua em atividade, a despeito dos protestos internacionais, devido à grave crise de energia do país, às portas do inverno sem combustível suficiente para o aquecimento. E existem ao menos 50 outras usinas semelhantes à Chernobyl em funcionamento nos países da CEI.

Um relatório oficial apresentando em maio, em Viena, diante da Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, revela pela primeira vez por fontes russas oficiais a magnitude do problema: “é muito difícil controlar as fontes nucleares e o lixo delas numa situação onde isto subitamente ganha um valor de mercado[5]. Esse reconhecimento oficial de que o valor de mercado não se preocupa com os interesses vitais da humanidade pode acrescentar-se às dezenas de outras manifestações da dilapidação dos recursos humanos e naturais da ex-URSS pelos planos neo-liberais de restauração capitalista. Um exemplo é a atividade de empresas clandestinas que se dedicam a cortar árvores na Sibéria, onde antes havia florestas protegidas por decreto governamental. Uma recente operação da polícia marítima descobriu mais de 100 empresas nesse tipo de atividade, que já exportaram o equivalente a mais de 6 bilhões de rublos em madeira.

As fronteiras entre as atividades comerciais e empresariais “legais” e “ilegais” na Rússia atual são extremamente difusas. O comércio luxurioso de barraquinhas que vendem todo tipo de bebidas e de mercadorias importadas pelas ruas de Moscou é ostensivamente controlado pelas máfias, que incendeiam ou dinamitam os concorrentes não autorizados. Mas dedicam-se também a negócios bem maiores, como tráfico de armas, de material nuclear e de drogas. Investigações da polícia italiana indicam uma estreita colaboração entre a máfia italiana e setores do antigo KGB e das máfias russas. Recentemente, 200 quilos de cocaína foram apreendidos na fronteira russo-finlandesa e a explosão de novos negócios milionários em Moscou, que incluem cassinos, bancos e diversos negócios multimilionários servem de excelente fachada para a lavagem de imensas quantidades de dólares e outras divisas dos negócios clandestinos de todo o mundo.

Diante desse quadro, as eleições convocadas por Yeltsin para 12 de dezembro  são um palco a mais para o exercício do poder do dinheiro. Calcula-se em 30 milhões de dólares o custo de uma eleição presidencial na Rússia e em, no mínimo 300 mil dólares, o dinheiro necessário para uma campanha para deputado. As 450 cadeiras do novo parlamento, que deverá levar o velho nome da Duma czarista, serão eleitas metade pelas repúblicas e regiões da federação e a outra metade de forma proporcional. Para lançar-se candidato é preciso recolher uma lista de 3 mil assinaturas de adesão na sua região e um partido ou bloco precisa obter 100 mil assinaturas.

As regiões, no entanto, estão ainda indefinidas e a própria equipe yeltsinista está dividida tanto em relação à lista de candidatos, como em relação à data e aos critérios da eleição, pois ainda não se sabe se a nova Duma será também uma constituinte encarregada de redigir a nova constituição, ou se a nova constituição será redigida e aprovada por outra câmara a ser eleita posteriormente, ou ainda se Yeltsin poderá apresentar uma constituição para ser plebiscitada junto com as eleições da nova Duma, para que esta passe a funcionar já com regras institucionais definidas.

O fato é que a operação de desmontagem da pirâmide da representação soviética herdada do stalinismo, e que começou com o bombardeamento da Casa Branca, e prosseguiu com a exigência de dissolução dos sovietes municipais, só poderá completar-se quando houver uma nova estrutura de representação parlamentar e partidária, além de uma nova constituição no país. Para que esse plano seja bem sucedido, será preciso ultrapassar antes inúmeros obstáculos. Um deles é o próprio Yeltsin, a quem falta “physique du rôle” para o papel bonapartista. Hesitante, alcoolista e tutelado por diferentes assessores, tal personagem serve para Washington apenas como elemento de transição entre a velha nomenklatura vestida com a nova moda capitalista e os verdadeiros e novos estadistas capitalistas que eles necessitam criar. Um desses projetos é que o economista Gaidar, o outro o também economista Yavlinski.

O problema é que além de vencer os outros setores da burocracia, como Volski, que representa a União Industrial, dos gerentes de empresa que não querem perder as fatias da propriedade estatal para outros setores, e os próprios militares, presentes no complexo industrial-militar, o projeto de um capitalismo efetivo, funcional e lucrativo para o imperialismo, necessita não só de novas e estáveis instituições, que certamente deverão ser suficientemente firmes para garantirem a repressão necessária aos descontentes, como precisam, antes de tudo, fazer frente às dezenas de milhões de trabalhadores que não se manterão inertes diante da decomposição vertiginosa do seu nível de vida.

Vencer uma camarilha burocrática que não despertava entusiasmo das massas, como era o caso de Rutskoi e Khasbulatov, não foi difícil. Mesmo conseguir centralizar um exército em crise e com amplas camadas hostis à Yeltsin também não foi a tarefa mais difícil. O verdadeiro e ainda não vencido desafio para os planos de Washington, que atualmente se apoia em Yeltsin, mas já olhando o futuro com uma perspectiva mais segura, será vencer as multidões russas quando estas começarem a se mover em defesa de seus salários, de seus empregos e de seu nível de vida, alimentação, educação e saúde. Os sintomas dessa reação ainda são pequenos, mas quando eles despertarem se tornarão o centro da disputa política. São os mineiros, o mesmo setor social de um proletariado que em condições extremas, nas regiões periféricas geladas do país, já havia sido o elemento central na catalisação da mobilização social e sindical que levou da grande greve de julho de 89 às greves de 91, que começaram exigindo a renúncia de Gorbachev e terminaram por resistir à tentativa de golpe de agosto de 1991.

Em 1993, foi na Ucrânia que, em julho, os mineiros pararam o país. Agora, na Rússia, um mês após o golpe e o massacre do parlamento, e os mineiros e demais trabalhadores de Vorkuta e de Nadim ameaçam com greves gerais contra Yeltsin.

Ícones religiosos: Retrato do Tsar em local que morreu provável combatente. arquivo próprio de HC

Ícones religiosos: Retrato do Tsar em local que morreu provável combatente. arquivo próprio de HC

Após as eleições de 12 de dezembro de 1993,Yeltsin sofreu uma derrota esmagadora apenas dois meses depois de promover o bombardeio do parlamento. As urnas foram ganhas por Jirinovski e os comunistas, mas antes de tudo pela enorme abstenção. Ao menos 50% da população não participaram do pleito. As repúblicas rebeldes do Tartarstão, da Bachkiria e da Chechenia simplesmente boicotaram. Um bloco dos seis pequenos partidos comunistas, que inclui o RKRP, também chamou ao boicote, assim como alguns pequenos setores sindicais. Os mineiros de Vorkuta e de diversas outras regiões do país mantém diversas paralisações e greves e uma ameaça de boicote total às eleições, terminando por arrancar, após visitas de Gaidar à Sibéria, concessões do governo em relação ao plano de fechamento de minas.  Em Moscou, até um Comitê dos moradores do Hotel Ucrânia foi constituido ameaçando boicote às eleições se a prefeitura não tirasse os caminhões que durante a noite perturbam a área. Foi um movimento espontâneo de uma imensa parcela da população que não foi votar para protestar contra a constituição de Yeltsin e contra todas as alternativas políticas oficiais.

O bloco da “governabilidade”, que se dedicou a entrar e sustentar a Duma de Yeltsin, disputando-a como centro do novo edifício político-jurídico-institucional com o poder fortalecido do executivo, tem diversos pontos de unidade que unem desde Yeltsin até os atuais “comunistas” ou Jirinovski. As primeiras posições do parlamento russo: aumentar seus salários para 10 mil dólares mensais e sustentar a Sérvia, foram praticamente unânimes. A própria reforma econômica é admitida por todos que deve existir e incluir privatizações e empresas estrangeiras, havendo divergência quanto aos ritmos e formas.

A constituição bonapartista, que concentra poderes no presidente, foi aprovada com pouco mais de 50% a favor do “sim” num plebiscito com descarado fraude eleitoral, pois a Comissão Eleitoral apresentou um segundo número do total dos eleitores que diminuia 1 milhão e meio do primeiro boletim oficial. Mas além da fraude, Yeltsin contou com o apoio de Jirinovski, que defendeu o sim na constituição de Yeltsin e que, aliás, também se manteve ao lado de Yeltsin durante a crise de outubro.

O voto em Jirinovski foi de 23% da metade da câmara baixa da Duma que é eleita proporcionalmente, a outra metade sendo eleita por voto distrital por região, com candidatos concorrendo individualmente, num colégio eleitoral com participação de apenas metade dos eleitores. Ou seja, menos de 10% da população votou em Jirinovski. Esse voto foi, majoritariamente, um voto de protesto contra Yeltsin. Jirinovski era o que falava mais forte. Por isso votaram nele. Há também uma parte não desprezível desses votos francamente nacionalistas e grão-russos. Russos ressentidos da Criméia, Lituânia, Moldova ou Ucrânia. O próprio Jirinovski, nascido em Alma-Ata, no Casaquistão, é um nacionalista imperial fascista, que escreveu uma autobiografia intitulada “O Caminho para o Sul”, e que além de contar sua vida pessoal e como sua frustração com o amor e as relações pessoais o levou para a política, propõe um programa de russificação do Oceano Índico à Polônia. Segundo denúncias de Sobchak, prefeito de São Petersburgo e dirigente de um dos blocos liberais, ele foi do KGB e teria sido impulsionado à construir seu partido em fins dos anos 80 pelo próprio Gorbachev.

Hoje, com voo próprio, amigos nazistas da Alemanha e sérvios da Bósnia, um financiamento de um milhão de dólares e apoio militar, Jirinovski ameaça ser o favorito na próxima eleição presidencial, que ninguém sabe quando vai ser, pois Yeltsin que prometera antecipá-las para junho de 94, depois de bombardear o parlamento voltou atrás e disse que cumpriria todo seu mandato até 96.

Os que de fato controlam a Duma e fazem o seu porta-voz são os comunistas, agrários e industrialistas, todos “aparatchniks”, que impõem a queda de Gaidar e um novo governo contemporizador, de Chernomyrdim, homem dos “industrialistas”, ex-dirigente da indústria do petróleo russo. Os gaidaristas e seu amigo conselheiro Jeffrey Sachs vociferam, um dizendo que Michael Camdessus do FMI deve demitir-se e que mais uma vez “perdeu-se” a Rússia, os outros gritando que sem sua reforma aplicada como “terapia de choque” o que acontecerá será uma convulsão social.

A anistia não fecha crise

A aprovação da anistia foi feita pelo parlamento dia 23 de fevereiro. Os réus acusados de traição por terem chefiado a tentativa de golpe de 1991, assim como aos líderes do parlamento bombardeado em outubro de 1993, foram acusados de promover sublevação e distúrbios, porém acabaram igualmente perdoados. Este fato mostra que Yeltsin não governa o país, dividido entre facções burocráticas. Após declarar que tal anistia era anticonstitucional, pois não se poderia anistiar quem ainda não havia sido julgado, o governo Yeltsin é obrigado a assistir a libertação de Rutskoi e de Khasbulatov.

A visita em março do ex-presidente Nixon à Rússia confirma que o próprio imperialismo já não aposta suas fichas em Yeltsin. Após um oportuno desmascaramento de um agente russo na CIA que serve para esfriar as relações de Clinton com o presidente russo, Nixon visita Rutskoi e Jirinovski, num gesto que Yeltsin considera um insulto.

Aparentemente os dias do pretenso bonaparte moscovita, que de gerente provincial do partido comunista passou a chefe da restauração capitalista e imperial da Rússia, estão contados. Quem virá depois é a incógnita. Mas diante da ausência de um movimento operário independente e de qualquer partido com verdadeiro enraizamento social, serão certamente as patética figuras de ex-aparatchniks da nomenklatura, cada um travestido diferentemente para poder justificar seu passado, que ocuparão ainda o centro da cena. Entre Jirinovski, Ziuganov e Chernomirdim, se articularão as imensas ramificações das castas burocráticas para continuarem a dirigir o Estado russo, enquanto o rumor surdo do terremoto popular não irrompe desde as profundezas da alma eslava.


[1] Entre os brasileiros, é preciso mencionar o historiador Angelo Segrillo, O Declínio da URSS. Um estudo das causas, Rio de Janeiro, Record, 2000, um estudo realizado com longa pesquisa de campo e domínio do idioma em que se adota um enfoque econômico para identificar o atraso soviético diante da terceira revolução tecno-científica, com a microeletrônica e a informática.

Na sua dissertação de mestrado na Faculdade de Economia, Fernando Haddad realizou uma compilação das principais vertentes teóricas de interpretação histórico-sociológicas existentes sobre o sistema soviético, num momento anterior ao seu dclínio final: O sistema soviético. Relato de uma polêmica, São Paulo, Scritta, 1992.

O grande tradutor e pioneiro estudioso da cultura russa e eslava em geral no Brasil, Boris Schnaiderman, analisou aspectos fundamentais do fim da URSS: Os escombros e o mito. A cultura e o fim da União Soviética, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

O historiador Valério Arcary também escreveu diversos trabalhos sobre esse tema, a destacar a versão publicada de sua tese de doutoramento, As esquinas perigosas da História, São Paulo, Xamã, 2004.

Robério Paulino defendeu um doutorado em História Econômica,na USP, cujo tema foi as causas do colapso da URSS, Socialismo no século XX: o que deu errado?, Goiânia, Kelps, 2008.

Martín Hernández, argentino radicado no Brasil, escreveu O veredicto da História. Rússia, China e Cuba da Revolução Socialista à restauração do capitalismo, São Paulo, Editora Sundermann, 2008, que não é um livro com critérios e rigor acadêmico (não possui bibliografia, por exemplo), mas reflete uma investigação séria realizada num esforço militante por uma corrente trotskista. Outro livro da mesma natureza, é o do argentino Andres Romero, Despues del Estalinismo. Los Estados burocráticos y la revolución socialista, Buenos Aires, Editorial Antídoto, 1995.

[2] Vide sobre a Chechênia, de John B. Dunlop, Russia confronts Chechnya. Roots of a separatist conflict, Cambridge University Press, 1998; assim como de Alexander Litvinenko e Yuri Felshtinsky, A Explosão da Rússia, Rio de Janeiro, Record, 2007.

[3] Desde 1991, Yeltsin nomeou ministros que aplicaram a “terapia de choque” para a privatização, como Anatoly Chubais e Iegor Gaidar. A propriedade estatal foi “distribuída” para toda a população na forma de um voucher que valia 10 mil rublos. Aos poucos, a compra dos vouchers, sua troca por bens e sua desvalorização levaram a uma enorme concentração no controle acionário da propriedade do estado que fora privatizada.

[4]– “Moscow Times”, 16-10-93

[5]– “Moscow Times, 16-10-93

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