O paradoxo Brasil e o espelho distorcido das eleições

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Carlos Zacarias de Sena Júnior

O Brasil que vai sair das urnas em 2014 será pior do que aquele de há quatro anos, não há dúvidas. Mas será este o mesmo país que foi às ruas nas Jornadas de Junho de 2013? A pergunta, capciosa em todos os sentidos, tem suas razões de ser, pois considerando as muitas hipóteses que têm circulado nos debates em curso sobre as eleições, a ideia de que se as manifestações de junho não tinham exatamente um caráter conservador, foram as forças da reação que saíram ganhando. Ou seja, a se crer naquilo que a maioria dos governistas apontavam quando se depararam com o desafio de enfrentar as massas nas ruas, poderíamos crer que as manifestações se foram realmente de direita, foram apropriadas por “elites” políticas e econômicas sequiosas por derrotarem o governo do PT. Não obstante, não parece ser este o caso, e este é o argumento que tentarei desenvolver aqui.

Qualquer estudioso ou analisa da luta de classes que usa a ferramenta do marxismo para interpretar a realidade sabe que não há ascenso político de massas sem a ameaça da reação. Se falamos em revolução, entretanto, a dimensão é ainda mais dramática, pois não há movimento revolucionário sem a incontornável possibilidade da contrarrevolução. A história é pródiga em registrar esses períodos e épocas contrarrevolucionárias inteiras podem se abrir após derrotas de situações revolucionárias de grande envergadura, sendo este o caso da onda fascista que se abateu sobre a humanidade após o desfecho da primeira vaga revolucionária em 1921/1923.[2] Então, neste caso, depois das Jornadas de Junho estaríamos vivendo um período de contrarrevolução que se expressa pelas urnas? Não exatamente.

É certo que as forças conservadoras foram mais eficazes em se oferecer como alternativa ao PT após a onda de protestos de 2013. Entretanto, tanto a onda de 2013 não chegou a ter as características revolucionárias precisas, especialmente quanto a permanência de uma situação quando os de “cima não podem e os de baixo não querem”, não se pode super-dimensionar o peso da derrota eleitoral com todo o conservadorismo que ele apresenta.[3] Ademais a expressão eleitoral desse processo é apenas reflexo distorcido da correlação de forças da sociedade, de maneira que só serve parcialmente para explicar um todo bem mais complexo que demandaria um olhar para a realidade que fosse muito além das urnas.[4] Isto porque se considerarmos os meses que se seguiram às Jornadas de Junho vamos perceber que houve um fortalecimento dos movimentos sociais e não o contrário.

Por conta desse movimento, que explodiu em junho, mas que tinha contornos que se vinham se estabelecendo desde 2008, quando o registro de greves se incrementou, com picos em 2009, 2011 e 2012, tornaram-se mais fortes a luta por moradia, por mobilidade urbana, por educação e saúde, entre outras demandas de caráter progressista que estiveram presentes nas bandeiras de 2013.[5] É verdade que a dimensão organizativa dessa nova expressão da luta de classes não tenha se expressado numa correlação de forças amplamente favorável aos trabalhadores, todavia não se pode desprezar que os movimentos sociais organizados estão em melhores condições de atuar e apresentar suas reivindicações do que estava há alguns anos, apesar de toda a repressão, apesar do caráter majoritariamente conservador dos eleitos em outubro.

De todo modo vale ainda lembrar que embora a eleição tenha dado sobrevida aos setores conservadores da sociedade, não foram exatamente as os partidos anticapitalistas os maiores derrotados, ainda que tenham recebido percentuais de sufrágio irrisórios. Isso porque enquanto menos de 2% do eleitorado votou em partidos como o PSOL, PSTU, PCB e PCO, 39 milhões de eleitores, cerca de 27% do total, se abstiveram, votaram nulo ou em branco e isto parece ser bastante sintomático para ajudar a explicar que se uma grande parte do eleitorado brasileiro resolveu escolher uma maioria de conservadores para legislar e dirigir os executivos de muitos estados, outra parte igualmente importante optou por dizer não as eleições. Obviamente que a esquerda socialista precisa sempre repensar a forma como atua nas eleições, mas os resultados eleitorais não podem ser parâmetros para se comemorar vitórias ou se apontar derrotas, porque as correntes socialistas sempre pautaram sua intervenção política tendo por prioridade as lutas e não as eleições.

O Brasil sai das urnas, mais cristão-fundamentalista, mais rural, mas militar, machista e homofóbico, e isso não deixa de ser preocupante. Mas não havia outra forma dos conservadores expressarem o temor do avanço dos setores sociais progressistas confirmando distorcidamente a resposta ao que parecia ser a maior ameaça a ordem capitalista no Brasil surgida nas ruas em 2013. Quanto ao PT, que prossegue sendo o partido majoritário sair das urnas, resta saber como sobreviverá a tempos que apontam para uma polarização crescente. Tanto porque toda a carga de simbolismo evocada pelo partido que nasceu nas lutas e que contribuiu decisivamente para derrotar a ditadura nos anos 1980, certamente vai lhe cobrar um preço em 2015. Caso vença a eleição (o que me parece mais provável) e venha a governar com banqueiros, empresários e latifundiários, como faz há doze anos, o PT precisará prestar contas aos setores que lhe ofereceram voto útil e aos que acreditaram que, finalmente, teria havido uma guinada a esquerda deste partido. Os dirigentes e marqueteiros do PT sabem disso, tanto que vivem na corda bamba, fazendo malabarismos teóricos para se equilibrar entre apresentar uma candidatura pela esquerda nas redes sociais com o intuito de mobilizar a militância e, em sentido contrário, acalmar os mercados e garantir a continuidade dos compromissos firmados desde 2002, para captarem financiamento e confirmarem a confiança de setores da grande burguesia do país.

Quem votou em Dilma tem suas razões para temer a volta da coligação que governou o país na era FHC, pois todos se lembram da emenda da reeleição, dos processos de privatização, do arrocho salarial, das investidas contra os direitos dos trabalhadores, da alta da inflação, da disparada do dólar e do aumento do risco país que deixaram o Brasil à beira do colapso. Por conta disso, Dilma tanto se beneficiou do voto útil, como da lembrança da imagem da militante que combateu a ditadura, agora transformada em avatar a partir de sua ficha no DOPS acompanhada da canção “Dilma, coração valente”. O problema, contudo, é que o perfil mais conservador do Brasil saído das urnas em 2014 é, fundamentalmente, responsabilidade do PT, porque a expressão distorcida das eleições também fez com que milhões de trabalhadores votassem na coligação PSDB-DEM contra o partido que governa o país e que não promoveu as transformações necessárias para os nove décimos da população que lhe emprestaram apoio e confiança ao longo dos anos.

Todavia um olhar mais atento não vai encontrar muita diferença entre as eras Lula/Dilma e FHC, já que foram exatamente os petistas que fizeram uma reforma da previdência, privatizaram estradas, aeroportos e entregaram reservas de petróleo a iniciativa privada a preços de banana, com destaque especial para o campo de Libra. Isso para não falar dos escândalos de corrupção, bastante comuns em todos os governos. No final das contas, o PT das eleições não é o mesmo que aquele que governa, pois enquanto este insiste em ser igual aos demais, fazendo alianças que reforçam o caráter conservador das eleições com seu jogo de cartas marcadas e financiamento milionário, aquele mobiliza o simbolismo das lutas para animar sua aguerrida militância cada vez mais institucionalizada.

O Brasil que sai das urnas poderia ser difícil de explicar a um estrangeiro que dificilmente entenderia como um estado como o Rio de Janeiro elegeu Jair Bolsonaro (PP) e Marcelo Freixo (PSOL) como os mais votados para deputado federal e deputado estadual, respectivamente. Contudo, somente quem não conhece o país e a potencialidade explosiva das contradições pode acreditar que houve uma real guinada conservadora na correlação de forças depois das eleições. O fato de que três dos quatro únicos partidos que ficaram de fora do Congresso são tradicionais aliados dos trabalhadores nas lutas políticas e nos movimentos sociais, entre eles o PSTU e o PCB, talvez queira dizer que os trabalhadores preferem esses partidos nas greves e nas lutas, enquanto optam por oferecer mandatos a petistas e partidos tradicionais das classes dominantes. A propósito, na véspera das eleições, segundo pesquisa do IBOPE, 67% dos brasileiros disseram que estavam dispostos a mudar, de onde se pode deduzir que novas explosões como as de 2013 podem voltar a acontecer. Quanto a isso, o Congresso e as assembleias eleitas, com seu conservadorismo gritante, poderão ajudar a juntar os 100 milhões que votaram em algum candidato aos outros 39 milhões que praticaram algum tipo de absenteísmo.

 


[1] Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

[2] Eric Hobsbawm e Valério Arcary fizeram boas discussões sobre as vagas revolucionárias que atingiram o mundo no século XX. HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. O breve século XX. 1914-1991. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 445-446. ARCARY, Valério. As esquinas perigosas da história. Situações revolucionárias em perspectiva marxista. São Paulo: Xamã, 2004, p. 135.

[3] A famosa fórmula que sintetiza uma situação revolucionária foi apresentada em LENIN, V. I. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. 5 ed. São Paulo: Global, 1981, p. 96-97.

[4] Analisando o processo político e a luta de classes na Alemanha na conjuntura de fins da década de 1920 e inícios da década de 1930, Trotsky se referiu à forma distorcida como as eleições refletiam a real correlação de forças da sociedade. TROTSKY, Leon. Revolução e contrarrevolução na Alemanha. São Paulo: Sundermann, 2011, p. 148-149.

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