As turbulências pré-olímpicas no Brasil e no México

Pedro Tavares* |

O dia 3 de outubro de 1968 amanheceu em silêncio na Cidade do México. Ruas, calçadas, cafés. Jornais, programas de rádio, pessoas. Um silêncio absoluto tomou conta da capital mexicana dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos. As portas e janelas nas proximidades da Plaza de las três culturas, normalmente abertas para receber a luz do dia ou a refrescante brisa matinal, estavam fechadas. A praça amanheceu banhada de sangue e com dezenas de sapatos espalhados por toda sua extensão. Naquele dia, do momento em que o sol nasceu até o anoitecer, só se ouviu o som do silêncio.

Situação oposta do que se viu nos meses anteriores no México, que foi palco de inúmeros protestos com gritos de incentivo e cantos por liberdade. No embalo do um movimento global – grandes manifestações tomavam as principais capitais do mundo –, os mexicanos manifestavam-se contra seu governo e a favor da autonomia de seu povo. Fez-se muito barulho até o fatídico dia em que a nação se calou.

O governo do presidente Gustavo Diaz Ordaz Bolaños, iniciado em 1964, já vinha contestado desde o início. Em 1965, após greve dos médicos, a situação piorou e foi agravando-se até seu auge em 1968.

O ano da Olimpíada foi repleto de manifestações estudantis contra o governo. A intenção era justamente aumentar o coro, já que o país estaria sob os holofotes do mundo naquele período. As atenções voltadas ao México eram combustível especial para os protestos, mas, por outro lado, funcionavam para aumentar a disposição do governo em dar um basta naquilo.

Em agosto e setembro, semanas antes dos Jogos, graças ao apoio da população, o movimento estudantil ganhou força. A Unam (Universidade Nacional Autônoma do México), que já havia demonstrado apoio à greve dos médicos e tinha como reitor Javier Barros Sierra, um grande líder das manifestações, foi ocupada pelos militares. Muitos alunos foram espancados e detidos, sem maiores perguntas ou explicações. Com os Jogos Olímpicos batendo à porta, a tentativa de sufocar o movimento estudantil ficava clara naquele momento.

O ocorrido, em vez de diluir os protestos, como era o intento, trouxe indignação e revolta para a população, que organizou uma grande manifestação para o dia 2 de outubro, dez dias antes da abertura da Olimpíada.

Milhares de pessoas se juntaram para caminhar pelas ruas da Cidade do México em apoio àqueles estudantes detidos na Unam (e em outras universidades do país) e contra a ocupação dos militares. A massa seguiu cantando e entoando gritos por liberdade até a Plaza de las três culturas, também conhecida como Plaza de Tlatelolco, no centro histórico da cidade.

Armou-se, então, o cenário de um dos dias mais tristes da história mexicana. A multidão continuava cantando enquanto o dia se tornava noite. Com o sol se pondo, por volta das 18 horas, a movimentação na praça foi se alterando, e a presença de militares com carros e tanques começou a ser notada. Em um piscar de olhos, deu-se a tragédia.

Tiros começaram a zunir por todos os lados, e os gritos de protesto foram substituídos por gritos de horror. Corpos começaram a cair. A correria e o desespero aumentavam à medida que as pessoas percebiam o que, de fato, estava acontecendo ali. Era um massacre. Rajadas de balas acertavam quem quer que estivesse no caminho, sem distinção ou piedade.

Crianças estavam entre os manifestantes. Idosos, transeuntes, famílias inteiras. Até militares vestidos à paisana – que, segundo os relatos, iniciaram os disparos – foram baleados pelos tiros vindos de todas as direções. A arquitetura da praça dificultava as tentativas de as pessoas escaparem e contribuía para que aquilo se tornasse cada vez mais uma armadilha. Estavam todos encurralados.

Em poucos minutos tudo mudou. A praça se via repleta de cadáveres empilhados e suja de sangue. As casas mais próximas começaram a ser arrombadas e invadidas pelos soldados, que vasculhavam tudo. A manifestação havia acabado.

Mais tarde, caminhões de lixo recolhiam o que sobrara na praça, deixando claro que, para os que mataram, os corpos sem vida de Tlatelolco eram somente objetos descartáveis. O que se viu após isso foram apenas os sapatos deixados para trás e os cravos despedaçados no concreto. A flor símbolo do amor e da liberdade, que muitos dos manifestantes carregavam, terminou no chão, morta.

O silêncio que veio a tomar conta da cidade no dia seguinte não foi algo exclusivo daquele instante, mas perdurou por muito tempo. Os jornais noticiaram timidamente, dias após o ocorrido, certa balbúrdia controlada prontamente pelos militares. Gustavo Diaz Ordaz Bolaños continuou na presidência até 1970, quando deu lugar a Luiz Echeverría, que havia sido seu secretário de governo na época do massacre de Tlatelolco. Os números de mortos variaram de acordo com a fonte. As oficiais citaram algo em torno de 200, enquanto outros disseram que as vidas perdidas chegaram a 800, mil, ou até mais que isso. Bolaños e Echeverría, os principais alvos dos protestos, eram tidos como os orquestradores da carnificina.

Não fosse o livro “Noite de Tlatelolco”, que Elena Poniatowska publicou em 1971 (três anos após o ocorrido), pouco – ou quase nada – se saberia sobre caso. Em sua obra, a escritora reuniu diversos testemunhos para construir novamente aquela história, o que fez com que muito do que estava por baixo do tapete fosse revelado. O filme “Rojo Amanecer” (Jorge Fons), de 1989, se baseou em alguns desses relatos e foi também importante para informar sobre o massacre.

O ano de 1968 já estava marcado historicamente pela Primavera de Praga, pelo assassinato de Martin Luther King, pela Guerra do Vietnã e pela Revolução Cultural Chinesa. O massacre de Tlatelolco, infelizmente, não obteve a atenção necessária e foi apagado pelo início dos Jogos Olímpicos, que ocorreu normalmente, poucos dias depois.

Segundo a historiadora Sílvia Cezar Miskulin, os jogos foram justamente o principal motivo do acontecido. “A forte repressão ao movimento dos estudantes mexicanos, apoiado por professores e trabalhadores urbanos em geral, foi motivada pela iminência da realização dos jogos olímpicos naquele país (…)”, e completa: “A repressão brutal aos estudantes mexicanos foi justificada internamente pela imprensa conivente com o governo, pela necessidade de ‘ordenar o país’ para receber a Olimpíada”.

Quase 50 anos mais tarde, a Olimpíada volta a acontecer em um país da América Latina. Outra vez, o país-sede vive turbulências: um impeachment contestado por setores sociais, escândalos de corrupção, atrasos nas obras e protestos nas ruas.

Outra vez as Olimpíadas serão capazes de silenciar as tensões sociais, políticas e econômicas?

Por mais que um paralelo seja distante, muito por causa do intervalo temporal, o Brasil vive um clima tenso no âmbito político. O ano de 2013 foi marcado pela Copa das Confederações e pelo início de uma série de manifestações recebidas com truculência e despreparo por parte das autoridades, sempre com a desculpa da “pacificação”, ou levantando a bandeira da manutenção da ordem, assim como se viu no México.

Em 2014, o Brasil sediou a Copa de Mundo de futebol. “Durante a Copa também tivemos uma forte repressão aos movimentos sociais que se manifestaram contrários à sua realização. Tivemos a supressão de algumas liberdades democráticas, com a Fifa delimitando, por exemplo, perímetros das cidades perto dos estádios onde não se poderia manifestar nem circular. Esse ataque às liberdades democráticas no Brasil também foi justificado pelo fato de o país estar sediando um evento esportivo internacional”, continua a historiadora Sílvia Cezar Miskulin, que procura fazer uma pequena projeção para a Rio 2016.

“Com a aproximação da Olimpíada e a aprovação da Lei Antiterrorismo, talvez possamos ver no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, uma repressão policial forte, com o enquadramento dos movimentos sociais, criminalizando-os. O espaço para a crítica e as liberdades democráticas, de manifestação e de reunião, poderia, nesse cenário, ser restringido”.

* materia originalmente publicada no Calle 2 no dia 03/08/2016 http://calle2.com/as-turbulencias-pre-olimpicas-no-brasil-e-no-mexico/




História, Revolução, Literatura e Engajamento: o olhar de Padura

Sílvia Miskulin  |

O escritor cubano Leonardo Padura desde o final dos anos noventa dedicou-se a escrever romances policiais, mas no Brasil tornou-se mais conhecido com a publicação do romance histórico O homem que amava os cachorros. Publicado originalmente em espanhol em 2009, no Brasil foi traduzido e publicado em 2013, pela editora Boitempo, trazendo o relato de três histórias. A primeira aborda a vida de Leon Trotski, grande dirigente da Revolução Russa, então preso, perseguido e desterrado da União Soviética devido à ascensão ao poder de Josef Stalin. Sua história é narrada desde sua prisão em Alma Ata, seu exílio forçado na Turquia, França e Noruega até sua estadia em Coyoacán, no México, onde foi assassinado. Trama central do livro, Padura seguiu o estilo de romance policial dos seus livros anteriores, em que narra a preparação e execução do assassinato de Trotski.

A segunda história é de seu assassino, Ramón Mercader, catalão e militante do Partido Comunista Espanhol, que participou da Guerra Civil Espanhola, sendo recrutado pela NKVD (polícia política soviética), treinado na União Soviética para assumir novas personalidades (Adriano, Jacques Monard, Frank Jason, Jaime López) e a missão de assassinar Trostki a mando de Stalin no México, em 1940.

E por último o personagem fictício Iván Cárdenas Maturell, auxiliar de veterinário e frustrado em sua carreira literária, que conheceu Jaime López (codinome de Mercader) em Cuba nos anos setenta, após o último ter cumprido vinte anos de prisão no México. Mercader primeiro vai para o exílio na União Soviética, e depois passou seus quase últimos dias de vida na ilha.

Neste romance, a vida destes três personagens misturam-se, o real e o imaginário entrecruzam-se por meio de uma densa pesquisa histórica em que Leonardo Padura desvenda a história das revoluções, utopias, verdades, traições e mentiras, e elabora um balanço crítico instigante das experiências revolucionárias do século XX.

Não se trata apenas do assassinato de uma só pessoa (Trotski), mas da perversão da maior utopia da história, com a morte de dirigentes, milhões de militantes, seus familiares e da maioria da direção do partido bolchevique que participou da Revolução de outubro[1], por meio de processos judiciais que eram forjados, uma verdadeira farsa, como posteriormente ficaram conhecidos os Processos de Moscou[2]. O que se estabeleceu com o stalinismo na União Soviética foi um Estado que se baseou no medo e na repressão, na banalização do mal e num modelo totalitário que se impôs por toda a sociedade durante todo o período governado por Stálin, e também perpetuado em alguma medida pelos seus sucessores no poder soviético[3].

A engrenagem de morte que se iniciou nos anos trinta em Moscou não se restringiu à União Soviética, mas atingiu diversos países e períodos distintos, como a Espanha na Guerra Civil Espanhola. A história de Ramón Mercader entrelaça-se com o stalinismo justamente, quando ele recrutado pela própria mãe e treinado pela GPU, passa primeiro a ser informante entre os anarquistas e membros do POUM à serviço dos soviéticos. Posteriormente Mercader atua em sua primeira missão, na logística da operação em que Andreu Nin é preso e assassinado pelos stalinistas e seus homens. Padura mostrou como a intervenção dos soviéticos na Guerra Civil foi fundamental para a derrota dos republicanos, uma vez que estes eram não apenas bombardeados pelos franquistas, mas também pelos comunistas do Partido Comunista da Espanha e os recrutas da GPU, que executaram uma política sistemática de minar as forças do POUM e dos anarquistas do campo republicano.

Como parte desta mesma engrenagem é que Mercader foi enviado ao México pela GPU, primeiro para fazer parte do círculo de amigos e ativistas que viviam ao redor de Trotski, e depois para executar o seu plano vitorioso e solitário de assassinato de Trotski, em 1940. Mercader foi a última cartada do stalinismo, depois da fracassada tentativa de atentado em grupo contra sua residência em Coyoacán, promovida por Siqueiros, pintor muralista e militante do Partido Comunista Mexicano.

Em Cuba, o triunfo da Revolução em 1959 não contou com a liderança do Partido Comunista, mas foi fruto da aliança entre o Movimento 26 de Julho, o Diretório Estudantil Revolucionário e muitos outros grupos de guerrilheiros e ativistas que lutaram conjuntamente contra a derrubada da ditadura de Fulgencio Batista, tanto nas cidades, como na Sierra Maestra. O Partido Socialista Popular (nome do Partido Comunista em Cuba na época) aderiu tardiamente nos últimos meses de 1958 à luta guerrilheira. No entanto, no desenrolar do processo revolucionário os dirigentes do PSP foram assumindo um papel de destaque junto a Fidel Castro e outros líderes do setor guerrilheiro do Movimento 26 de Julho, que assumiram o protagonismo no governo revolucionário.

O processo de institucionalização da Revolução levou a fusão dos grupos políticos já mencionados, que culminou com a formação do Partido Comunista Cubano em 1965, único partido político permitido na ilha até os dias de hoje. Desde então, estabeleceu-se uma relação estreita e direta entre o PCC e os mais altos cargos do governo cubano[4].

No romance O homem que amava os cachorros, o estudante Iván representou uma geração de jovens cubanos que nos anos sessenta participou ativamente da Revolução Cubana e acreditou que o triunfo revolucionário traria melhorias, desenvolvimento econômico e justiça social para a maioria da população cubana. Era um estudante secundário, “romântico convicto”, que cortava cana-de açúcar, semeava café, recebia treinamentos militares para “defender a pátria”, e assistia com muito entusiasmo e euforia as manifestações de apoio à Revolução e ao governo (PADURA, 2013, p. 92-93).

A juventude cubana vivia um total desconhecimento de marcos históricos importantes desses anos: a repercussão mundial negativa da repressão soviética à Primavera de Praga, em agosto de 1968[5]; o massacre de jovens e estudantes na praça de Tlatelolco no México, em outubro de 1968, às vésperas dos jogos olímpicos (MISKULIN, 2008b); a “devastação humana e histórica provocada pela Revolução Cultural” Chinesa[6] (PADURA, 2013, p.93) e sobretudo das novas utopias geradas a partir do movimento juvenil de maio de 1968 na França.

Ainda nos anos sessenta e setenta, a juventude cubana embalada pelo otimismo revolucionário e o puritanismo de seus dirigentes[7], desconhecia algumas vivências culturais de sua época, como por exemplo, as experiências estudantis com maconha e outras drogas, o questionamento do tabu da virgindade, mantendo na ilha um preceito católico na contramão da onda hippie[8], ou ainda a identificação de que os Beatles eram um símbolo proibido da cultura imperialista e não um ícone da rebeldia juvenil[9]. Estas ideias, experiências e informações entravam a conta gotas na ilha, uma vez que a imprensa e a mídia eram controladas fortemente pelo governo, que não tinha interesse em divulgar e fazer circular estes pensamentos e fatos políticos e culturais em Cuba.

No ano de 1970, o governo cubano estipulou a meta da safra de cana de açúcar em 10 milhões de toneladas, o que exigiu uma grande mobilização nacional de trabalho voluntário da população. Como muitos jovens cubanos de sua geração, Iván passou quatro meses cortando cana-de açúcar para contribuir com o seu sacrifício para atingir a safra. Na sua visão da época, iria contribuir para que Cuba saísse do subdesenvolvimento. No entanto, a safra de 10 milhões não foi alcançada[10] e “as exigências ideológicas tornaram-se mais patentes” (PADURA, 2013, p.93).

Em 1971, as depurações por motivos ideológicos, religiosos ou sexuais tornaram-se rotina com a campanha de parametrización dos professores, estudantes, escritores e artistas após a realização do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura. A parametrización foi a base da política cultural oficial desses anos e estabelecia rígidos parâmetros ideológicos e morais que deveriam direcionar a conduta dos intelectuais.

As resoluções deste Congresso deixaram bem claro que o comprometimento ideológico dos intelectuais, professores e da juventude com as diretrizes estabelecidas tinham que ser total: os homossexuais deveriam ser afastados de suas funções docentes e não poderiam representar Cuba no exterior, por acreditarem ser um péssimo exemplo para a juventude e por não estarem dentro dos parâmetros estabelecidos para a construção do homem novo. A homossexualidade foi considerada nas resoluções desse Congresso um “desvio”, uma “patologia social”, uma “atividade anti-social” que não seria admitida (MISKULIN, 2009, p. 229). Cuba estava nesta época na contra-mão dos movimentos de afirmação e orgulho gay que despontavam nos Estados Unidos (QUIROGA, 2000).

Também os religiosos sofreram perseguições, afirmadas nas resoluções do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, sobretudo as religiões afro-cubanas. Os artistas e escritores deveriam utilizar suas obras de arte como uma “arma” a serviço da Revolução, não sendo toleradas quaisquer dúvidas, questionamentos, pessimismos ou críticas negativas. Era uma época “assolada pela torrente de destituições, marginalizações, expulsões e padronizações de importunos de toda a espécie…”, o que gerava um clima de “intolerância e censura a níveis siderais” (PADURA, 2013, p. 92).

Iván naquele momento não percebeu tudo isto e sentia-se um escritor de seu tempo. Justamente no ano de 1971 Iván publicou seu primeiro livro de contos, O sangue e o fogo, de qualidade “calamitosa”, mas que tinha recebido menção honrosa num concurso de jovens escritores devido aos assuntos abordados: esforçados cortadores de cana, milicianos que lutavam em defesa da pátria, operários que buscavam superar seus conflitos e sua herança do passado, para se transformarem em homens novos.

Percebe-se claramente como Padura sem nomear, relata ficcionalmente os anos gris, período que de acordo com Desiderio Navarro durou aproximadamente quinze anos (entre 1968 e 1983) e caracterizou-se como uma “verdadeira cruzada contra a intervenção crítica da intelectualidade” (NAVARRO, 2002, p. 694-703). Nesse período, a literatura realista socialista cubana tornou-se a forma preferida pela política cultural oficial.

O realismo socialista foi uma política cultural predominante na União Soviética durante o stalinismo, em que as obras literárias e artísticas publicadas eram didáticas, otimistas em relação ao futuro do socialismo e louvavam os grandes feitos alcançados pós-Revolução no território soviético (SCHNAIDERMAN, 1997). Em Cuba, buscou-se incentivar este tipo de literatura e arte realista socialista, como o fez, por exemplo, Mirta Aguirre em 1977, ao defender o “realismo socialista cubano” (AGUIRRE, 1987, p. 306-307). Padura chamou este tipo de literatura de “senflituosa”, ou seja, uma literatura sem conflito, produzida sob o peso da ortodoxia, “sem vislumbre de tensão social ou humana que não fosse permeada pelas influências da propaganda oficial” (PADURA, 2013, p. 142).

Nos anos setenta, o controle do comportamento público dos jovens ia desde a largura das suas calças, ao comprimento do cabelo masculino, à crítica daqueles que gostavam da cultura ocidental e norte-americana. Nas resoluções do Congresso, a normatização do comportamento da juventude tornou-se evidente, com a condenação das “extravagâncias, aberrações e exibicionismo”. Para Padura, caiu-se num “obscurantismo quase medieval”, com “pretensões de lobotomia” (PADURA, 2013, p.94). Rafael Hernández analisou que houve a partir de 1972 em Cuba uma imitação do modelo soviético, em que a transposição de sistemas soviéticos para a ilha acabou por se introduzir na cultura e no pensamento cubano (HERNÁNDEZ, 1999, p. 62).

Voltando ao romance de Leonardo Padura, o “primeiro tombo” de Iván veio ainda no ano de 1971, quando as perseguições e depurações entre os professores universitários foram muito intensas. Dois de seus professores haviam sido suspensos, já que confessaram “professar crenças religiosas” e por isto foram afastados e transferidos da Universidade por decisão ministerial e partidária. Pouco tempo depois, duas professoras foram expulsas “devido às suas preferências sexuais invertidas” (PADURA, 2013, p.94), ou seja, formavam um casal homossexual.

Iván cometeu um duplo pecado, como ele próprio reconheceu: ingenuidade e sinceridade. Comentou com seus amigos universitários que certamente haviam outros professores que continuavam dando aulas e também não se enquadravam tanto no “parâmetros” decididos pelo governo, ou que tinham uma qualidade inferior, mas graças “ao cartão vermelho” que traziam no bolso, ou seja por serem militantes do PCC, continuavam a dar aulas na Universidade. Certamente seu comentário foi considerado inoportuno e algum tempo depois Iván não foi aceito como membro da União de Jovens Comunistas (UJC), já que “não tinha sido capaz de superar alguns problemas ideológicos”, além de faltar “maturidade e capacidade para compreender as decisões tomadas por companheiros responsáveis” (PADURA, 2013, p. 94).

Em 1973, Iván escreveu um conto diferente, mais longo que os anteriores, tratava da história de um lutador revolucionário que sentia medo e para não se transformar em um delator, suicida-se. Ainda estudante universitário, Iván levou o conto e submeteu-o a mesma revista universitária que havia publicado seus primeiros textos e o elogiado como uma grande promessa literária nacional. Ao final de uma semana, o diretor da revista o recebeu, e foi aí que ocorreu o seu segundo tombo e o mais doloroso de sua vida: “como você se atreve a nos entregar isto?”, ele perguntou a Iván (PADURA, 2013, p. 96). O conto foi considerado “inoportuno, impublicável, inconcebível e quase contrarrevolucionário.” O diretor sugeriu a Iván que refletisse mais quando fosse escrever, porque “a arte era uma arma da revolução” (PADURA, 2013, p. 96).

A censura ao conto combinou-se com a autocensura introjetada pelo jovem escritor, que passou a sentir muito medo, pois faltavam apenas quatro meses para concluir sua licenciatura. Este medo foi tão grande, um Medo com maiúscula, como o nomeou Padura, que Iván nunca mais conseguiu escrever nada: “Nesse dia, o que aconteceu na realidade foi que me arruinaram para o resto da vida, porque, além de agradecido e cheio de medo, saí dali profundamente convencido de que aquele conto nunca deveria ter sido escrito, que é o pior que podem levar um escritor a pensar” (PADURA, 2013, p. 96).

Como castigo, ao se formar Iván foi enviado para trabalhar como chefe de redação de radio em Baracoa (afastamento muito típico nesta época de “parametrização”). Responsável por redatar os boletins jornalísticos da emissora, Iván tornou-se um cínico em sua profissão, pois para sobreviver e agradar aos poderosos locais, contava mentiras nos seus boletins, ao relatar planos mirabolantes, metas atingidas, sacrifícios feitos e grandes realizações regionais, tudo para agradar os chefes e caciques locais. Não poderia faltar também as noticiais nacionais publicadas no jornal do Partido e da Juventude. Para Iván, sua estadia em Baracoa foi um “desterro na Sibéria tropical” (PADURA, 2013, p.91).

Ao voltar a Havana em 1975, Iván aceitou o trabalho de revisor na revista Veterinária Cubana, trabalho que escolheu devido a sua pouca visibilidade. Passou a frequentar as praias de Havana em temporadas fora do verão para ver o por do sol e jogar squash.

No ano de 1977, mais uma vez a parametrização se faz presente em O homem que amava os cachorros. Logo depois do casamento de Iván, seu irmão William, sete anos mais novo e que havia terminado o primeiro ano da Faculdade de Medicina, foi denunciado em um núcleo do Partido de ter um caso com seu professor de Anatomia e serem um casal homossexual. Logo se criou uma comissão disciplinar com representantes do Partido, da Juventude Comunista, do Sindicato e da Federação de Estudantes, nas entrevistas o professor negou as acusações, mas William, sobre pressão, acabou por declarar sua homossexualidade.

Apesar da excelente atuação docente do professor e de William também ser um aluno exemplar, a comissão decidiu expulsar o professor do Partido e William foi afastado por dois anos da Universidade e não poderia mais cursar a Faculdade de Medicina. Para completar, seus pais o expulsaram de casa. William lutou durante dois anos para recuperar seu lugar na Universidade, depois de inúmeras frustações e decepções, fugiu com o ex-professor numa lancha roubada com destino aos Estados Unidos. Seus corpos nunca foram encontrados, apenas a lancha virada numa região marítima ao norte de Cuba. Padura esclarece na própria obra sua visão sobre como o episódio relaciona-se com fatos da história cubana: “Sei que a história da queda de William – tal como muito de meus tombos – pode parecer exagerada, mas a verdade é que durante muitos anos foi comum a muita gente” (PADURA, 2013, p. 148).

Ao passear na praia de Santa María del Mar, Iván conheceu “o homem que amava os cachorros”, em 1977. Ele levava à praia dois borzóis (galgos russos), que logo chamaram a atenção do escritor, agora revisor da revista veterinária. Alguns encontros mais tarde e Iván iria saber o nome do dono dos galgos, Jaime López, na verdade codinome que Ramón Mercader usou durante sua estadia em Cuba. Mais alguns encontros depois, López começou a contar a Iván a história de Mercader, como se fosse um amigo dele, pois estava sentindo a proximidade da sua morte e queria compartilhar a história de Mercader com alguém. Antes de contá-la, fez Iván prometer que jamais contaria ou escreveria a história, o que de fato não se cumpriu. Ele acabou redigindo muitos anos depois alguns rascunhos do relato que o aterrorizara, apesar de todo medo que sentia. A história só foi escrita muito tempo depois, por seu amigo Daniel Fonseca Ledesma. A morte de Iván, de forma trágica, com o desabamento do apartamento em ruínas que vivia sob sua cabeça, simbolizou “a ruína de uma cidade inteira” e de toda uma utopia.

Ainda hoje não se sabe porque Ramón Mercader deixou seu exílio na União Soviética e passou seus últimos dias em Cuba. Também não se conhece qual foram os acordos entre o governo soviético e o governo cubano para que o assassino de Trotski fosse recebido em Havana no final dos anos setenta. Este desconhecimento revela que a cultura do medo que foi erigida na União Soviética também vingou em Cuba, país que é peça chave para desvendar este mistério, mas que continua ainda hoje governada pelo partido único e pela família Castro, responsável por selar estes acordos.

Nos debates em que participou em setembro de 2015 em São Paulo, por conta do lançamento de seu livro Hereges, Leonardo Padura revelou que a “ignorância programada” em que viveu muitos anos em Cuba e seu desconhecimento das figuras de Leon Trotski e Ramón Mercader, sobretudo do fato do último ter vivido clandestinamente quatro anos na ilha nos anos setenta, foi um dos motivos que o levou a pesquisar e criar O homem que amava os cachorros. Relatou ainda que durante os anos setenta, enquanto frequentava a Universidade de Havana, procurou nas bibliotecas pela obra de Trotski em Cuba e ela simplesmente não existia. Segundo Padura, havia apenas dois livros publicados sobre Trotski, com a visão oficial stalinista soviética: num deles Trotski era chamado de traidor, no outro de falso profeta.

Quando Padura esteve no México pela primeira vez, em 1989, visitou a casa onde Trotski viveu e foi assassinado em 20 de agosto de 1940 em Coyoacán. Na época a casa estava bastante abandonada, mas hoje ela se tornou um museu. Esta visita o tocou profundamente, levando-o ainda mais a pesquisar sobre a figura de Trotski e segundo ele, foi a partir daí que escreveu a primeira palavra da obra que iniciaria quinze anos depois.

O homem que amava os cachorros foi publicado pela primeira vez em 2009, na Espanha, pela Tusquets editora, em Barcelona. Posteriormente foi editada também na França, Itália e em Portugal. Mas o autor revelou que não acreditava que iria ser publicada em Cuba. No entanto, entregou a obra para a direção da Uneac, Unión Nacional de Artistas e Escritores Cubanos, que a editou em 2011 e lançou-a na Feira do Livro em Havana. A tiragem foi oficialmente de quatro mil exemplares e havia fila para comprá-la desde a madrugada, antes da abertura do evento. No entanto, venderam apenas de 800 a mil exemplares no lançamento e o restante sumiu ou jamais foi publicado, conforme o escritor explicou, mostrando como a censura ainda existe em Cuba.

O Premio Nacional de Literatura Cubana, maior reconhecimento existente ao escritor em seu país, foi recebido por Padura em 2012. Novamente, graças ao prêmio, saiu uma segunda edição de quatro mil exemplares do romance, em que mil são vendidos na tarde do lançamento e o restante não se tem notícias. Trata-se de uma política cultural que permite publicações, mas depois as censura, criando uma esfera de invisibilidade do trabalho intelectual que acontece tanto para o escritor cubano que reside na ilha, como para aqueles que residem fora de Cuba. Trava-se uma luta constante e permanente entre a visibilidade e a invisibilidade da cultura cubana e dos intelectuais críticos que persiste até os dias de hoje.

 

Bibliografia:

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            —— “O ano de 1968 em Cuba: mudanças na política internacional e na política cultural”. Esboços, n. 20. Florianópolis, UFSC, segundo semestre de 2008a, p.47-66.

            —— “As repercussões do movimento estudantil de 1968 no México”. In: Anais do VIII Encontro Internacional da ANPHLAC, 2008, Vitória. VIII Encontro Internacional da ANPHLAC. Vitória: UFES, 2008b, p. 1-11.

NAVARRO, Desiderio. “In medias res publicas. Sobre los intelectuales y la crítica social en la esfera pública cubana.” In: HERNÁNDEZ, Rafael; ROJAS, Rafael (org.). Ensayo cubano del siglo XX. México: Fondo de Cultura Económica, 2002, p. 689-707.

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Trad. de Helena Pitta. São Paulo: Boitempo, 2013.

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Notas:

* Artigo publicado originalmente na Revista Diálogos, v. 20, n. 1, janeiro/abril 2016, p. 12-19.

[1] Stálin comandou uma campanha ostensiva contra os dirigentes do bureau político da época de Lenin. Bukharin, Zinoviev, Kamenev, Rykov, Radek, entre outros, foram afastados da direção, presos e mortos (TROTSKI, 1977).

[2] Os Processos de Moscou orquestrados a mando de Stalin entre 1936 e 1938, condenaram cerca de cinco milhões de soviéticos à prisão, à morte ou a campos de trabalhos forçados (FERRO, 1984).

[3] Segundo Henrique Carneiro, o regime de Stálin tornou-se o modelo por excelência do totalitarismo contemporâneo: “O fuzilamento se tornou banal, a tortura um método, a adulação do chefe uma devoção sagrada, a abdicação de si e de todos os valores em prol exclusivamente da obediência cega se alçou a um nível nunca visto, o espírito crítico do marxismo destruído pelo servilismo incondicional do dogma e da verdade revelada por um profeta vivo e reinante, que impunha sua autoridade sem qualquer traço de qualidades intelectuais ou mesmo de uma biografia exemplar” (CARNEIRO).

[4] Claudia Hilb analisou os anos sessenta em Cuba, chamando-a de “década revolucionária”, quando foi construído o processo de igualitarismo radical e concentração de poder na ilha (HILB, 2010).

[5] A Primavera de Praga, movimento que buscava transformar o regime em um socialismo democrático na Checoslováquia, foi duramente reprimida em 21 de agosto de 1968, pelos tanques da União Soviética. Nos primeiros dias da repressão, a imprensa cubana noticiou o episódio, solidarizando-se com os manifestantes em Praga, já que havia uma simpatia na ilha em relação ao movimento checo. O discurso de Fidel Castro, em 23 de agosto, definiu o apoio cubano à invasão soviética, e surpreendeu muitos cubanos, mas também grande parte da intelectualidade da esquerda mundial, simpática a Cuba e à “nova esquerda” (MISKULIN, 2008a).

[6] A Revolução Cultural significou uma política voltada ao igualitarismo na China entre 1965 e 1967, em que os intelectuais foram obrigados a rever seu papel na sociedade, deu-se o combate à burguesia, infiltrada no Partido e o voluntarismo político esteve em alta. Conduzido por Mao Ze Dong, o processo atacou as elites, os técnicos, os intelectuais e a cultura tradicional. A figura de Mao transformou-se em símbolo para movimentos de contestação de juventude, que buscavam uma ruptura com a burocracia da União Soviética (MISKULIN, 2009, p. 187).

[7] Em Cuba, o governo criou em meados dos anos sessenta as Umaps, Unidades Militares de Apoio à Produção, que eram campos de trabalhos forçados na região de Camaguey, onde os jovens rebeldes, homossexuais, hippies e religiosos eram levados forçadamente e obrigados a trabalharem na plantação da cana de açúcar como forma de “reabilitação” (MISKULIN, 2009).

[8] A revolução cultural que estava em curso nos anos sessenta no movimento de juventude, promovia a “liberação sexual”, a emancipação das mulheres, o consumo de “drogas”, o amor livre, a rebeldia e a dissidência pessoal. Hobsbawm mostrou como as revoluções marxistas desenvolveram um aspecto puritano e a liberdade pessoal e a rebeldia tornavam-se inconvenientes (HOBSBAWM, 2003).

[9] Havia a proibição de veiculação nas rádios e em outros meios de comunicação de certos grupos de rock, como os Beatles, considerados um perigo para a disseminação de símbolos, valores e comportamentos yanquis entre os jovens (VILLAÇA, 2004, p. 113).

[10] O fracasso econômico da safra de 10 milhões em Cuba foi seguido da entrada do país no bloco econômico liderado pela União Soviética e composto pelos países do Leste Europeu, o COMECON. Cuba assumia a posição de exportadora de açúcar e importadora de petróleo e produtos industrializados (MESA-LAGO, 1979).




Entrevista “A história de Cuba” com Silvia Miskulin (vídeo)

Silvia Miskulin

Entrevista para o Programa História, com a jornalista Mônica Teixeira. Nela, é abordada a História de Cuba no século XIX , os movimentos de independência e a relação com os Estados Unidos.