Morreu István Mészáros

Por Betto de la Santa, Colunista do Blog Esquerda Online

Para além do Capital, a investigação sobre a Teoria da Alienação e a obra sobre Sartre são até hoje uma inspiração. É um daqueles autores que se passa a ler sistemática e metodicamente, de perto e em conjunto. Não poderia deixar de ser assim após os grupos de estudos, cátedras livres e seminários de pesquisa conduzidos por Maria Orlanda Pinassi na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP. Foram jornadas intensas, apaixonadas, de descoberta intelectual e desafio político.

Mais recentemente, já sob orientação de Marcos del Roio, foi possível conhecê-lo pessoalmente, em uma série de novos lançamentos, seus, e de Lukács, um de seus mestres mais bem-quistos. Nas atividades no campus da UNESP encontrei uma personalidade simples e afável, que falava um italiano bastante musical apesar de se expressar em um inglês notavelmente magyar. (E, como os mediterrâneos, falava com as mãos.) Detestava deferências, paparicos ou convescotes. Uma humanidade ímpar. Surpreendente.

A influência que legou, no Brasil, não deixa de ser algo difícil de explicar. Um país com índices de pauperismo e analfabetismo record que produziu best-sellers de alta filosofia, alta política e alta historiografia de um filósofo húngaro que pensava em alemão e escrevia em inglês. Aliás, uma prosa rigorosa, densa, difícil. E poderosa. Deixo cá um abraço forte a meus muitos amigos meszarianos, a meu ver, o melhor dos discípulos de Lukács. Hoje me somo a vocês e, com vossa licença poético-afetiva, sou eu um pouquinho, também, feito vocês. Ou um trotskista gramsciano que respeita e admira profunda e extensamente vosso trabalho, a valer. Va bene?

Sua relação com os movimentos sociais do trabalho, sua irrefreável perspectiva antirreformista / anticonciliatória, a crítica crítica das experiências social-democrata e stalinista no Séc.20, sua paixão vigorosa pelo gênero humano — das belas artes à vida cotidiana– e sobretudo sua convicção inabalável na capacidade de se constituir um antagonista coletivo ao sistema do capital, sua alma profundamente anticapitalista e socialista não deixam lugar a dúvidas. Perdemos um intelectual revolucionário. Não conheci a figura humana, nem de longe, mas sei já de seus escritos, como a palma das mãos. | Mészáros, presente.




Gramsci e Trotsky em Edmundo Dias e as suas «Questões do Modo de Vida»

Apresentar Edmundo Dias não seria uma tarefa fácil em qualquer contexto. Mas talvez seja mais difícil ainda após a afirmação de uma situação política mundial tão avessa a tudo o que seu nome representa, para nada dizer da conjuntura brasileira, tão conturbada. Ainda bem que não é bem isso a que ora nos propomos. Quem quiser tomar um contacto inicial – com sua vida e obra – pode aceder ao Especial reagrupado pelo marxismo21:

Este pequeno fragmento – na verdade um texto, primeiramente publicado na revista Universidade e Sociedade* – versa sobre um assunto ao mesmo tempo fascinante e muito pouco explorado pela esquerda global. Aqui Edmundo trata sobre aquilo que – em diferentes contextos – Gramsci e Trotsky chamavam as “questões do modo de vida”.

O «Byt», que o famigerado formalista russo, Roman Jacobson, já afirmou que seria um destes termos mais entranhado e inexplicável da mais profunda alma russa, em Antonio Gramsci encontrou uma bela e útil tradução aos idiomas europeus ocidentais: seriam os «modos de se viver, pensar e sentir a vida

Com tal solução Gramsci evita com profundo conhecimento de causa uma destas díades que a ordem do capital teria imposto à concepção de cultura e suas divisões anacrônicas, por um lado, e por outro, realiza uma leitura muito atentiva dos materiais, enquêtes e investigações levadas a cabo por Leon Trotsky sobre o Byt e a literatura na URSS dos anos 1920.

Faz-se necessário”, segundo Edmundo, “desenvolver e trabalhar o conceito de ‘modo de vida’ que atualiza e dá historicidade aos conceitos de modo de produção e formação social. O conceito de modo de vida está – ‘em estado prático’ – nas análises de Gramsci e Trotsky sobre a constituição seja do novo americanismo estadunidense, seja da nascente sociedade soviética.”

O texto a seguir é uma pequena e densa reflexão crítica que guiava as investigações de Gramsci no Ocidente e Trotsky em relação à Rússia pós-revolucionária. Afinal de contas, “por que fomos derrotados?”. Edmundo Dias foi o precursor no Brasil do trabalho teórico de fusão alquímica entre os marxismos de Antonio Gramsci e Leon Trotsky. Particularmente este assunto teria maiores desdobramentos em sua última obra**. Gostaria de agradecer Alberto Luis, pelo constante intercâmbio, Thyago Villela, pelas afinidades investigativas e Renata Maffezoli, por disponibilizar o Arquivo do ANDES, sindicato que Edmundo ajudou a construir desde o princípio.

A equipe do Blog Esquerda Online deseja a seu público uma proveitosa leitura.

Americanismo e revolução russa: formas históricas e revolução passiva

 

Edmundo Fernandes Dias

           

Na sua revolução clássica, a burguesia foi levada, pela ação de uma direção político-intelectual jacobina, muito além das suas reivindicações classistas: varreu do mapa as instituições feudais e preparou o advento de uma cidadania e de uma institucionalidade adequadas à expansão capitalista – de forma progressiva – criando, como disse Marx, um mundo à sua imagem. Nos momentos posteriores, após a revolução francesa, em todos os processos de transformação da ordem no sentido capitalista, os burgueses não puderam aliar-se mais às classes subalternas. A presença destas últimas, na cena histórica, foi simbolizada tanto na política, na filosofia quanto na historiografia como o Terror. Assim, as novas adequações necessárias à constituição da ordem capitalista fizeram-se, sob direção reacionária, via acordos com as velhas classes dominantes e radicalmente contra as classes subaternas. Foram as chamadas “revolução pelo alto” ou via prussiana. A nova ordenação jurídico-econômica foi instaurada, desde logo, como elemento repressivo aberto. Estamos, pois, no terreno clássico da revolução passiva. Mesmo em Estados liberais, a luta dos subalternos levou a que, necessariamente, se repensasse a institucionalidade burguesa, mesmo levando-se em consideração seus estreitos limites.

O século vinte conheceu, desde o seu início, a tentativa exitosa – com o contraponto do movimento revolucionário de 17 – de integrar as classes trabalhadoras à ordem do capitalismo. Esta é uma das condições fundamentais da renovada expansividade do capital. Do americanismo às chamadas novas formas de gestão (toyotismo, acumulação flexível, etc.), vive-se a tentativa – necessária – do capitalismo de impor medidas de contratendência ao desenvolvimento do seu antagonismo básico com as classes trabalhadoras. Para além da limitação do direito ao antagonismo, tratou-se permanentemente de capturar os saberes e desejos dos trabalhadores. Em suma tudo passou pela castração da subjetividade das classes subalternas. O que se tentou negar foi a própria possibilidade da existência, como classe, dos trabalhadores.

A guerra mundial e a revolução de outubro atualizam a crise capitalista e a sua necessidade de reestruturação. Pensar as relações internacionais – e as relações claristas no interior de cada país – como uma continuidade dos traços constitutivos do capitalismo passa a ser um absurdo. E não estamos falando apenas das alterações impostas pelo imperialismo. A Revolução Russa – com todas as suas limitações – implica uma nova qualidade da cena. Não é mais possível pensar a cidadania como algo permanentemente em expansão. O horizonte ideológico da belle époque só é possível com a agudização da exploração colonial e da subalternidade crescente de um sem número de países formalmente independentes.

Examinar a relação entre política e economia depois da Guerra e da Revolução russa é pensar o nexo entre americanismo e revolução passiva. As resistências das classes subalternas buscam impor limites à ação capitalista. É necessário redimensionar as formas da extração da mais-valia, da obtenção do consenso nos processos produtivos, eliminando toda e qualquer presunção de autonomia dos trabalhadores na produção, por isso mesmo o americanismo foi a figura dominante no século XX. A revolução passiva implicou a redefinição das formas de estruturação do capitalismo (da noção de cidadania ao modo de realizar a produção e do modo de vida) e correspondeu à necessidade de impor um conjunto de medidas de contratendência à queda da taxa de lucros e de tentar neutralizar os antagonismos no interior do conjunto do bloco capitalista.

Foi no interior da própria sociedade capitalista que esse antagonismo se expressou e viabilizou o projeto de uma subjetividade histórica alternativa. Para tal, foi necessária a “existência de forças produtivas tendentes ao desenvolvimento e à expansão, movimento consciente nas massas proletárias dirigido a substanciar com o poder econômico o poder político, vontade nas massas proletárias de introduzir na fábrica a ordem proletária, de fazer da fábrica a célula do novo Estado, e de construir o novo Estado como reflexo das novas relações industriais no sistema de fábrica”. [1] Processo que expressava uma dupla virtualidade: vitória do capital ou do trabalho.

Até 17, o antagonismo dos trabalhadores não assumiu a forma estatal. A Revolução russa colocou-se no campo da materialização desse antagonismo e apresenta-se ao conjunto do planeta como possibilidade real e não mais como utopia. Produto desse antagonismo em escala universal a revolução russa, diante da impossibilidade de expansão do processo revolucionário na Europa – e, em especial, nos países capitalistas avançados – acaba por refluir e “nacionalizar-se”, isto é, perde sua abrangência no plano material. Restou, porém, sua imensa capacidade de iluminação ideológica.

Entre os vários problemas colocados pela construção da revolução socialista, um dos mais importantes foi a forma da construção da nova classe trabalhadora. [2] O antigo proletariado restrito às grandes cidades russas foi, de um modo ou de outro, praticamente eliminado: pelas tarefas assumidas no processo revolucionário, pela sua dispersão no imenso território a ser governado, pela morte na luta face à imensa guerra civil, aos contra-revo­lu­cio­ná­ri­os. De todo modo, surge um novo proletariado industrial, processo que envolveu o conjunto das classes subalternas. Esse processo foi decisivo: nos países capitalistas, ele foi realizado em pelo menos três séculos, e, na URSS,  levará menos de uma década. Da sua resolução, entre outras coisas, resultou uma modificação vital: o da correlação de forças no interior da aliança operário-camponesa.

Essa construção realizou-se sob forte inspiração taylorista. Isso foi problemático em especial se se ignora a materialidade classista do processo de trabalho e das formas de gestão vinculadas a este. Nunca é demais lembrar que, apesar dos claros ensinamentos de Marx sobre a técnica capitalista, a maior parte dos revolucionários que se segue (aí incluindo Lenin) [3] acabou por considerar a técnica como neutra, ao aplicar na construção revolucionária as formas de gestão e as técnicas produtivas vividas nos países capitalistas mais avançados.

A revolução russa implicou na tentativa da implementação de uma nova hegemonia; um novo conformismo – no sentido gramsciano – teve que ser criado. Todo modo de produção cria, para a sua existência, as condições de elaboração do seu trabalhador e do seu cidadão. São, na realidade, elementos que se traduzem no cotidiano da materialidade e expressam o modo de vida, isto é, os hábitos, a maneira de agir, pensar, viver, que dão automaticidade ao comportamento dos homens. Implicam em uma subjetividade e uma objetividade. São, em suma, a tradução das ideologias vividas nesta ou naquela sociedade na sua imensa e radical contraditoriedade. O processo revolucionário é, pois, o choque das subjetividades materializadas,

trata-se da luta entre ‘dois conformismos’, isto é, de uma luta de hegemonia, de crise da sociedade civil. Os velhos dirigentes intelectuais e morais da Sociedade sentem o chão faltar sob os pés, percebem que suas ‘prédicas’ se tornaram precisamente ‘prédicas’, isto é coisas estranhas à realidade, forma pura sem conteúdo (…): donde o seu desespero e as suas tendências reacionárias e conservadoras: dado que as formas particulares de civilização, de cultura, de moralidade que eles representaram se decompõem, eles gritam contra a morte de toda civilização, de toda cultura, de toda moralidade e demandam medidas repressivas do Estado ou se constituem em grupos de resistências afastados do processo histórico real, aumentando em tal modo a duração da crise, dado que a ultrapassagem de um modo de viver e de pensar não pode verificar-se sem crise. Os representantes da nova ordem em geral, por outro lado, por ódio ‘racionalista’ ao velho, difundem utopias e planos cerebrinos. Qual o ponto de referência para o movo mundo em gestação? O mundo da produção, o trabalho. O utilitarismo máximo deve ser a base de toda análise dos institutos morais e intelectuais a criar e dos princípios à defender: a vida coletiva e individual deve ser organizada para o rendimento máximo do aparelho produtivo. O desenvolvimento das forças produtivas sobre novas bases e a instauração da nova estrutura sanearão as contradições que não podem faltar e tendo criado um novo ‘conformismo’ de base, permitirão novas possibilidades de autodisciplina, isto é, de liberdade mesmo individual. “ [4]

O processo revolucionário russo foi, para Gramsci, a última revolução do século XIX. Ela foi marcada pela distinção morfológica de Ocidente e Oriente. Esta distinção, freqüentemente substancializada por um sem número de críticos, refere-se às diferentes formas dos processos revolucionários em relação às combinações muito diversas dos nexos entre política e economia nas duas áreas e não a tradução mecânica de formas preferenciais de fazer política; sequer a negação abstrata da possibilidade revolucionária no Ocidente. Assim, a simples oposição formal entre as estratégias de “guerra de posição” e “guerra de movimento” reduz e dogmatiza o campo da política e da teoria. Ao negar a priori a “guerra de posição” colocam-se as classes subalternas no puro terreno do adversário. No seu campo minado.

No seu processo histórico de realização a revolução russa, vivendo o seu momento de hegemonia, teve que construir seu conformismo e seu homo œconomicus. E vai implementar, contraditoriamente, uma gestão e uma produção em moldes taylor-fordistas. Estava co­lo­ca­da em cheque a própria possibilidade da sua realização como nova civilidade.

Um dos problemas fundamentais é que o taylorismo não era neutro e tratava de construir uma nova classe trabalhadora para o Capital. À quebra das organizações sindicais, forçada pela coerção, pelos métodos policiais, o taylorismo acrescentou e impôs a absorção de uma nova subjetividade. Essa combinação exigia uma modificação fundamental: os trabalhadores deveriam abrir mão do controle que ainda possuíam sobre a produção e passar a executar o trabalho a partir da objetividade do capital. Objetividade centrada na eliminação das porosidades do sistema e na reconstrução das lógicas operativas. O americanismo (fordismo + taylorismo) veio não apenas para quebrar essa resistência, mas para ser o laboratório das novas experiências de subsunção real do trabalho ao capital.

Ford introduziu um maior controle ideológico sobre o Trabalho. Da sexualidade à composição da família, passando pelo patriotismo e a religião, o novo trabalhador passou a ser um mero servidor da produção capitalista. A família deixou de ser o elemento socializador básico, função que passou à fábrica. As formas familiares, os tempos e os gestos, a sexualidade, a convivência disciplinada, tudo isso passou a ter uma grande automaticidade. Algumas das idéias caras ao neoliberalismo têm aqui sua origem: entre outras a possibilidade do sindicato empresa acoplado com a prática da Família Ford. Assim Trabalho e Vida Pessoal se imbricam fortemente tentando engolfar o conjunto da personalidade do trabalhador. A subordinação é, agora, quase total. Introduz-se, neste processo, tanto a coerção brutal quan­to o prêmio (o “five dollars day”). O Taylor-fordismo é, a um só tempo, um conjunto de técnicas de gestão e de produção e um modo de vida, criou-se o american way of life[5] : mais que propaganda ele é condição do domínio do capital, uma ideologia constituidora do real. Para Gramsci o americanismo apresentava-se como processo de diferenciação em relação aos Estados regidos pelo imperialismo. Taylor e Ford buscam alterar o padrão societal. Repensa-se não apenas as práticas fabris mas, e principalmente, suas condições de existência.

Aqui está colocada uma novidade radical. Enquanto Gramsci visualizou o americanismo como momento de ofensividade do capital, como tendente a ampliar a expropriação da principal força produtiva (o trabalhador), os teóricos da III Internacional viam, ao final da década de vinte, apenas, um período de estabilização relativa do capitalismo.

A forma americana exigia, desde logo, uma composição demográfica racional, a não existência de “clas­ses numerosas sem uma função essencial no mundo produtivo, (…) classes absolutamente parasitárias” [6] A existência dessas classes, criadas por séculos de lutas, representa, na Europa e, em particular na Itália, uma “camada de chumbo”, um enorme contingente populacional cuja função era basicamente política. A sua inexistência na América tornou, assim,

“relativamente fácil racionalizar a produção e o trabalho, combinando habilmente a força (destruição do sindicalismo operário de base territorial) com a persuasão (altos salários, benefícios sociais diversos, propaganda ideológica e política habilíssimas) (…). A hegemonia nasce da fábrica e não tem necessidade para exercer-se senão de uma quantidade mínima de profissionais intermediários da política e da ideologia” [7]

A expressão a “hegemonia nasce da fábrica” não é uma referência pertinente apenas ao americanismo. Pelo contrário, ela revela com toda clareza o projeto do L’Ordine Nuovo e dos Comissários de Fábrica turineses. Aí se travou uma imensa luta, na qual a classe operária italiana demonstrou empiricamente a possibilidade da construção de um novo projeto civilizatório: a democracia operária, a cidadania dos trabalhadores. Essa expressão indica, por outro lado, o projeto da construção de uma nova classe operária. Não se trata de, simplesmente, impor uma disciplina absolutamente “de fora para dentro”, mas de construir as condições reais e concretas da socialização das forças produtivas.

Vale a pena acentuar que nem sempre a “hegemonia nasce da fábrica”. Isso ocorre de, pelo menos, duas maneiras: quando a força de trabalho é incorporada ao projeto capitalista ou como veremos abaixo, pela possibilidade da construção da sociedade socialista. No campo do capitalismo, ela pode realizar-se por incorporação ativa (convencimento ativo, em especial pela impregnação da nova racionalidade) ou passiva (neutralização das organizações proletárias). A “hege­monia nasce da fábrica”, quan­do há adequação entre racionalidade estatal e racionalidade econômica: esta última se faz horizonte de classe, fazendo-se identificar como patamar civilizatório. Logo se faz necessária apenas “uma quantidade mínima de profissionais intermediários da política e da ideologia.” [8] A hegemonia não é apenas um projeto político, mas é o campo do possível, do pensável, do praticável. Ela ocorre quando as produções/práticas se pensam na produção/racionalidade material, quando ela é campo de articulação do saber/fazer/sentir/agir.

O americanismo – o projeto de hegemonia burguês – foi, então, a criação de “um novo tipo humano, correspondente ao novo tipo de trabalho e de processo produtivo” [9] , de uma nova “fase da adaptação psico-física à nova estrutura industrial”[10] . Essa adaptação, viabilizada por uma composição demográfica racional, combinou consenso e repressão. Materializou um novo modo de vida. Aparecia mesmo como

“a forma deste tipo de sociedade racionalizada, em que a ‘estrutura’ domina mais imediatamente as superestruturas, e estas são ‘racionalizadas’ (simpli­fi­cadas e diminuídas de número)” [11] .

Falamos de criação de um novo nexo psico-físico, de um novo tipo de trabalhador. Fabricar o novo trabalhador supõe a criação de um novo homem, isto é, a destruição ativa de uma personalidade histórica. Para tal, exigia-se

“uma luta contínua contra o elemento ‘animalidade’ do homem, um processo freqüentemente doloroso e sangrento, de subjugação dos instintos (natu­rais, isto é, animalescos e primitivos) a cada vez novas, mais complexas e rígidas normas e hábitos de ordem, de exatidão, de precisão que tornam possíveis as formas cada vez mais complexas de vida coletiva que são a conseqüência necessária do desenvolvimento do industrialismo” [12] .

Na produção carcerária, Gramsci irá elaborar, de forma absolutamente original, a crítica do americanismo e como esta forma de reestruturação capitalista impactará sobre a revolução russa.

A gestação de uma nova classe trabalhadora e de uma nova cultura, foi, sem dúvida alguma, um processo violento. [13] Gramsci acen­tua essa dolorosa adaptação ao criticar a política de militarização do trabalho – defendida por Trotsky [14] e aceita pela direção bolchevique:

Este fracasso indicava cIaramente as dificuldades da implementação da nova ordem produtiva, compreendida aí, sempre e sempre, a institucionalidade socialista necessária a essa transformação. Era ne­ces­sário redefinir habilidades e prá­ti­cas:

“a vida na indústria exige um tirocínio geral, um processo de adaptação psico-físico a determinadas condições de trabalho, de nutrição, de habitação, de costumes, etc., que não é algo inato, ‘natural’, mas demanda ser adquirido, (…) a baixa natalidade urbana demanda um gasto contínuo e relevante para o tirocínio dos continuamente novos urbanizados, e traz consigo uma contínua mudança da composição sócio-política da cidade, colocando continuamente sobre novas bases o problema da hegemonia.” [15]

Tudo isso levava à necessidade de racionalizar o modo de viver para racionalizar a produção:

O interesse de Leo Davidovich sobre o americanismo; seus artigos, suas pesquisas sobre o ‘byt’ [16] e sobre a literatura, estas atividades eram menos desconexas entre si do que poderia parecer., porque os novos métodos de trabalho são indissolúveis de um determinado modo de viver, pensar e sentir a vida: não se podem obter sucessos neste campo sem obter resultados tangíveis no outro.” [17]

Aqui, o debate sobre as formas de gestão da produção soviética foram decisivos. Os enfrentamentos entre os diversos participantes da revolução russa implicou a rápida eliminação dos sovietes. O problema tal qual vivido pelas direções bolcheviques era o da produção de uma classe operária moderna, capaz de atender as necessidades do período revolucionário. A introdução dessa modernidade industrial tinha porém um limite: sua implementação negava a possibilidade histórica de construir o novo trabalha­dor socialista.

Racionalizar a relação corpo/men­­te, redefinir a sexualidade, disciplinar o gasto das energias físicas e mentais fora do espaço fabril para preservá-las em função de realização do trabalho, ampliar para a sociedade o campo da disciplina da fábrica. Atenção! Trata-se aqui de uma diferença fundamen­tal:

“Na América, a racionalização do trabalho e o proibicionismo estão conectados indubitavelmente: as pesquisas dos industriais sobre a vida íntima dos operários, os serviços de inspeção criados por algumas empresas para controlar a ‘moralidade’ dos operários são necessidades do novo método de trabalho. Quem risse dessas tentativas (ainda se falidas) e visse nisso apenas uma manifestação hipócrita de ‘puritanismo’, se negaria toda possibilidade de compreender a importância, o significado e o alcance objetivo do fenômeno americano, que é mesmo o maior esforço coletivo verificado até agora para criar com rapidez inaudita e com uma consciência de finalidade jamais vista na história, um novo tipo de trabalhador e de homem [18]

Essa mesma necessidade de construção do homem socialista, do novo homo œconomicus, vale dizer do novo conformismo, requer e exige uma das características fundamentais – segundo Gramsci do biennio rosso [19] – do partido bolchevique e de seus militantes:

“impedir que o problema imediato, de hoje, a resolver, se dilate até ocupar toda a consciência, e se torne a única preocupação; se torne frenesi espasmódico que erga barreiras intransponíveis a ulteriores possibilidades de realização.” [20]

Racionalizar o modo de viver e a relação corpo-mente, redefinir habilidades, práticas e a sexualidade é, em suma, uma transformação muito mais complexa do que se poderia supor. A simples “urbani­za­ção” de uma população implicou esforços inauditos como a compreensão de todo o imenso mundo de valores e significações urbanas, que teve que ser apreendido com fulminante rapidez. Tiveram que se alterar os próprios ritmos biológicos. As esferas de lealdade e solidariedade secularmente construídas fo­ram pulverizadas. As cabeças des­sas pessoas vivem permanente um redemoinho. Em grande parte, radicam aqui os problemas dos bolcheviques em relação aos camponeses, problemas resolvidos mi­litar e burocraticamente pela buro­cracia estalinista (ver o processo de coletivização dos campos).

Criação e generalização do novo homem, do homem-massa, do homem-coletivo, viver e atuar com novas dimensões, quando as antigas ainda estão fortemente enraizadas, este é, em suma, o desafio ao qual esses novos trabalhadores foram submetidos e do qual não poderiam escapar. É a construção de uma nova personalidade, radicalmente distinta da anterior. Pense-se em toda a imensa transformação ideológica necessária para o camponês transformar-se em operário no curtíssimo prazo de uma ou duas décadas ou até menos. Na ruptura com os “milenares” hábitos de vida, encontrou-se boa parte das dificuldades da construção da nova civilização, que, obviamente, não seria resolvida por métodos puramente coercitivos: problema obviamente inexistente em grande escala para o americanismo.

O americanismo – esse complexo conjunto de redefinições – implicava, portanto, a construção de um trabalhador em que predominem “as atitudes maquinais e automáticas” [21] . É preciso despedaçar

“o velho nexo psico-físico do trabalho profissional qualificado, que exigia uma certa participação ativa da inteligência, da fantasia, da iniciativa do trabalhador, e reduzir as operações produtivas apenas ao aspecto físico maquinal” [22] .

Isto é, dissociar cada vez mais política e economia, o que cristaliza a relação de subalternidade das classes trabalhadoras. Já a construção do novo homem soviético pressupunha, pelo contrário, construir uma unidade indissolúvel entre política e economia, um homem por inteiro e não fragmentos de humanidade. Fazer a revolução significa criar uma nova sociedade, de modo que se fazia necessário um processo pedagógico de tipo hegemônico e não meramente dominante em termos ideológicos.

Regulação do instinto sexual e fortalecimento da família não são posturas moralizantes ou hipócritas,

“a verdade é que não pode desenvolver-se o novo tipo de homem requerido pela racionalização da produção e do trabalho, até que o instinto sexual não esteja regulado de acordo, não tenha sido também ele racionalizado” [23] .

A estabilidade operária (familiar, sexual, etc.) passa a ser condição essencial de eficácia no trabalho. O “desregramento” sexual e o alcoolismo interessam basicamente co­mo condição de racionalização da produção e não apenas do ponto de vista moral. [24]

“As iniciativas ‘puritanas’ têm apenas a finalidade de conservar, fora do trabalho, um certo equilíbrio psico-físico que impeça o colapso fisiológico do trabalhador, espremido pelo novo método de produção. Esse novo equilíbrio não pode ser senão puramente exterior e mecânico, mas pode tornar-se interior se ele for proposto pelo próprio trabalhador e não imposto de fora, com uma nova forma de sociedade, com meios apropriados e originais.” [25] Daqui parte a reflexão gramsciana da necessidade dessa transformação ser interiorizada e não imposta.

Gramsci dá-nos uma pequena amostra do que acabaria por ser o modelo do novo homem necessário: “uma síntese daqueles… que vêm hipostasiados como caracteres nacionais: o engenheiro americano, o filósofo alemão, o político francês, recriando, por assim dizer, o homem italiano do Renascimento, o tipo moderno de Leonardo da Vinci tornado homem-massa ou homem-coletivo, mantendo, contudo, as suas fortes personalidade e originalidade individuais. Uma coisa à toa como se vê” [26] .

Mas ao invés disso, na medida em que o taylorismo foi uma das tônicas da reestruturação produtiva no espaço soviético, acabou-se por não ver concretizada a proposta dessa nova civilização. O estacanovismo, forma russa do americanismo, acabou por tornar possível um trabalhador coletivo que não colocava a questão da liberdade e da socialização das forças produtivas. O novo homem acabou por ser apenas o homem de ferro. O patriotismo aqui foi representado pelo estalinismo contrafação do marxismo e do internacionalismo. Estes últimos foram reduzidos à uma nacionalização do processo revolucionário que se vê esterilizado pelo socialismo em um só país.

A coerção sobre o trabalhador é, assim, anti-socialismo em estado puro, em especial, porque o socialismo é uma nova civilização que requer a adesão consciente. Veremos adiante a questão do centralismo tal como colocada por Gramsci, que é decisiva neste contexto. Deveria ter-se buscado a construção de uma nova socialização que rompesse com as antigas formas e que tem que ser, de agora em diante, centralizada pela estrutura produtiva. Era necessário

ter um operariado estável, um complexo confiável permanentemente, porque mesmo o complexo humano (o trabalhador coletivo) (…) é uma máquina que não deve ser freqüentemente des­montada e renovada nas suas partes individuais sem perdas ingentes” [27] .

A afirmação feita por Gramsci, segundo a qual esse novo equilíbrio para ser eficiente tem que ser vivido como interioridade, “proposto pelo próprio trabalhador e não imposto de fora”, demonstra a necessidade da introjeção da hegemonia: o atuar segundo normas conformes a esse ambiente produtivo. Essa interioridade é o índice da hegemonia em processo. Do ponto de vista do capitalismo, o american way of life foi a forma que assumiu esse novo modo de ser, necessário ao novo ambiente produtivo o da elevação do trabalhador ao máximo de mecanicidade, diante da qual a humanidade e a espiritualidade do trabalhador, existente ainda no período do artesanato, devem ceder: “precisamente contra este ‘humanismo’ luta o novo industrialismo” [28] . O trabalhador tem que ser desqualificado ao máximo, tornado desnecessário, intercambiável. Do ponto de vista socialista, este foi um dos limites máximos para sua realização como projeto. Aqui, claramente, diferenciam-se o americanismo daquele que deveria ser o projeto de construção de uma nova classe trabalhadora soviética.

Ao mesmo tempo em que se esterilizava o impulso revolucionário soviético, construía-se a possibilidade da reestruturação nazi-fas­cis­ta e, por outro lado, a forma do New Deal, reestruturação feita sob a égide do liberalismo. Seja na for­ma da ditadura fascista, seja na forma liberal, o processo de reestruturação capitalista avançava para fazer face à grande crise capitalista. O pós-guerra vai dar cidadania às formas do estado assistencial. Ainda uma vez, observa-se a incorporação do antagonismo operário e camponês e sua crescente integração à ordem do Capital. Sob a forma de um estatuto que garantia direitos sociais, as massas subalternas consentiram em não antagonizar o capitalismo de forma ra­di­cal.

Esse gentlemen agreement atuou, também, no plano político, no sentido de impedir a possibilidade de ruptura da ordem. Os partidos social-democratas e as organizações sindicais apareceram como os grandes parceiros neste processo, transformando a possibilidade de luta em capacidade administrativa. Os trabalhadores, pela ação das suas direções transformaram-se em gerentes desse processo.

No plano da teoria, as análises realizadas pelo partido russo (em nome da Internacional) transformaram os acontecimentos do pós-guerra em uma “estabilização relativa do capitalismo”, quando, de fato, se dava um brutal processo de reestruturação capitalista. Assim, a um só tempo, essas teorias desconheciam o movimento real dos seus antagonistas e, embora tenham conseguido afirmar a existência de um estado pós-capitalista, não construíram uma so­ciedade socialista. Nem democracia operária, nem socialização das forças produtivas: o socialismo esterilizou-se sob o domínio da burocracia estalinista.

O pós-guerra vai dar cidadania às formas do estado assistencial. Ainda uma vez, observa-se a incorporação do antagonismo operário e camponês e sua crescente integração à ordem do Capital.

Novamente, o antagonismo ma­ni­festou-se no plano universal: insubordinação operária, lutas coloniais, pela democracia, das minorias, etc. Os anos sessenta demonstram que a integração passiva à ordem não funcionava mais tranqüilamente. E, pelas próprias contradições capitalistas, o movimento de acumulação detinha-se. A palavra de ordem burguesa passou a ser então uma combinação de eliminação de direitos sociais e supressão – ainda uma vez – do saber e da subjetividade dos trabalhadores. Tu­do isso foi marcado, objetivamente, pelo fetiche da técnica (a “terceira revolução tecnológica”). Os regimes ditos socialistas também participaram des­se fetiche, colocando a ciência (e não mais o trabalho vivo) como força produtiva fundamental, como ante-sala do socialismo.

O mundo capitalista assiste à nova barbárie. A negação objetiva do direito ao antagonismo em nome das novas formas de produzir e de dirigir – a política e a economia – é apresentada como o limite da possibilidade de resolução dos graves problemas sociais. Assiste-se ao crescente predomínio dos executivos sobre os Parlamentos, do governo dos técnicos e especialistas sobre a vontade das classes. Aliás essa representação de governo dos técnicos era a característica básica da forma fascista.

As organizações dos trabalhadores – sindicais e políticas – passam a aceitar o fetiche da tecnologia e a idéia da modernidade capitalista. A flexibilização capitalista tem aqui seu ponto de ancoragem fundamental: a flexibilização das práticas e dos discursos das classes subalternas. O antagonismo é visto como elemento de destruição da sociedade.

Em obra recente, Maria Amélia Pagotto salienta, com justeza, que “ao identificarmos o caráter mistificador dos principais paradigmas que vêm orientando as transformações dos processos produtivos, podemos encontrar elementos importantes sobre as novas formas de difusão da direção intelectual que as classes dominantes pretendem impor ao conjunto da sociedade, a partir da reorganização dos processos produtivos e da busca por meios capazes de reverter a correlação de forças anteriormente estabelecida” [29] .

Coloca-se, assim, como fundamental a reconstrução dos projetos políticos dos subalternos, de dar capacidade hegemônica às forças produtivas fundamentais. Construir o projeto passa sobretudo pela desconstrução do pesado fardo ideológico capitalista. A crítica do fetichismo é condição de liberdade. A organização democrática das classes trabalhadoras é a grande possibilidade histórica de emancipação da barbárie. A palavra de ordem “socialismo ou barbárie” é, hoje, da mais absoluta atualidade.


Notas


[1]     Antonio Gramsci, Due RivoluzioniL’Ordine Nuovo, 3-7-1920, L’Ordine Nuovo (ON), p. 571

[2]    Por limites de espaço e tempo não abordaremos aqui dois pontos fundamentais para a análise da passivização da experiência soviética: a questão da democracia (no interior da sociedade e do partido) e a questão da vulgarização dos debates teóricos levados a efeitos nesse processo e sua esterilização.

[3]    Sobre isso ver, entre outras, a obra de Robert Linhardt, Lenin, os camponeses, Taylor, Editora Marco Zero, Rio de Janeiro, 1983.

[4]    Quaderni del Carcere (QC), 862-863, Maquiavel, a Política e o Estado Moderno (MPEM), p. 170.

[5]    Faz-se necessário desenvolver e trabalhar o conceito de modo de vida que atualiza e dá historicidade aos conceitos de modo de produção e de formação econômico-social. O conceito de modo de vida está em estado prático nas análises de Gramsci e Trotsky sobre a constituição seja do americanismo, seja da nascente sociedade soviética.

[6]    QC 2141, MPE 377.

[7]    QC 2145-6, MPE 381-2).

[8]    idem.

[9]    QC 2146, MPE 382.

[10] idem.

[11] idem. Grifo nosso.

[12] QC 2060-1, MPE 393.

[13]  “Até agora todas as mutações do modo de ser e de viver ocorreram por coerções brutais, isto é, através do domínio de um grupo social sobre todas as forças produtivas da sociedade: a seleção ou ‘educação’ do homem adaptado aos novos tipos de civilização, isto é, às novas formas de produção e de trabalho, ocorreu com o emprego de brutalidades inauditas, lançando no inferno das subclasses os débeis e os refratários, eliminando-os do todo. A cada advento de novos tipos de civilização, ou no curso do processo de desenvolvimento, existiram crises.” (QC 2161, MPE 393)

[14] Sobre esse ponto é exemplar a fala de Trotsky ao III Congresso dos Sindicatos de toda a Rússia (abril de 1920): “Expliquem-nos os oradores mencheviques que significa trabalho livre, não obrigatório. Conhecemos o trabalho escravo, o trabalho servil, o trabalho obrigatório arregimentado nos artesanatos medievais, e o trabalho dos assalariados livres que a burguesia chama trabalho livre. Agora encaminhamo-nos para o tipo de trabalho socialmente regulamentado sobre a base de um plano econômico, obrigatório para todo o país, para cada trabalhador. Esta é a base do socialismo… A militarização do trabalho, neste sentido funamental de que lhes falei, é o método básico e indispensável para a organização de nossas forças laborais…Se nossa nova forma de organização do trabalho tivesse como resultado uma diminuição da produtividade, então, ipso facto, estaríamos encaminhando para o desastre… Mas, é certo que o trabalho obrigatório é sempre improdutivo?… Este é o mais mesquinho e miserável preconceito liberal: a servidão também era produtiva. Sua produtividade era superior à do trabalho escravo, e, na medida, em que a servidão e a autoridade do senhor feudal garantiam a segurança das populações… e do trabalho camponês, nessa medida era uma forma progressista de trabalho. O trabalho servil obrigatório não foi o resultado da má vontade dos senhores feudais. Foi um fenômeno progressista… Toda a história da humanidade é a história de sua educação para o trabalho, para a mais alta produtividade do trabalho. Esta não é de modo algum uma tarefa simples, pois o homem é preguiçoso e tem direito a sê-lo… Mesmo o trabalho assalariado livre não foi produtivo no começo… chegou a sê-lo gradualmente depois de um processo de educação social. Métodos de todos os tipos foram utilizados para essa educação. A burguesia, primeiro, expulsou os camponeses para os caminhos e apoderou-se de suas terras. Quando o camponês se negou a trabalhar nas fábricas, a burguesia os marcou com ferro em brasa, os enforcou ou os fuzilou e assim o adestrou pela força para a manufatura… Nossa tarefa consiste em educar a classe operária sobre princípios socialistas. Quais são nossos métodos para tal finalidade?

Não são muito distintos daqueles que a burguesia utilizou, mas são muito mais honrados, mais diretos e francos, não corrompidos pela mendicância e a fraude. A burguesia tinha que fingir que seu sistema de trabalho era livre e enganou os ingênuos sobre a produtividade deste trabalho. Nós sabemos que todo trabalho é trabalho socialmente obrigatório. O homem deve trabalhar para não morrer. O homem não quer trabalhar. Mas a organização social o empurra e o acicata nesta direção. A nova ordem socialista difere da burguesa porque, entre nós, o trabalho se realiza em benefício da sociedade, e portanto não necessitamos receitas sacerdotais, eclesiásticas, liberais ou mencheviques para aumentar a energia do trabalho do proletariado… A primeira maneira de disciplinar e organizar o trabalho é fazendo com que o plano econômico fique claro para as mais amplas massas dos trabalhadores… ” (3. Vserossiiskii Syezd Profsoyuzov, pp. 87, 96), citado por Isaac Deutscher, Los sindicatos soviéticos, pp. 52-53, Ediciones Era, México, 1971.

[15] QC 2149, MPE 391.

[16] Byt, em russo, “modo de viver”.

[17] QC 2164, MPE 396.

[18] QC 2164-5, idem. Grifo nosso.

[19] Referimo-nos aos anos de 1919-1920 e à experiência dos conselhos operários.

[20]  I massimalisti russiIl Grido del Popolo (GP), 28-7-1917, La Cità futura (CF), p. 265.

[21] QC 2165, MPE 397.

[22] idem.

[23] QC 2150, MPE 392.

[24]  “Este complexo de compressões e coerções diretas e indiretas exercida sobre a massa obter indubitavelmente resultados e surgir uma nova forma de união sexual da qual a monogamia e a estabilidade relativa parecem dever ser o traço característico e  fundamental” (QC 2167-8, MPE 399).

[25] QC 2165-6, MPE 397.

[26]  Carta a Giulia Schucht, 1-8-1932. Forsi rimarrai lontana, p. 654. Nesta carta a sua companheira Gramsci, critica os métodos educativos que apressavam a formação profissional deixando pouco espaço para a fantasia infantil. Não só pela escolarização formal mas também pelo próprio uso e/ou confecção de brinquedos infantis, se faz avançar uma dada concepção de mundo.

[27] idem.

[28] idem.

[29] Maria Amélia Ferracciú Pagotto – Mito e realidade na automação bancária, dissertação de Mestrado em Sociologia (área de Trabalho e Sindicalismo), IFCH-Unicamp, mimeo, outubro de 1996, p. 17.

*Fonte: Universidade e Sociedade, Brasilia-DF, N.°13, Mar./1999. *Arquivo ANDES-Sindicato Nacional.

**Revolução Passiva e Modo de Vida: ensaios sobre as classes subalternas, capitalismo e hegemonia (São Paulo, Sundermann, 2013)



A República de Letras de Antonio Candido

Por Betto della Santa

É ali que reside a chave para o enigma. O impulso criador vem é da pessoa. A obra é produto. 

Florestan Fernandes

A nossa república está em polvorosa. E não podia ser por motivo mais distante das letras.

Mas ao dia 12 de Maio de 2017 morreu o crítico literário e cientista social Antonio Candido. Após um ano do golpe de Estado que assolou seu país de nascimento, em meio ao retorvelinho. Depois de longa e frutífera vida, diante de vasta e monumental obra, despedimo-nos de um ciclo histórico que se encerra com este que é, muito provavelmente, o último expoente dos intelectuais públicos cuja ressonância crítica fazia-se sentir para além dos terrenos acadêmico ou editorial. Um dos pressupostos mais caros a este que é, junto a Florestan Fernandes – seu amigo pessoal –, do mais alto cume alcançado pelo marxismo brasileiro (desde que me conheço por gente) foi o de que não é possível separar forma e conteúdo. Nisso Candido estava na boa companhia de autores tais como György Lukács, Walter Benjamin e, pasmem, Theodor Adorno. Digo, do espanto, pois é mais do que conhecida a natureza e os limites da escrita árdua e exigente do ensaísta alemão. Como foi possível que o mais sofisticado e consistente dentre os pensadores socialistas do país tenha sido justamente aquele que cultivou a prosa a mais fluida e a simplicidade a mais generosa? A chave para responder questão tão difícil talvez tenha algo a ver com o nexo de texto e contexto. Salvo ledo engano, um de seus legados, literários e políticos, decisivos à vida social e intelectual.

Antonio Candido foi – sem sombra de dúvida – o maior crítico literário iberoamericano de todos os tempos e, indisputavelmente, dos intérpretes mais originais que este país já conheceu. Foi pioneiro das gênese e devir da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, espírito do tempo que deu lugar à matéria da nascente modernidade hipertardia brasileira e suas particularidades, criou à revista Clima – a um só e mesmo tempo um projeto intelectual e uma formação cultural – e foi dos mais ilustres membros fundadores do Partido dos Trabalhadores, marco insoslaiável da vontade coletiva nacional e popular que auxiliou a construir verso a verso. Lecionou para muita gente, como Roberto Schwarz e Fernando Henrique Cardoso, deu à luz o Suplemento Literário d’O Estado de S. Paulo e foi responsável por estruturar a Licenciatura de Letras no que hoje constitui o Campus de Assis da Universidade Estadual Paulista, a UNESP. É o autor de obras tão seminais quanto, por exemplo, Os Parceiros do Rio Bonito, Formação da Literatura Brasileira, Direito à Literatura, A Educação pela Noite e Literatura e Sociedade. Sua morte ocorreu em um país dificilmente reconhecível para uma geração que ousou sonhar. Grande. Nos enlaces entre a teoria literária, a história social e a reflexão crítica redimensiona-se à política.

Muitas vozes se assomaram para ressaltar o quê – com efeito – foi uma trajetória singular. Da Seção Sindical da Associação Docente na USP, a Adusp, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp, dos jornais diários às revistas de ideias, dos círculos literários às organizações políticas sobressai a lembrança de uma figura ímpar e de predicados improváveis. Ninguém menos do que o próprio Candido é quem adorava reiterar que se tratava de uma pessoa que entremeava um temperamento conservador com comportamento liberal e ideário socialista… para, então, desatar a sorrir. Com uma caminhada quasi-centenária sobre este rincão do mundo Antonio conviveu com escravos libertos na meninice e assistiu ao nascimento de um povo-nação. Com lucidez fora do comum, e desde muito cedo, apreendeu a relação realmente existente entre linguagem viva e forma societal e, sobretudo, o lugar central que essa questão assume num país como o Brasil. Sua atitude de grandeza suscitava maestria sem nunca recair em soberba. Alçar vôos de expressão evitando baralhar a comunicação. Sofisticar argumentos sem fazer concessões. O verdadeiro mestre na periferia ensinou que complicado é ser simples. É simples ser complicado. Candido foi contemporâneo ao avanço do marxismo da forma e ao atraso da forma do marxismo.

Formação

Muito já foi dito sobre Candido. E decerto há muito ainda por dizer. Não há aqui nenhuma pretensão de originalidade, por um lado, nem disputa por qualquer espólio, por outro. A discrição e a serenidade com que o intelectual lavrou sua atividade na esfera pública desautorizariam uma tal atitude. Mas da mesma forma como o autor não abdicava da têmpera cordata tampouco dera de ombros às questões que considerava as fundamentais de seu tempo e espaço. E com relação ao tratamento que teve por ocasião de sua morte – diga-se, de passagem, com um consensual e semiuníssono sentido de pertença, que teria agradado a alma tão gregária e algo apaziguadora – quiçá valha a pena atentar para uma lacuna não menos importante. Depois de Candido é já bem verdade que não se pode conceber barreiras intransponíveis entre letras e política, autor e obra ou formação literária e processo histórico. Isso quer dizer tanto que os usos da literacia não estão por fora ou para além dos sistemas de relações sociais que os engendram quanto que não se pode reduzir nenhum enunciado formal a qualquer conteúdo social. A íntegra dialeticidade entre texto e contexto compõe um slogan fácil de anunciar mas programa difícil de cumprir. Eis, aí, o desafio. De chofre, contudo, já sabemos que isso, aqui, não pode ser mais do que um começo de conversa.

O presente ensaio começa por fazer uma afirmação desabusada a contrapêlo de nosso autor. Candido marxista. Não contente, ao que parece, vai além. Dos maiores. Em parte pelo ar da hora que respirou, e não menos pela personalidade que albergou, é provável que Candido declinasse, gentilmente, a ambos qualificativos. Ainda assim, não arredamos o pé desta rapadura. E por quê? Na primeira Tese de Marx sobre Feuerbach afirma-se, corajosamente, que a principal lacuna de todo materialismo até seus dias foi que as coisas, o real, o mundo sensível haviam sido tomados apenas sob a forma de objeto ou contemplação, mas não como atividade humana sensível, i.e., práxis, não subjetivamente. Por essa razão o lado ativo foi desenvolvido, não pelo materialismo, mas, ao revés, pelo idealismo. Sob inspiração desta mesma premissa pode-se vindicar não só que a análise histórica e social – inclusive política e econômica – avançou no Brasil mais do que na historiografia e na ciência política de cariz marxista através sobretudo da filosofia e da teoria cultural. E este torcicolo ideológico vai a mais. O avanço da interpretação marxista do Brasil conquistou mais – e melhor – terreno a partir do campus universitário em oposição aos partidos comunistas.1 Não seria demais remarcar à semelhança que o processo inglês adquire com a dita Nova Esquerda.2

É que a necessidade de desenvolver uma reflexão crítica sobre a realidade da semiperiferia do sistema-mundo torna a trajetória do marxismo latinoamericano algo próximo de um detóur. Foi Perry Anderson – de resto, inspiração explícita para o título desta peça, além de “objecto” e “subjecto” de nossos estudos – quem realizou a crítica do deslocamento que houve no marxismo europeu após-guerra para tópicos já epistemológicos e/ou estéticos.3 A necessidade férrea de o marxismo interpretar a América Latina e, particularmente, o Brasil, obstou que a investigação histórica e social seguisse nas mesmas trilhas de sua congênere do centro. Não só a filosofia e a crítica literária brasileiras foram desde a mais tenra infância marcadas por uma tal investigação, inclusive, e fundamentalmente, desde o campo do marxismo, como seu objetivo autodeclarado não foi outro, na grande maioria das vezes, senão o de refletir sobre a formação social brasileira. Enquanto a autorreivindicação de marxistas fez algo obtusa grande parte da intelectualidade dos partidos comunistas brasileiros, dogmática e determinista, a papagaiar um cânone ultramarino, deixou livre e solto o pensamento marxista desenvolvido para além das fronteiras destes partidos. Tanto Antonio Candido quanto Raymond Williams guardaram distância vis-à-vis à nomenclatura.

Clima

Da crítica do deslocamento ao deslocamento da crítica. Tal mudança de itinerário foi nada menos do que fundamental como pedra de toque para a apreensão do desenvolvimento desigual e combinado deste subcontinente.4 Ao que os epígonos da Terceira Internacional stalinizada nunca fizeram mais do que reconhecer tal qual genéricas “colônias e semicolônias” toda uma geração de, por assim dizer, “marxistas não-declarados”, opôs um esforço criativo e inovador de estudo aberto da obra de Karl Marx, reconstrução teórica e identificação tácita de que a filiação a seu método dialético só encontraria tradução realista, amiúde, na não-fidelidade à letra de seu texto. Para parafrasear um dos discípulos mais famosos de nosso mestre, não eram poucas as ideias de Marx que figuravam fora de lugar cá nesta porção do planeta.5 Uma leitura dogmática do velho mouro não só atentava contra o seu espírito crítico, como fazia soerguer verdadeiros obstáculos à interpretação mesma da aclimatação particular constituída pela formação social brasileira face à universalidade da sociedade produtora de mercadorias globalmente constituída em todas as partes. Neste aspecto o tímido fundador do Partido Socialista foi mais ortodoxo em matéria de marxismo do que o fiel legatário da tradição bolchevique no Brasil. Outra vez – cumpre notar – lá como cá.

O horizonte intelectual e político vivido por Candido hoje ressoa como idioma estrangeiro. Afinal, o autor fez parte de um grupo social específico de destacada camada intelectual no país. Formado em 1939 por estudantes universitários como Decio de Almeida, Paulo Emilio e Gilda de Mello – a futura esposa –, dentre outros, o chamado grupo Clima6 integrou jovens pensadores mediante uma específica modalidade de trabalho intelectual, a Crítica, aplicada a um crescente e vivaz sistema cultural em teatro, literatura, artes plásticas e cinema. O jovem crítico assistiu ruas de terra darem lugar a largas avenidas e bondes elétricos sucederem carros à tração. Ligou seu destino a grandes correntes de cultura que passaram daí a convulsionar e acelerar a vida social, política, econômica e cultural de uma então vibrante cidade-mundo tal qual veio a ser São Paulo. O desenvolvimento e a modernização da universidade brasileira, com o sentido pernicioso que estas formas adquirem no país, empalmou-se com a institucionalização e a profissionalização da atividade intelectual, que deixa a boemia dos cafés e o diletantismo dos círculos literários e passa a se especializar tecnicamente e qualificar sistematicamente em outro modo de produção da vida.

Foi preciso um tipo específico de audácia para livrar tal batalha cultural no Brasil de então. Não vai ser essa a hora ou mesmo o lugar para discorrer sobre o sentido da crítica, o conceito de intelectual ou a forma política cujo espírito, daí, se fez carne num ensaísta, educador, literato e sociólogo de mão cheia como Antonio Candido. Suas refinadas concepções de sistema literário, forma histórica e modo de vida são uma conquista intelectual e política inarredável para qualquer teoria crítica e revolucionária na zona de engajamento de interpretação e transformação do Brasil e do mundo. Uma impostação programática com esta visão social de mundo, absolutamente livre e igualitarista, democrática num sentido em que ainda resta por ser inventado – como a esta altura já deve ter ficado cristalinamente claro – só pode vir a ser enquanto um projeto coletivo à contramão da forma mercadoria e seu império. Todo um gênero de socialismo humanista a muitos alqueires de distância tanto do que fora o ardil da burocracia moscovita quanto do que é o vil imperialismo de Washington, Bruxelas e/ou Tóquio. Trata-se de uma grande – ainda que discreta – recusa ao desespero trágico e à resignação cínica. Um radicalismo com circunspecção. A polidez vivida, o fino trato e a elegância, no modo de pensar e sentir a vida, são constitutivas duma República de Letras que – mais que piedoso ideal – aspira a se verter em direção de vida… nem que, para tanto, seja necessário refundar à existência.

Que as novas jornadas de junho por vir façam jus à riqueza desta herança. Candidamente.

______________

1. Justiça seja feita à exceção à regra configurada pela primeira geração do movimento trotskista no Brasil. Gente como Mario Pedrosa, Livio Xavier e Herminio Saccheta desenvolveu interpretações com rigor e paixão sobre a formação social brasileira em muito anteriores àquelas que a historiografia-padrão sói reconhecer enquanto pioneiras a desafiar tal ramerrame do marxismo do Partido Comunista Brasileiro.

2. Há farta documentação sobre a formação da Nova Esquerda mais velha do mundo; a New Left inglesa.

3. ANDERSON, Perry. Considerações sobre o Marxismo Ocidental. São Paulo: Boitempo, 2004.

4. Ver TROTSKY, Leon. A História da Revolução Russa. São Paulo: Sundermann, 2007; NOVACK, Georg. A Lei do Desenvolvimento Desigual e Combinado na História. São Paulo: Sundermann, 2008 e LÖWY, Michael. A Política do Desenvolvimento Desigual e Combinado: a teoria da revolução permanente. São Paulo: Sundermann, 2015.

5. SCHWARZ, Roberto. As ideias fora de lugar. In: Ao Vencedor as Batatas. São Paulo: Editora 34, 1999.

6. A revista Clima foi importante divisor de águas na história social e cultural da São Paulo dos anos 40.




Gramsci sem grilhões

Por Betto della Santa, Colunista do Blog Esquerda Online

«A crise consiste exatamente em que o velho morre e o novo não logra nascer –

é neste interregno que se verificam os fenômenos mórbidos os mais variados.»

(Gramsci QC3, P§34, p311. Einaudi: Torino, 1975)

«Un prigioniero è un predicatore della libertà.»

(Hebbel In: Grido del Popolo, 27 Maggio 1916)

— “Garamascón”. “Granusci”. “Gramasci”. À diferença dos dirigentes políticos contemporâneos – tal Leon ‘Trotsky’ ou Vladimir ‘Lenin’ – as pessoas que realmente conheceram Antonio Francesco Sebastiano Gramsci (1891-1937) em vida foram, de fato, muito poucas. Nada mais do que um círculo bastante diminuto. Não à-tôa seu sobrenome tenha sofrido tantas deformações no modo de grafar e soletrar, tal qual se diverte ‘Nino’ – como era apelidado pelos seus – ao recontar à cunhada Tatiana Schucht desde o cárcere fascista. O episódio do chiste ocorreu quando da prisão. “Sim, sou Antonio”, respondeu Gramsci. “Não pode ser”, replicou ‘o formidável tipo anarquista’, de pseudônimo “Único”. “Antonio Gramsci deve ser gigante, e não um homem tão pequenino”. Em silêncio, “Único” retirou-se a um canto, sentou e ficou, como Mario ante as ruínas de Cartago, a meditar sobre suas ilusões perdidas. As atividades de jornalista, parlamentar revolucionário e intelectual socialista, sempre na esfera pública, agigantaram o nome próprio, por um lado e, por outro, não deixaram de exigir uma prática política distinta dos codinomes, clandestinos, da Rússia.

Gramsci morreu há 80 anos. E merece ser lembrado. Mas – afinal – quem foi e o que fez  Gramsci?

Gramsci é filho do Sul do Sul. Ao lugar marginal ocupado pela Itália na Europa ocidental acrescia-se o fato de que sua terra natal, a Sardenha, fazia parte de sua porção mais atrasada. Dentre os grandes marxistas revolucionários do Séc. XX é um dos únicos de origem social subalterna. Lenin foi filho de um funcionário público de Astrakhan, Rosa Luxemburgo descendia de uma linhagem de comerciantes de madeiras da Galícia e Trotsky era herdeiro de proprietários de terras de Ianovka enquanto Gramsci, desde muito jovem, conviveu num ambiente de extrema miséria na sua casa em Ghilarza, além de possuir uma saúde muito precária – com hemorragias e convulsões – e ser portador de uma tuberculose vertebral, o Mal de Pott, que o impediu de crescer além dos 1,50m. As desilusões de “Único” não eram propriamente o escárnio de um maximalista algo desaforado. A figura de Gramsci inspirava, mesmo, cuidados. A mãe já chegara a encomendar terno e caixão por ocasião de uma de suas crises. À contrapelo, Gramsci partiu para a Universidade de Turim após ganhar uma bolsa de estudo parcial, na Faculdade de Letras, um trajeto que mudou sua vida.

Deixou o Mezzogiorno Insular e muito cedo ligou seu destino ao mundo do trabalho e ao mundo da cultura, simultaneamente, ao Norte da Península. A crítica teatral e a imprensa socialista – a fábrica e a universidade – o colocaram no mapa político e intelectual de um mundo turbulento, em ininterrupta transformação, que combinava crescimento dos monopólios na Europa ocidental e expansão imperial d’além-Mar ao franco avanço tecnológico, grande acumulação de capital, aumento das taxas de lucratividade e uma ora cada vez maior rivalidade militar interimperialista. O meridionalismo típico de sua concepção de mundo foi fragmentado, convulsionado e acelerado pelas enormes correntes de cultura, interesses e sentimentos que habitam toda cidade mundial. O salto do dialeto sardo ao idioma italiano, do campo à cidade, do Sul ao Norte e da margem ao centro, contudo, não fez com que ele se desvencilhasse do espírito popular criativo que o gestou. O movimento de formação da consciência da classe trabalhadora italiana e europeia àqueles anos foi também o pêndulo que o aproximou do marxismo numa época de guerras, crises e revoluções.

A política e as letras

Sua adesão à juventude socialista foi marcada por certo espírito de cisão com sua então estreita mentalidade sulista. Após participar da primeira disputa eleitoral na qual as massas camponesas e iletradas puderam votar – em sua cidade de origem – viu todas as baterias das máquinas políticas tradicionais, sardistas e não-sardistas, girarem contra as candidaturas socialistas. Após findar o conflito ítalo-turco contra o Império Otomano, cuja resultante foi a ocupação militar da Líbia, voltou-se contra o vil espetáculo – antipopular e antidemocrático – de fraude e violência que caracterizou tal contenda política. Seu primeiro artigo como membro da equipe de comunicação da secção turinense foi sobre a grande guerra mundial e a posição da Itália em seu interior. De comentários da situação nacional e internacional à vida popular e partidária e da polêmica política à crítica de costumes – da resenha literária à crítica teatral –, o jornalismo integral de Gramsci ganhou cada vez maior densidade e espaço nas cenas políticas e culturais turinense e piemontesa. O caminho aberto na universidade após o recrudescimento da atividade política chegou a seu fim. Da curta trajetória acadêmica diria que seu ponto alto foi tê-lo colocado em contacto estreito com um movimento de reforma intelectual e moral que visava colocar abaixo arcaicas estruturas sociais.

Após dez anos de atividade editorial em órgãos como Avanti!, Grido del Popolo e sob a rubrica de Sotto la Mole, Gramsci afirmou que já chegara a escrever «linhas bastantes para preencher quinze ou vinte volumes de quatrocentas páginas, mas eram escritos à ordem do dia e deveriam morrer com o findar do mesmo dia»; além de ter contribuído decisivamente para tornar popular o teatro moderno de Luigi Pirandello que, antes de suas intervenções, ora era gentilmente tolerado, ora era desabridamente esculhambado. A íntima conexão de seu vivo interesse pelas correntes de pensamento histórico-mundiais da moderna intelectualidade italiana, com as quais travou forte contacto na esfera acadêmica, e difusos sentimentos da vida nacional-popular extra-acadêmica, dos quais se aproximou com sua atividade jornalística, residia na compreensão de que a reflexão historiográfica, a questão literária e a crítica filosófica estão indissoluvelmente ligadas à política. Os anos de juventude chegam a seu ápice com o advento da vaga revolucionária continental que sacodem Rússia, Alemanha, Império Austro-Húngaro e, no bienio rosso de 1919-20, chega à Itália.

O movimento de conselhos de fábrica, que se alastra por toda Turim durante os anos de 1919 e 1920, vai ser decisivo na vida e obra de Gramsci. Com a fundação do jornal L’Ordine Nuovo – que atravessou diferentes momentos –, Gramsci tratou de desenvolver uma teoria e uma prática que tinham na questão da educação dos educadores um elemento constitutivo e essencial. Até sua ordem de prisão, em 1926, Gramsci passou por pelo menos três diversas fases de elaboração do problema enunciado, cristalinamente, no terceiro tópico das Teses sobre Feuerbach escritas por Marx e revisadas, por Engels, após sua morte. Em primeiro lugar dá-se certa prioridade ao que é a cisão – o antagonismo – isto é, a autoatividade dos trabalhadores face à ordem do capital, no próprio coração do processo de produção tipicamente capitalista. A educação então se confunde com aquilo que Karl Marx chamou de ‘autoeducação’, inclusive do próprio partido e sindicato, por seus próprios membros. A seguir, enxerga-se a necessidade de se educar, em geral, o recém-fundado – no Congresso de Livorno, em 1921 –, Partido Comunista Italiano e, em particular, à sua direção. A cimeira desta movimentação é concebida como necessidade de se educar o que seria o educador das massas subalternas, lugar este expresso por sua posição de dirigente central do PCI. É nesses anos que conceitos tão importantes quanto o de luta de hegemonias e filosofia da práxis vão florescer vividamente no pensamento, e na ação, do então jovem comunista internacionalista.

«Para sempre»

A ascensão do Partido Fascista ao poder na Itália mais cedo do que tarde fez prisioneiro o então eleito deputado comunista Antonio Gramsci. A fundação do Partido Comunista Italiano e a sua história são já sobejamente conhecidas e tem, na figura de Gramsci, um insoslaiável protagonista. O promotor do caso que levou o revolucionário italiano, dentre outros líderes, ao cárcere político, fez pesar contra ele uma violenta profusão de motivos. Quando o Ministério Público fez uso da palavra para se pronunciar sobre o comunista sardo a miséria da razão deu lugar a um absoluto, e vil, irracionalismo: «Por vinte anos nós devemos impedir que este cérebro funcione!». No dia de seu julgamento podia-se detectar voz alterada, ânimo acirrado e aquilo que, hoje, chamar-se-ia de discurso de ódio e cultura da violência. Seu nome político, indefectível, continua a ser fascismo. Este processo arrastou-se da prisão, em Novembro de 1926, até o julgamento, em Junho de 1928. O regime político de Benito Mussolini foi responsável por arrestar, aprisionar e transferir a um frágil e debilitado Antonio Gramsci, de cárcere em cárcere, de diferentes províncias e locais da Península Itálica, já em condições de autoevidente – e autodeclarada – tortura de nexo psicofísico.

Celas sem encanamento, sem aquecimento e sem luminosidade foram a oficina da história desde a qual Gramsci escreveu e reescreveu o que hoje conhecemos como as Cartas e os Cadernos do Cárcere. São, literalmente, aquilo que assim se anunciam: trocas de correspondência com amigos, cônjuge, familiares e camaradas, por um lado, e cadernos escolares de capa dura dispostos, pelo sistema carcerário, para objeto da reflexão e da crítica da pena do próprio Gramsci, sob atenta censura do regime. Gramsci dizia-se atormentado – fenômeno que o próprio sardo descrevia como típico dos encarcerados – por uma ideia-força, a de que seria necessário realizar-se ali algo «für ewig.» Trata-se de uma complexa concepção proveniente das letras alemãs, em particular de Goethe, cuja acepção mais aproximada seria a de uma preocupação “desinteressada” do que é mais imediato, mesmo particular, aquilo que não deixa de ser contingente e, portanto, transitório. É uma objetivação duradoura, uma direção de vida e/ou, por fim, algo «para sempre». Em carta à cunhada, Tatiana Schucht, expôs sua intenção: «Em resumo, pretendo, segundo um plano pré-estabelecido, me ocupar intensa e sistematicamente de algum tema que me absorva e centralize à minha vida interior.» O projeto intendido deu lugar à forma de um conjunto de anotações que, paradoxalmente, não deixam de ser provisórias: não-conclusas, não-findas. Mas as variedades de timbre e ritmo, a diversidade de tópicos, a sofisticação do trato e a aposta estratégica contidas nestes escritos não deixaram lugar a dúvida. Aqui a escrita não deveria desvanecer ao fim do dia.

Na última década de vida Gramsci refletiu, na prisão, sobre a derrota do movimento comunista revolucionário mundial e o falhanço histórico da revolução social na Europa ocidental. Reelaborou às questões de fundo de sua atividade política e intelectual pregressa, refez suas fórmulas e reviu a experiência vivida. Criou um novo léxico, para expressar a sua teoria social, e todo um universo de concepções destinadas a renovar às mais diversas esferas da vida. É toda uma nova linguagem que amiúde inventa – ou reinventa – palavras, fertilizando-as com novas adjudicações de sentido: hegemonia, bloco histórico, filosofia da práxis, concepção de mundo, revolução passiva, modo de vida, vontade coletiva, tradutibilidade, ético-político, Estado integral além de muitas, muitas outras. O destino da edição destes escritos, sua fortuna crítica, foi ganhar o mundo “grande e terrível”. Sua trajetória foi a de sucessivamente libertar-se de todas as suas estreitas constrições. Vencer o provincianismo tacanho que aprisiona. O economicismo corporativo que aparta. O reformismo político que restringe. O maximalismo verborrágico que aliena. E já todo e qualquer  novo cárcere.




Para ler Walter Benjamin ou algumas notas sobre seu marxismo e a cultura, história e revolução, memória e porvir

João Lopes Rampim e Rafael Vieira |

Densas metáforas e um aforismo alegórico, além de um entulho político de derrotas históricas, podem afastar os leitores possíveis de Walter Benjamin de uma contribuição inovadora e criativa para o pensamento crítico, em geral, e a perspectiva marxista, em particular. A história política e social do Séc.XX foi pródiga em separar muito abruptamente tradições e correntes que se beneficiariam muito de sua fertilização recíproca. Leitores de Antonio Gramsci soem desconhecer Leon Trotsky. Estudiosos de György Lukács costumam ignorar Karl Korsh. E poucos entusiastas de Rosa Luxemburgo sequer chegam a conhecer Walter Benjamin. Pensando nisso, e a partir de um convite do Blog CONVERGÊNCIA, decidimos colocar aqui e agora – como num diagrama bastante rudimentar – algumas questões fundamentais do trabalho teórico deste autor alemão e que podem suscitar vivo interesse por parte do público leitor. São nada mais do que algumas notas.* Em vista ao interesse coletivo despertado, e o que consideramos como algumas lacunas na versão anterior, chegamos a essa nova contribuição a quatro mãos.

O marxismo de Walter Benjamin é de fato bastante singular. Seu contato mais aprofundado com as obras de Marx, Engels e o materialismo histórico enquanto uma concepção total de mundo – ou uma “filosofia da práxis” revolucionária, na fórmula utilizada por Gramsci – ocorre em 1923-1924 por uma conjunção de fatores que vão desde a leitura dos ensaios do filósofo húngaro György Lukács, na obra História e Consciência de Classe, suas discussões com a comunista letã Asja Lácis e, sobretudo, por perceber na letra do texto da obra marxiana um poderoso instrumento de crítica ativa ao aprofundamento das contradições sociais e políticas na República de Weimar depois da derrota histórica do movimento dos trabalhadores na situação revolucionária aberta a partir de 1918-1919. Parte importante da compreensão teórica, política e historiográfica do significado do falhanço da revolução alemã para o movimento social como um todo repousa nos intrigantes fragmentos de Walter Benjamin.

Embora a partir de 1923-24 seu pensamento ganhe novos contornos com Marx, a crítica à civilização industrial moderna e ao modo de vida capitalista aparecem em alguns de seus textos desde 1915 pelo menos, sendo uma espécie de fio condutor de sua obra. Essa crítica é feita nesse primeiro momento a partir de uma associação complexa entre um romantismo revolucionário e uma interpretação particular do messianismo judaico, referências essas que não desaparecem – embora sejam reposicionadas – depois do contato com Marx e alguns de seus intérpretes. Nesse breve texto, o objetivo é tão-só apresentar alguns pontos que consideramos importantes na relação de Benjamin com Marx e algumas correntes de pensamento distintas do marxismo. A ideia é lançar algo de um começo de conversa, por assim dizer, com aspectos essenciais de uma agenda de pesquisa coletiva e questões fundamentais de debate público, sem qualquer pretensão de esgotá-los ou até mesmo desenvolvê-los propriamente. As linhas a seguir, mais do que qualquer outra coisa, são um convite à leitura.

 

I. Da luta de classes

 

Não poucos comentadores destacaram esse aspecto. Theodor Adorno, Michael Löwy e Leandro Konder – por exemplo – são alguns dos autores que chamam a atenção para a centralidade conferida por ele à luta de classes. A interpretação de tendências estruturais e a crítica da economia política é um componente essencial para se pensar à ação, mas é na luta concreta entre opressores e oprimidos, exploradores e explorados, que se jogam os lances decisivos da história. As análises históricas tem por isso um caráter tendencial justamente porque há um conteúdo em seu interior que não pode ser exatamente mensurado, não por uma limitação dos métodos científicos de produção do conhecimento, mas porque ali é o lugar da práxis transformadora, certamente condicionada por estruturas – sociais, políticas e econômicas – mas capaz de ir além fazendo a política ultrapassar à história.

Benjamin recusa ao longo de sua trajetória a vulgata economicista, o determinismo mecanicista e noções típicas, como “época de decadência”, enquanto um fundamento de análise histórica, e aposta suas forças até seu último escrito nas classes oprimidas e combatentes do mundo dos trabalhadores enquanto um sujeito coletivo de lutadores e resistentes que viria a consumar a tarefa histórica de emancipação total das várias gerações de derrotados e vencidos.

 

II. Do progresso

 

É possível que dentre os marxistas do começo do Séc.XX Walter Benjamin tenha sido o mais radical dos críticos à filosofia da história orientada pela noção de progresso. Essa crítica também aparece com força, por exemplo, em Rosa Luxemburgo. Para Benjamin, a imagem do progresso certo e exato direcionado a um fim teleológico tem um sentido estratégico para aqueles que dominam ou para os resignados, ao protelar e adiar indefinidamente a emancipação humana relegando o presente a um instante no meio de um fluxo homogêneo, contínuo e linear. As diferentes variantes teórico-práticas que entendem o progresso como norma histórica são tributárias de uma perspectiva que termina por apagar a regressão e a barbárie contra os “sem nome” e os vencidos da história, como um momento passageiro ou como um “mal menor” no caminhar contínuo de uma marcha com início, meio e fim definidos. Para contrapor-se a esse tipo de percepção, Benjamin será um autor que elaborará diferentes alternativas metodológicas, tanto na busca de uma outra concepção de tempo – ou o tempo-de-agora de que fala em Sobre o Conceito de História – radicalmente oposta à ideologia moderna do progresso, quanto pela valorização dos “farrapos”, dos “restos” e dos “cacos” da história como elementos de uma tarefa ético-política de rememoração e de ação.

Para Benjamin, esse tipo de percepção está presente em correntes de pensamento que procuram eternizar o capitalismo, mas também aparece no marxismo vulgar da socialdemocracia alemã e do stalinismo. Benjamin toma para si em seu trabalho sobre as “Passagens” a tarefa de retomar Marx e o materialismo histórico com o objetivo de: “considerar como um dos objetivos metodológicos desse trabalho mostrar claramente um materialismo histórico que tenha aniquilado de seu interior a ideia de progresso. Precisamente aqui, o materialismo tem todos os motivos para se separar com nitidez da forma burguesa de pensar” 1.

 

III. Da memória

 

O marxismo de Benjamin tem os olhos voltados para o passado como abertura. Para ele, a luta é travada em memória dos antepassados escravizados e não na imaginação dos descendentes liberados, por isso estabelece uma delicada ponte entre memória, passado e presente. Ao mirar os “rastros” e “restos” que a historiografia dominante tem por hábito deixar de lado, está preocupado não só com o passado propriamente dito, mas no momento crítico em que o acesso a esse passado aparentemente esquecido é capaz de iluminar o presente, reconfigurando a relação presente-passado.

Benjamin é consciente da relação entre as memórias e as disputas do presente, e enxerga nela um elemento essencial nas lutas de classes e na narr/ação contra-hegemônica. Para tanto, procura despertar no passado as centelhas de esperança não cumpridas, e fazer justiça às gerações de vencidos que tombaram no decorrer da marcha de um formato de sociabilidade que se reproduz produzindo, assim, a barbárie.

 

IV. Da revolução

 

Benjamin foi um estudioso de diferentes processos revolucionários nos Sécs.XIX e XX. Para ele, o historicismo, corrente historiográfica que Benjamin combatia, e sua apologia estão empenhados em “encobrir os momentos revolucionários do curso da história” 2. Ao teorizar sobre a revolução, buscava romper epistemologicamente com um pensamento – e uma prática – orientado por uma percepção dogmática da relação entre meios e fins, ao se recusar a compreender a revolução como um meio para um fim definido – que nos colocaria novamente diante de uma marcha orientada e de uma concepção de tempo homogêneo. Para ele, as revoluções são o gesto de “agarrar o freio de emergência” do processo que conduz a humanidade ao abismo – social e humano e também civilizatório e ambiental, conforme aparece em suas Teses –, trazendo com ela a possibilidade de construção da história sob bases radicalmente distintas.

Benjamin também elabora, em um texto denso e extremamente difícil 3, uma teoria da violência revolucionária como um contraponto teórico-prático ao que chama de violência mítico-jurídica, essa última como expressão típica da sociedade burguesa. (Essa noção será debatida e comentada posteriormente por autores como Herbert Marcuse, Giorgio Agamben e Slavoj Zizek.)

 

V. Do porvir

 

Para Benjamin, o comunismo não é nem uma utopia piedosa e nem o fim da história, mas a interrupção da atual concepção e prática – e por isso, necessariamente vinculada a uma crítica radical dos fundamentos da sociabilidade burguesa – que inaugura uma condição de experimentação distinta da história. Essa construção não se dá no vazio, e se põe em relação direta com o passado e com as alternativas à modernidade hegemônica criadas pelas lutas dos explorados e oprimidos – numa necessidade de retomá-las ao mesmo tempo em que são transformadas, já que em Benjamin, a retomada do passado não significa um desejo de restauração nostálgica daquele momento, mas um despertar transformado e transformador daquilo que ficou soterrado no passado e que poderia ter ganhado voz –, e com os movimentos emancipatórios do presente, buscando em suas práticas, dessa vez redimensionadas, os fundamentos daquilo que vem.

Essa percepção se aproxima da forma como Marx concebe o comunismo nas Cartas à Ruge e n’A ideologia Alemã, textos com os quais não se sabe ao certo se Benjamin chegou a travar contato, no qual recusa-se a idealizar um futuro idealizado ao indicar que: “O comunismo não é para nós um estado de coisas que deve ser instaurado, um ideal para o qual a realidade deverá se direcionar. Chamamos de comunismo o movimento real que supera o estado de coisas atual. As condições desse movimento – que devem ser julgadas desde o próprio contexto efetivo – resultam dos pressupostos atualmente existentes” 4.

 

***

 

VI. Da cultura

 

Benjamin diverge radicalmente dos marxistas que lhe antecederam no tocante à reflexão sobre cultura, e busca apresentar uma concepção de cultura capaz de dar conta tanto do passado representado em seus conteúdos quanto do presente do historiador que os investiga. No encontro desses dois momentos, Benjamin pretende elaborar um modelo de compreensão cultural que seja contraposto à compreensão cultural reificada da social-democracia alemã de seu tempo. “Reificada” no sentido em que não abarcava a relação crítica do presente com os conteúdos culturais, e produzia, na esteira do historicismo, uma concepção de inventário de “bens culturais”, por meio de sua representação em uma continuidade histórica. Benjamin identifica aí a atuação de uma ‘falsa consciência’, a saber, que a cultura seria um excedente, algo que surge apenas após supridas as necessidades básicas mais elementares.

Contra isso, primeiramente, chama a atenção para sua face bárbara: “Não há documento de cultura que não seja também documento de barbárie”, tese que surge tanto no ensaio Eduard Fuchs, colecionador e historiador quanto em Sobre o conceito da História, o que quer dizer que as obras do passado não são apenas produtos de grandes gênios criadores, mas também são, em maior ou menor medida, tributárias do trabalho anônimo e escravo de seus contemporâneos. E a barbárie se estende à transmissão das obras do passado, faceta que abre para a necessidade de uma relação política do presente com os documentos da cultura. Pois não se trata, para Benjamin, de fechar seu significado no passado, mas de dar conta, nessa significação, da ação do presente que recepciona sua transmissão; trata-se de poder delinear o lugar que a obra do passado ocupa na constelação crítica do presente.

Benjamin busca resgatar a força destrutiva da dialética materialista para dispersar a continuidade histórica reificada, e assim preparar a apreensão do verdadeiro teor histórico dos conteúdos culturais com base na atualidade do tempo presente do historiador. O estudo do passado cultural deve implicar na crítica do presente, pois só assim pode-se compreender o caráter de atualidade de determinado documento da cultura. Para caracterizar o momento construtivo desse modelo, Benjamin retorma, no ensaio sobre Eduard Fuchs, até o prefácio de A Origem do Drama Barroco Alemão para revisitar sua teoria da origem, e trazê-la, não sem modificações, ao contexto marxista. “Originária” deve ser, agora, a qualidade da experiência do historiador materialista que divisa no documento da cultura sua história anterior e história posterior – categorias que, em Origem do Drama…, assinalam o salto do originário para fora da corrente do vir a ser e perecer, e que, agora, na teoria materialista da cultura, assinalam o salto da constelação atual do passado, formada por obra/vida/época, para fora do continuum da história.

Esse salto é propriamente um salto em direção ao presente, e nesse encontro a imagem histórica do passado cultural investigado pode ser apreendida. Benjamin concebe seu modelo historiográfico como pautado em uma concepção descontínua do tempo histórico, viés pelo qual ele pode dar conta dos momentos revolucionários do passado que foram relegados pela afirmação apologética de uma continuidade histórica. O historiador materialista benjaminiano toma esses momentos descontínuos em seu inacabamento histórico, e visa em tais conteúdos sua história posterior no presente, isto é, a oportunidade de um despertar restaurador, porém único (na medida em que se dá na roupagem do presente crítico de sua retomada), de suas intenções/aspirações não realizadas no outrora.

 

***

 

Lembrando que nenhum comentário substitui o acesso em primeira mão da leitura da letra do próprio autor, sugerimos para os leitores que eventualmente quiserem ter contato com uma introdução à obra de Benjamin alguns materiais em língua portuguesa:

 

“Walter Benjamin – O marxismo da melancolia” de Leandro Konder; “Walter Benjamin – Os cacos da história” de Jeanne Marie Gagnebin; “Walter Benjamin – Aviso de Incêndio: Uma leitura das teses ‘Sobre o Conceito de História’” de Michael Löwy; “’É possível uma historia materialista da cultura?’: Walter Benjamin (re)lê Friedrich Engels” de Ernani Chaves 5; “Walter Benjamin: Estética e experiência histórica” de Jeanne Marie Gagnebin 6; e “Imagem e consciência da história: Pensamento figurativo em Walter Benjamin” de Francisco Pinheiro Machado. “Sobre alguns temas em Walter Benjamin” de Alvaro Bianchi 7 e “Por uma história materialista da cultura” de Anita Helena Schlesener.8

 

As Obras Escolhidas da Editora Brasiliense, em volumes como Magia e Técnica, Arte e Política, e o livro das Passagens, recentemente lançado pela Editora UFMG, são materiais de referência incontornáveis para a introdução e o aprofundamento na letra do texto do autor em tela.

 

Notas

 

*. Uma versão preliminar deste texto foi apresentada ao Blog Capitalismo em Desencanto.

1. BENJAMIN, Walter. Libro de los Pasajes. Madrid: Ediciones Akal, 2005, p. 462-463 [N 2,2].

2. BENJAMIN, Walter. Passagens. São Paulo/Belo Horizonte: Imprensa Oficial/Editora da UFMG, 2007, p. 516 [N 9a, 5].

3. Referimo-nos ao seu ensaio, de 1921, intitulado Crítica da Violência. Esse texto tem ganhado traduções recentes, mas ainda é bastante importante a tradução de Willi Bole em: BENJAMIN, Walter. Crítica da Violência. In: Documentos de Cultura – Documentos de Barbárie. São Paulo: Cultrix, 1986, p.160-175.

4. MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p.38, nota a (nota de Marx). Essa característica também é ressaltada em uma carta de Marx à Ruge, de setembro de 1843. Carta reproduzida em: MARX, Karl. Sobre a questão Judaica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010, p.70-73.

5. In: No limiar do moderno: Estudos sobre Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin. Belém: Paka-Tatu, 2003.

6. In: O pensamento alemão no século XX, vol. I. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

7. Caderno UniABC, Santo André, v. 1, n. 10, p. 16-32, 2002.

8. Revista Outubro, São Paulo, v.25, p. 120-139, 2015.




É preciso arrancar Alegria ao futuro!

O Blog Convergência divulga o manifesto “é preciso arrancar alegria ao futuro”, assinado por 739 ex-militantes do PSTU que neste momento se desligam daquele partido para convocar a conformação de uma nova organização socialista e revolucionária no Brasil. A iniciativa busca uma unidade superior da esquerda que se movimenta no sentido da luta pela superação do capitalismo, e, no Brasil, pela conformação de um terceiro campo, alternativo às velhas e novas direitas e à coalização que deu suporte aos governos do PT. Estes aspectos sempre estiveram presentes nas bases fundamentais da orientação que motiva a atuação da equipe editorial do blog.

A equipe do Blog Convergência aproveita para manifestar nossa adesão e apoio integral a esta iniciativa, a qual nos somamos e com a qual esperamos poder contribuir ativamente.

O ato nacional de lançamento da nova organização ocorrerá no dia 23 de julho, sábado, às 18 horas, no Club Homs (Av. Paulista, 735), na cidade de São Paulo.

São tempos de mudança, de novas iniciativas e de novos desafios. O Blog Convergência também mudará, mas para seguir buscando contribuir com os debates do marxismo e das lutas contra todas as formas de exploração e de opressão de forma ainda mais intensa.

Viva o socialismo e até a vitória!

Equipe do Blog Convergência


Manifesto pela construção de uma nova organização socialista e revolucionária no Brasil

presente manifesto é assinado por algumas centenas de companheiras e companheiros que no passado fizeram uma aposta militante no PSTU. Temos orgulho de ter dedicado o melhor de nossas forças para essa organização, mas hoje vimos a público comunicar que esta experiência chegou ao fim e que decidimos trilhar um novo caminho. Pertencemos a diferentes gerações, somos veteranos e jovens, mulheres e negros, LGBT’s, professores e indígenas, operários industriais e da construção civil, petroleiros e estudantes, ativistas e dirigentes sindicais que constroem a CSP-Conlutas, trabalhadores da saúde e do transporte, desempregados e intelectuais, funcionários públicos e terceirizados.

Há cerca de oito meses, começamos uma batalha por nossas ideias dentro da LIT (Liga Internacional dos Trabalhadores) e sua seção brasileira, o PSTU. Por meio deste manifesto, queremos expressar nossas posições e as conclusões a que chegamos ao longo desse debate.

O que pensamos?
Acreditamos que as dificuldades enfrentadas pelos revolucionários neste início de século 21 encontram sua explicação mais profunda no impacto reacionário da restauração capitalista na URSS, leste europeu, sudeste asiático e Cuba. A ofensiva política, econômica, social, militar e ideológica do imperialismo, os discursos sobre “o fim da história” e a adaptação da esquerda reformista à ordem burguesa não passaram sem consequências. O movimento de massas retrocedeu em sua consciência e organização. E os revolucionários sofreram os efeitos desses anos de confusão e crise.

Mas a história não acabou. A crise econômica mundial de 2007-2008 abriu uma nova situação internacional marcada pela instabilidade e pela polarização política, social e militar. Nesse marco, surgiram fenômenos altamente contraditórios, como a Primavera Árabe, a crise econômica europeia, o conflito militar na Ucrânia, os indignados da Espanha, a ascensão de partidos neo-reformistas como Syriza e Podemos, a crise dos refugiados na Europa, o fortalecimento da direita em várias partes do mundo, as manifestações na Grécia, as lutas antiproibicionistas e pelo direito à cidade encabeçadas pela juventude, o declínio dos governos de colaboração de classes na América Latina, o avanço do fundamentalismo islâmico e cristão, o ascenso da luta antirracista, feminista e antilgbtfóbica no mundo inteiro, as jornadas de Junho de 2013 no Brasil, a guerra civil na Síria, a crise do euro e da União Europeia, o atual ascenso francês e tantos outros.

Assim, a nova situação mundial abre importantes perspectivas aos socialistas. Mas é preciso saber atuar. Acreditamos que a postura dos revolucionários diante da reorganização da esquerda deve ser firme, porém, paciente. Porque o caminho da autoproclamação nos condenaria à marginalidade. Porque sabemos que o isolamento, a condição de minoria e a luta contra vento e maré durante tantas décadas deixaram em todos nós cicatrizes, reflexos sectários que devemos ter a coragem de superar.

Pensamos que a simples apresentação de um programa revolucionário não é o bastante para construir uma organização marxista. O decisivo é que esse programa seja ouvido, que lutemos por ele em cada espaço, que ele seja compreendido e aceito pelas massas e sua vanguarda. Não superaremos a marginalidade com um programa ultraesquerdista, que os trabalhadores não estão dispostos a abraçar, ou que, às vezes, nem sequer compreendem.

No terreno da política nacional, por sua vez, as diferenças não foram menores. Há mais de um ano vínhamos afirmando que era preciso enfrentar, com centralidade, a política de ajuste fiscal do governo Dilma, mas combater também a oposição burguesa que queria derrubá-la apoiando-se em mobilizações reacionárias. Para esta luta, acreditávamos que era necessário construir a mais ampla unidade de ação com todos os setores que estivessem na oposição de esquerda ao governo e, se possível, dar a esta unidade uma forma organizativa: uma frente de luta ou terceiro campo alternativo ao governo e à oposição de direita.

Depois que a maioria da burguesia se unificou em torno à proposta de impeachment, a partir de fevereiro de 2016, defendemos internamente que era vital lutar contra esta manobra parlamentar, sem que isso significasse, evidentemente, prestar qualquer apoio político a Dilma. Porque avaliávamos que a derrubada do governo do PT só teria um sentido progressivo se realizada pelas mãos da própria classe trabalhadora, por meio de suas próprias organizações. Ao contrário, se liderada pela oposição de direita, a derrubada de Dilma seria uma saída reacionária para a crise política; deseducaria os trabalhadores em sua tarefa de autoemancipação. A segunda hipótese foi exatamente a que ocorreu.

Debatemos estas e outras diferenças lealmente durante quase um ano. Não obstante, foi atingido um ponto de saturação. Quando as diferenças se fazem insolúveis, quando a possibilidade de síntese se esgota, quando as discussões se tornam intermináveis e as polêmicas improdutivas, o perigo da desagregação passa a ser maior que tudo. Chegamos à conclusão que o prosseguimento do combate ameaçava com uma ruptura abrupta e desorganizada. Para preservar o maior patrimônio de qualquer organização, seus militantes, optamos por encerrar a luta e oferecer uma saída organizada para a crise. Deixamos o PSTU.

Reconhecemos o PSTU como uma organização revolucionária. Não pensamos que é menos revolucionário agora do que antes. Mas às vezes é impossível aos revolucionários pertencer a uma mesma organização. Apostamos na possibilidade de uma separação amigável, e portanto exemplar, muito diferente das rupturas explosivas e destrutivas que o passado tanto viu. Mantemo-nos, por isso, nos marcos da Liga Internacional dos Trabalhadores, na qualidade de seção simpatizante.

O que queremos?
Ao mesmo tempo em que nos desligamos do PSTU, reafirmamos nossa disposição em continuar a luta pela revolução socialista em uma nova organização nacional. Reconhecemos a ação consciente e organizada como a mais eficaz. Sobre a base do marxismo, da teoria leninista de organização e de toda a experiência histórica do movimento operário e socialista mundial, queremos construir algo novo. Admitimos sem soberba, com sincera humildade e respeito, que não somos os únicos revolucionários no Brasil ou no mundo.

Somos um pequeno ramo da grande árvore do marxismo revolucionário mundial. Reivindicamos as resoluções dos quatro primeiros congressos da III Internacional; defendemos a teoria da revolução permanente e o Programa de Transição de Leon Trotski; nos colocamos a serviço da reconstrução da IV Internacional; abraçamos a herança do trotskismo latino-americano que teve em Nahuel Moreno seu principal dirigente e organizador; defendemos um marxismo ao mesmo tempo rigoroso na utilização dos conceitos e aberto na interpretação dos novos fenômenos; acreditamos que os socialistas devem estar na primeira fileira do combate ao machismo, à lgbtfobia e ao racismo, principalmente num país que traz na sua história a triste marca de quatro séculos de escravidão e que é um dos que mais mata mulheres e LGBT’s no mundo; vemos a revolução socialista, em primeiro lugar, como processo de autoemancipação dos trabalhadores, com a classe operária à sua frente; entendemos que o revolucionário é, em primeiro lugar, um rebelde, e por isso o regime interno de uma organização marxista deve se caracterizar tanto pela disciplina na ação, quanto pela ampla liberdade de discussão, e que esses dois aspectos não são contraditórios, mas sim complementares e inseparáveis.

Rejeitamos qualquer tentativa de reeditar, trinta anos depois, a experiência reformista do PT, como faz hoje a direção majoritária do PSOL. A redução da luta de classes à luta parlamentar, as alianças com os setores supostamente progressivos da burguesia nacional, a transformação dos deputados, senadores e prefeitos em figuras todo-poderosas, que só devem satisfações a si mesmos – tudo isso já foi feito. E fracassou. Não trilharemos este caminho.

Sabemos que a degeneração política do PT e a corrupção de seu aparelho alimentam uma saudável desconfiança entre os lutadores jovens que não querem ser manipulados como a vanguarda da geração anterior. Aos milhares, os ativistas se perguntam como controlar suas próprias organizações. E têm razão! Porque o tempo da ingenuidade e da credulidade nos líderes precisa ficar para trás. Queremos uma organização em que não haja lugar para os arrivistas, os oportunistas, para aqueles que querem obter vantagens e benefícios pessoais. Queremos entre nós os despojados de pretensão, os desapegados de ambição, os desprendidos de vaidade.

A luta é aqui e agora
O maior desafio de nossas vidas, o sentido de nossa militância, é a realização e o triunfo da revolução socialista brasileira. A classe trabalhadora e o povo oprimido devem se elevar à altura do combate que a história convoca. Treze anos de governos do PT demonstraram de forma irrefutável que a estratégia de regulação do capitalismo através de minúsculas reformas social-liberais conduziu o país a um verdadeiro desastre. A direção do PT é a primeira responsável pela tragédia que se abate hoje sobre a classe trabalhadora brasileira. Lula e Dilma traíram o sonho dos trabalhadores, enterraram-se a si próprios e abriram o caminho para Michel Temer e Henrique Meirelles. A verdadeira libertação dos explorados e oprimidos passa, portanto, pelo combate à conciliação de classes promovida pelo PT e pela retomada de uma estratégia de ruptura revolucionária da ordem.

A crise e posterior falência estratégica do PT, tão evidentemente demonstrada nas jornadas de Junho de 2013 e no episódio do impeachment, colocam para a esquerda marxista brasileira o dilema de sua própria crise, de sua própria marginalidade, de sua própria fragmentação. Os calendários eleitoral e sindical não comportam mais as lutas que vêm ocorrendo. É preciso uma saída estratégica. É nesse sentido que precisam trabalhar os marxistas revolucionários.

Mas as lutas dos explorados e oprimidos não podem esperar. Elas estão ocorrendo aqui e agora. Para que elas sejam vitoriosas, precisam ser cercadas da mais profunda solidariedade, em torno a elas deve ser construída a mais ampla unidade.

Essa unidade na ação prática, na luta comum, passa hoje, em nossa opinião, pela bandeira do Fora Temer, quer dizer, a luta contra o governo de plantão e suas medidas. Sem a unidade dos movimentos sociais combativos em torno a essa tarefa decisiva, corremos dois perigos. O primeiro é que o impulso de todos esses enfrentamentos parciais se disperse, pela ausência de uma estratégia geral comum. O segundo é que os combates específicos sejam apropriados pela direção do PT em seu projeto de voltar ao poder com uma nova candidatura Lula. Ou seja, a velha chantagem do mal menor. A maior tarefa da esquerda anticapitalista, portanto, é abrir o caminho para outra saída política. E ela pode ser construída desde já. Nenhum dos partidos e organizações da esquerda combativa pode hoje, por si só, oferecer esta saída.

Para ser efetiva, essa saída precisa ser construída de fato por todas as correntes e organizações combativas do movimento social, por todos que desejam sinceramente conformar esse terceiro campo alternativo da classe trabalhadora.

Defendemos a unidade deste terceiro campo também nas eleições municipais de 2016. Propomos ao PSTU, ao PSOL, ao PCB, às organizações políticas que não possuem legalidade e aos movimentos sociais a construção de uma Frente de Esquerda e Socialista, com um programa de ruptura com os planos de ajustes que são aplicados por todos os governos e prefeituras. Nos colocamos desde já a serviço dessas grandiosas tarefas.

Queremos, enfim, construir uma organização que resgate a grandeza e a integridade do projeto socialista; uma organização que seja digna da memória daqueles que vieram antes de nós e entregaram suas vidas na luta pela igualdade social; uma esquerda revolucionária não-dogmática, que não se acomode nas poltronas de couro dos gabinetes parlamentares, mas que combata também o corporativismo e o burocratismo dos sindicatos, que priorize a luta direta das massas, que dialogue com a ampla camada de ativistas surgida no último período, que seja capaz de influenciar verdadeiramente os rumos da luta de classes no país, de inspirar confiança e esperança novamente.

O desafio é gigantesco, mas temos confiança que podemos, como dizia o velho poeta Maiakovski, “arrancar alegria ao futuro”. É chegada a hora de ousar. Mais do que nunca, é preciso lutar, é possível vencer.

Os assinantes do presente manifesto convidam também a todas e todos para o ato nacional de lançamento da nova organização, que ocorrerá no dia 23 de julho, sábado, às 18 horas, no Club Homs (Av. Paulista, 735), na cidade de São Paulo.

Viva a luta dos explorados e oprimidos do mundo inteiro!
Viva a revolução! Viva o socialismo!

As assinaturas do manifesto podem ser vistas em: http://alegriaaofuturo.com.br/quem-assina/




Camarada: passado, presente & futuro

Betto della Santa |

 

“A filologia é a expressão metodológica da importância que os fatos sejam precisados e acertados em sua inconfundível ‘individualidade’. […] método de verificação dos fatos particulares…”. (Antonio Gramsci)

“Nenhum grupo isolado pode estar ‘errado’ por qualquer critério linguístico, embora um grupo temporariamente dominante possa tentar forçar seus próprios usos enquanto ‘corretos’.” (Raymond Williams)

 

Ca·ma·ra·da (sm./sf.)
[Do Fr. = Camarade.]

1. Pessoa que convive com outra; companheiro.
2. P. ext. Amigo fraternal e cordial.
3. Condiscípulo, colega.
4. Cada um dos indivíduos que exercem a mesma profissão.
5. Bras. N. Pessoa amancebada; amásio, amigo, companheiro.
6. Bras. V. concubina:
Alugou casa para a camarada e passou a morar lá, com ela.
Substantivo masculino.
7. Bras. Pop. Soldado.
8. Bras. Indivíduo empregado em serviços avulsos, nas fazendas.
9. Bras. Garimpeiro assalariado.
10. Bras. Sujeito, indivíduo:
Esse camarada está sempre contando vantagem.
Adjetivo de dois gêneros.
11. Bras. Simpático, acessível, amigo; camaradesco:
É um sujeito camarada.
12. Agradável, bom, propício:
Soprava um ventinho camarada.
13. Acessível:
um preço camarada.
14. Que denota camaradagem, simpatia, amizade:
O professor deu-lhe uma nota camarada.
[-Camaradas de corpo. Bras. Pop.: Madre, útero.]

Fonte: Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa. 14ª. Ed.
Aurélio Buarque de Hollanda. Versão revista. Nova ortografia.

 

Uma nova concepção total de mundo pode dar lugar a uma outra civilização integral. Para o espírito se fazer carne a luta por uma linguagem depurada é, longe de tarefa secundária, simplesmente fundamental. As palavras nunca são inocentes. Se a revolução mundial originou o termo Soviet, foi a contrarrevolução global que cunhou a expressão Gulág. O léxico grosseiro do Império do Czár assentava-se em séculos de humilhação e ofensa. Não à-tôa parte importante do programa socialista de reinvenção da vida cotidiana, Perestroika Byta, teve este objetivo. Mas o tempo não pára. E tampouco pára o seu curso a linguagem.

Camarada segue sendo uma palavra difundida –no vocabulário cotidiano– da esquerda radical de muitos países. É constituinte e constituidora da tradição igualitarista de vários continentes. Já gozou de maior prestígio –entre as classes oprimidas e combatentes–, e já sofreu reveses múltiplos, pelos mais diversos motivos. Vale a pena atentar para uma sua semântica histórica. Como conteúdo sedimentado de uma forma linguística, faz parte de todo um sistema de significações que dá forma e sentido, ordena e reordena, a modos de vida e de luta –determinados e determinantes– reais. Afinal de contas, o que tem a dizer?

Recapitulando ligeiramente o verbete: de parceiro de convívio sob mesmo teto, passando por amigo fraternal/cordial, colega/companheiro de trabalho, companheiro/a amoroso/a, oficial militar, bóia-fria/jornaleiro, garimpeiro assalariado, sujeito e/ou indivíduo mesmo simpático/agradável até a gíria, já bastante trivial, de cara bacana, no Brasil, ou tipo fixe, em Portugal. Uma real profusão das mais múltiplas significações, filotipicamente congêneres, própria de toda formação sígnica singular realmente existente na cultura histórico-mundial do gênero humano. Mas, curiosamente, nem uma palavra sequer do que diz a letra do texto do Priberam português, ou do Houaiss brasileiro, sobre a história da esquerda, os partidos socialistas e os sindicatos operários. Após uma primeira análise, cabe iniciar a via de volta.

Em síntese, e, como em toda síntese, numa simplificação brutal, desse modo se designa a pessoa a quem se está ligado/a por uma familiaridade originada de atividades comuns (estudo, trabalho, lazer etc.) ou afeição voluntária, indica-se aquele/a que tem os mesmos interesses ou ocupações –segundo o Dicionário Le Gran Robert– e, enfim, trata-se ainda de uma forma de tratamento, sobretudo, entre iguais. Mas, afinal de contas, onde e quando se pode buscar sua gênese histórica e devir social no tempo espaço de épocas e continentes?

I.

De ramo léxico-semântico derivado imediatamente de outro idioma neorromântico, do francês antigo, Camarade, a palavra é uma genuína trânsfuga, tanto da pátria de origem quanto do seu sentido, digamos, original. A velha palavra apareceu em cena no idioma francês no período das Grandes Navegações, cruzando os Montes Pirineus a partir da década de 1510, do Lat. Camera[1] = Quarto. O termo –tomado de empréstimo ao castelhano castiço, Camarada = com quem se compartilha cámara de habitación– existe, segundo registro catalográfico, desde o Séc.XVI na língua francesa. Acontece que, durante o Renascimento europeu, o poder dos Reinos de Castilha e Portugal cresceu a olhos vistos sob a colonização das Américas. Ou seja, com hegemonia política — a supremacia linguística.

Em razão da primazia nos conflitos militares, relações comerciais e na política exterior do sistema-mundo mercantil o castelhano-espanhol –e também a língua galaico-portuguesa– forneceram ao idioma francês algumas palavras que lhes são próprias, fenômeno cultural que logo se inverteria e, logo depois, se trasladaria à influência do universo anglossaxão. De qualquer maneira é sobretudo na forma como se dá a transmissão de todo um vocabulário às colônias, e em particular, no Novo Mundo, que os idiomas ibéricos irão enriquecer-lhe consideravelmente à francofonia. Assim sendo, talvez o percurso inicialmente sugerido –desde os Montes Pirineus– seja, na verdade, quiçá um bocado mais complexo do que o inicialmente imaginado. A realidade em movimento sempre supera a ficção da suposição.

E tanto mais, lembremos: toda língua nacional foi/é produto histórico de normatização institucional inescapavelmente póstuma, violentamente arrancada, no mais das vezes a ferro e a fogo, do coração vivo de uma multiplicidade de línguas/idiomas/dialetos e povos originários que não conheciam fronteiras de qualquer tipo e ainda, para todos os efeitos, França e Espanha nomeavam/nomeiam povos e Estados –constitutivamente multiétnicos, plurinacionais e polilingüísticos –de fato limítrofes, também, no intercâmbio significativo. Esta palavra é um equivalente simbólico do francês, Chambrée, termo que designa forma de alojamento com parceiros de convívio em um mesmo quarto compartilhado, um modo de vida mais comum –e já difundido– entre os grupos subalternos e as classes trabalhadoras.

Aí está a força originária da expressão, nua e crua, descoberta das diversas camadas de sentido –estalactites e estalagmites linguajeiras– que se lhe cobriram a trajetória enquanto fóssil lingüístico, com o passar do tempo histórico. Dividir o mesmo teto. Mas, como já dizia Ernst Bloch, a verdadeira gênese está no fim. Afinal de contas, a linguagem dos homens é um fenômeno sócio-histórico em irrefreável movimento e se dá, por fim, enquanto língua “viva”.

II.

O emprego particular de Camarada –em seu uso social e político já tradicionalmente associado ao movimento dos trabalhadores, forma de tratamento amistosa, com forte conotação partisana– teve início a partir de sua agitação e proganda através de comunistas e socialistas franceses –pré-marxistas– que, segundo o Larousse Dictionnaire d’Étymologie, primeiramente difundiram este lexema ou unidade de sentido, a partir da década de 1790, sob o impacto da revolução jacobina. Reconstruída a significação originária não é difícil apreender-lhe senso metafórico a militantismo/companheirismo/partisanismo, i.e., engajar-se/participar/compartilhar. Viver é um «acamaradar-se», diria o comunista Antonio Gramsci.

O vendaval irresistível da vaga revolucionária mundial aboliu, ao menos transitória e momentaneamente, as formas de tratamento Senhor e Senhora, Monsieur e Madame –de forte conotação hierárquica– suprimindo o pesado fardo dos títulos nobiliárquicos e a velha herança dos privilégios feudais a partir da noção de homens livres e do emprego algo generalizado da expressão que denotava a emancipação jurídico-política. Cidadão, Citoyen.

Um exemplo digno de nota vem do próprio Rei Louis XVI que, depois de deposto, passou a ser referido simplesmente como Cidadão Louis Capet. Aí está a profícua fertilização do solo histórico que lhe serviu de esteio à ressignificação, e enfim, ao sentido político atribuído ao signo que nos ocupa, aqui e agora, enquanto forma histórica. Não há aí uma melhor defesa.

Considerando que a gênese dos termos Socialisme e Féminisme é praticamente coetânea durante a Primavera dos Povos e as revoluções européias de 1848 a expressão franco-espanhola, Camarada, tem ainda uma vantagem adicional: não estabelece distinções de gênero, sendo uma forma de tratamento mais igualitária inclusive no trato não-distintivo entre homens e mulheres. O sistema patriarcal de dominação masculina é uma das formas históricas de opressão social mais arraigadas, que em muito antecede o velho feudalismo e o próprio sistema do capital, e por isso lega ainda profundas marcas – linguísticas e sociais.

III.

Tem-se notícia da utilização da mesma expressão em alemão, Genosse, ao menos desde a atuação do Sozialdemokratische ArbeiterparteiOs dirigentes russos –atentos à nação mais revolucionária e, algo depois, mais reacionária do mundo– conheciam bem não só a história e a memória do movimento francês –por razões tão óbvias quanto 1789, 1848 e 1871– como também sabiam, de-cor’, seus usos e costumes. Não é por acaso que muitos autores russos usaram prenome, tipicamente francês, León, em seus nomes literários. A influência das letras e política dos franceses era enorme na Rússia do Novecentos. O bolchevismo, após a conquista do poder no início do Séc.XX, generalizou e internacionalizou o emprego político-social fundado pelos camaradas franceses, traduzindo o termo e incorporando-o à cotidianidade, à cultura e ao modo de vida soviético. Camarade, Genosse, Tovarich. A revolução socialista na Rússia deveria ser considerada, para todos os efeitos, em termos de continuidade histórica em relação àquela que seria a sua irmã mais velha, a Comuna de Paris. Lenin e Trotsky; Bukhárin e Sverdlov bem sabiam disso. Há quem diga que não foi sem emoção que Lenin viu a Revolução dos Soviets superar os 72 dias que fizeram a vida social e política –econômica e cultural– do primeiro Estado da história dos trabalhadores.

A guerra civil que se seguiu na Rússia viu o Exército Branco contrarrevolucionário usar o termo Tovarich em sentido pejorativo, para se referir aos bolcheviques, principalmente os envolvidos no Exército Vermelho e nos Soviets, conselhos assembleários de representantes proletários, camponeses e militares. A direita conservadora da América do Norte e da Europa Ocidental passou a menoscabar –muitas vezes com estereótipos grosseiros e caricaturas infantilizadas– de seus adversários banalizando, descontextualizando e, por fim, esvaziando de sentido o epíteto de Camarada. O espectro do anticomunismo passou a rondar a Doutrina de Segurança Nacional em grande parte do mundo do capital e a Era Macarthista constitui a sua expressão a mais autoevidente nos Estados Unidos da América.

Assim sendo, à medida que o arrojo revolucionário de Outubro de 1917 ia se esmaecendo e a ex-URSS se ia stalinizando, o uso social e político do termo Camarada foi então se circunscrevendo, cada vez mais, a discursos formais, documentos oficiais e aos vários destacamentos civis-militares do restrito círculo da burocracia partidária, política e estatal.

A forma de tratamento que ascendera social e politicamente em função de seu sentido originalmente igualitário, voltado para as relações mais diversas da vida cotidiana, voltava –passos atrás, literalmente– a assumir uma conotação hierárquica a partir da utilização oficial, formal e extracotidiana empregada por uma casta burocrática, a nomenklatura civil e político militar da ex-URSS. O retrocesso é autoevidente. Desta forma, a atração exercida primeiramente –nitidamente emancipatória– rapidamente acompanha o arco descrito pela trajetória reacionária da degeneração burocrática dos partidos comunistas no mundo todo.

IV.

Na América Latina dos anos 60 e 70, por exemplo, o eixo das atenções será deslocado pela Revolução Cubana e seu signo prototípico por excelência; tornando mais difundida a forma-Compañero/a = aquele/a que acompanha, companhia/acompanhante –de luta, de vida, de jornada– ou, em sua vertente mais diretamente alegórica, com quem se partilha ‘o pão de cada dia’, do Lat. Cum = com + Panis = pão; inclusive entre a esquerda brasileira. Trata-se de uma palavra ainda mais antiga, presente desde o latim vulgar, Companio = com quem se divide o pão –p.ex.: Comensal, também derivado do latim, quer dizer com quem se divide a mesa, sendo ambos sinônimos de Conviva, ou seja, com quem se convive– e com larga trajetória nas línguas derivadas do Oxítano, como o francês ou o catalão, cuja démarche associa-se, de formas variadas, aos sucedâneos das origens do cristianismo primício, às corporações de ofício do medievo e –até mesmo– às seitas secretas das francomaçonarias.

A reintrodução da distinção de gênero através da nova forma de tratamento, Companheira, acompanhava, paralelamente, a maré cultural do nascente movimento social feminista contemporâneo, subvertendo o igualitarismo nos termos de uma lógica da diferença já voltada, à época, para uma revalorização do papel social da mulher na história. A palavra Companheira passa a ser, inclusive, uma alternativa simbólica para termos como esposa, concubina ou mulher –com carregado sentido de posse-domínio masculino– justificando, duplamente, a nova apropriação pela segunda vaga do movimento de mulheres do Séc.XX.

Mas, centralmente, enunciar o termo Companheiro/a trazia consigo como que um subtexto criptografado do preterimento –de caráter antistalinista– da sua antiga versão unissex, agora amplamente identificada com as burocracias moscovitas e os seus partidos-satélites.

No Brasil, em especial, tratava-se também de um modo cifrado de «culto» à consciência espontânea do novo movimento operário do ABCD paulista de finais dos anos 70 e início dos 80 além do rechaço implícito, da parte dos sindicalistas, a toda forma de esquerda organizada, inclusive a trotskista, notadamente antistalinista. Que José de Alencar (PL) insistisse em chamar Luiz Inácio da Silva (PT) por Companheiro, no interior da ex-Frente Brasil Popular, não deixa de constituir uma das ironias das quais a história está já repleta.

V.

O elevado grau de burocratização, institucionalização e inclusive remilitarização, haja vista a origem de seu uso, de forte conotação filomarcial, como no caso dos camaradas de regimento –agora empregado majoritariamente por stalinistas em posição de mando– gerou, enfim, outra importante deformação. O emprego político-social, correligionarismo em um mesma corrente de pensamento e tendência de ação, seria então agora expropriado amplamente pelo nazifascismo o qual se abatera sobre grande parte da Europa Ocidental.

O partido nacional-socialista alemão e o falangismo grão-espanhol são notórios exemplos de organizações de extrema-direita que não tiveram quaisquer problemas em empregar a palavra no interior de suas fileiras. A dupla derrota histórica do movimento social operário europeu –stalinismo, no Leste Europeu, e nazifascismo, na Europa Ocidental– iria então se consubstanciar, também, na forma-Camarada. Não é por acaso que comunistas, socialistas e anarcossindicalistas revolucionários de toda a Península Itálica trataram-se/tratam-se por Compagno, enquanto Camerata é uma forma de tratamento utilizada tão-só pelos filiados e simpatizantes ao Partido Fascista de Benito Mussolini, assim como é a de seus recentes seguidores na Itália. “Errar o nome” –no provérbio– é tão grave quanto “matar um homem.”

Entre a esquerda dos países iberoamericanos, Brasil incluso, até hoje existe uma alternativa entre as duas formas –Companheiro/a e Camarada– para designar o que em muitos outros lugares só conhece uma única tradução mais fiel: Tovarich, Camarade, Compagno etc. etc. etc.

Hoje em dia em Moscou –muitos anos depois da restauração capitalista, cujos ritmos e eixos foram ditados desde o próprio Politburo– dificilmente será possível, ou mesmo provável, alguém interpelar qualquer pessoa pela forma de tratamento predominante no cenário pós-czarista, Tovarich. Um vendaval contrarrevolucionário parece ter varrido uma tão bela palavra para a glacial Sibéria do interdicto do bem-falar moscovita. Irromperam em cena novamente Damy e Gospoda –Senhor e Senhora, respectivamente–, retornando à baila as formas hierárquicas, e mais formais, de trato. O novo protocolo social e político –em sua versão mais avançada, na ordem estabelecida– parece indicar não mais do que Grajdanin, Cidadão. Um franco regresso ao passado, ainda não-ultrapassado, de Tolstói e Doistóevski.

VI.

Mas muitas águas rolaram desde o declínio do nazifascismo e o colapso do stalinismo. A meia-noite do século já não é a fantasmagoria que assombra o mundo. A estrepitosa queda do Muro de Berlim e a decadência dos partidos-satélites de Moscou, contudo, ficou longe de pavimentar o caminho para qualquer alternativa à crise de direção revolucionária global. Que os inimigos fidagais do movimento dos trabalhadores já não gozem da saúde de antes, e encontrem-se até respirando por aparelhos, não serve de garante ao êxito do marxismo.

Porém tomar-lhe emprestadas vestes, palavras-de-ordem e mesmo –por que não?– formas de tratamento a uma história coalhada de lutas gloriosas, e derrotas infames, não significa ter um olhar voltado para trás. Aliás, pode ser justamente o contrário: derivar nossa poesia de um futuro em aberto que atualiza, ressignifica ou –hegelianamente– supera o que foi. A cisão ocorrida entre o que se espera do futuro e aquilo que remonta ao passado não deixa de ser uma conscripção obrigada ao presente eternal. Graças às obras de Christopher Hill, Edward Thompson e Eric Hobsbawm –não bastasse o parafraseado Karl Marx d’O Dezoito Brumário– sabe-se que o movimento social como um todo extrai sua força e sustento do passado remoto. Não se trata de ideia sentimental, paralisação retrógada ou revolição política. A herança histórica da velha linguagem é a pedra de toque para o aprendizado do idioma futuro. A antiga forma –mutatis mutandi– pode servir à criação de um novo conteúdo.

Camarada. É uma boa e velha palavra franco-castelhana que gostaríamos de ver atualizada, ressignificada e superada pelo movimento real de homens e mulheres –em carnes e ossos–, camaradas vivos/as que –apesar de em condições legadas por outrora– fazem a sua própria história. Como bem se disse antes, nada de novo poderá surgir da falta de memória coletiva.

Da mesma forma se dá com Féminisme, Socialisme e, com especial apreço, Communisme. É preciso arrancar a tradição histórica ao que é o conformismo político e despertar do tempo pretérito às faíscas do “princípio-esperança”. Não chegou a hora de baixar às armas ou defeccionar à bandeira vermelha. Alguém poderia se perguntar o porque de uma tal persistência simbólica. Seria isso um preciosismo verbal? Ou sectarismo lingüístico? Um signo-fetiche? Longe disso. Bem longe disso. Ao contrário do que reza o Genesis, no início não era o verbo. E, diferente do que escreveu Goethe, tampouco foi a ação. O princípio está na relação entre um e outro. Se muito vale o já feito, mais vale o que será. É preciso arrancar alegria ao futuro. Transformar o mundo. Cantar à vida. Bem unidos, pois — façamos.

________________________

[1] Do Lat. Camăra; Do Gr. Kámara. O termo possui múltiplas acepções possíveis. Em uma delas a descrição do ambiente ou cômodo principal de uma moradia. Refere-se a termo técnico da história material da arquitetura e do urbanismo com registros em Sânscrito, Persa e Celta = Curva, Volta, Arco. Da Câmara mortuária à Câmera fotográfica, passando pelas Câmaras pneumáticas até as Câmaras de Comércio, Indústria e Orquestra, todas variantes derivam da mesma raiz. O Império Romano utilizou-se desta expressão para nomear às Abóbodas. Talvez aqui resida uma chave interpretativa importante. Senão, vejamos. As Abóbodas são as diversas formas de construções arqueadas com as quais se cobrem espaços compreendidos entre muros, pilares e/ou colunas. Compõe-se de peças lavradas em pedra especialmente para este fim, denominadas Aduelas, ou de tijolos apoiados sobre uma estrutura provisória de madeira, os Cimbres. Todo esse problema arquitetônico é nada menos do que basilar para a história material do mundo dos homens. E isso, vista mais de perto a questão que nos ocupa, não se trata de uma somera metáfora.

Embora já de uso generalizado desde a Antiguidade Clássica, a sua construção constituiu o principal problema arquitetônico da Idade Média europeia. O desafio de construí-las foi um dos vários fatores que impulsionaram o desenvolvimento de toda a Arquitetura Ocidental. Os povos mesopotâmicos foram os primeiros a empregá-las de modo já algo generalizado.

No Egito e na Grécia a cobertura dos edifícios era feita mediante estruturas horizontais, as Arquitraves, mas entre os Cretenses e os Micenianos já se encontravam algumas ‘Falsas-Abóbadas’, por assim dizer, feitas de fileiras contíguas de tijolos e pedras. Os romanos antigos recuperaram as técnicas originárias dos povos mesopotâmicos, retomadas pouco depois no Ocidente e também no Império Bizantino, de onde se transmitiram ao Mundo Islâmico. O período românico usou principalmente a Abóbada de Berço, que evoluiu para a Aresta e a Cruzeta até chegar à Abóbada Ogival, típica das Igrejas desde seu período gótico.

O Renascimento europeu recuperou os valores estéticos do classicismo artístico e, com eles, os fundamentos arquitetônicos da Abóbada Original. A sua raiz indoeuropeia, Kamer, pode ser perquirida junto ao Indogermanisches Etymologisches Woerterbuch, de Julius Pokorny, e ao Diccionario Etimológico Indoeuropeo de la Lengua Española, de Edward Roberts e Bárbara Pastor, entre outros. Palavras como Camareira, Camarote e Camerístico provém do mesmo tronco lingüístico e ramificação vocabular. Ao fim e ao cabo, trata-se de substrato granítico dos pilares fundacionais mais remotos do próprio processo civilizador. A produção material dos meios fundamentais da vida social no mundo dos homens remete, necessariamente, à dimensão transindividual. O ser-estar juntos, o aspecto coletivo ou, para todos os efeitos, a comunidade real. Neste sentido, o afastamento das barreiras naturais por meio da cultura humana também perfaz uma reconciliação histórica do homem consigo mesmo. Como já diria um historicista absoluto da objetividade humana, não há como viver sem partilhar. O conceito aqui investigado remete ao debate de filologia vivente travado por Antonio Gramsci n’Os Indiferentes. Todo Camarada que genuinamente vive é, ao fim e ao cabo, vero Partigiano.

Assista, abaixo, ao trailer do filme Jimmy’s Hall –ou Salão de Jimmy–, do Camarada Ken Loach:

 




“Os tempos já estão mudando”? («The times they are a-changin’»?) | Editorial (uma análise de conjuntura depois do referendo pela saída da Grã-Bretanha)

Editorial do Socialist Worker | Trad. Betto della Santa

If your time to you/
Is worth savin’/
Then you better start swimmin’/

[Se seu tempo para você/
Vale a pena ser salvo/
Então é melhor você começar a nadar/]

(Bob Dylan)

Os donos da Grã-Bretanha enfrentam abalos sísmicos após o voto pela saída da União Europeia e nenhum deles parece ter qualquer resposta política para o que aconteceu.

David Cameron anunciou a saída de cena apenas algumas horas após o resultado do referendo.

O homem que dirigiu a austeridade mais brutal contra os trabalhadores desde 1930, atacou os migrantes e presidiu a campanha islamofóbica contra o prefeito de Londres, Sadiq Khan, está desaparecido.

O chanceler, George Osborne, saiu do esconderijo, Segunda-feira, para reassegurar os mercados de ações de que “a economia está tão forte quanto nunca”. O resultado foi que o preço das ações despencou abruptamente.

Os Tories do ‘Brexit’ estão descobrindo que os Estados europeus não vão lhes dar qualquer trégua.

Suas promessas, como mais dinheiro para o Sistema de Saúde Nacional, desapareceram sem deixar quaisquer rastros.

A disputa pela liderança Tory vai dividi-los ainda mais agudamente. Outro referendo, pela independência escocesa, está na ordem do dia. A eleição geral poderá ocorrer para este ano, ou para o início de 2017.

O lançamento do Informe Chilcot, na próxima semana, irá desmascarar pelo menos algumas das mentiras sangrentas por detrás da Guerra do Iraque. Se isso não acontecer a ira irá tomar conta da sociedade após qualquer tentativa de varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Estes verdadeiros golpes de martelo reforçam-se mutuamente. O governo está marcado pela inércia, paralisia e derrapagem. Trata-se de uma genuína crise.

E isso pode ser resolvido na direção das pessoas que vivem do próprio trabalho. E pode, portanto, não favorecer às elites que sofreram com o martelar do referendo.

Quebra

Muitos na esquerda parecem mergulhados em tristeza. Nós não compartilhamos deste ponto de vista. Há perigos e armadilhas potenciais, mas também uma chance real de romper com o consenso da austeridade e fazer recuar os racistas de volta ao armário.

O voto de saída enfraqueceu nossos inimigos. É hora de acelerar o assalto ao establishment.

Os racistas irão buscar fazerem-se prevalecer nesta atmosfera de turbulência.

O bode expiatório racista dos meios de comunicação e dos políticos da ordem, muito antes e também durante o referendo, encorajou-os a valer — e alguns vão recrudescer em violência e assédio.

Mas eles podem ser derrotados.

Temos que dimensionar como a crise se desenrola. Temos que ser participantes ativos do resultado. E não meros espectadores passivos de manobras políticas advindas de cima para baixo da sociedade.

Este é o contexto da tentativa de defenestrar Jeremy Corbyn enquanto líder trabalhista. À primeira vista é desconcertante que, assim como os Tories desintegraram o Labour, os parlamentares da Câmara dos Comuns deram cabo de sua própria liderança.

Mas eles deparam-se com uma batalha muito mais ampla. Corbyn e os seus apoiadores querem o Labour como um partido antiausteridade e antirracista enquanto a maioria dos deputados trabalhistas acham que o partido não deve representar qualquer ameaça efetiva aos patrões.

Eles concordam com Tony Blair quando este diz que “não gostaria de vencer em uma plataforma de esquerda à moda antiga.” (E “mesmo que pensasse ser esta a trilha a pavimentar o caminho para a vitória, eu não a seguiria.”)

Os oponentes de Corbyn querem um Labour totalmente endireitado. A maioria parlamentar trabalhista nunca aceitou Corbyn como líder. A única divergência era quanto ao momento certo para derrubá-lo de uma vez por todas.

Incentivados pelo jornal Financial Times, o qual afirma que “após desembainhar a adaga os parlamentares trabalhistas não podem colocá-la de volta”, vão lutar até o fim.

Todos à esquerda precisam apoiar Corbyn contra a direita.

Mobilizar

Mas ele não vai sobreviver a menos que se mobilize às pessoas, por fora do parlamento ou do Labour. É hora de uma luta aberta, e não de mais conciliação de classes.

Outra eleição para a liderança parece provável. Corbyn deve estar na cédula. E deve ganhar. Os dirigentes sindicais que apoiaram Corbyn não devem, agora, traí-lo. Os parlamentares que o apunhalam pelas costas devem ser preteridos e cortados dos laços de todo apoio sindical.

Mas uma batalha mais ampla tem agora lugar. Precisamos lutar por soluções para a crise que unifiquem e mobilizem a classe trabalhadora.

Temos que garantir que as forças antiausteridade e antirracistas possam emergir mais fortes que antes. E que a direita seja derrotada.

É boa a notícia de que as pessoas de Newcastle a Tower Hamlets já tenham tomado às ruas contra o racismo e o fascismo.

Quanto mais greves, atos e ocupações do nosso lado, melhor será o resultado da votação. Tal ação coletiva deve envolver a todas as pessoas, não importa como tenham votado no referendo.

A greve dos professores em toda a Inglaterra é um bastião importante. A Marcha contra a Austeridade e o Racismo, chamada pelas coalizão Levante-se contra o Racismo/Stand Up to Racism e a Assembléia do Povo/People’s Assembly — para 16 de julho em Londres —, é outra data crucial.

Por que os Tories deveriam se ver livres de toda uma ofensiva de nosso lado?

Os professores podem vencer. Empregos na metalurgia merecem ser salvos. O Projeto de Lei Sindical/Trade Union Act deve ser desafiado.

Os dirigentes sindicais podem ser parte da derrubada dos Tories ou responsáveis por abrir-lhes caminho para uma sobrevida. Um rubicão foi cruzado.

A transformação social nunca vem sem turbulência no Mar da História —
e agora é a hora “H” para nós nos aproveitarmos deste momento histórico.

Fonte: Jornal Socialist Worker, London, 28/Jul./2016.




Revista Jacobin: «Nós não estamos tentando esconder o marxismo!» | (breve entrevista com um jacobino negro –e editor– Bhaskar Sunkara)

Alona Liasheva (*) & Bhaskar Sunkara (**) | Trad. Betto della Santa

Por Alona Liasheva (AL) | A Jacobin é uma das mais bem-sucedidas publicações da esquerda radical no mundo contemporâneo e, com certeza, a mais bem-sucedida da história dos Estados Unidos. Embora o projeto só tenha sido iniciado em Setembro de 2010 a sua audiência já atingiu 700mil visitantes por mês para a versão online e 15mil assinantes na versão impressa dentro e fora dos EUA. A revista cobre política, economia e cultura contemporâneas, dos Estados Unidos e em todo o mundo, desde uma perspectiva socialista. Para entender o que são as condições e estratégias de avanço de Jacobin e os planos futuros do seu projeto editorial o portal Commons decidiu falar com o editor-chefe e secretário de redação da revista, Bhaskar Sunkara (BS), sobre a batalha que seu periódico está travando no mundo das letras e da política.

AL: Em suas outras entrevistas você costuma enfatizar que Jacobin é mais um produto da nova geração. O que há de especial a respeito desta geração?

BS: Eu não acho que haja nada de especial sobre esta geração. O que é diferente é apenas o fato de que as expectativas de trabalho e de vida desta geração vão ser piores do que as gerações anteriores. Há um certo conjunto de situações econômicas objetivas diferentes: há uma massa maior de gente alienada, desbaratada e jovem desempregada que têm a percepção de que mereceria emprego em tempo integral estável, à maneira da geração de seus pais, mas eles não têm acesso a isso . E, obviamente, isso leva a um nível de mal-estar que a esquerda pode explorar. E eu acho que o fenômeno Sanders é indicativo disso. Considerando que, por anos e anos, as pessoas foram dirigidas pela mensagem de que quaisquer problemas particulares que estejam acontecendo são resultado de seus fracassos pessoais, produto de falta de reciclagem, incapacidade de se adaptar à nova economia, fracasso em tentar – arduamente o bastante – conseguir um emprego. Sanders está enfatizando que as raízes desses problemas são sociais e as soluções para esses problemas são coletivas. Por isso, é mesmo uma forma em que a maioria da população jovem iria apoiar – uma espécie de Estado social de redistribuição de renda – e eu acho que é um tremendo progresso. E eu também acho que é terreno fértil para aqueles de nós, da esquerda radical, construir algo por fora disso.

Portanto, esta situação é um dos fatores da nossa origem, mas honestamente eu acho que nós poderíamos ter sido bem-sucedidos em outros contextos também. Poderíamos ter construído provavelmente alguma coisa, sem crescer tão rápido, mas relativamente competente, em condições políticas menos propícias.

AL: Como vocês conseguem estar presentes nos debates políticos mainstream [da grande mídia] com uma posição radical à esquerda?

BS: Se você escrever de forma clara e sem jargão, e mantiver algum tipo de profundidade analítica, é mais fácil para as pessoas honestas da mídia em geral se envolverem com o seu trabalho. E como está escrito de tal forma, que exige envolvimento, nós nos envolvemos em política no patamar que eles estabelecem. Então, se a Vox [grande corporação midiática dos Estados Unidos] tem um artigo polêmico sobre a saúde pública, partimos de observar a forma como eles estão usando os dados e, como eles estão manipulando-os, e nós os desmontamos por dentro, em paciente explanação, em vez de manter a denúncia em um nível puramente moralista. Eu acho que isso é importante.

Há outra razão para nós sermos capazes de debater com o mainstream. As pessoas da centro-esquerda podem estar dispostas a se voltar mais para as forças mais à esquerda, hoje em dia, porque nos Estados Unidos por um longo tempo a centro-esquerda foi considerada extrema-esquerda e deixou de ser, de muitas maneiras, isso é o que o espectro político era. Por isso nós fomos uma surpresa para eles. Mas o que é a chave para chamar a atenção da mídia é que estamos chegando a centenas de milhares de pessoas todos os meses online. Se você tem tráfego suficiente e se você tem suficiente audiência, em algum grau você exige alguma atenção.

AL: Vocês tiveram receios sobre a utilização de um vocabulário marxista na abordagem do público norteamericano, que por muitos anos não estava usando nem mesmo a palavra “classe”?

BS: Eu acho que, dadas as condições do terreno, no final de 2010, ficou claro que há um público potencial que teria interesse neste tipo de coisas, mas eu nunca pensei em audiência. Estamos publicando o que desejamos publicar, usando o quadro de referências que pensamos ser útil, um quadro marxista e de política socialista. E no processo de criação disso, construímos e formamos um público. E temos tido a audiência da esquerda liberal de forma ampla e os formamos de várias maneiras, e temos um público socialista. Nós não estávamos tentando “esconder” o marxismo! Isto seria um grande erro. Eu acho que é melhor ser claro a respeito. Obviamente, vocês, na Ucrânia [Commons é uma iniciativa ucraniana, bilíngue, de política radical], tem uma situação particular para lidar, que é o legado do stalinismo, mas até certo ponto, nos Estados Unidos, temos de lidar com o legado do anticomunismo, que é uma espécie de paralelo, por assim dizer. Mas se você deixar a terminologia marxista e sua linguagem apenas para as velhas forças stalinistas, então as pessoas nunca terão uma concepção do socialismo como algo antiautoritário, no final das contas. E a coisa é que eles vão te chamar stalinista não importa o quê faça, não importa o que sua política seja, não importa em que vocabulário você descrevê-la. Então você pode chamar-se abertamente-se um socialista e usar abertamente a terminologia, porque o uso de expressões como “esquerda democrática” e congêneres não iria realmente evitar as acusações. Então é levantar a cabeça, sacudir a poeira, e dar a volta por cima!

AL: Sendo socialistas, como vocês abordam projetos socialistas do passado, que tinham um monte de contradições?

BS: Ainda que venhamos de uma tradição intelectual e política que sempre foi muito fortemente antistalinista, ainda nos apontam o dedo em riste. E às vezes a melhor maneira de responder ao anticomunismo não é ser completamente defensivo. Em outras palavras, não temos nenhum problema em falar sobre o legado positivo do Partido Comunista dos Estados Unidos, e o trabalho de organização que eles fizeram. Da mesma forma não temos problemas ao falar sobre o papel de Cuba e de outras forças que atuaram em Angola, por exemplo, ou o papel que desempenharam os soviéticos em lugares como o Vietnã. Portanto, somos muito explícitos ao dizer que nosso modelo é diferente daqueles realmente existentes ao longo da história, mas, ao mesmo tempo, nós queremos fazer recuar certos discursos de volta ao armário. Especialmente as ideias do liberalismo político, europeu ocidental, que iguala nazismo a comunismo. Que a União Soviética, e aqueles que lutaram contra ela, eram essencialmente uma só e mesma coisa: duas forças más lutando entre si… E apenas pelo princípio mesmo de sermos honestos com a história tal como aconteceu é que criticamos essas visões equivocadas. Mas, em geral, tomamos uma distância suficiente da metástase anticomunista do câncer stalinista, que não nos representa.

AL: Que papel a Jacobin desempenhou na ascensão de Bernie Sanders?

BS: É difícil dizer. Mas acho que contribuiu para a politização de muitos daqueles que estão ativamente envolvidos no terreno, porém, é uma influência de tipo indireta. Iria existir de alguma forma, objetivamente, mesmo sem nós, enquanto fenômeno. Nós desenvolvemos a consciência de classe dos ativistas envolvidos em algum grau. E é o objetivo pelo qual estamos inspirados: elevar o nível de organização coletiva, e consciência de classe, e perspectivas políticas, das pessoas envolvidas em movimentos reais. Eu não acho que podemos fazer, diretamente, nada além disso.

AL: Vocês publicam análises incrivelmente nítidas sobre a situação em países europeus e outros rincões do mundo. Por que é importante para você ter uma perspectiva internacional? E como manter isso?

BS: Estamos cobrindo a Europa, talvez porque, de longe, somos capazes de acessar às redes que já construímos. Eu sei de pelo menos algumas dezenas de pessoas boas, com boas perspectivas, claras e nítidas, em quase todos os países da Europa. Nós cobrimos até a Moldávia, com alguns artigos. Nós não somos uma organização de mídia tentando fazer conexões com outras organizações de mídia, somos socialistas que têm laços e perspectivas internacionais e, obviamente, nós pensamos que muitos desses debates são de particular interesse para os socialistas nos Estados Unidos. Por exemplo, na Grécia vemos problemas no poder de Estado em se estabelecer até mesmo o mais moderado dos projetos de esquerda, também vimos o que aconteceu na França, com Hollande, e assim por diante. Então, todos esses exemplos tristes tem relevância nos Estados Unidos. E na organização Podemos [do Estado espanhol] – nós estamos vendo um projeto político interessante e há muito que aprender. Estamos vendo também os limites do discurso populista, de tipo “nem esquerda, nem direita”. Oxalá isto esteja mudando e as coisas estejam se movendo em uma boa direção com Podemos. E, claro, isso tem muita relevância aqui. Então nós meio que queremos cobrir essas coisas com um nível de detalhe que as pessoas nos países em si ainda podem obter algo útil fora dele, enquanto um monte de outras publicações de esquerda, que geralmente publicam coisas, sobre eventos internacionais, pretendem atingir apenas o seu público interno, em vez de pessoas que são diretamente afetados pelos acontecimentos.

AL: Vocês começaram a compartilhar a versão impressa da revista internacional. Em que outras partes do mundo a Jacobin é popular? Vocês acham que há uma chance de que ela venha a se tornar a voz principal da esquerda global?

BS: Nós realmente não perspectivamos esses tipos de expectativas grandiosas. Nós fazemos as coisas bem, peça a peça, dia a dia, em vez de definir grandes metas. Nosso público costumava ser ainda mais internacional, por porcentagem. É realmente uma coisa muito boa que tenhamos crescido tão rápido nos Estados Unidos ao longo dos últimos anos, por isso o nosso público doméstico supera as demais audiências. Então nós costumávamos ser algo como 53-54% com sede nacional, e no mês passado o público do país cresceu para 66%. Alguns dos maiores países são os que seria de se esperar: Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Alemanha, França, Índia, Brasil, Suécia, Holanda. Nós não vamos muito bem no Leste Europeu, afora a Polônia. Também nos Balcãs e na Grécia vamos muito bem. Na Ucrânia durante o mês passado só tínhamos um milhar de visitantes individuais, o que é bastante baixo. E em toda a Rússia tivemos apenas três mil. Na Romênia temos tantos quanto na Rússia.

AL: Você poderia nos dizer como a Jacobin é organizada a partir de dentro? Como as pessoas se coordenam entre si? E como vocês lidam com as diferenças ideológicas?

BS: Estamos estruturados como uma publicação de tipo profissional, todos os editores têm a sua esfera de competência e interesse especializado. Mas nós nunca nos estruturamos como uma revista tradicional. Para nós tem mais a ver com a divisão do trabalho. Se alguém sabe mais sobre um assunto, se alguém publica mais sobre um assunto, nós damos trabalho para eles. Mas a principal coisa também é que não somos uma publicação patrulheira. Nós só precisamos geralmente saber o que os perímetros mais amplos da nossa política são, o que é aceitável, o que é inaceitável, não precisamos saber quê posição a pessoa precisa tomar em particular. Assim, por exemplo, na questão do ‘Brexit’ [a saída da Grã-Bretanha da União Europeia] há uma diversidade inimaginável de opiniões, mas não precisamos de uma linha única, conquanto os artigos sejam provenientes da perspectiva socialista em sua pluralidade de posições.

AL: Quais as conexões que vocês tem com a academia norteamericana?

BS: Essencialmente uma boa parte de nosso conteúdo é proveniente de estudantes universitários ou jovens pesquisadores. Mas nós não prospectamos diretamente as instituições acadêmicas. Nós nos beneficiamos dos conhecimentos das pessoas que têm empregos e publicam no âmbito da universidade.

AL: E a última pergunta: quais os planos para o futuro, para além da revolução mundial [Sorriso]?

BS: Então, vamos lançar uma revista mais teórica, uma revista de ideias, chamada Catalyst: Um Órgão de Teoria e Estratégia, editado por Robert Brenner [importante historiador econômico marxista, ligado à New Left Review e Verso, com relevante contribuição à teoria da crise do capital] e Vivek Chibber [cientista social marxista de origem indiana crítico do pós-colonialismo e dos estudos subalternos, também ligado à NLR e V]. Está pra sair no Outono. Estamos planejando também alguns outros projetos. Em geral mais coisas vão sair, até o final do ano. E, além disso, em nível internacional, à medida que continuamos a crescer, gostaríamos de manter suficiente foco na perspectiva internacional, cobrindo coisas, como ocupações, em França, ou a crise, no Brasil, de muito perto, mas, ao mesmo tempo o que está realmente ajudando, uma coisa boa, é que a cobertura ao longo dos últimos anos girou um pouco mais na direção nacional, em termos do número de artigos. Isso mostra que há um interesse real de público, nos Estados Unidos, para a política socialista. Obviamente, é uma coisa muito boa. Eu acho que o papel de uma publicação socialista deve residir em cobrir as coisas que estão acontecendo no Estado espanhol, assim como o que está acontecendo no Canadá, com algum sentido de proporção e perspectiva. Mas também é bom que estejamos construindo cada vez mais o nosso público interno, tanto quanto pudermos, porque se nós construirmos uma oposição socialista radical por fora do âmbito dos apoiadores de Bernie Sanders, seria, mesmo, um tremendo de um avanço fenomenal.

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(*) Entrevistadora. É investigadora doutoranda em estudos urbanos na Università degli Studi di Milano, com ênfase na questão da moradia no Leste Europeu. Ucraniana, ela é co-editora de Commons: Órgão de Crítica Social. Cobriu eventos políticos atuais no Estado espanhol.

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(**) Entrevistado. É jornalista político, editor-chefe e secretário de redação da revista Jacobin. Filho de imigrantes de Trinidad Tobago, cresceu em Nova Iorque e lá fez parte da Democratic Socialists of America. Seu sonho era ser jogador de basquete profissional na NBA.

Originalmente publicado In: «We are not trying to hide Marxism!»: A brief interview with Bhaskar Sunkara, editor of Jacobin Mag. Consultado em: 17/ Jun./ 2016.




Relembrar Muhammad Ali Haj: da voz altiva ao nome –homem– de combate

Dedicado a Carlos Zacarias que, como poucos, sabe que não há viver sem lutar.

Por Betto della Santa |

«Em cada época é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. (…) O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é um privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos nunca estarão a salvo enquanto o inimigo vencer. E esse inimigo até os dias de hoje não tem nunca cessado de vencer.»
(Walter Benjamin, In: Teses sobre a Concepção de História, 1940, v/e.)

*

As palavras de Walter Benjamin soam tal qual aviso de incêndio. Uma advertência inicial.

Não se nasce um Muhammad Ali Haj. Torna-se. Não à-tôa o seu nome de baptismo – seu “slave name” ou nome escravo – fosse, de todo, inteiramente diverso. Originalmente Cassius Marcellus Clay, Ali optou por homenagear o profeta Maomé, em sua reconversão para o Islã, seguindo às trilhas de muitos outros militantes radicais negros, do “Civil Rights Movement” norteamericano. Porém, distintamente de muitos outros, Ali assumiu para si plena responsabilidade pela recusa frontal a engrossar fileiras das tropas do exército estadunidense à Guerra do Vietnã. O “Black Power” ia ganhar o peso-pesado de muito mais que um ícone do esporte global. Ainda Ali mal havia começado. Seus anos de formação, família humilde, foram coetâneos à segregação racial. Não foi nada fácil. Mas sobre-viveu.

Nascido sob o nome de seu pai em Louisville, Kentucky, a 17 de janeiro de 1942, Ali conheceu o boxe por obra do acaso. Após ter tido sua bicicleta roubada foi, colérico, ao oficial de polícia. Acontece que este tira – Joe Martin – treinava boxe no centro comunitário de sua vizinhança. Após o roubo de sua bicicleta o então adolescente, 12 anos, contou a tal policial que ia, em suas palavras, ‘descer o cacete’ no ladrão. O oficial então disse que melhor era aprender a lutar antes. A bicicleta se perdeu nas calendas, mas as luvas vieram pra ficar. Sua ascensão seria meteórica. O Latim e o Inglês deste nome foram herança verbal dum homônimo abolicionista republicano. Desdendente de negros escravizados – do Sul das “Plantations”; ascendência madagascarenha e angloirlandesa –, Cassius pai foi pintor de letreiros e cartazes e, sua esposa, Odessa Clay, empregada doméstica. Cassius filho e Rudolph – seu irmão caçula – foram criados enquanto cristãos de tradição baptista.

O debute, amador, foi em 1954. As Luvas de Ouro de Kentucky, mais dois títulos nacionais, a condecoração da União Atlética Amadora e uma Medalha de Ouro de Peso-Médio – das Olimpíadas de Roma – vieram antes dos 18. De volta ao país, cheio de orgulho, por bater os então “adversários do EUA”, Rússia e Polônia, medalha no peito, reza a lenda que teria ido a um restaurante, no Centro, pedir um café e um hot-dog. “Nós não servimos pretos” – disse a garçonete –, “Eu também não os como”, retrucou Clay, “Apenas me traga o maldito sanduíche.” Não se sabe até hoje o quanto desta história é verdadeira. Mas Ali gostava de recontá-la, uma e outra vez, sempre aos risos. Como dizia minha vecchia nonna, «se non è vero è bene trovato.» O raio e altura de sua autoconsciência de raça e classe, sobretudo a antiguidade de seu compromisso político com uma visão de mundo radical, são os móveis de ainda haver polêmica sobre o início de seu percurso no boxe e no mundo dos homens.

Louça suja

Desde o início da sua juvenil carreira, então Clay, os circunlóquios e grandiloquências – nomes feios e língua solta –, faziam parte de sua luta. O golpear de seus punhos, e bailar de seus pés, já vinham acompanhados de uma prosa bem afiada. O seu adversário já foi “um homenzinho feio” e o Madison Square Garden, meca do esporte no EUA, chegou a ser “pequeno demais” para ele. O exagero retórico lembra ao de longe um Vladimir Maikóvski negro em sua Nuvem de Calças. São aspectos de toda uma personalidade que se foram moldando ao largo do tempo e do espaço. Se o homem transformado é produto das circunstâncias e da educação modificadas, também o educador precisa ser educado. No caso, autoeducado. Não é demais afirmar que a possibilidade efetiva para tais alterações merecem ser chamadas – com já o fez um então bem jovem Marx – «práxis revolucionante».

É importante que se o diga: esta sua norma de conduta não contou pontos a seu favor, de chofre, no início de sua trajetória. Chegou até mesmo a causar a ira coletiva, de aficcionados do esporte, algo de rejeição; muita antipatia. A anedota pode ser bastante ilustrativa deste comportamento. Após voltar de Roma com a medalha de ouro, convencido da necessidade de profissionalização, Clay insistiu em participar do centro de treinamentos de seu maior ídolo à época, Archie Moore. Chegou a encher a boca para dizer que nenhum sacrifício seria grande demais para um tal feito. Pois bem. O arranjo não durou duas semanas. O juveníssimo boxeur recusou-se a cumprir com tarefas como lavar as louças ou esfregar o salão. “Eu queria aprender a lutar. A única coisa que aprendi foi como limpar pratos. Quem já ouviu falar de lutador com mãos de lavar louça?”. Boca grande. A alma nunca fora nanica.

Já em 1963, o nosso ferino anti-herói da classe trabalhadora enfrentar-se-ia a ninguém menos do que o campeão dos pesos-pesados, Sonny Liston. E Liston não era lá flor que se cheirasse. Um personagem intimidador, para dizer o menos, pugilista de poucos amigos – sangue nos olhos –, com ficha criminal e ligações com a máfia. O ambiente dos ringues e seus arredores nunca foi o ponto mais alto do espectro da humanidade. As almas mais inocentes sequer podem imaginar o que se passa em sua cozinha. Liston destruiu o oponente ex-campeão, Floyd Patterson. E Clay era um azarão. Apesar disso o ritual prévio à luta, que já era todo um espetáculo muito antes de haver ESPN ou BandTV, foi Clay fazendo o circo de Liston pegar fogo. Atormentar era pouco. O baptista de Kentucky azucrinou a vida deste cinturão. “O grande urso” – disse – “feio e sujo”. “Até fede como urso”. Depois de batê-lo seu destino seria, aloprou Clay, “o zoológico de Miami”. Esta tal lábia, aliana, superava-se.

Seu batimento cardíaco foi de 54 a 120bpm no encontro final. Seu maior oponente era o medo. Após a pesagem – confronto olho-no-olho –, o tocar de luvas e instruções do juiz finalizadas, Clay chegou a gritar: “alguém vai morrer no ringue hoje”. Liston veio quente, furioso, quando soou o gongo. Mas não esperava a velocidade e a intrepidez que encontrou. A arte da elusão, o estilo inimitável e a força de conjunto se mostraram em seu vigor. Foram seis rounds, de altos e baixos, incluindo-se um baixo bem baixo, com algum artifício – vindo das luvas de Liston – para, supostamente, cegar o oponente. Clay chegou a implorar pra que seu treinador, Angelo Dundee, tirasse às suas luvas. Nada feito. O suor e as lágrimas lavaram-lhe os olhos a Clay. E Liston não logrou se recompor para uma sexta volta. Triunfante, Clay correu até o corner, a gritar, a plenos pulmões, em direção à imprensa esportiva: “Engulam as suas palavras. Eu sou o maioral. E eu sou o mais bonito!”.

A crítica das armas e as armas da crítica

Logo após esse ponto de viragem, o jovem de vinte e poucos anos, agora campeão profissional, decidiu mudar o seu nome para Cassius X. A letra ‘X’ – em seu caso – emulava o exemplo de Malcom X, líder negro que atentou para o fato de que a herança africanoamericana era de todo desconhecida, e que seus respectivos sobrenomes europeus, cada negro estadunidense singular, remetia a algo duma incógnita ancestral. Um ‘X’. Malcom X tornou-se mais que um exemplo de mestre: amigo, irmão; companheiro. Mas a reconversão de fé ao islamismo, em tudo coincidente com a adesão à política radical, teria maiores planos para o lutador do que ser um seguidor de X. “Nós conversamos, expressamos nossas visões um ao outro, mas ele tem voz própria”, diria X. Assim renasceu Muhammad Ali Haj, punhos em riste, como um novo homem: e com um nome de combate.

Já foram muitos os esforços nucleares dedicados – pela teoria marxista – para desvelar a dialética realmente existente entre religião e política, como para jogar fora ao bebê junto com a água do banho. A linguagem histórica, a herança nacional, os mitos fundadores, a cultura, enfim, conta. E conta muito. Não é no espaço de um ensaio de homenagem, deste tipo, que teremos o tempo mais que necessário para falar a este respeito, em geral, ou sobre o Islã negro e o radicalismo político do Norte das Américas – em confluência durante os assim-chamados “street-fighting years” –, em particular. Mas o mínimo que nos cabe é dizer que assim como o maoísmo serviu ao Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa na esplendorosa palavra-de-ordem “All power to all people” e o panafricanismo dominou o vocabulário negro de outrora, o Islã desempenhou, sim, um determinado papel na história das ideias e, mutatis mutandi, nas ideias de história. (No Brasil, em larga medida, a teologia da libertação deu forma à vocalização política do ABCD operário na escalada grevista de 79.)

Os anos das barricadas – que abalaram o mundo, nas muito rebeldes décadas de 60 e 70 – também ajudaram a moldar sua geração. Um rebelde. Subversivo. Insubordinado. Sua autoconfiança era inabalável. O talento inimitável com as palavras – de estilo tão destacado quanto seu boxeio – por vezes soa como a impostação radical do rythm’n’poetry político, algo de um rap engajado. Por outras sabe a soul melódico, mais para a balada romântica. A canção popular, o sermão de missa, o discurso político – e muitas outras matrizes –, formaram todo o espírito de uma época. Mas seria uma grosseira reificação contextual fundir suas notas, criativas e originais, à música de fundo. O orgulho selvagem com que bateu seus adversários deu origem a uma forma de arte: “Eu já lutei com um jacaré. Já bati numa baleia. Só na semana passada eu matei um rochedo; machuquei uma pedra; hospitalizei um tijolo. Eu sou mau. Eu sou capaz de fazer um remédio ficar doente.” Sua paleta de cores e máscara de texturas ia como que a cantar – de-cor’ – uma folia de reis ou a pintar – em aquarela – uma rosa amarela. Do registro lúdico ao insólito. Da voz de bardo à de pregador. Ora político, ora poético. Aqui. Ali. Sem lugar à monotonia. Nem hora ao tédio.

“Por qual razão deveria combater no Vietnã”, desafiou Ali, “se é aqui que me dizem crioulo?”. Foi a desobediência civil ativa à conscripção militar obrigatória o que elevou sua voz individual à escala continental de toda uma época histórica. A maior de suas lutas se deu fora dos ringues. Um longo e penoso processo uniu o Capitólio, o Pentágono e a Casa Branca numa santa cruzada contra a voz transcrescida, em quantidade/qualidade, a ameaçar engrossar-se em coro de muitos. “Dane-se o dinheiro do homem branco!”. “O boxe não é nada!”. O juiz Joe Ingraham conferiu a sentença máxima: 5 anos de prisão e multa de dez mil dólares por desacatar a força da lei. Com o fracasso da Ofensiva Tet e crescente mal-estar doméstico o establishment não poderia permitir ao movimento antiguerra qualquer trégua, quanto menos uma voz altiva e um nome de combate. Vencer o exílio, e contornar o processo, foi uma batalha de ideias ganha – nas ruas, nas praças, e nas cortes.

«Qual é meu nome, seu tolo?»

Foi com essa sentença que Ali nocauteou Floyd Patterson. Seu conteúdo diz muito mais do que expressa uma frase. Da mesma forma, o combatente se recusou a vergar a espinha. Cortejar os poderosos. Ou dar o seu braço a torcer. O seu nome, que a Justiça do EUA se negava a reconhecer, correu mundo sob sua voz. Em seu nome: protestos em Guiana, greve de fome no Paquistão, mobilização no Egito, atos em Ghana e um solitário piquete do exército de um homem só – o aficcionado torcedor angloirlandês, Paddy Monaghan – na Embaixada de Londres. E mais de 20 mil assinaturas, ao redor do mundo, pela restauração do título de campeão. A ‘guerra à guerra’ era o seu pano de fundo e, no plano mais geral, a sua razão-de-ser. Com esta atitude radical Ali deu lugar a uma grande recusa. Disse não a ser a voz para a forma-mercadoria. À coisificação dos homens. Ou à perdição do mundo. E rejeitou dar nome ao conformismo, ao consumismo e ao mais-do-mesmo. E pagou o preço.

É impossível descrever, em palavras – ou narrar, em prosa –, a beleza e dignidade próprias de um combate à la Ali. Sua forma de lutar é única. Irrepetível. Ali não levantava a guarda diante de seus oponentes. As defesas baixas iludiam o adversário. Seus pés ligeiros mal tocavam o chão. São já banais lugares comuns da imprensa especializada dizer sobre o flanar de Muhammed e a arte da esquiva. Aparentemente preso às cordas do ringue, Ali tinha o vigor de um leão africano. Mesmo quem deteste o esporte, este ou qualquer outro; ou abomine às lutas profissionais, esta ou qualquer outra; reconhece o valor intrínseco, a excepcionalidade incontestável, deste lutador. Por essa razão, dentro ou fora dos ringues, Ali foi um dos grandes. Em muitos aspectos, como se diz acima do Rio Grande, “maior que a vida”. Reavivou a aposta da estratégia. Animou o Fogo de Prometeus. E Ali foi um vencedor.

A luta por sua memória não há de ser fácil. Durante muitos anos Ali foi apresentado como uma espécie de Michael Jordan do boxe, isto é, tão-só “o melhor dos melhores”. O Mal de Parkinson e a perda da fala, o aspecto ecumênico de sua figura e o piedoso ideal de suas trêmulas mãos, já no final do Séc.20 e início do Séc.21, contribuíram para a cirúrgica operação iniciada pela mídia. O choque sceptical, que selou destino à falência pulmonar, contudo, não pode calar fundo um eco – bem para lá dos tempos: a sua confiança de carácter, a sua coragem política, o seu humor espirituoso, a sua astúcia intelectual, a sua firmeza de propósitos, o alcance de sua voz e a força do seu nome. Lucky charm. A imprensa internacional desejaria re-apresentá-lo via canonização no altar dos esportes. Mas Ali foi o incréu da guerra de deuses x monoteísmo de valores do mercado. Não é justo que Globo e Folha imiscuam a sua imagem à de um vendilhão do templo – tal qual o é um Pelé da vida.

Ali foi o responsável por fazer convergir às águas da militância dos campi universitários e de sectores médios a todo o caudal de radicalidade do black power e da classe trabalhadora norteamericana. Se esmerou em reunir o flutuar de beija-flores e borboletas à ferroada de vespas e abelhas. A velocidade e a resistência. Fez sínteses improváveis, travou batalhas impossíveis e escarneceu às próprias dificuldades. Riu, com fortaleza e candura, de si mesmo. E não cabe em palavras.1 Em 17 de Janeiro de 1942 nascia Cassius Marcellus Clay. A 3 de junho de 2016 morreu Muhammad Ali Haj. Ali nunca baixará a guarda e, por isso, permanecerá íntegro a si mesmo – one of a kind – por uma razão bastante simples: Ali nunca chegou a levantá-la. Mas isso não quer dizer que deporá as armas. A batalha de Ali faz parte de uma guerra que não acabou. Ali foi, mais que um homem, o nome e a voz de uma força política poderosa. E perigosa. Como cantou Caetano Veloso: Impávido Ali. E assim deve ser relembrado. Ali é dos nossos. Porém não estará a salvo enquanto os vencedores não cessarem de vencer. A nós, mais do que ser bons e justos cabe, outrossim, derrotar a quem deve ser derrotado. E, também nisso, reverberar e ressoar Ali que, além de “mais bonito” e “o maioral” – asas e ferrão –, bateu a seus inimigos.  Golpe a golpe, e verso a verso.

Lembrou-me, Ali, às algo proféticas – e (des)armadas – palavras do velho Trotsky. Escuta só:

*

«É difícil prever o espectro da autodeterminação a que o homem do futuro poderá alcançar (…). O homem se tornará incomensuravelmente mais forte, mais perspicaz, mais polido; seu corpo terá uma forma mais harmônica, seus movimentos serão mais dotados de ritmo, sua voz será mais musical.»
(Leon Trotsky, In: Literatura e Revolução, 1924, v/e.)

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Nota:

1 Dave Zirin é como nosso Juca Kfouri, um jornalista esportivo para além da máquina de moer gente. Tem belos livros, e muitos artigos por conferir, já seja a respeito de Ali, do esporte de combate ou até mesmo um todopoderoso volume, de-há dois anos, intitulado: O Brasil dança com o Diabo: Copa do Mundo, Olimpíadas e luta pela democracia. Vale a pena ver mais de perto. É ele quem nos aconselha a não comprar o peixe ao preço que se vende.

Ficha:

Editora Lazuli
272pp. total
R$ 39,90