Sim, Augusto Boal está muito vivo

image_pdfimage_print

Natalia Conti

A Mostra Augusto Boal, sediada no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro desde o dia 13 de Janeiro de 2015, traz aos palcos, murais, vozes, aquela que foi uma das principais figuras do teatro brasileiro. A amarração de vários campos – música, cinema, leituras, oficinas teatrais, fotografia – faz da mostra uma antessala para quem quer chegar mais perto, e serve de convite para a iniciação/aprofundamento no conhecimento teatral do dramaturgo que levou a sério a necessidade de desdobrar o programa político-estético-método Brecht.

A começar pela compilação de nomes fortes do teatro épico no Brasil, a largada é dada pela Companhia do Latão, encenando a peça Os que ficam, que trabalha textos da autoria de Boal e apresentam questões ao público – como é de costume do grupo – atuais para pensar o nosso lugar frente aos problemas políticos e sociais do país, o nosso lugar como atores. Para isso, misturam as trajetórias familiares de luta contra a ditadura, alguns se apresentando como filhos de militantes de política e de teatro; a leitura por Julian Boal de cartas de seu pai aos seus companheiros de trabalho no Brasil, desde o exílio; uma dura crítica à produção mercantil de arte na televisão, e a instrumentalização do trabalho do ator neste espaço; e questões que são de ontem e se mostram gritantes, de hoje, como a fragmentação da esquerda e a necessidade de pensar a política estratégica.

O grupo bota no palco a atualidade de Boal, de sua Revolução na América do Sul, da luta pela memória – em tempo de Caravanas da Anistia e Comissão da Verdade – e apresenta o teatro como chave para a abertura de caminho de transformação e emancipação. Com ares ainda quentes de sua Ópera dos Vivos, da qual ainda podemos sentir os cheiros, o Latão encena respostas possíveis, sem encerrá-las conclusivamente, remetendo ao expect-ator, como gostava de chamar Boal, a responsabilidade e inquietação de pensar o próprio papel.

Quando adentramos o salão da exposição, vemos projetadas as fotos conhecidas das encenações do Teatro de Arena de São Paulo e Rio de Janeiro. Arena conta muitas coisas, Show Opinião, e tudo o que figura no imaginário do teatro político da década de 1960. Vendo os materiais produzidos por Boal – disponíveis para leitura na sala – percebemos que era alguém que costurava finamente as necessidades da vida com o desenvolvimento da técnica teatral, correndo distante de uma concepção da arte pela arte. O teatro do Oprimido, política poética desenvolvida por Boal ao longo de décadas de trabalho com grupos de vários países do mundo, nos dá a possibilidade de aproximar ainda mais a arte da vida, sobretudo da política e dos modos de vida, quando coloca no papel de ator todo e qualquer homem e mulher que têm questões e vive problemas coletivos. Tira do âmbito privado os problemas e, em praça pública de qualquer viela e rincão, de qualquer país do mundo, de Moçambique à Áustria, do Chile à Índia, pergunta aos expectadores qual é o problema. Há alguma coisa nessa cena que podemos mudar? Como podemos faze-lo?

Os vídeos que apresentam o impacto d’O teatro do Oprimido no mundo todo evidenciam o seu caráter político e a sua vivacidade. Boal era não só um Brechtiano ortodoxo, mas arrojado e inventivo, por não levar a algum lugar a voz dos oprimidos e explorados, mas criar ferramenta para que estes mesmos o fizessem, e representassem as possibilidades de suas vidas cotidianas, de seus enfrentamentos de classe. Um vídeo chama bastante atenção, de Moçambique, onde um grupo de uma comunidade encena uma situação em que uma mulher faz o teste de HIV e se descobre soropositiva, e tenta convencer o companheiro de que este tem também de fazer o teste, ao que é negado. A ferramenta incorpora as vozes da própria comunidade para resolver o nó apresentado, e funciona como espécie de peça-didática para a educação de seus pares.

Outro elemento importante da mostra é a voz de Juçara Marçal, que representa a potência de uma nova geração de músicos paulistanos cantando o Zumbi do Arena e de Boal, consonante com o som de Metá Metá. Fechando os olhos ou olhando bem fundo, ouvimos em sua voz o terreiro de seu disco Encarnado se misturar ao terreiro de Maria Bethania no show Opinião, ou em Arena conta a Bahia. Coisas que só ouvindo para entender.

Por fim, as demais atividades que confluem a Mostra dão um tom de movimento, de coisa viva, pedindo para ser assumida e reinventada. Boal era um homem de movimento, além de gente de teatro. E seu legado ao teatro e aos oprimidos/explorados do mundo inteiro é uma ferramenta política e estética potente de questionamento, elaboração coletiva e possibilidade de forjar sujeitos de si e da História, com H maiúsculo.

 

justino@mailxu.com wegge.rjq@mailxu.com