Eric J. Hobsbawm: E as revoluções continuam…

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Carlos Zacarias de Sena Júnior

Nascido no Egito em 1917, o historiador Eric Hobsbawm sentenciou que ninguém que olhasse em retrospecto o século XX apostaria seu dinheiro no triunfo universal da mudança pacífica e constitucional. Hobsbawm se perguntava se revoluções continuariam acontecendo e concluía que o mundo que entrava no terceiro milênio não parecia ser exatamente um mundo de sociedades e Estados estáveis.

É possível que depois das revoluções na Tunísia e no Egito e de toda agitação com prenúncio de guerra civil na Líbia, o leitor tenda a concordar com o autor de Era dos extremos. Não obstante, quando escreveu aquelas linhas em 1994, apenas cinco anos após a queda do Muro de Berlim, as palavras do grande historiador pareciam absurdas. Afinal de contas, anunciava-se o “fim da história” e a vitória inconteste das democracias liberais.

Mas a história não se presta a análises apressadas e a conclusão de Hobsbawm de que o mundo continuaria a assistir revoluções e toda espécie de catarse tinha o lastro de um olhar penetrante por toda uma era. Nem bem o século XX chegou ao final e toda a proclamação eufórica do fim da história deu lugar ao pessimismo diante das agressões estadunidenses no Oriente Médio sob o pretexto da “guerra ao terror”. Mudaram-se os argumentos e a tecnologia de guerra, mas o sangue derramado permaneceu tingindo de vermelho a história.

Revoluções continuam a acontecer e não se precisa do exemplo árabe para se crer que as massas quando entram em cena podem por abaixo ditadores e também democratas. Que o digam argentinos, bolivianos e equatorianos, que recentemente derrubaram governantes eleitos pelo voto universal. É verdade que nos disseram que só havia um punhado de ditadores pelo mundo. Mas para o imperialismo há ditaduras e ditaduras e a algumas se aplica o Direito Internacional. Em todo caso, quando uma crise econômica ativa o furor dos povos, não adianta tentar lhes roubar o protagonismo, pois as massas vão aonde suas necessidades e sonhos lhes mandar.

(Publicado originalmente em A Tarde, 3/2011.)

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