O proibicionismo na gênese do evangelicalismo na política: a nova direita

image_pdfimage_print

Henrique Carneiro

Quando se pensa na participação política de boa parte dos grupos evangélicos, as questões que mais se evidenciam são a sua prioridade em torno do combate aos direitos de grupos sociais como mulheres, homossexuais, consumidores de drogas, no sentido de suprimir esses direitos!

A presença de evangélicos na política brasileira é mensurável não só pela presença de dois pastores entre os candidatos presidenciais (Everaldo e Marina), como pela deferência que tanto Aécio como Dilma têm por esse segmento religioso, prestigiado até com visitas presidenciais à inauguração do templo de uma religião que ocupa um ministério federal loteado para ela, como o da Pesca!

Cada uma dessas igrejas se torna um partido-igreja com controle de concessões públicas de transmissão de rádio e TV e outras empresas e, como igreja, tem isenções fiscais!

Assim como entre os católicos, há alguns setores evangélicos minoritários mais abertos e progressistas, mas as posições dos maiores líderes do evangelicalismo vem superando o reacionarismo do Vaticano de uma forma ainda mais intolerante e com um ativismo mais agressivo e mais voltado para a mobilização de massas de caráter conservador, em marchas contra a união homossexual, o aborto e a legalização das drogas..

Além de uma posição defensora, em geral, de políticas econômicas privatistas, e de um lobbismo desavergonhado para Israel, a obsessão política dos pastores é impedir que outras pessoas possam fazer livremente o que querem e que não afeta ninguém a não ser elas próprias, como se casarem ou fumarem maconha, por exemplo.

Por que essa preocupação tão fanática sobre o que fazem outras pessoas?

Se alguém não gosta de alguma prática, deve se abster dela. Não quer fumar, não fume; não quer beber, não beba; não quer fazer tatuagens, não faça; é contra a homossexualidade, não se relacione de forma homoerótica. A abstinência é um direito democrático. Uns não comem carne, outros não bebem, uns não fazem sexo, outros não usam cabelos compridos. Outra coisa é querer impor qualquer abstinência de forma compulsória para toda a sociedade.

A grande influência política do evangelicalismo nos últimos dois séculos vem sendo a pressão pela adoção de políticas de abstinência compulsória como o proibicionismo do álcool e de outras drogas e a defesa da castidade.

O movimento pela abstinência nasceu numa vertente do neo-protestantismo estadunidense chamado de evangelicalismo. Este movimento se manifestou como “despertares” de grupos congregacionalistas, muitas vezes até não-denominacionais, ou seja, sem igrejas além da própria e que se afirmavam como defensores de uma visão otimista de alcance universal da graça, diferentemente do protestantismo tradicional luterano e calvinista, baseado na predestinação, que restringia a graça e a salvação a uns poucos escolhidos.

Os evangélicos conheceram quatro desses “despertares” (awakenings): o primeiro de 1731-1755; o segundo de 1790-1840; o terceiro de 1850-1900; e o quarto, do tele-evangelismo, de 1960-1980. Na época do “segundo despertar” também vão ser formadas as organizações defensoras da temperança, como a American Temperance Society, em 1826 que se tornará a American Temperance Union, em 1836.

O salvacionismo universal evangélico baseava-se na conversão e na luta permanente contra o pecado para a obtenção da “perfeição cristã”. Diferentemente dos católicos que viam essa perfeição apenas nos santos e monges, ou dos protestantes que a identificavam com os agraciados, os evangélicos vão acreditar que ela está ao alcance de todos que não pecarem e se mantiverem puros. A adesão à abstinência se manifestava por meio de uma promessa pública.

Essa recusa ao pecado passa, assim, a se materializar num extremo rigorismo moral relativamente os prazeres da vida cotidiana que exige abdicar de todos eles, pois são todos “estímulos não nutricionais”. Os “reformadores da saúde” (health reformers) como Sylvester Graham (1794-1851) elaboram dietas rígidas e severas, com pão sem fermento e recusa à carne.

Sexo não só pré-matrimonial, mas mesmo no interior do casamento, bebidas alcoólicas de todo tipo, café, chá, carne, farinha refinada, temperos, pickles, doces, praticamente tudo podia ser incluído na lista das coisas a se evitar, em se tratando de ingestões, além de dança, música, piadas, roupas, etc.

Imbuídos de um “mórbido medo do lazer”, estes campeões do “atletismo moral”[1] pregavam poucas horas de sono, camas duras, despertar imediato, refeições moderadas e uma atitude geral de resistência aos apelos de qualquer tentação.

A sobriedade como símbolo do sistema geral de asceticismo se tornou especialmente uma pedra-angular do combate ao desejo e à espontaneidade.

Além destas severidades rigoristas na auto-contenção, a história do proibicionismo do álcool e do movimento abstinentista em geral tem uma evolução mais complexa do que aparenta, pois em sua origem no século XIX representou uma expressão das elites tradicionais do norte que se opunham à nova cultura urbana, cosmopolita, católica e judaica da imigração mais recente. Sua oposição ao álcool se somava ao abolicionismo, denunciando o que chamavam de as duas escravidões.

Mas a visão inicial pressupunha efetivamente a temperança, ou seja, a moderação. Mas, ao longo dos anos de 1830, ocorreu uma inclinação ao radicalismo abstinente, levando a que os bebedores moderados se tornassem os maiores alvos da censura dos abstinentes, pois podiam dar a impressão que se podia beber sem problemas desde que controladamente.

A temperança que era uma regra moral de conduta moderada se torna uma exigência de abstinência para si e para todos compulsoriamente, na transformação da busca de limites e matizes na embriaguez para uma alternativa exclusiva do “tudo ou nada”[2].

Ao longo do século XIX outros componentes se somaram numa popularização do proibicionismo que o levou a incorporar o elemento feminista da participação das mulheres, especialmente durante a chamada “cruzada das mulheres” em 1873 e 1874, quando fizeram protestos e demonstrações diante de bares e tavernas, organizadas desde 1874 na WCTU (Woman´s Christian Temperance Union), e que expressavam o chamado “evangelho social” (social gospel), que defendia a proibição do álcool ao lado do sufrágio feminino, os aumentos de salários ao lado da denúncia do racismo e dos linchamentos, lideradas por Frances Willard (1839-1898).

Frances Willard, a segunda presidente da WCTU, a partir de 1878, foi uma das principais defensoras do sufragismo feminino, outro movimento que, ao lado da abolição da escravidão, unia uma corrente reformista progressista que incluía a temperança como parte da reforma mais geral da sociedade. Seu viés predominante era o da assimilação, considerando que os consumidores de álcool eram sofredores que precisavam ser amparados, enquanto a posição mais conservadora no interior da WCTU era contra a participação política em outras causas e cada vez mais coerciva na exigência de uma abstinência legalmente imposta.

Após a guerra civil e o fim da escravidão, os grupos mais tradicionais, como os batistas, também se incorporaram à defesa da proibição em 1890 enquanto organizações como a Liga Anti-Bar (Anti-Saloon League), que se tornou uma organização nacional em 1896, e o Partido da Proibição (Prohibition Party), fundado em 1869, conferiam uma característica cada vez mais conservadora a essa causa, defendida cada vez mais no sul e no meio-oeste, com forte adesão da Klu-Klux-Klan.

O Partido da Proibição é o mais antigo terceiro partido do sistema eleitoral, com candidaturas presidenciais contínuas desde 1872, manteve entre 1884 e 1920 cerca de duas centenas de milhares de votos, tendo alcançado seu maior resultado em 1892, com 270 mil, mas no século XXI se tornou insignificante, um fenômeno folclórico, com poucas centenas de votos. Seu perfil se torna semelhante ao da extrema-direita, ao ponto de seu jornal The National Prohibitionist, se declare contrário tanto a Kennedy como a Nixon, nas eleições de 1960, considerando a ambos como “socialistas”!

De uma causa vista como uma reforma progressista, ao lado do fim da escravidão e do voto feminino, a proibição vai se tornando cada vez mais a expressão dos grupos sociais mais reacionários e conservadores. O pregador mais conhecido da época da Lei Seca foi Billy Sunday (1862-1935), racista e anti-feminista, enquanto a Anti-Saloon League chegava a justificar a ocorrência de muitos linchamentos em 1906 devido aos homens negros se embriagarem e olharem os rótulos obscenos das garrafas com mulheres brancas que tratariam então, supostamente, de atacar e estuprar[3].

Entre agosto e dezembro de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, entrou em debate a lei de proibição, que foi ratificada em janeiro de 1919, e apesar de ser vetada pelo presidente Wilson, o veto foi derrubado pelas duas casas do Congresso, para entrar em vigor daí a um ano, o que ocorreu finalmente em 17 de janeiro de 1920, quando entrou em vigor a Lei Seca nos Estados Unidos.

Woodrow Wilson, do Partido Democrata, via a proibição como medida temporária que a partir do fim da guerra se devia revogar e defendia permitir a venda de cerveja e vinho, no que era apoiado por organizações sindicais, como declarava o presidente da Central Federation Union of New York: “os trabalhadores organizados estão em inteiro acordo com o presidente Wilson quando ele luta pela restauração da liberdade para o povo americano em relação ao consumo de vinhos leves e cerveja”[4]. O Congresso, no entanto, aprovou a proibição integral, inclusive das bebidas fermentadas.

No período de 13 anos da sua vigência a Proibição não conseguiu alterar o que Joseph R. Gusfield chama de “a legitimidade cultural” da prática de beber entre as camadas urbanas habituadas à cultura alcoólica. Mesmo que os proibicionistas buscassem acusar de ser uma traição antipatriótica o gesto de beber, isso não alterou a cultura urbana das grandes cidades. O comércio tampouco deixou de existir, mas se submeteu à clandestinidade. A repressão, embora existente, também não foi tão severa. Estabeleceu-se uma situação que pode ser caracterizada como uma “evasão padronizada de normas”[5].

A lei seca acabou após a crise de 1929. O crash de Wall Street acabou com a Proibição. Nas eleições de 1928, o candidato republicano Herbert Hoover foi eleito com apoio dos proibicionistas que estavam no seu auge. Com a depressão econômica, até mesmo grupos industriais poderosos que eram proibicionistas, como Rockfeller e Du Pont, se somam à pressão social urbana e dos sindicatos, que confederados na American Federation of Labor (AFL) exigiam a legalização. A AFL, primeira federação sindical nos Estados Unidos, fundada em 1886, foi presidida desde essa data, de forma quase ininterrupta, por Samuel Gompers, dirigente sindical dos trabalhadores da indústria do cigarro, até a sua morte em 1924.

Nas eleições de 1932, o Partido Democrata alçou F. D. Roosevelt à Presidência e começa a era do New Deal. Uma nova emenda constitucional, a 21ª, revogou a proibição. Começa o período conhecido como do Repeal (Revogação).

Quase um século após o experimento biopolítico totalitário do proibicionismo do álcool nos EUA entre 1920 e 1933, e vemos hoje a guerra às drogas num impasse, com rupturas no sistema dominante e no paradigma proibicionista, que vem sendo alterado em muitos países para o respeito aos direitos civis dos usuários, a redução de danos nos usos problemáticos e a legalização controlada. A ONU terá uma sessão especial da assembleia-geral, a UNGASS, dedicada a discutir os tratados e convenções internacionais sobre o tema das drogas em 2016.

Os obstáculos maiores para uma mudança estão nos “falcões” da guerra às drogas que são, além dos EUA, a China, a Rússia e os países islâmicos. Esta aliança totalitária quer manter a proibição.

A América Latina é uma das regiões mais críticas do modelo proibicionista, exatamente por ser uma das maiores afetadas por essa guerra e seus resultados de violência, encarceramento em massa e hipertrofia de lucros ilícitos e corrupção institucional e cresce nesse continente um movimento social antiproibicionista que quer o fim da guerra às drogas e a conquista da paz. Para isso, se desenvolve um enorme trabalho de informação e educação da opinião pública.

O bloco obscurantista do fundamentalismo religioso ameaça no mundo todo e também no Brasil a manutenção e ampliação dos direitos civis.O proibicionismo é um resultado direto das políticas de abstinência compulsória que a grande maioria dos grupos evangélicos, e também católicos, vem querendo impor à sociedade.

No Brasil, a formação da Assembleia de Deus por missionários suecos trouxe o que já se chamou de uma mistura do pietismo sueco com o patriarcalismo nordestino forjando a imagem popular do rigorismo do “crente” como alguém abstinente de todos os prazeres e de vestuário austero, que não gostava de dança nem de música e menos ainda de adornos corporais.

Os novos cultos pentecostais acrescentaram, além dos elementos de transe e de práticas extáticas e de possessão, uma relativa abertura para um aggiornamento que levou algumas igrejas a se especializarem em segmentos jovens, de surfistas, rockeiros, etc. A diversidade de congregações traz as mais diversas atitudes, mas permanece nos grupos dominantes a identidade comum de abstinência como valor de pureza cristã. Quando essa atitude se torna um lobby político elegendo parlamentares e até candidatos presidenciais com a intenção de impor à sociedade os critérios particulares dessas igrejas estamos diante de um tipo de fundamentalismo religioso.

No Brasil, o evangelicalismo evoluiu cada vez mais para a direita ao longo do período ditatorial e pós-ditatorial, constituindo o que já foi chamado de uma “nova direita” baseada na reação moral e cultural. Na ditadura houve uma distinção clara entre setores protestantes e evangélicos democráticos que se opuseram ao regime, como o pastor presbiteriano James Wright, fundador do Brasil Nunca Mais, e os grupos mais conservadores e anti-ecumênicos que apoiaram os governos militares[6].

Esta ala direita se aproveitou de benesses do regime, cresceu e predominou. Sua atuação política mais destacada se deu em torno ao combate à pornografia, o alcoolismo, o tabagismo, o jogo, o divórcio, e a emancipação feminina. Defensores de que o lugar da mulher é no lar, se juntaram à Igreja Católica para se opor ao controle populacional e aos anticonceptivos.

Na Constituinte de 1988 a bancada evangélica era de 34 deputados, tendo aumentado para 77 na atual legislatura (num total de 594). Os votos do pastor Feliciano podem aumentar a representação desse setor do PSC, partido que se apresenta como expressão da direita evangélica lançando o pastor Everaldo candidato à Presidente. É bom lembrar que estavam na base do governo Dilma até recentemente.

Neste terreno se luta pelos fundamentos das liberdades individuais, pelas garantias do Estado laico e pelas prerrogativas democráticas culturais. Por isso, a influência do evangelicalismo da nova direita na política aponta para um risco de diminuição ou até de supressão de algumas liberdades civis fundamentais e por isso deve ser criticado e combatido por todos que defendem as liberdades civis, culturais e religiosas. 


[1] “Ralph Barton Perry has coined an apt description for this ascetic quality. He calls it moral athleticism”, Joseph R. Gusfield, Symbolic Crusade. Status Politics and the American Temperance Movement, Urbana-Champaign, University of Illinois Press, 1963., p. 31.

[2] Como é o título do livro de Jessica Warren, All or Nothing: A Short History of Abstinence in America, Toronto, McClelland and Stewart, 2008.

[3] Jessica Warner, All or Nothing, p.116.

[4] “organized labor is in entire accord with President Wilson when he open the fight to restore freedom for the American people in regard to the consumption of light wines and beer”, Edward I. Hannah, “Wilson and Wine” in The Literary Digest, 31 de maio de 1919, consultado em 23/09/2014:

http://www.oldmagazinearticles.com/Prohibition_Law_and_Woodrow_Wilson

[5] “Robin Williams has called this mode of organization the “patterned evasion of norms”. This was the case during Prohibition”, Joseph R. Gusfield, op. cit., p. 115.

[6] Benjamin Arthur Cowan, “Nosso Terreno” crise moral, política evangélica e a formação da ´nova direita` no Brasil, Varia Historia, Belo Horizonte, v. 30, n. 52, jan. 2014. Disponivel em:  http://bit.ly/1DOQLXe. Consultada em 28/09/2014

dauphinais@mailxu.com