Amélia Reginaldo: Uma militante esquecida pela Historiografia

image_pdfimage_print

Aluizia do Nascimento Freire

Maria Francinete de Oliveira

A participação das mulheres na Insurreição Comunista é o tema transversal do presente artigo no qual dá ênfase a inserção de Amélia (Reginaldo) Nogueira Feitosa, líder e militante da “Insurreição Comunista” de 1935 na cidade do Natal, Estado do Rio Grande do Norte. Movimento marcante dentro do contexto histórico, por ter sido considerado como primeiro e único “governo popular revolucionário”, já estabelecido no Brasil, servindo de estopim para a deflagração de levantes semelhantes em mais duas capitais: Recife e Rio de Janeiro.

De acordo com Homero Costa (1995), a insurreição armada de 1935 na cidade de Natal fora planejada por alguns membros do Partido Comunista do Brasil (PCB) em resposta ao fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL), assim como da União Feminina do Brasil (UFB), órgão que agregava as mulheres, além da extinção da guarda civil, pelo então governo local Rafael Fernandes. Entretanto em Vianna (2007) encontramos que a revolta eclodiu em decorrência da insatisfação dos militares.

Alguns anos antes desse evento, mais precisamente no dia 23 de junho de 1917 nascia, na cidade de Mossoró, uma mulher responsável, em parte, pela mudança política ideológica no Estado do Rio Grande do Norte: Amélia Gomes Reginaldo. Filha de Raimundo Reginaldo e Luzia Gomes dos Santos, recebendo inicialmente o nome de Rosa de Luxemburgo em homenagem a militante comunista polonesa, Amélia cresceu na efervescência e amadurecimento orgânico dos grupos comunistas no Brasil, das greves generalizadas e dos movimentos sociais. Conduzida pelo pai, primeira pessoa a divulgar idéias marxista-leninistas no interior do RN, concentrava-se na leitura de autores como Victor Hugo, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Marx, Lenine, entre outros. De tanto escritores existentes, esses últimos citados foram os que mais lhes chamaram à atenção dedicando um precioso tempo de seu lazer, para procurar absolver os ensinamentos desses lideres socialistas, que após a 1ª guerra mundial estavam “revolucionando” o mundo. Amélia estava interessada nessa doutrina, que prometia diminuir as desigualdades sociais, acabar com o analfabetismo, e proporcionar uma vida mais decente para toda nação que adotasse o regime comunista. Talvez por isso, ou principalmente por isso, tornou-se líder estudantil na Escola Normal de Mossoró (1930/33), defendendo melhoria no ensino, igualdade e participação dos alunos e alunas nas decisões da educação formal.

A história familiar de Amélia está repleta de pessoas com tendências “revolucionárias”. Entre outras destacamos Ana Floriano que liderou, junto com cerca de trezentas mulheres uma passeata, na cidade de Mossoró, em 30 de agosto de 1875, conhecida como “O Motim das Mulheres”.

Tudo começou quando o Gabinete do Visconde do Rio Branco aprovou o regulamento do recrutamento para o Exército e Armada. Esse regulamento teve repercussão desfavorável na Província do Rio Grande do Norte: “as mulheres mossoroenses promoveram uma manifestação […], rasgando os editais afixados na Igreja Matriz de Santa Luzia e dirigindo-se a casa do escrivão do Juiz de Paz de quem tomaram e rasgaram o livro e papéis relativos ao alistamento.   Partiram depois para à redação do jornal ‘O Mossoroense’, onde destruíram cópias dos mesmos que ali estavam para serem publicadas […]entraram em choque corporal com um grupo de soldados da Força Pública que ali estavam para dominar a rebelião (MAIA, 2003, p.1)

Conforme registros do acervo público do nosso estado, percebemos a atuação marcante de Amélia na insurreição comunista: todas as mulheres interrogadas se referiram que se filiaram a União Feminina do Brasil, órgão mantido pelo Socorro Vermelho Internacional, através de Amélia Gomes Reginaldo.

A União Feminina do Brasil ocupava-se de assuntos relativos a emancipação das mulheres, por isso era combatida pelos políticos conservadores, que atacavam as filiadas considerando-as como pessoas de comportamento imoral e espalhafatoso. A exemplo disso encontramos a seguinte descrição no jornal A Republica (30, de julho de 1935):

A União Feminina do Brasil, constituída sob a forma de sociedade civil, tem exercido atividade subversiva da ordem política e social. Sendo uma ameaça a sociedade o governo cria o decreto de nº 243 de 19 de julho de 1935, no qual ordena o fechamento em todo o Território Nacional dos núcleos da UFB.

Diante de sua determinação, conhecimento e carisma, Amélia Reginaldo exerceu cargo de direção da União Feminina do Brasil, sendo a filiada mais atuante, convocando amigas, esposas e filhas de militantes para se engajaram na “luta” do Partido Comunista. Também atuou como secretária do Comitê popular revolucionário e contribuiu na edição do Jornal A Liberdade (Órgão Oficial do Governo Popular Revolucionário – Natal, 27/11/1935), em seu único número publicado.

Segundo consta nos autos, denúncia apresentada pelo Dr Carlos Gomes de Freitas, procurador criminal da Republica no RN, Amélia, Leonila Felix, Chica Pinote e Chica da Gaveta, invadiram o 21º BC, fardadas e portando armas pesadas. É importante destacar que o fardamento de homens e mulheres foi uma exigência de José Praxedes. (VIANNA, 2007).

De todas as fichas documentais do Estado, não se encontra no Arquivo Público do Rio Grande do Norte a de Amélia Reginaldo, já que a mesma havia fugido após o fim do movimento. As informações obtidas a respeito da mesma foram coletadas através dos depoimentos nos processos de outros implicados e da historiografia que trata do tema de maneira bastante superficial e sem dar ênfase à questão das mulheres. Presume-se, dessa maneira, que os dados estão incompletos, mas não chegaram a inviabilizar o andamento da pesquisa.

Lauro Reginaldo diz que, o tempo em que ela esteve ao lado dos rebeldes, mostrava-se atuante e à frente do movimento ao lado de seu pai, contribuindo para a única edição do jornal “A Liberdade”, com aproximadamente 16 anos de idade.

Em linhas gerais o trecho abaixo demonstra a importância do movimento de 1935 e a luta de Amélia Reginaldo:

Muita gente se admira com a tomada do poder em Natal, não foi difícil quanto se esperava. Na realidade, o povo apoiou a revolução e quem não apoiou, também não ficou contra, estava no auge, aumentado pelas secas recentes, pelo desemprego, pelas dificuldades da vida.[…] – Este combate foi duro e difícil. Começou às 19 ou 20 horas do dia 23 e durou toda a noite. Ao amanhecer do dia 24 parou a resistência. Na cidade de Natal e outras cidades vizinhas o poder passou para as mãos do povo.

Mas, a gloria do governo revolucionário durou poucos dias: quatro dias depois, as tropas do Exército e polícias dos Estados vizinhos tomaram o quartel das mãos dos revolucionários e revolucionárias, restabelecendo a ordem e iniciando a via cruzes de Amélia, seu pai, sua mãe e outras pessoas que tomaram parte de tão importante ato histórico.

De todas as mulheres que participaram da insurreição comunista, na cidade do Natal, Amélia foi a única condenada, recebendo uma pena de cinco anos de reclusão. Sua prisão foi decretada em 04 de setembro de 1936. No entanto não chegou a ser presa, pois se tornou fugitiva da justiça. Já a sua mãe foi presa várias vezes.

Considerações finais

As várias interpretações a respeito da Insurreição Comunista em 1935, de maneira geral, afirmam que a rebelião de Natal foi fruto da articulação sindicalista promovida pelo PCB e a ANL, ambas responsáveis pelo crescimento do movimento operário do Brasil e do Rio Grande do Norte. Apesar da maioria dos autores defenderem que o movimento foi decorrente da insatisfação dos militares não podemos negar o amadurecimento político dos militantes do Partido Comunista do Brasil, a importância deste nos sindicatos e nas lutas por uma sociedade sem oprimidos e opressores.

Nessa conjuntura de turbulência política a força da mulher potiguar, na figura de Amélia Reginaldo e companheiras, vem à tona demonstrando certo rompimento com valores patriarcais que já não representavam a realidade do momento. A luta das mulheres não está de fora desse contexto histórico e os depoimentos e documentos nos revelam o desempenho que as mesmas tiveram no movimento em questão, desmistificando o que ao longo dos anos atribuía-se às mulheres, pessoas submissas e com função meramente social.

A reconstituição histórica desse movimento é extremamente difícil, devido a pobreza de informação dos documentos analisados e da impossibilidade que tivemos de encontrar, nos endereços fornecidos pelas mulheres, alguém que pudesse dar informações mais detalhadas e da escassez de trabalhos científicos a respeito da participação das mulheres na Insurreição Comunista, em Natal. Mesmo assim, ainda não desistimos e desejamos levar Amélia Reginaldo e suas companheiras ao estrelato..

 Uma fonte importante que traduz parte da realidade da Insurreição Comunista está no Arquivo Público do estado no qual tivemos acesso aos documentos como fichas documentais do DOPS, assim como nos jornais: a República e a Ordem, mostrando uma visão conservadora de como as mulheres estavam envolvidas no movimento insurrecional, sendo vistas como pessoas imorais e anárquicas, querendo ser iguais aos homens, esquecendo suas obrigações do lar.

Para concluir, inferimos que, a pouca notoriedade dada às mulheres potiguares que participaram da Insurreição Comunista, representa o não reconhecimento da atitude feminina enquanto comportamento de luta. Assim, esperamos estar contribuindo no sentido de resgatar historicamente a personagem Amélia Reginaldo, colocando-a na posição de heroína – assim ela se considerava – e não na posição de vilã, como foi caracterizada por militares e políticos que participaram do combate a Insurreição Comunista.

Estamos aqui resgatando um pouco da história de vida de uma mulher que, ao considerar-se heroína esperava, um dia, ser reconhecida como tal. Por isso estamos sempre procurando os dados e fatos para registrar e homenageam a sua coragem e gloria, assim de sua mãe, Luzia Gomes dos Santos, e as companheiras de luta: Leonila Felix, Wanda Galvão Virginia Praxedes, Maria da Cruz, Maria José da Paz, Pretinha, Alice, Francisca Pinote, Maria da Gloria dos Santos, Chica da Gaveta e outras mulheres que não foram citadas na documentação.

 

REFERÊNCIAS

COSTA, Homero. A Insurreição Comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia. São Paulo: Ensaio, 1995.

FREIRE, Aluizia do N., OLIVEIRA, Maria Francinete, LIMA, Rita de Lourdes. Amélia Reginaldo: Uma Mulher de Verdade.In: Fazendo Gênero 8 – Corpo, 2008, Florianópolis. Anais… Florianópolis, 2008.

FERREIRA, Brasília Carlos (org.). Lauro Reginaldo da Rocha – BANGU: Memórias de um militante. Natal. Edufrn,1989. Coleção Humanas Letras.

MAIA, Geraldo. Uma certa D. Ana de Tal. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/omossoroense/120903/nhistoria.htm>.(2003) Acesso em : 03, out.,2010.

OLIVEIRA, Maria Francinete de. Amélia (Reginaldo) Nogueira Feitosa. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/memoria/1935/a_pdf/francinete_oliveira_amelia_reginaldo.pdf> (2008). Acesso em: 15 ago., 2010.

SOARES, Carlson Reginaldo. Amélia Reginaldo Uma mulher no levante vermelho de Natal[mensagem pessoal} Mensagem enviada por <carlsonsoares@hotmail.com> em 24 Jan. 2008.

1 Comentário em Amélia Reginaldo: Uma militante esquecida pela Historiografia

  1. http://dhnet.org.br/memoria/1935/livros/bangu/carta.htm

    Segue carta da minha Bisavó, Amélia Nogueira Feitosa. Um resumo dos ocorridos sobre a Insurreição de 35, a seu tio.

    Atenciosamente, Rennan Feitosa. Neto de, Reginaldo Nogueira Feitosa o filho de Amélia Nogueira Feitosa.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será divulgado


*


gildingkrystin