Por uma educação emancipadora: Eu confesso!

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Carlos Zacarias de Sena Júnior*

Fim de período letivo na UFBA e resolvi confessar: durante duas décadas fui um doutrinador de mentes inocentes! Nas minhas aulas de História, assediei alunos com minha ladainha marxista. Falei de luta de classes, de revolução. Condenei a inquisição, maldisse a Santa Madre Igreja, defenestrei a escravidão e apontei a colonização e a dependência como nossos maiores males. Jactei-me com a Revolução Russa, amei os sovietes e o poder nas mãos dos trabalhadores. Considerei Lenin um dos maiores líderes do século XX e Trotsky seu legítimo sucessor destronado pela burocracia. Convenci meus alunos que entre fascistas e comunistas, os primeiros eram os vilões e, não satisfeito, falei mal do capitalismo, mesmo vivendo as delícias do mundo burguês. Tive como alvos o que equivocadamente chamava de ditadura, especialmente o benevolente Estado Novo e a ditabranda que os militares e homens de bem implantaram no Brasil em 1964.

Espero que meus alunos me perdoem, que parem de me seguir nas redes sociais, que não curtam mais meus textos, especialmente aqueles que publiquei antes dessa confissão. Esqueçam o que eu escrevi e, principalmente, o que eu falei, porque eu era um viciado em doutrinação e me inspirava naquele barbudo do século XIX, do qual nem ouso falar o nome.

Nos últimos tempos eu andava tão degenerado que achava que as mulheres, os negros e os trabalhadores tinham sido vítimas seculares de todas as formas de opressão e exploração! Evitava palavras que pudessem ser interpretadas como racistas, e por defender as “ideologias de gênero” (oh, céus!) admitia chamar alunos com nomes de mulheres e alunas com nomes de homens, quando era solicitado a agir assim. É claro que nunca ria com piadas de negros, gays ou mulheres. Estava tão perdido que passei a cozinhar, lavar a louça, varrer a casa e cuidar dos filhos, mesmo sendo casado (com uma ex-aluna!), pode?

Mas agora eu encontrei o caminho. Conheci o movimento “Escola sem Partido” e o Projeto de Lei 1411/2015, do deputado Rogério Marinho (PSDB), que tipifica o crime por mim cometido e agora confessado. Entendo que o deputado, apesar de ser de um partido, deve odiar os partidos e por isso quer por ordem na casa (quero dizer, por ordem no país, que está uma bagunça, eu admito). Ao estabelecer como assédio ideológico “toda a prática que condicione o aluno a adotar determinado posicionamento político, partidário, ideológico ou qualquer tipo de constrangimento causado por outrem”, o deputado está, de fato, pensando em um futuro saudável para os nossos jovens, que devem se ver livres da doutrinação e dos doutrinadores como eu.

Logo eu que cresci nos anos 1970 torcendo para a Seleção Brasileira; eu que fui batizado, fiz a primeira comunhão e ainda cursei as disciplinas de EMC e OSPB depois de cantar o Hino Nacional antes das aulas; eu que rezei todas as noites e pedi o bem dos nossos zelosos governantes dos tempos da Redentora. Em que ponto foi mesmo que eu me tornei um pervertido ideológico?

* Texto publicado originalmente no jornal “A tarde” de 30/11/2015.

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