Os processos de Moscou: o extermínio da velha guarda bolchevique pelo stalinismo

Por: Enio Bucchioni

Nestes 100 anos que abalaram o mundo, vamos relembrar a Revolução Russa de 1917 através de um segundo artigo de uma série baseada nos Escritos de Leon Trotsky.

Os Escritos, coleção composta de cerca de 25 livros, não existem em nosso idioma. Eles foram elaborados entre 1929 e 1940 durante os onze anos e meio do último exílio de Trotsky. Utilizaremos a versão em espanhol da Editorial Pluma de 1977.

escritos

A cidade de Leningrado teve vários nomes durante a história. Chamava-se Petrogrado em 1917. Antes de 1914, mais exatamente desde 1703, era São Petersburgo em homenagem ao czar Pedro, o Grande. Após a restauração capitalista voltou a ser São Petersburgo.em 1991.

Em 1926 Zinoviev foi removido da direção de Leningrado logo após a derrota da Oposição Unificada. Nessa disputa política venceu a aliança dos stalinistas com a ala direita do Partido chefiada por Bukarin, Rikov e Tomsky. Esta Oposição foi um acordo efêmero no tempo, entre a antiga Oposição trotskysta de 1923 e a fração zinovievista que se descolou da aliança anterior com Stalin. Os motivos políticos e sociais bem como a conformação destas Oposições e os motivos de tal derrota no Partido serão relatadas em futuros artigos desta série sobre os Escritos de Trotsky.

A Oposição Unificada contava, além de Trotsky e Zinoviev, com Kamenev, vários membros do CC de 1917 como por exemplo Preobrajensdky, Krestinsky, Serebriakov, Smilga , Sosnovsky, os mais conhecidos chefes militares bolcheviques da Guerra Civil como Antonov-Osveinko, Lashevich e Muralov, figuras de peso da III Internacional como Rakovsky e Radek , bem como a companheira de Lenin, a Krupskaia, entre tantos e tantos quadros bolcheviques de destaque do Partido nas revoluções de 1905 e 1917.

Todos eles foram posteriormente executados pela GPU, polícia política comandada pelo stalinismo, com exceção de Krupskaia, falecida em 1939 por causas naturais aos 70 anos.

Trotsky, de 1926 até sua execução em 1940 por Ramon Mercader, agente da GPU, manteve-se no combate ao regime burocrático de Stalin, ampliou a Oposição de Esquerda para além das fronteiras da URSS e foi o principal personagem da fundação da IV Internacional.

Já Zinoviev e Kamenev capitularam quase imediatamente após a derrota da Oposição Unificada e pediram aos seus apoiadores que seguissem o exemplo, ou seja, que renegassem suas antigas ideias na luta da Oposição Unificada contra o stalinismo. Publicamente escreveram cartas abertas reconhecendo seus “erros” e foram readmitidos no Partido Comunista após um período de reflexão de seis meses. Eles nunca recuperaram os assentos do Comitê Central, mas receberam cargos de nível médio dentro da burocracia soviética. 

Zinoviev e Kamenev praticamente permaneceram inativos do ponto de vista político até outubro de 1932, quando foram expulsos do Partido Comunista. Depois de novamente reconhecerem seus supostos erros, eles foram readmitidos no Partido em dezembro de 1933. Eles foram forçados a fazer discursos autoflagelantes no XVII Congresso do Partido em janeiro de 1934. Durante todos esses anos voltaram a combater publicamente as ideias de Trotsky, elegendo a este como seu inimigo número um para sobreviverem como mortos-vivos rastejantes à Stalin na antiga União Soviética.

O trágico 1 de dezembro de 1934: o assassinato de Kirov

Kirov era um dos velhos militantes do Partido Operário Social Democrata russo, o POSD-R. Aos 19 anos participou da primeira revolução russa de 1905 quando foi aprisionado. Nessa ocasião entrou para a fração bolchevique do Partido, logo depois solto e novamente encarcerado de 1906 a 1909.

Presente na Revolução de 1917, ele lutou na guerra civil contra os exércitos brancos e os das potências imperialistas. Após a morte de Lenin em 1924 Kirov sempre apoiou a fração stalinista. Membro do Comitê Central bolchevique a partir de 1923, o que lhe valeu a indicação da burocracia stalinista para ser o líder do partido em Leningrado no lugar de Zinoviev em 1926.

Por volta de 1930, a popularidade de Kirov nos meios partidários era crescente entre os membros da burocracia, sendo já considerado como um dos possíveis sucessores de Stalin, quando este deixasse a direção do Partido e do Governo Soviético.

Com fama de conciliador perante as antigas alas oposicionistas, no já citado XVII Congresso do Partido Comunista da União Soviética no começo de 1934, Kirov foi o mais votado pelos congressistas, sendo que Stalin chegou em último lugar com 270 votos contra ele.

A vingança assassina de Stalin não se fez esperar, embora todos os presentes fossem da fração burocrática do stalinismo. Em 1937-38 dos 139 membros do Comitê Central eleitos no Congresso de 1934, 98 deles foram presos e fuzilados. Além disso a barbárie se estendeu aos 1950 delegados presentes: 1.108 foram aprisionados sob a acusação de contrarrevolucionários e quase todos executados!

Em 1 de Dezembro de 1934, Kirov foi assassinado por Leonid Nikolaev no Instituto Smolny, em Leningrado. Kirov havia ido ao Smolny para trabalhar em seu gabinete, e deixou os guarda-costas nas escadarias, vigiando os pisos superiores, onde os oficiais tinham os quartos. Nikolaev saiu de um banheiro e seguiu Kirov em direção ao gabinete, atirando atrás de seu pescoço. A morte jamais foi bem esclarecida, todavia várias evidencias levam inevitavelmente à polícia política (NKVD, sucessora da GPU) e esta só podia atuar sob ordens de Stalin. Ou seja, tratar-se-ia de um crime político com o máximo de perfídia: Stalin liquidava o seu então principal discípulo e único concorrente e, sob pretexto de perseguir e castigar os assassinos, começou a exterminar grande parte dos quadros comunistas com quem antipatizava, impondo um terror absoluto e conduzindo à fidelidade absoluta pelo medo extremo.

Quase 20 anos depois, em 1956, três anos após a morte de Stalin, quando a polícia política da burocracia mudara de nome e se chamava KGB, Scieliepin, então chefe desse órgão repressivo declarou: “O assassinato de Kirov foi usado por Stalin, Molotov e Kaganovitch com o pretexto para eliminar seus adversários.”

28 de dezembro de 1934: Trotsky denuncia o amálgama da burocracia stalinista em relação ao assassinato de Kirov

Por amálgama o nosso idioma define como uma mistura, uma fusão de coisas ou pessoas

distintas para poder formar um todo. No sentido figurado, um amálgama é o nome que se dá à mistura de coisas diversas e heterogêneas. É também a reunião desordenada de pessoas de diferentes classes e qualidades.

No tomo IV dos Escritos de Trotsky, num texto intitulado “ A burocracia stalinista e o assassinato de Kirov”, pode-se ler:

Em 17 de dezembro foi publicada uma notícia onde, pela primeira vez, se afirma que Nikolaev fez parte do grupo de oposição de Leningrado dirigido por Zinoviev em 1926. …. Em 1926 toda a organização partidária de Leningrado, com muito poucas exceções, pertencia a oposição de Zinoviev…. Posteriormente todos eles capitularam, com seu dirigente na cabeça; mais adiante repetiram a capitulação de maneira mais decisiva e humilhante. ”

Em seguida afirma:

Contudo, é evidente que essas informações referentes ao ‘grupo Zinoviev’ não foram lançadas acidentalmente; só podem significar que são a preparação de um ‘amalgama’ jurídico, isto é, uma tentativa conscientemente falsa de implicar no assassinato de Kirov a outros indivíduos e grupos que não têm nem podem ter nada em comum com o ato terrorista. ”

Assim, acoplando o ato terrorista de 1934 a mando da GPU com a antiga Oposição Unificada de 1926, a burocracia stalinista mandou prender 15 membros do velho grupo de Zinoviev- Kamenev.

Sobre esses detidos assim escreveu Trotsky no texto citado anteriormente:

Zinoviev: colaborador de Lenin durante muitos anos no exílio, ex-membro do Comitê Central e do Birô Político, ex-presidente da Internacional Comunista e do Soviete de Leningrado.

Kamenev: colaborador de Lenin no exílio durante muitos anos, ex-membro do Comitê Central e do Birô político, vice-presidente do Conselho de Comissários do Povo, presidente do Conselho de Trabalho e Defesa e presidente do soviete de Moscou. Esses dois homens formaram, junto com Stalin, a troika (triunvirato) que governou o país entre 1923 e 1925. ”

Os outros treze antigos bolcheviques zinovievistas, alguns antigos operários e/ou ex- membros do CC e/ou figuras importantes durante a guerra civil contra os exércitos brancos e que foram detidos pela GPU foram:

Zalutskii; Levdokimovii; Feodoroviii; Safaroviv; Kuklinv; Bakaevvi; Sharov; Faivilovich; Vardin; Gorchenin; Boulak; Guertik e Kostinavii.

Em 1926, em uma reunião da Oposição Unificada, Krupskaya, a viúva de Lênin, comentou com amargura: “Se Vladimir estivesse vivo, estaria preso”

Em 1926, em uma reunião da Oposição Unificada, Krupskaya, a viúva de Lênin, comentou com amargura: “Se Vladimir estivesse vivo, estaria preso”

 

O grupo zinovievista fez a revolução para poder fazer a contrarrevolução?

Trotsky assim escreve no texto citado:

Esses 15 indivíduos são implicados, sem mais nem menos, no assassinato de Kirov. Segundo as explicações dadas pelo Pravda (jornal oficial do Partido), o objetivo deles era tomar o poder, começando por Leningrado “com a secreta intenção de reestabelecer o regime capitalista”.

Hoje em dia soa inverossímil essa acusação da burocracia stalinista. No entanto essa versão completamente absurda não somente existiu como se expandiu por toda a URSS e em todas as partes do mundo nos três anos seguintes. Os Partidos dito Comunistas e seus apoiadores difundiram essa mentira por todo o planeta. O objetivo da burocracia stalinista era o de aniquilar toda e qualquer oposição

Mais adiante Trotsky afirma:

Zinoviev e Kamenev não são tontos. No mínimo entendem que a restauração do capitalismo significaria antes de mais nada o extermínio de toda a geração que fez a revolução, incluídos, obviamente, eles mesmos. Em consequência, não cabe a menor dúvida que a acusação engendrada por Stalin contra o grupo de Zinoviev é totalmente fraudulenta, tanto no que se refere ao objetivo especificado, a restauração do capitalismo, quanto aos meios, os atos terroristas. ”

Marxismo, terrorismo e burocracia

Trotsky escreve no referido texto:

Qualquer operário que saiba ler e escrever sabe que o marxismo se opõe à tática do terror individual. Muito já se escreveu sobre esse tema. Tomo a liberdade de citar um artigo meu publicado em 1911 na Alemanha, no jornal austríaco Kampf (Luta): Que o ato terrorista, ainda quando tenha ‘êxito’ consiga ou não fazer mergulhar os círculos dominantes num turbilhão , isso depende das condições políticas concretas. No entanto, o turbilhão só pode durar pouco. O estado capitalista não se apoia nos ministros e não se pode destruir esse estado apenas com a morte desses ministros. As classes a que esses ministros servem sempre encontrarão outros homens novos; o mecanismo permanece intacto e continua funcionando”.

Até hoje essa sempre foi a compreensão marxista revolucionária sobre os atos de terror individual. Esta concepção é eternamente válida seja para os estados capitalistas, seja para os antigos estados operários.

Já houve – por várias vezes- quem me perguntasse por que alguém da velha guarda bolchevique não assassinou Stalin em fins da década de 20 ou na de 30 ?. Como veremos na sequência destes artigos de comemoração dos 100 anos da gloriosa revolução russa de 1917, Stalin era apenas o principal representante da camada social da burocracia, estimada por Trotsky em seu livro “A Revolução Traída” em cerca de 25 milhões de pessoas num país com mais de 160 milhões de habitantes. Se por um motivo qualquer Stalin morresse, seria substituído por alguém do seu entorno como por exemplo Kalinin, Kaganovitch ou Voroshilov

Se Stalin morresse, outro burocrata assumiria o seu lugar, representando 25 milhões dessa camada social na década de 30 na URSS.

Se Stalin morresse, outro burocrata assumiria o seu lugar, representando 25 milhões dessa camada social na década de 30 na URSS.

Mais adiante, no texto já citado, ele escreve;

Porém o turbilhão que o ato terrorista introduz nas filas das massas trabalhadoras é muito mais profundo. Se para alcançar o objetivo basta apenas se armar com um revólver, qual a necessidade de haver a luta de classes? Se as pessoas que ocupam altos cargos podem ser intimidadas com o estrondo de uma explosão, qual a necessidade então de um Partido? ”

E conclui:

Somente os farsantes políticos que se apoiam nos imbecis é que podem ousar relacionar o Nikolaev com a Oposição de Esquerda, ainda que mais não seja por intermédio do grupo de Zinoviev, tal como existia em 1926-1927… O terrorismo individual é, em essência, burocratismo ao contrário. Os marxistas não descobriram ontem essa lei. O burocratismo não tem confiança nas massas e trata de substituí-las. O terrorismo funciona da mesma maneira; quer fazer a felicidade das massas sem pedir a participação delas. A burocracia stalinista criou um culto vil à personalidade, atribuindo-se aos líderes qualidades divinas. O culto ao ‘herói’ é também a religião do terrorismo, só que de sinal oposto. Os Nikolaevs acreditam que para a história mudar de rumo basta com liquidar a tiros de revólver a alguns tantos dirigentes. Os terroristas comunistas, como grupo ideológico, são filhos da burocracia stalinista”

Notas :

i1 Zalutski: um dos mais antigos operários bolcheviques; ex-membro do Comitê Central,ex-secretário do Comitê de Leningrado, presidente da primeira comissão central que se formou para purgar o partido.

ii2 Levdokimov: um dos mais antigos operários bolcheviques; membro do Comitê Central e do Birô de Organização; um dos dirigentes do Soviete de Leningrado.

iii3 Feodorov: um dos mais antigos operários bolcheviques; ex-membro do Comitê Central; presidente da secção operária do Soviete durante a Revolução de Outubro.

iv4 Safarov: um dos mais antigos membros do partido; chegou com Lenin no trem blindado; ex-membro do Comitê Central; chefe de redação do Pravda de Leningrado.

v

5 Kuklin: um dos mais antigos operários bolcheviques; ex-membro do Comitê Central e do Comitê de Leningrado.

vi6 Bakaev: um dos mais antigos operários bolcheviques; ex-membro da Comissão Central de Controle; de destacada participação na Guerra Civil.

vii7 Sharov, Faivilovich,Vardin, Gorchenin, Boulak, Guertik e Kostina : todos eles antigos membros do partido, militantes durante a ilegalidade, protagonistas da Guerra Civil, ocuparam cargos de maior responsabilidade no partido e nos sovietes.




Os Escritos de Trotsky e os cem anos que abalaram o mundo

Por: Enio Bucchioni

A gloriosa Revolução russa ainda permanece viva no ideal de todos aqueles que lutam em prol do socialismo. Para relembrá-la e comemorá-la neste centenário após esse artigo introdutório faremos uma série de artigos baseados nos Escritos de Leon Trotsky. .

Comentaremos textos onde este grande revolucionário expôs as mais diversas questões de princípios, estratégia, tática, concepção de Partido, regime interno, metodologia de análise, conjuntura internacional da época, evolução do stalinismo e da contrarrevolução na antiga União Soviética, prognósticos sobre a possibilidade de restauração do capitalismo no país dos sovietes, a farsa dos processos de Moscou, a construção da IV Internacional e tantos outros temas de intensa magnitude e atualidade.

Os Escritos, coleção composta de cerca de 25 livros, não existem em nosso idioma. Eles foram elaborados entre 1929 e 1940 durante os onze anos e meio do último exílio de Trotsky. Utilizaremos a versão em espanhol da Editorial Pluma de 1977.

Nesta introdução recorreremos, entre outros, ao famoso historiador Pierre Broué em seu livro ‘El Partido Bolchevique’.

Os dirigentes do CC da Revolução de 1917

Vejamos a composição dos membros do Comitê Central, CC, que dirigiu a fração bolchevique durante a Revolução de Outubro e qual desfecho tiveram as suas vidas. Não é objetivo deste texto acompanhar e descrever a evolução das posições políticas de cada um deles nos anos anteriores e posteriores à insurreição vitoriosa, nem tampouco avaliar o papel que cada um teve nestes dez dias que abalaram o mundo. Isto será feito posteriormente, na sequência da série de artigos sobre os Escritos.

O CC bolchevique que esteve à frente dos eventos de Outubro foi eleito em agosto de 1917 no chamado Congresso de Unificação pelos 134 delegados de base, representando 170 mil militantes. A proporção era cerca de 1268 militantes para a eleição de 1 delegado para este Congresso.

Nesta época a Rússia tinha cerca de 160 milhões de habitantes, sendo que em Outubro os bolcheviques possuíam em torno de 240 mil militantes. A proporção significava 1 militante bolchevique para cada 666 cidadãos na data da Revolução.

Neste Congresso foram eleitos 21 membros titulares para o Comitê Central. A composição ficou assim:

Lenin, obteve 133 votos sobre um total de 134 votantes; Zinoviev,132 votos; Trotsky, 131votos; Kamenev, 131 votos.

Quanto aos demais membros menos votados o livro citado de Broué não menciona o número de votos. São eles: Rikov, Stalin, Sverdlov, Bukharin, Sokolnikov, Bubnov, Miliutin, Dzerjinski, Muranov. Shaumian, Artem-Sergueiev, Krestinski, Alexandra Kolontai, Uritski, Ivan Smilga, Kalinin, Noguin, Preobajenski (suplente), Yoffe (suplente).

O destino de cada um dos mais votados na época de Lenin

Três dos membros mais votados em 1917 – Lenin, Trotsky e Kamenev – formaram em 1919 um Comitê Executivo do Comitê Central junto com Bukharin e Stalin. Era a época de Lenin, onde, segundo Broué, “o Comitê Central deverá funcionar normalmente , isto é, haverá de se reunir duas vezes por mês. Nos intervalos entres suas reuniões, um Birô Político terá a missão de tomar as decisões urgentes, faculdade que até certo ponto será atribuída a seu Executivo, uma espécie de sub-comitê responsável perante o CC e é composto em princípio por cinco membros: Lenin, Trotsky, Stalin, Kamenev e Bukharin. “

Lenin morreu por motivo de saúde em janeiro de 1924 .Os outros três membros do Birô político da época de Lenin foram assassinados por ordem de Stalin. Após a morte de Lenin , com o passar de poucos anos, obviamente apenas Stalin sobreviveu. Ele mandou exterminar todos os demais .Vejamos.

Kamenev: assassinado a mando de StalinEm 25 de agosto de 1936 foi fuzilado pela GPU, polícia política do regime stalinista – mais tarde conhecida como KGB – no mesmo processo que involucrou Zinoviev. Acusado de contra-revolucionário.(1)

Trotsky : assassinado a mando de Stalin – Em 21 de agosto de 1940,em seu exílio no México, um agente da GPU, Ramon Mercader, matou o último dos dirigentes da velha guarda que protagonizou a Revolução Russa de 1917. Nas farsas grotescas dos processos de Moscou de meados da década de 30 Stalin o acusou de contra-revolucionário.(2)

Bukharin : assassinado a mando de StalinEm 15 de março de 1938 Bukharin foi fuzilado pela GPU após as farsas dos Processos de Moscou. Acusado de contrarrevolucionário.(3)

Da esquerda para direita: Zinoviev; Kamenev e Bukharin assassinados por Stalin

Da esquerda para direita: Zinoviev; Kamenev e Bukharin assassinados por Stalin

O destino dos demais membros do CC da Revolução Russa

Zinoviev : assassinado a mando de StalinEm 25 de agosto de 1936 Zinoviev foi fuzilado pela GPU após as farsas dos processos de Moscou. Acusado de contrarrevolucionário.(4)

Rykov: assassinado a mando de StalinEm 15 de março de 1938 Rykov foi fuzilado pela GPU no mesmo processo que condenou Bukharin. Acusado de contrarrevolucionário.(5)

Sokolnikov: assassinado a mando de Stalin Foi condenado a dez anos de prisão na farsa do segundo processo de Moscou. Desapareceu na prisão, possivelmente executado como outros opositores em 1939. Acusado de contrarrevolucionário.(6)

Ivan Smilga : assassinado a mando de StalinCondenado a cinco anos de prisão em 1932, desaparece e é morto provavelmente em 1937, após os processos de Moscou. Acusado de contrarrevolucionário.(7)

Krestinski- assassinado a mando de Stalin Condenado a morte e executado pela GPU em 1938 após o terceiro processo farsesco de Moscou. Acusado de contrarrevolucionário.(8)

Bubnov – preso e/ou assassinado a mando de Stalin Preso pela GPU em 17 de outubro de 1937, há uma dúvida sobre o paradeiro de Bubnov. Segundo Broué, Bubnov desaparece em 1938 durante as purgas efetuadas por Stalin e fica 18 anos preso, reaparecendo em 1956 em Moscou. Outros pesquisadores afirmam que Bubnov morreu na prisão em 1940. Acusado de contrarrevolucionário.(9)

Miliutin: morreu na prisão durante as purgas stalinistas. Acusado de contrarrevolucionário.(10)

Berzin– assassinado a mando de StalinBerzin foi preso em 13 de maio de 1938 durante os grandes expurgos da época stalinista. Em 29 de julho de 1938 foi executado pela GPU na tristemente célebre prisão de Lubyanka, em Moscou. (11)

Preobrajenski: assassinado a mando de Stalin Em 13 de julho de 1937 Preobajenski foi fuzilado pela GPU sem qualquer tipo de julgamento. Acusado de contrarrevolucionário. (12)

Cinco morreram precocemente

Sverdlov, morreu em 1919 vítima de tuberculose segundo algumas versões ou vítima de gripe espanhola segundo outras .(15)

Dzerjinski , morreu em 1926 logo após passar mal depois de um discurso no CC contra a Oposição Unificada.(16)

Shaumian , foi fuzilado em 1918 pelos guardas brancos que eram apoiados pelas forças armadas inglesas. (17).

Artem, bolchevique desde 1903, membro do CC em 1917- 18, suplente em 1919 e Comissário do Povo na Ucrânia . Teve uma morte acidental em 1921 tentando encaixar um motor de avião num trem para tentar fazê-lo andar mais rápido e, como era uma primeira experiência, tudo leva a crer que o trem descarrilhou.(18).

Noguin – Morreu no dia 22 de maio de 1924, aparentemente, de causas naturais. (19).

Os três que sobreviveram

Apenas três membros do Comitê Central que dirigiu a revolução russa de Outubro de 1917 sobreviveram aos expurgos, a saber:

Stalin, foi o mandante do assassinato de todos os membros do CC bolchevique que dirigiu a Revolução de Outubro; Alexandra Kolontai (13) e Kalinin (14).

Por que a escolha dos Escritos para os 100 anos que abalaram o mundo?

Demora-se muitos e muitos anos, até mesmo décadas, para se compreender o papel mais essencial de Trotsky na História. Normalmente ele é visto como o grande agitador na presidência do soviete de Petrogrado em 1905 e 1917, o homem de ação como comandante do Comitê Militar Revolucionário na insurreição de Outubro e na construção do Exército Vermelho, como o teórico da Revolução Permanente que converge com as Teses de Abril de Lenin, para dar alguns poucos exemplos.

No entanto, com o passar dos longos anos, nossa compreensão deve mudar de qualidade.

Em seu Diário do Exílio há um texto dele de 25 de março de 1935 está a chave da questão para a compreensão mais exata do papel de Trotsky na História. Escreve ele:

…creio que o trabalho que faço no momento é o trabalho mais importante de minha vida, mais importante que em 1917, mais importante que na época da Guerra Civil etc. Para ser claro, direi isto. Se eu não tivesse estado em 1917 em Petrogrado, a Revolução de Outubro teria havido- condicionada pela previsão e a direção de Lenin. Se nem Lenin nem eu não estivéssemos em Petrogrado, não teria havido a Revolução de Outubro: a direção do Partido Bolchevique haveria impedido que isso fosse levado a cabo. Para mim, não cabe a menor dúvida disso”

Em seguida:

Se Lenin não tivesse estado em Petrogrado, não haveria quase chance de que eu pudesse vencer as altas esferas dos bolcheviques. A luta contra o ‘Trotskysmo’, isto é, contra a revolução proletária, teria se iniciado a partir de maio de 1917. Porém, repito, com a presença de Lenin a Revolução de Outubro haveria alcançado a vitória…O mesmo se pode dizer, em contas resumidas, em relação à Guerra Civil…assim, não posso dizer que meu trabalho tenha sido “insubstituível”, inclusive no período 1917-1921”

E argumenta:

O que faço agora é ‘insubstituível’, no pleno sentido da palavra. Não há a menor vaidade nessa afirmação. A derrocada das duas Internacionais colocou um problema que nenhum dos dirigentes destas Internacionais está, em absoluto, capacitado para resolver. As particularidades de meu destino pessoal me colocaram completamente apto, armado de uma séria experiência face a este problema”.

E conclui:

Dotar a nova geração de um método revolucionário passando por cima dos dirigentes da II e da III Internacional é uma tarefa que, além de mim, não há outra pessoa capaz de levá-la adiante….Faltam-me cinco anos de trabalho ininterrupto para assegurar a transmissão dessa herança”.

Trotsky, após escrever esse texto, viveu exatamente cerca de mais cinco anos antes de ser assassinado pela GPU de Stalin, período em que escreveu, entre tantas outras coisas, ‘A Revolução Traída’, livro que nos permite entender a evolução da burocracia stalinista até a restauração capitalista na década de 80; o ‘Programa de Transição ‘ que, entre outras coisas, elimina a disjunção entre programa máximo e programa mínimo; e fundamentalmente a criação da IV Internacional, ou seja, a retomada da concepção de que a luta revolucionária pelo socialismo deve ser efetuado pelos trabalhadores de todos os países numa única organização política mundial.

Trotsky,assassinado por Stalin

Trotsky,assassinado por Stalin

Trotskysmo versus Stalinismo : revolução versus contrarrevolução

Marx ajudou a criar a I Internacional; Engels a II; Lenin e Trotsky a III e este a IV. Stalin decretou a extinção da III em 1943. Toda a história do movimento operário tinha até então girado em torno das Internacionais.

Zinoviev, Kamenev, Bukharin e todos os demais antigos membros do CC de 1917 nada deixaram por escrito para os futuros militantes acerca da análise e perspectivas do curso burocrático na antiga URSS e muito menos sobre o andamento e a política do proletariado para a luta de classes fora da URSS.

Ao contrário, todos eles capitularam ao stalinismo e se auto-mutilaram do ponto de vista político tantas vezes quantas foram necessárias a Stalin até este decretar a morte deles por não mais serem necessários, conforme veremos nos próximos artigos.

Certamente o grande erro de Stalin foi ter expulsado Trotsky da URSS ao final da década de 30, deixando-o vivo por cerca de onze anos e meio.

Imaginemos o oposto, ou seja, se Trotsky tivesse permanecido dentro das fronteiras da URSS e , como dezenas de milhares de outros marxistas revolucionários, fosse confinado aos campos de concentração na Sibéria e posteriormente fuzilado pela GPU.

Nessa hipótese, nada restaria para as futuras gerações de revolucionários.

Provavelmente não teria existido, para dar apenas alguns poucos exemplos, o jovem militante Mário Pedrosa, pioneiro em 1927 da oposição de Esquerda no Brasil e único latino-americano presente na fundação da IV Internacional em 1938. Não teria existido o grupo de brasileiros exilados no Chile influenciado por Mário, o Ponto de Partida, bem como as suas sucessoras, a Liga Operária e a Convergência Socialista.

Certamente não teria existido a antiga DS. Tampouco o MES, a CST, o PSTU , o CSOL, Enlace e CLV – estes três últimos deram origem à Insurgência – e portanto não teria havido a construção inicial do PSOL. Vários outros agrupamentos como a LSR e outros mais recentes se reivindicam do Trotskysmo. Com certeza nesta lista deve faltar vários outros agrupamentos que se baseiam nos ensinamentos do velho mestre.

Na Argentina não haveria a FIT, Frente de Esquerda dos Trabalhadores e assim sucessivamente em muitos outros os países do mundo.

O assassinato de quase todos os quadros da velha guarda do CC que dirigiu a Revolução de Outubro significou simbolicamente a tendência do stalinismo de assassinar a própria Revolução de Outubro. E conseguiu.

É exatamente dessa burocracia que sairam os stalinistas que darão continuidade ao seu chefe, à contrarrevolução e à restauração do capitalismo na antiga URSS: Kruschev, Breznev, Gorbatchev, e Ieltsin.

Putin, ex-agente do KGB no departamento exterior e chefe dos serviços secretos soviético e russo, é um legítimo herdeiro político de Stalin.

Notas:

1) Kamenev se filiou à fração bolchevique do Partido Operário Social Democrata Russo, POSDR, em 1901. Em 1918, Kamenev se tornou presidente do Soviete de Moscou e depois vice-presidente do Conselho dos Comissários do Povo e do Conselho do Trabalho e da Defesa.

Após a execução de Kamenev, seus parentes sofreram um destino semelhante. O segundo filho de Kamenev, Y. Kamenev, foi executado em 30 de janeiro de 1938, com a idade de 17 anos. Seu filho mais velho, A. Kamnenev, oficial da força aérea, foi executado em 15 de julho de 1939, com a idade de 33 anos. Sua primeira esposa, Olga, foi baleada em 11 de Setembro de 1941, na floresta Medvedev nas imediações de Oriol, juntamente com Christian Rakovski, Maria Spiridonova e 160 outros prisioneiros políticos de destaque. Apenas o filho mais novo, Vladimir Glebov, sobreviveu as prisões de Stalin e campos de trabalho forçados, morrendo em 1994.

2) Trotsky foi presidente do soviet de Petrogrado tanto na Revolução de 1905 quanto na de 1917. Foi presidente do Conselho Militar Revolucionário encarregado de dirigir in locu a insurreição vitoriosa. Ainda enquanto Lenin vivia, ele foi Comissário das Relações Exteriores , foi o principal organizador do Exército Vermelho e Comissário para a Guerra até 1925 Foi membro do Birô Político do CC do Partido desde a sua fundação até 1927. Expulso do território soviético em 1929 pelo regime stalinista..

Além da morte dos seus quatro filhos, os genros, noras, netos, e outros parentes próximos de Trotsky são igualmente vítimas da repressão stalinista. Dos descendentes de Trotsky, o único que pôde preservar sua conexão com a família seria o seu neto, o engenheiro Esteban Volkov, filho de Zina, que seria criado pela companheira de Trotsky, Natalia Sedova, no México.

3) Bukharin entrou para a fração bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo em 1906. Foi jornalista e colaborador próximo de Lenin no exílio a partir de 1912. Foi um dos líderes da Revolução de Outubro em Moscou. Foi membro do Comitê Central de 1917 a 1934. Redator chefe do principal jornal do Partido, o Pravda. Foi presidente Comitê Executivo da III Internacional entre 1926 e 1929.

4) Zinoviev entrou para o Partido Operário Social-Democrata Russo em 1900 e em 1902 se encontra com Lenin no exílio e se integra à fração bolchevique do POSD-R. Em 1907é eleito para o Comitê Central e desde essa época se transforma num dos braços direitos de Lenin. Reeleito para o CC em 1912 e novamente de 1917 até 1926. Foi o presidente do Comitê Executivo da III Internacional desde a criação desta em1919 até 1926.

5) Rykov entrou para o POSDR em 1902 e uniu-se posteriormente à fração bolchevique. Com o triunfo da Revolução de 1917, Rykov foi eleito Ministro do Interior e sucedeu a Lenin após a morte deste como presidente do Conselho de Comissários do Povo, cargo que seria equivalente a Primeiro Ministro da antiga URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Foi membro do CC de 1917 na época de Lenin, até 1929. De 1923 a 1930 foi presidente do Conselho de Economia Nacional da URSS.

6) Sokolnikov se tornou bolchevique em 1903. Foi membro do Comitê Central na época de Lenin e reeleito sucessivamente até 1927. Foi diretor do jornal Pravda nos momentos anteriores à insurreição de Outubro. Fez parte da delegação soviética que assinou o tratado de paz de Brest-Litovsk com a Alemanha em tempos de Lenin. Foi comissário militar durante a guerra civil. Logo após foi Comissário de Finanças e dirigiu a nacionalização dos bancos. Embaixador em Londres de 1927 a 1933 e mais tarde vice-comissário de relações Exteriores.

7) Aos 25 anos, Smilga era o mais jovem membro titular do Comitê Central bolchevique de 1917 função que exerceu, às vezes como suplente, durante cerca de 10 anos. Durante a insurreição Smilga foi o responsável pelas organizações do partido na frota do Báltico, e em seguida presidente do soviete regional do Exército Vermelho, da frota e dos operários da Finlândia. Foi o confidente e emissário de Lenin durante toda a etapa anterior à insurreição,Foi Comissário durante a guerra civil e membro do Conselho de Guerra, posteriormente fez parte da comissão do Plano Econômico da URSS. Foi também reitor do Instituto Plekanov.

8) Krestinski entrou para o POSDR em 1901 e se fez bolchevique em 1903. Presidente do primeiro congresso dos sovietes da região do Ural. Eleito membro do CC bolchevique de 1917 até 1921, ano em que é nomeado embaixador na Alemanha.

9) Bubnov entrou para o POSDR em 1900 e para a fração bolchevique em 1903. Foi suplente do CC em 1919, 22 e 23. Membro do Comitê Militar Revolucionário. Mais tarde foi nomeado Chefe do Controle Político do Exército Vermelho em 1924. Eleito novamente para o Comitê Central de 1924 até 1934. Em 1929 foi indicado Comissário do Povo para a Educação. 

10) Milyutin entrou para o POSD-R em 1903 e para a fração bolchevique em 1910 Foi presidente do soviete de Saratov. Era tido como especialista na questão camponesa e foi Comissário do Povo para a Agricultura em seguida à insurreição de outubro. Foi suplente do CC em 1920 e 1921 .Diretor da oficina Central de Estatísticas em 1928 e vice-presidente do Comitê de Planejamento do Estado da URSS.

11) Berzin ingressou no POSD-R da Letônia em 1902 .Foi escolhido como secretário do Comitê de Petrogrado do Partido em 1906 .  Berzin foi eleito membro do Comité Central do POSD-R em 1917 e membro suplente no ano seguinte. Posteriormente foi embaixador soviético na Suíça e no serviço diplomático da URSS na Finlândia,Inglaterra e Áustria.. Foi ministro da Educação da Educação na República Socialista Soviética da Letônia. Foi chefe do Quarto Gabinete do Exército Vermelho (setor da Inteligência Militar) até a primavera de 1935.

12) Desde 1904 Preobrajenski fez parte da fração bolchevique do POSDR. Dirigente do Partido no Ural em 1917-18, foi eleito para o CC em 1917 e reeleito em 1918, 19 e 20, sendo também secretário do CC em 1920,ou seja, na época de Lenin. No mesmo período foi eleito membro do Birô Político. Em 1921 é Presidente do Comitê de Finanças do Partido e membro do Conselho dos Comissários do Povo da RSFSR (a URSS só será constituída no ano seguinte) como chefe do triunvirato – junto com Kretisnky e Serebriakov – à cabeça do Comissariado do Povo de Finanças.

13) Alexandra Kolontai, filha de um general do exército do czar, membro do POSD-R desde 1899, Comissária do Povo para Saúde e diplomata nos anos do stalinismo na Noruega, México e Suécia. Morreu de morte natural em 1952 aos 80 anos de idade.

14) Kalinin , entrou para o POSDR em 1898. Quando Sverdlov morreu em março de 1919, Kalinin substituiu-o como presidente do Comitê Executivo Central de todos os russos, o chefe de Estado titular da Rússia Soviética. O nome deste cargo foi mudado para presidente do Comitê Executivo Central da URSS em 1922 a para presidente do Presidium do Soviete Supremo em 1938. Kalinin continuou a ocupar o cargo sem interrupção até sua aposentadoria no final da Segunda Guerra Mundial. Morreu de morte natural em 1946.

15) Sverdlov entrou para a fração bolchevique do POSDR em 1903. Foi o grande organizador do Partido nos meses anteriores e nos primeiros anos posteriores à Revolução. A partir de novembro e 1917 foi presidente do Comitê Executivo dos sovietes e, ao mesmo tempo, era secretário-geral do CC bolchevique, cargo este que exerceu sem nenhum tipo de aparato como iria fazer posteriormente Stalin.

16) Dzerjinski foi fundador do Partido Social- Democrata da Polônia em 1900 e passou a maior parte de sua vida preso por atividades revolucionárias. Chefe da Tcheca – mais tarde conhecida por GPU – e presidente do Conselho Nacional de Economia em 1924.

17) Shaumian foi membro do POSDR desde 1898 e da fração bolchevique a partir de 1903. Presidente do soviete de Baku em fevereiro de 1917 e em seguida presidente do Conselho de Comissários do Povo de Baku.

18) Artem, bolchevique desde 1903, membro do CC em 1917-18, suplente em 1919 e Comissário do Povo na Ucrânia.

19) Noguin se uniu ao POSD-R em 1898 . Foi presidente do Comitê Executivo do soviete de Moscou nas vésperas da Revolução. Em novembro de 1917 foi nomeado Comissário do Povo da Indústria e Comércio .




Corrupção era ‘legal’ na época da Ditadura

Por: Ênio Bucchioni

Há mais de 150 anos, escrevendo sobre a corrupção na sociedade capitalista, Marx afirmava:

Enquanto a aristocracia financeira legislava, dirigia a administração do Estado, dispunha de todos os poderes públicos organizados e dominava a opinião pública pelos fatos e pela imprensa, repetia-se em todas as esferas, desde a corte ao Café Borgne, a mesma prostituição, as mesmas despudoradas fraudes, o mesmo desejo ávido de enriquecer não através da produção mas sim através da sonegação de riqueza alheia já existente; nomeadamente no topo da sociedade burguesa manifestava-se a afirmação desenfreada — e que a cada momento colidia com as próprias leis burguesas — dos apetites doentios e dissolutos em que a riqueza derivada do jogo naturalmente procura a sua satisfação, em que o prazer se torna crapuleux (devasso), em que o dinheiro, a imundície e o sangue confluem.

No seu modo de fazer fortuna como nos seus prazeres a aristocracia financeira não é mais do que o renascimento do lumpenproletariado nos cumes da sociedade burguesa.1

Pode ser visto como uma confirmação publica de Marx a matéria de 12 de fevereiro de 2017 na Folha de São Paulo segundo a qual o Patriarca da empreiteira Odebrecht, o executivo Emílio Odebrecht, presidente do Conselho de Administração” afirmou que “sempre existiu” caixa dois na construtora. Segundo o executivo “Sempre existiu. Desde a minha época, da época do meu pai e também de Marcelo [Odebrecht]”2, afirmou segundo o jornal sob sigilo, ao juiz Sergio Moro.

Amarelinhos anti-corrupção”: a base social do ‘golpe parlamentar

Entre 2014 e 2015 a imensa maioria da população julgava que a corrupção no país era devida única ,seletiva e exclusivamente ao PT nos governos Lula e Dilma, e em parte ao PP e ao PMDB. Era a época inicial da Lava Jato e das denúncias e imagens, sempre com exclusividade, da Rede Globo e de seu Jornal Nacional.

Petrobrás, Odebrecht, OAS, Mendes Junior e tantas outras empreiteiras “doavam” propinas em troca de contratos futuros com os governos de colaboração de classes. Isso foi o estopim para as manifestações dos ‘amarelinhos’, para o golpe parlamentar que depôs Dilma e a formação de um governo puro-sangue das mais diversas facções das classes dominantes.

Com o passar do tempo, a população veio a saber que a relação entre empresas e políticos era mais intensa e profunda. As delações dos donos da Odebrecht e de seus diretores escancararam que os políticos do PSDB, DEM e PMDB também eram ‘financiados’ de igual maneira que os do PT.

Os figurões da classe política dominante também eram comprados pelas empresas capitalistas. Temer, o Zero Votos, foi denunciado por 43 vezes pelos delatores. Além dele, figuram na lista dos beneficiados por propina ilegal os dirigentes do PSDB como por exemplo Aécio, Alckmin e Serra, o presidente da Câmara, o Rodrigo Maia, do DEM, o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, do PMDB e centenas de outros políticos corruptos que formam a base de apoio do governo ilegítimo de Temer.

A corrupção legal na época da Ditadura. O caso Geisel.

Ernesto Geisel foi presidente da Petrobras no período 1969-1973 e logo depois assumiu, em 1974 – com 400 votos dos parlamentares da ARENA (partido criado pela própria Ditadura) a presidência do país. Em 1979 Geisel passou a faixa de ditador para o general Figueiredo e assumiu a chefia da Norquisa – Nordeste Química S.A.- em 1980 e, consequentemente, o controle da Copene- Companhia Petroquímica do Nordeste, empresa responsável pelo Pólo Petroquímico de Camaçari. Cabe lembrar que a Copene era denominação anterior da “BRASKEM S.A. Atualmente essa empresa é acusada de ter pago propina a políticos e executivos da Petrobras já que a Braskem, é o braço petroquímico da Odebrecht em sociedade com a Petrobras.

Para tal fim, Geisel se beneficiou diretamente de acordos com empresários que, rapidamente, o conduziram à coordenação da holding, devolvendo as benesses recebidas e mantendo as ligações com o regime ditatorial. De acordo com uma antiga istoé “Quinze meses depois, Geisel volta à ativa – ele assume a direção da Norquisa e o Conselho da Copene”3, e afirma que sua nomeação foi uma proposta de vários empresários. Entre eles, estavam: pela Odebrecht, Norberto Odebrecht, pela Internacional de Seguros, Celso Rocha Miranda, Pelo grupo Ultra Peri Igel e Paulo Cunha, pelo Banco Econômico,Ângelo Calmon de Sá, pelo Grupo Mariani, Clemente Mariani, e a lista segue. Todos eram conhecidos financiadores da ditadura.

Qual seria a remuneração de Geisel em valores de 2017 ?

É praticamente impossível se saber quanto ganhavam na época as diversas patentes militares. Para efeito de raciocínio podemos fazer uma estimativa de quanto receberia atualmente um general reformado.

Pela lei nº 5.774 de 23 de dezembro de 1971 a remuneração é igual se ele estiver na ativa ou reformado, caso de Geisel na década de 80. Pela tabela atual das Forças Armadas, a remuneração- soldos mais gratificações – varia entre 21 a 25 mil reais. Quanto ganharia hoje um presidente de uma multinacional como a Petrobrás ou um presidente de uma grande empresa como a NORQUISA, como foi o caso de Geisel? Uma boa resposta vem da Valor Online:

O ditado popular diz que “se conselho fosse bom, ninguém dava de graça” tem lá seu respaldo no mundo corporativo. Isso porque, se por um lado as empresas acham, sim, que conselho é bom, por outro precisam pagar caro por ele. Um presidente de “board” (Conselho Administrativo ou Consultivo de grandes empresas) no país ganha, em média, R$ 400 mil anuais, de acordo com levantamento realizado pela consultoria global Hay Group. Membros independentes, por sua vez, recebem honorários anuais de R$ 240 mil4

Em 30 de março de 2017 saiu na imprensa diária que os executivos da Petrobrás tiveram uma redução de 8% em suas remunerações. Assim, o atual presidente dessa empresa, o Aldemir Bendine, receberá R$ 106,75 mil mensais de remuneração fixa. Somando-se a remuneração como general de reserva e presidente de uma grande empresa tipo a Petrobrás ou a Norquisa, Geisel receberia hoje, no mínimo, por volta de 127 mil reais por mês, ou seja, em torno de um milhão, seiscentos e cinquenta mil reais por ano.

Desse total auferido, 1.387.750,00 viriam da Petrobrás, isso em cifras atuais, de 2017. Geisel e vários outros generais e marechais fizeram uma longa carreira militar durante suas vidas e, de repente, como veremos mais adiante, tornaram-se presidentes, diretores ou consultores de grandes empresas- até mesmo multinacionais- nos anos de chumbo da Ditadura.

Evidentemente, não foi por seus conhecimentos técnicos em administração ou finanças, mas sim porque detinham o poder político do governo e do Estado, e, em consequência, através deles os empresários obtiveram imensas vantagens financeiras. E, funcionários dessas grandes empresas, eram bem remunerados para tal fim. Era a corrupção legal.

Geisel e Odebrecht

Em 19 de setembro de 2014 a Folha de São Paulo noticiava a morte de Norberto Odebrecht. Ele fundou em 1944 a empresa de construção que deu origem ao que é hoje a Organização Odebrecht. Norberto foi o avô de Marcelo, hoje preso pela Lava Jato em Curitiba há cerca de um ano e meio. A manchete da Folha de SP nesse dia afirmava que Norberto Odebrecht aproveitou as privatizações e encarou escândalos.

Nesse texto, nunca rebatido por algum membro da família Odebrecht, podia-se ler que “por decisão de Ernesto Geisel, ( a Odebrecht) construiu também nos anos 1970 a Universidade do Estado da Guanabara (atual UFRJ). “Foi o presidente Geisel quem disse: Entregue isso àquele nordestino malcriado”, lembrou.

Mais adiante, pode-se ler “Com um trajeto diferente das grandes firmas que emergiram da construção de hidrelétricas, a empresa baiana ganhava o seu naco do “milagre econômico” da ditadura militar. A mudança rumo ao Sul foi provocada pela extinção da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e causou um choque para a companhia. ”

Segundo Norberto Odebrecht “eu não podia concorrer com a Camargo Corrêa, com os barrageiros. O grande desafio era que essas obras eram de coordenação. No Galeão, por exemplo, tivemos 184 subempreiteiras para coordenar. ”

Mais adiante, lê-se: “as obras nas regiões mais ricas do país engordaram o caixa da empresa. Entre 1976 e 1977, o faturamento quase dobrou. O crescimento real do grupo foi de 212% no período de 1973 a 1977. Menor do que as oito maiores construtoras, declarou Norberto a senadores na CPI que investigou, em 1978, o acordo nuclear. Parlamentares da oposição questionaram o fato de Odebrecht ter ganho, sem concorrência, as obras de Angra 2 e 3 –a empreiteira vencera a concorrência de Angra 1. ”

Esse crescimento de 212% se deu exatamente no período de tempo em que Geisel foi o ditador presidente do país. O filho de Norberto, cujo nome é Emílio, assumiu a presidência desta empresa até 2001 e passou o trono para seu filho, o Marcelo. Em 14 de março de 2017, na condição de testemunha de defesa de Marcelo, Emílio declarou na Justiça que “sempre existiu caixa 2 na construtora para doações de campanhas não oficiais. Sempre existiu. Desde a minha época, da época do meu pai, e também do Marcelo”.

Essa época, de Norberto passando por Emílio e chegando a Marcelo Odebrecht abrange um período de tempo que vai de 1944 até os dias atuais. São cerca de sete décadas onde as relações recíprocas e os interesses econômicos e políticos se entrelaçam entre grandes empresas capitalistas e o poder político dos governantes e a dominação sobre os trabalhadores, seja na ‘democracia’, seja na ditadura militar. A diferença nada sutil é que nos tempos da ‘democracia’ as propinas e a corrupção são veladas, ocultas e na época da Ditadura eram escandalosamente públicas.

Se atualmente a corrupção é revelada parcial e publicamente à população é porque esta conseguiu se livrar, via intensas mobilizações e greves nos anos 70 e 80, do regime militar, conseguindo muitas brechas importantes no que diz respeito às liberdades democráticas. Na época da Ditadura havia total censura nos meios de comunicação de massas e quem denunciava qualquer coisa tinha o mesmo fim que Wladimir Herzog, assassinado covardemente pelos militares.

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Outros generais e marechais envolvidos com grandes empresas

O general Arthur da Costa e Silva foi o segundo presidente ditador no período 1967-1969. Sobre ele pesam, no mínimo, dois casos escandalosos. Um deles, nunca investigado, foi a compra, pelo governo militar, de 195 vagões para a Rede Ferroviária Federal da empresa norte-americana General Electric, embora o presidente da GE, Thomas Smiley, tenha confessado que pagou suborno à direção da Rede Ferroviária para a venda ser concretizada. O detalhe é que, então, coronel Álcio Costa e Silva, filho do ex-presidente Costa e Silva, era diretor da General Electric.

Como se sabe, a General Electric Company, também conhecida por GE, é uma empresa multinacional americana de serviços e de tecnologia. A empresa atua como fornecedora de soluções de infraestrutura nos setores de energia, iluminação, transporte e diagnóstico por imagem.

O marechal Humberto Castelo Branco, primeiro governo militar após o golpe, destruiu uma companhia aérea e passou todos os seus bens para a Varig, cujo dono, Rubem Berta, apoiou o golpe e era amigo íntimo dos militares.

Na época, a Panair do Brasil era a maior companhia aérea do País, mas por meio de um telegrama do ministro Eduardo Gomes, da Aeronáutica, teve sua licença para voar cassada e o patrimônio confiscado porque o grupo acionário era ligado a Juscelino Kubitschek, opositor do regime. No mesmo dia, os hangares da empresa foram ocupados por soldados da Aeronáutica e a Varig assumiu todas as rotas internacionais da rival.

O general Golbery do Couto e Silva foi presidente da Dow Chemical Company ,empresa multinacional de produtos químicos e agropecuários que, durante a Guerra do Vietnã, foi a principal fornecedora do napalm para as Forças Armadas estadunidenses. Golbery do Couto e Silva tornou-se conhecido como um dos principais teóricos da doutrina de segurança nacional, elaborada nos anos 50 pelos militares brasileiros da Escola Superior de Guerra , sendo um dos criadores do Serviço Nacional de Informações, SNI, órgão de espionagem da ditadura contra toda e qualquer oposição ao regime militar.

Contrário à ascensão de Costa e Silva à presidência, retirou-se do governo com a posse do novo mandatário. Durante o período (entre 1968 e 1973), presidiu a filial brasileira da empresa norte-americana Dow Chemical.

Em 1967, Golbery do Couto e Silva assumiu uma vaga de ministro do Tribunal de Contas da União e, em 1974, no governo Geisel, tornou-se chefe da Casa Civil da Presidência da República, cargo que manteve com a posse do novo presidente, João Figueiredo.

O General Juracy Magalhães , no governo do Marechal Castelo Branco,foi nomeado embaixador brasileiro nos Estados Unidos. É desse período a sua célebre fraseo que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”. Posteriormente, como Ministro da Justiça, encarregou-se da censura aos veículos de comunicação. No fim do governo de Castelo Branco, em 1967, Juracy Magalhães deixa a carreira política. Passa, então a dedicar-se ao setor privado, tendo ocupado a presidência de diversas empresas brasileiras e estrangeiras.

Presidente do conselho da Ericson do Brasil Comércio e Indústria S/A; diretor da Monteiro Aranha Engenharia Comércio e Indústria S/A; diretor da Cia Indústria de São Paulo e Rio de Janeiro (CISPER); presidente da Cia de Bebidas da Bahia (CIBEB); presidente da Polímeros de Aratu S/A (POLIAR).

 Para ficarmos só na Ericsson ,ela é uma das maiores multinacionais de controle sueco no ramo de tecnologia, fabricante de equipamentos de telefonia fixa e móvel.

Ditadura e militares diretores de empresas (1)

Corruptos e corruptores formam uma antiga história

Nesse texto apenas recordei que a corrupção ,legal ou ilegal, é uma marca inerente e histórica no Brasil e, com certeza, em todo o mundo capitalista. Em geral os que assumem cargos políticos, sejam os fardados ou os civis, recebem uma bela remuneração por suas atividades em prol das grandes empresas que os contrataram diretamente com cargos ‘técnicosou indiretamente via caixa 1 ou 2 nas eleições.

É muito raro um burguês, um proprietário de uma grande empresa ou multinacional, assumir diretamente um cargo político. Eles se valem de outros tipos de arrivistas entre as camadas sociais financeiramente inferiores e investem dinheiro neles de forma que eles se transformem em seus funcionários políticos.

Por sua vez, os financiados se valem de seus cargos políticos para proteger os interesses dos seus amos bem como se enriquecerem e até mesmo chegarem a ser sócios ou donos de empresas médias ou grandes.

Se algum historiador pesquisar detidamente a história da corrupção no Brasil provavelmente chegará à conclusão que esta chegou ao nosso país viajando nas caravelas de Pedro Álvares Cabral.

1 Karl Marx – em ‘As Lutas de Classes em França’ de 1848 a 1850

3 reportagem de Aluízio Maranhão, publicada na revista Isto É em 26 de agosto de 1980




Allende e o poder operário: dois jovens socialistas no Chile da Unidade Popular (vídeo)

Waldo Mermelstein e Enio Bucchioni  |

Apresentação: Luis Gustavo  |

Desde tempos remotos, a experiência de sair de sua vila natal marca a vida de um jovem. Os exemplos na literatura abundam; mais além das páginas de fantasia, também a realidade foi fertilizada pelas possibilidades abertas no ato de buscar novos ares, de Heródoto a Marco Polo. Jovens que, sob a ditadura brasileira iniciada em 1964, decidissem sair de seu país podiam arriscar também uma nova conjuntura política. A apenas uma cordilheira de distância, o Chile oferecia, em 1970-3, um porto natural para as ambições de quem desejasse ver a classe trabalhadora em ação. O diretor Patricio Guzmán, em 1975, retrata aquele momento no excelente documentário de 285 min intitulado “Batalha do Chile”, cujas três partes podem ser vistas aqui (parte 1, parte 2, parte 3).

Tratava-se do maior processo revolucionário do continente após os levantes de Cuba e Bolívia, e teve um reflexo distorcido na eleição de Salvador Allende, do Partido Socialista, o epicentro dos eventos. Cruzando as fronteiras geopolíticas como quem penetra camadas nas quais o ritmo histórico se acelera, os jovens Waldo Mermelstein e Enio Bucchioni imiscuíram-se num grande fluxo de aprendizado, debates, vivências profundas cujo resultado direto alguns anos depois foi, de forma demonstrável, a fundação da corrente morenista no Brasil, da qual é herdeira o PSTU. Nessa entrevista à Tv Opinião, os dois desfiam suas impressões e opiniões, renovando um debate essencial para a esquerda brasileira atual.




1975 versus 2015: A consciência após o fim dos Estados Operários

Em meados de 1971, após sua divisão, o grupo de exilados brasileiros no Chile que formavam o Ponto de Partida ficou temporariamente reduzido a apenas quatro militantes em atividade. Passadas algumas poucas semanas, esse pequeno grupo, em que fiquei com Tulio Quintiliano, aumentou para oito companheiros. Juntavam-se a nos ativistas recém-chegados que fugiam da ditadura militar no Brasil.

Naquelas circunstâncias, esse crescimento foi uma grande vitória. Principalmente se levarmos em conta que a contra-revolução imperava em nosso país na era mais tenebrosa da ditadura, a era Médici. Estávamos a mais de três mil quilômetros de São Paulo.

No entanto, o que nos dava força, ímpeto e confiança no futuro era, de longe, lá do sudeste asiático, os avanços das massas vietnamitas contra as forças armadas do imperialismo norte-americano; de perto, a poderosa revolução em marcha no Chile, onde centenas de milhares de proletários e jovens desfilavam suas bandeiras vermelhas pelas ruas do país, quase todos comunistas ou socialistas. O Partido Comunista tinha 200 mil filiados e o Partido Socialista, 400 mil, em uma nação de 10 milhões de habitantes. Esses números, trazidos proporcionalmente para o Brasil de 2015 – nosso país é 20 vezes maior que o Chile – significariam que o PS chileno teria 8 milhões de filiados, sendo o PS um partido reformista radical situado bem mais à esquerda que o PC chileno.

Atualmente não há mais Frentes Populares desse tipo, onde a possibilidade de expropriação da burguesia era muito possível pela radicalização e consciência das massas, bem como pela existência dos antigos Estados Operários. Não se deve confundir esse tipo de Frente Popular com qualquer governo de colaboração de classes, como atualmente existe com François Hollande na França ou Lula e Dilma no Brasil. Apesar de muito à esquerda, extraordinária, também, foi a capitulação sem luta das direções reformistas radicais e de colaboração de classes do PS, do PC e do governo Allende.

Foi nesse contexto que se desenvolveram os dois grupos Ponto de Partida. Em meados de 1973, quando decidimos por voltarmos a ter um funcionamento em comum e nos reagruparmos, veio o golpe. Éramos cerca de 16 companheiros. Tulio foi assassinado. Eu e Antônio Paulo fomos presos. Fui expulso para a França. Jones se exilou no Canadá e os demais deixaram de militar após mais essa derrota da revolução. Apenas quatro companheiros conseguiram fugir das garras de Pinochet. Antes de retornarem ao Brasil, outros seis militantes brasileiros se juntaram a eles na Argentina do antigo PST, ficando o núcleo original com 10 camaradas que iriam fundar  a Liga Operária, posteriormente Convergência Socialista em 1978.

A aritmética do crescimento à luz da etapa mundial da luta de classes

Em meados de 1978, retornei ao Brasil, ingressando formalmente na saudosa e querida Convergência Socialista, a CS. Eram passados quatro anos e meio após o golpe e do retorno dos camaradas do Ponto de Partida ao país. Zezé, responsável por toda a parte organizativa me recebeu de braços abertos e comentou: “agora você é o militante de número 560 da CS”.

Era assim nos anos 70: de 10 que retornaram ao Brasil a partir do começo de 1974, passamos a 560 em junho de 1978. Éramos 56 vezes mais fortes quantitativamente num espaço de tempo de apenas 4 anos e meio. Exatamente no período dos governos ultra-reacionários e ditatoriais de Médici e Geisel, numa conjuntura contra-revolucionária na América do Sul, com ditaduras militares na Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia, Peru e Paraguai. Uma época em que ser militante de esquerda era, em potencial, quase sinônimo de ser capturado, torturado e assassinado pela forças repressivas.

Ao buscarmos respostas para tal crescimento, verifiquemos algumas questões de ordem subjetiva. É verdade que a CS se amparou nas tradições teóricas e práticas do antigo Partido Socialista do Trabalhadores da Argentina. É verdade que se apropriou da herança política e programática trotskista da antiga minoria do Secretariado Unificado da IV Internacional. É verdade que tínhamos o aprendizado pessoal e prático dos equívocos  do guerrilheirismo de Che Guevara, bem como do reformismo dos PCs brasileiro e chileno, assim como do centrismo pseudo-esquerdista do PS chileno. No entanto essas considerações, ainda que importantíssimas, não explicam por completo o crescimento vertiginoso da antiga CS.

O panorama de fundo que possibilitava esse fenômeno de crescimento era a realidade da luta de classes a nível mundial com a guerra no sudeste asiático e a fantástica vitória política e militar em 1975 das massas vietnamitas contra o imperialismo norte-americano, onde as forças armadas ianques chegaram a contar com 500 mil soldados naquela região. O Vietnã mostrava a todos os ativistas do mundo que era possível  expropriar a burguesia. Surgiam ativistas às pencas em escala mundial, talvez na escala de centenas de milhares ou até mesmo de alguns milhões. Os reflexos disso se expressavam também no Brasil . Elas davam imenso fôlego à nossa esquerda derrotada nos anos 60.

A expropriação da burguesia no Vietnã foi mais uma das hipóteses ‘altamente improváveis’ prognosticadas por Trotsky e verificadas na realidade.  E por quê? Tal qual acontecera anteriormente na China, Coréia do Norte e Cuba, o enfrentamento de massas com o imperialismo e a consequente expropriação da burguesia levaram esses países, imediatamente, a atar laços econômicos e comerciais com o país da primeira revolução socialista da história, com o Estado Operário, ainda que burocratizado, da antiga União Soviética. Atualmente, em 2015, aquela “hipótese” parece ser impossível, pois não mais existe União Soviética e os demais 31 antigos Estados Operários.

Como já dissemos no artigo anterior, a palavra de ordem “Um, dois, três Vietnãs” atingia a consciência dos ativistas e das massas em todo o planeta.

É nesse cenário que floresciam militantes no mundo inteiro, que sonhavam e lutavam para, num futuro próximo, expropriarem a burguesia em seus países.  Era a consciência socialista que se apossava de milhões de pessoas em várias partes do mundo. Na vanguarda se discutia muito sobre qual era o socialismo desejado. Se o modelo soviético, chinês, cubano. Até mesmo havia espaço nessa vanguarda para a perspectiva anti-burocrática delineada pelo trotskismo. Não é à toa que não somente no Brasil o trotskismo em suas várias nuances teve esse crescimento espantoso. Na Argentina, por exemplo, à altura do Maio francês e do Vietnã, o saudoso PST teve um crescimento bárbaro que se refletiu nas eleições de 1973. Depois, finda a ditadura em 1982, houve um novo salto no crescimento dessa corrente, agora enquanto MAS. Poucos anos depois chegou até mesmo a fazer um comício em praça pública reunindo cerca de 100 mil pessoas.

Os grandes acontecimentos mundiais e a consciência dos ativistas

Os números assinalados anteriormente sobre o crescimento da antiga Convergência Socialista, de 10 para 560 militantes, revelam que essa Organização foi multiplicada em 56 vezes o número de companheiros  de 1974 a meados de 1978.

Imaginemos que, em 2015, uma hipotética organização revolucionária, tivesse exatos três mil militantes. Não me refiro a filiados. Se se registrasse idêntica velocidade de crescimento da década de 70, em quatro anos e meio essa organização teria em meados de 2019 cerca de 168 mil militantes, o que é inimaginável no momento.

No entanto, em seus escritos sobre a revolução espanhola da década de 30, Trotsky escreveu que uma pequena organização poderia, em curto espaço de tempo, se transformar num poderoso Partido capaz de levar a cabo a expropriação da burguesia.

Realmente assim era o crescimento naquela época, como sucedeu na Alemanha com a pequenina Liga Spartacus de Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknetch, fundada em 1915, durante a I Guerra Mundial. Transformada em Partido Comunista em 1918, este chegou a ter 300 mil militantes em 1923, onde poderia ter expropriado a burguesia alemã. O principal cenário de fundo desse gigantesco crescimento era a colossal vitória da Revolução Russa de 1917, que inspirava a consciência comunista para os ativistas nos mais variados quadrantes do mundo e penetrava fundo nas massas.

Para citar apenas mais um exemplo, o que dizer então da Revolução Cubana em 1959 e seus efeitos em toda a América Latina? Quantas dezenas de milhares de militantes surgiram em nosso continente e se transformaram em guerrilheiros aqui no Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia, Nicarágua e em quase todos os países latino-americanos! A expropriação da burguesia na formosa ilha da América Central incidiu por completo na consciência da juventude daquela época. Minha geração, a geração 68, quase que por completo jogou sua vida nos combates guerrilheiros, acreditando que, dessa maneira equivocada, poderia se fazer a revolução.

Qual o grande acontecimento mundial nas últimas três décadas?

A consciência da vanguarda ativista e do movimento de massas à escala mundial é sempre relacionada com os grandes acontecimentos objetivos que se dão na realidade, ou seja, os efeitos ao nível das consciências, que a fazem avançar ou a retroceder, estão subordinados aos fatos objetivos da dinâmica da luta de classes na esfera mundial.

Sem dúvida o grande acontecimento histórico, da luta de classes mundial nas últimas décadas, que permeia por completo a consciência dos ativistas e das massas foi o desaparecimento dos 32 antigos Estados Operários, com a restauração do capitalismo e o ressurgimento das respectivas burguesias nacionais através dos antigos burocratas stalinistas.

Para as massas no mundo inteiro, para a quase totalidade dos ativistas, o fim dos Estados Operários cravou em suas consciências que o socialismo morreu. Esse “socialismo real “ era o único conhecido pelas massas e por quase toda a vanguarda ativista.

Apenas nós, trotskistas, desde a década de 20, víamos o stalinismo da burocracia operária como inimiga mortal do socialismo. Se antes caracterizávamos a burocracia como correia de transmissão do capital, os agentes do stalinismo se transformaram, eles mesmos, como a nova classe burguesa nos respectivos nos países que dominavam. Já não são mais os agentes, mas sim os novos protagonistas do capital, tal qual Trotsky preconizou.

Do ventre dessas burocracias stalinistas foram gerados os novos partidos e organizações políticas burguesas em todo o Leste Europeu, em todos os antigos Estados Operários. A História registrará para sempre o stalinismo como o elemento chave da contra-revolução.

Realizou-se o prognóstico de Trotsky, portanto, escrito nas últimas páginas da sua biografia sobre Stalin: “A burocracia stalinista não é mais do que a primeira fase da restauração burguesa”.  (TROTSKY, pg 848, 2012) Ao  deter o poder de Estado e ao se apropriar da parcela maior do excedente econômico, as burocracias stalinistas não terminaram, não desapareceram, mas sim se transformaram de camada social parasitária nos 32 antigos Estados Operários em classe social burguesa dominante na restauração do Estado capitalista.

O melhor exemplo dessa metamorfose é o atual presidente, pela terceira vez, da Rússia, Vladimir Putin. Membro do Partido Comunista desde a sua juventude, passou 16 anos nos serviços secretos, chegando à patente de coronel, ou seja, foi um alto membro da KGB, chegando a chefiá-la. Atualmente, Putin é acionista de várias empresas, como as de gás e petróleo. Sua fortuna é estimada em até 70 bilhões de dólares, o que faz dele um dos homens mais ricos do mundo.

Em 1936, no livro “A Revolução Traída”, pode-se ler a terceira hipótese descrita por Trotsky acerca do futuro da União Soviética, hipótese que creio que nos faz entender com clareza e profundidade o processo de restauração capitalista ocorrida cerca de 50 anos depois desse texto:

“Admitamos, contudo, que nem o Partido revolucionário nem o Partido contra-revolucionário se apoderem do poder e que é a burocracia que se mantém à frente do poder. A evolução das relações sociais não cessa. Não se poderá pensar, evidentemente, que a burocracia abdicará em favor da igualdade socialista. Como se sabe, apesar dos graves inconvenientes, desta operação, ela restabeleceu as patentes e as condecorações; será, pois, inevitavelmente necessário que procure apoio nas relações de propriedade.” (Trotsky, 2008)

Qual a consciência das massas nos últimos anos?

Se até o fim dos Estados Operários a consciência de uma ampla parcela das massas era, em sua imensa maioria genericamente socialista, a cruel realidade é que hoje em dia não é mais socialista. A causa essencial é já que acabaram os Estados Operários do “socialismo real“. A imensa maioria dos ativistas não reivindica o socialismo. Muito menos as massas.

A bem da verdade, atualmente na maioria dos países civilizados, a consciência dos ativistas não vai além da radicalização e aprofundamento das liberdades na democracia-burguesa, seja nas mobilizações de rua, como vimos em junho de 2013 em nosso país. Isso também se reflete nas esferas sindicais ou nos aparatos parlamentares onde atuam os reformistas.

No Brasil e em vários países não predomina nem mesmo no seio do proletariado até mesmo a consciência mais elementar, como o classismo, cujo significado consiste em que o proletariado identifica-se a si mesmo como uma classe diferenciada, específica.

Hoje reaparecem defuntos havia muito tempo semi-enterrados, como as vertentes anarquistas negadoras de Partidos, sindicatos e até mesmo qualquer tipo de organização para a luta da juventude e dos trabalhadores. É o individualismo exacerbado, individualismo bem ao gosto das ideologias pró-capitalistas.

Hoje em dia uma parcela grande da juventude prefere tão somente ser atuante em questões importantes como o alargamento das liberdades democráticas para o movimento negro, feminista ou LGBT, porém sem relacionar devidamente estas questões essenciais com a consciência de classe e a negação do capitalismo. Outra parte se dedica somente à extensão dos direitos do ‘cidadão’, este ausente do seu caráter de classe.

Há até mesmo parcelas da vanguarda combativa nas greves das mais diferentes categorias que se mantém apenas atuante na esfera das lutas econômicas e sindicais, mas nutrem uma desconfiança imensa em tudo que é Partido de esquerda. Aqui no Brasil, o atraso político refletido na consciência é tão grande que a imensa maioria da população vê ainda no PT, ainda em 2015, como um partido “vermelho”, do tipo “comunista”.

No entanto, ao lado de todo esse rebaixamento da consciência de classe após a falência do ‘socialismo real’, do fim dos 32 antigos Estados Operários, a investida exploradora do capitalismo segue ainda mais brutal. Os planos de austeridade impostos pelos imperialismos para os pagamentos das dívidas públicas ocorrem nos mais diversos países do mundo, seja no Brasil, na Argentina, Grécia, Espanha, Portugal etc.  Paralelamente à austeridade, também assistimos os mais diversos tipos de precarização nas relações de trabalho, a constante redução dos salários e um rebaixamento geral do nível de vida do proletariado.

 

Etapa histórica de defesa e contra-ataque

Frente a todas essas investidas do capitalismo, o proletariado e a juventude reagem e se defendem de todas as maneiras possíveis. Se na década de 90 os efeitos do fim dos Estados Operários paralisaram em grande parte as lutas do proletariado e da juventude, a embate contra o capital vai se redesenhando em vários lugares a partir dos anos 2.000 e recrudescem frente à grande crise econômica dos anos 2008 em diante.

Nos últimos tempos assistimos aos mais variados tipos de lutas da nossa classe e da juventude em vários países do mundo. Manifestações envolvendo centenas de milhares de pessoas ocorreram simultaneamente em 2012 na Espanha, Itália, Portugal e Grécia. Neste último país, dezenas de greves gerais foram realizadas e deram base, na superestrutura, à vitória eleitoral do governo reformista do Syriza.

Ressurgiram também novas organizações e movimentos que apenas possuem a estratégia do alargamento das liberdades democráticas com a manutenção do capitalismo, como o Indignados e o Podemos na Espanha ou o Occupy Wall Street, para citar apenas alguns casos. O mesmo fenômeno se apoderou da direção majoritária do PSOL aqui no Brasil. Em geral, eles acabam encontrando nas eleições periódicas da democracia-burguesa  e na eleição de deputados a sua ‘grande’ e única estratégia.

No entanto, a realidade atual tende a nos deixar otimistas. No Brasil, em 2015, a quantidade de greves é quase idêntica a dos anos 78/79 quando começamos a derrubar a ditadura. No Chile, as lutas recomeçam sob a vanguarda dos estudantes. Ainda estas semanas, no Uruguai, cerca de 50 mil professores saíram em passeata pelas ruas de Montevidéu. Na Argentina, refletindo as lutas de classes diretas, a Frente de Esquerda obteve 10,39% dados à candidata a governadora Noelia Barbeito no estado de Mendoza. Os exemplos seriam muitos e ocupariam muitas páginas.

Em conclusão, ainda vivemos uma etapa histórica defensiva após o fim dos 32 Estados Operários. Lembremo-nos, no entanto, que às defesas correspondem, em geral, uma contra-ofensiva. A nova situação mundial mostra que pode se reabrir melhores condições para a construção de partidos trotskistas. Para isso haverá que saber enfrentar as novas alternativas reformistas que surgem como o Syriza e Podemos. A direção majoritária do PSOL se enquadra nesse contexto. De alguma forma eles ainda se desenvolvem apoiados na consciência pós-Leste europeu, de que o “socialismo morreu”, de que só resta melhorar a democracia-burguesa. Mas, enfrentá-los requer que entremos no terreno da política prática, uma questão chave que não é objetivo desse texto.

Para terminar, as palavras do Programa de Transição continuam plenamente atuais:

“A IV Internacional, respondemos, não tem necessidade de ser proclamada. Ela existe e luta. É fraca?. Sim, suas fileiras são ainda pouco numerosas, pois ela ainda é jovem. Ela se compõe sobretudo de quadros dirigentes. Mas esses quadros são a única garantia do futuro. Fora esses quadros, não existe neste planeta, uma só corrente revolucionária que mereça esse nome. Se nossa Internacional é ainda fraca em número, ela é forte pela doutrina, pela tradição, pelo programa, pela têmpera incomparável de seus quadros. Amanhã isto será mais visível”.(TROTSKY, 1936)

Bibliografia:

TROTSKY, Leon; Programa de Transição, 1936, Marxist Internet Archive.

TROTSKY, Leon; COGGIOLA, Oswaldo. Stalin: Biografia – Estudo preliminar de Oswaldo Coggiola. Editora Livraria da Fisica, 2012, São Paulo

TROTSKY, Leon; A Revolução Traida, Editora Centauro, Rio de Janeiro, 2008




1975 versus 2015: Vietnã, última expropriação sobre a burguesia

Enio Bucchioni

Foi a última vitória sobre a propriedade privada em algum país do nosso planeta. Foi a última revolução socialista. Foi a derradeira vez que o imperialismo foi derrotado política e militarmente de forma cabal e implacável. Em 1975, no Vietnã, ocorria uma vitória incontestável do proletariado, dos povos oprimidos de todos os quadrantes.

Nesses 40 anos gigantescos acontecimentos na luta de classes mundial mudaram o globo completamente. O objetivo desde texto é, essencialmente, fazer uma comparação entre as duas épocas, a de 1975 e a de 2015, bem como os motivos dessas mudanças, de modo que o leitor mais jovem possa refletir e tirar as devidas consequências políticas e práticas para a ação na atualidade.

A realidade de 1975 registrada pela revista Versus.

Em maio de 1979, na introdução do livro China x Vietnã produzido pela saudosa Versus, há um registro histórico de como os militantes dessa Editora compreendiam o contexto daquela época:

Toda uma geração, na qual nos incluímos, acompanhou durante longos anos a destemida e heroica luta dos povos da secular Indochina. Japoneses, franceses e, nas décadas de 60 e 70, os invasores imperialistas norte-americanos foram obrigados a bater em retirada, a debandar do Sudeste Asiático. Enfim, os povos do Vietnã, Laos e Camboja iriam decidir e reconstruir seus países e o seu próprio destino…. Podemos afirmar, sem receio de nos equivocarmos, que o Vietnã foi o exemplo seguido pelos povos negros de Guiné, Angola e Moçambique em seus enfrentamentos e vitórias contra a metrópole lusitana… Enfim, a libertação do Vietnã da dominação e ocupação imperialista marcou não somente a nossa geração como também ficará na História como um marco vital no começo do desmembramento do mais potente imperialismo jamais visto pela humanidade, o norte-americano. (MORENO, BUCCHIONI 1979)

Vale lembrar que em fins da década de 60 a palavra de ordem lançada pelo Che Guevara era totalmente pertinente e causava comoção em todas as partes do mundo: “Um, dois, três Vietnãs!”.

O prognóstico acima sobre o fim do império norte-americano parecia ser cem por cento verdadeiro, se a ele agregássemos vários outros fatos ocorridos durante aquele período. A queda da longa ditadura de Franco na Espanha, o fim das ditaduras no Brasil, Uruguai e Argentina, o fim da tirania de Somoza e a guerra civil na Nicarágua. No Chile, durante o governo Allende no início dos anos 70, o proletariado esteve perto de colocar um ponto final na dominação do Capital. Em Portugal houve até mesmo a possibilidade real de haver a expropriação da burguesia após a derrubada do regime semifascista de Salazar. Nas antigas colônias portuguesas em África, idêntica possibilidade de aniquilação da propriedade privada ocorreu, ficando o destino de Angola, Moçambique e Guiné nas mãos das direções guerrilheiras do MPLA, FRELIMO e PAIGC, respectivamente. O mesmo ocorreu com os sandinistas na América central.

Anos 70/80 e a luta contra as burocracias stalinistas

Some-se a tudo isso a situação da luta de classes na Polônia, onde houve greves operárias massivas entre 1971 e 1976, levando em 1980 os operários do antigo estaleiro Lenin a fundarem o Solidarinosc, central sindical que abrigava, nessa época, cerca de 10 milhões de pessoas, um terço do total da população economicamente ativa, com um eixo de luta contra a dominação da burocracia governamental stalinista. Na Romênia dominada pela monstruosa burocracia de Ceausescu, 30 mil mineiros fizeram uma magistral greve em 1977.

Todos esses acontecimentos, envolvendo muitas dezenas de milhões de proletários urbanos, camponeses e da juventude de países de vários continentes e hemisférios, no Ocidente capitalista ou nas burocracias do Leste Europeu, se sucederam num espaço de poucos anos anteriores e imediatamente posteriores à derrota política e militar do governo norte-americano no Vietnã, Laos e Camboja.

Assim, a introdução do livro editado pela Versus expressava e refletia o conteúdo político e a intensidade da luta de classes mundial existente naquela época. Era totalmente pertinente a perspectiva, a possibilidade, de ver em um horizonte relativamente próximo o fim do império norte-americano e, verdade seja dita, combinado com a perspectiva de feroz luta das massas contra o odioso regime stalinista em todo o Leste Europeu.

Não entrarei aqui, posto que não é o objetivo desse texto, nas razões políticas que determinaram a não expropriação da propriedade privada nos países listados acima, nem tampouco nos motivos que levaram, seja na antiga União Soviética, seja em toda a Europa Oriental, a não derrocada das ditaduras burocráticas e a sua substituição por ditaduras revolucionárias do proletariado.

No entanto, o fato real e verdadeiro é que desde 1975, com a entrada triunfante do exército liderado pelo Partido Comunista do Vietnã em Saigon, reunificando o país e proclamando a República Socialista do Vietnã, até hoje, nunca mais houve a expropriação da burguesia em nenhum país do mundo. Isso já faz cerca de 40 anos! E, ao contrário, na esteira da antiga URSS e do Leste Europeu, em vez de revolução política anti-burocrática,  anos depois veio a restauração do capitalismo no próprio Vietnã ,na URSS e em todo o Leste Europeu!

Anos 85/90 em diante: as restaurações capitalistas

Eu trabalhava no Sindicato dos Previdenciários de São Paulo em fins da década de 80 quando aconteceram todos os fatos relativos à luta das massas nos países sob a dominação das burocracias stalinistas no Leste Europeu e na antiga União Soviética. Escrevi um longo texto a pedido da então combativa diretoria desse sindicato sobre a luta dos trabalhadores na Polônia, a crise política nas altas esferas do Partido Comunista da União Soviética e o fim do stalinismo em toda essa região do mundo. Era óbvio que o estertor do stalinismo foi comemorado à exaustão, pois deixei por escrito que as massas proletárias poderiam voltar a ocupar o poder usurpado desde meados da década de 20 e haveria o retorno triunfal do leninismo-trotskysmo. Ou seja, abrir-se-ia uma nova etapa histórica extremamente positiva para os revolucionários bolcheviques. 

Uma vez mais, a realidade se expressou de maneira completamente distinta nos antigos Estados Operários burocratizados. Independentemente da análise histórica e factual do processo político nesses países , independentemente da data precisa onde começou a restauração capitalista em cada  país,  independentemente do papel    que o movimento de massas cumpriu ou deixou de cumprir em todo o Leste Europeu e posteriormente na China e em Cuba, o fato – e contra fatos não há argumentos-  é que nos países que abrigavam cerca de um quarto da população mundial retornou a propriedade privada e o capitalismo sob a batuta das próprias burocracias.

Do ponto de vista teórico, toda a batalha que Trotsky havia feito até mesmo contra setores do próprio trotskysmo  no final da década de 30, de defesa da URSS em função de sua base econômica aliada à necessidade da revolução política na esfera da superestrutura do regime, havia ido para o espaço. A base econômica havia sido restaurada sob o stalinismo, conforme possibilidade que o próprio Trotsky formulou com décadas de antecedência, em virtude da economia mundial ser dominada pelo imperialismo, da impossibilidade da construção do socialismo em um só país – ou em alguns poucos países atrasados-, da concepção de que, se a luta direta de classes se dá ao nível das fronteiras nacionais, seu desfecho último só pode se dar na esfera mundial.

Seguindo um mesmo rumo, Independentemente das formas distintas da restauração em relação à URSS e ao Leste Europeu, o capitalismo também retornou à China, ao Vietnã e a Cuba.

É como se o tempo tivesse andado para trás e retornado a uma época anterior à 1917, quando a possibilidade de haver países sem burgueses, sem propriedade privada dos meios de produção, fosse apenas uma proposição teórica de Marx e Engels, fosse apenas uma destemida convicção de Lenin e de Trotsky.

O mundo em 2015

Só quem tem hoje em dia cerca de 60 anos é que, em sua vida adulta, presenciou a vitória política e militar das massas vietnamitas e a proclamação da república socialista do Vietnã! Em consequência, nenhum jovem que atualmente milita em prol do socialismo é testemunha dessa gigantesca vitória do proletariado mundial. Em outras palavras, a juventude atual tem que ler nos livros ou em palestras dos militantes veteranos como se deu a última expropriação da burguesia no mundo, bem como mostrar como era o mundo e a luta de classes naquele período.  

Assim, para estes jovens da segunda década do século XXI, teríamos de didaticamente expor que não havia, no fundamental, propriedade privada nem capitalistas diretos em 32 países:

Rússia, China, Cuba, Vietnã, Alemanha Oriental (como era chamada antigamente, antes da reunificação com a Alemanha Ocidental), Armênia, Azerbaijão, Bielorússia, Estônia, Cazaquistão, Geórgia, Quirguistão, Kosovo, Bósnia e Herzegovina, Letônia, Lituânia, Moldávia, Tadjiquistão, Turcomenistão, Ucrânia, Uzbequistão, Albânia, Bulgária, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Macedônia, Montenegro, Polônia, Romênia e Sérvia.

Esses países somam, atualmente, cerca de um bilhão e novecentas milhões de pessoas, ou seja, ao redor de 26% da população mundial. Esse número significa nove vezes e meio a população do Brasil em 2015. E, tudo isso, praticamente sem patrões, sem capitalismo, sem propriedade privada dos meios de produção!

Em síntese, por mais incrível que possa parecer, uma verdadeira ironia da História, nessas últimas décadas vimos renascer as burguesias russa, chinesa, vietnamita, alemã, tcheca etc. Junto a elas, os bancos privados, a entrada em massa das multinacionais, o florescimento da pequena-burguesia, o capital financeiro internacional, a dívida externa e tudo mais que conhecemos, por exemplo, no Brasil.

O que diria Trotsky sobre o fim dos 32 antigos Estados Operários?

Se fizermos uma pesquisa rápida pela internet observará que, em 2015, estão operando na Rússia várias das mais conhecidas empresas capitalistas multinacionais, como por exemplo: Ford, Volkswagen, General Motors, Renault, Citroen, Peugeot, Mitsubishi, Toyota, Nissan, Hyundayi Pirelli, Coca-Cola, Mc Donald’s, Shell, British Petroleum, General Eletric, Siemens, Google, Carlsberg, Danone, Henkel, o banco francês Société Generale, Citibank, Deutch Bank, Santander, Visa, Deltabank etc. A lista seria muitíssima mais extensa se a pesquisa abrangesse todas as multinacionais operando em toda a Rússia e nos demais 31 países que conformavam os Estados Operários. Deve-se ressaltar também que o imperialismo alemão é um dos maiores investidores estrangeiros e parceiro comercial da Rússia.

Em relação a defesa da continuidade dos Estados Operários, Trotsky assumiu posições cristalinas:

Defendemos a URSS por duas razões fundamentais. Primeiro: a derrota da URSS proporcionaria ao imperialismo novos e colossais recursos e prolongaria por muitos anos a agonia mortal da sociedade capitalista. Segundo: as bases sociais da URSS, liberadas da burocracia parasitária, podem ter um progresso econômico e social ilimitado, enquanto que as bases capitalistas não oferecem outra possibilidade que não seja a de uma maior decadência. (TROTSKY, p 203)

No mesmo texto, Trotsky dizia::

O nosso programa responde esta questão com um grau de concretização totalmente adequado para resolver a questão da defesa da URSS, isto é: 1) Aqueles traços que em 1920 constituíam uma ‘deformação burocrática’ do sistema soviético se transformaram agora num regime burocrático independente, que devorou os sovietes;2) A ditadura da burocracia, incompatível com as tarefas internas e internacionais do socialismo, introduziu  e continua introduzindo deformações profundas na vida econômica do país; 3) basicamente, no entanto, o sistema de economia planificada sobre a propriedade estatal dos meios de produção conservou-se e continua sendo uma conquista colossal da humanidade. A derrota da URSS numa guerra contra o imperialismo significaria, não só a liquidação da ditadura burocrática, mas também a da economia estatal planificada e o desmembramento do país em zonas de influência, em uma nova estabilização do imperialismo e um novo debilitamento do proletariado internacional. (TROTSKY, p 146)

Não tenho dúvida que hoje ele reafirmaria o mesmo conteúdo e concepção sobre o desaparecimento dos 32 antigos Estados Operários nas últimas décadas, ou seja, a restauração capitalista nesses países fez desaparecer por completo as conquistas colossais da humanidade.

Penso que , apesar das restaurações não serem fruto e consequência de uma guerra pelo imperialismo contra a antiga URSS, o conteúdo da citação demonstra qual o significado que Trotsky daria ao fim da economia planificada, apesar de que com ela perecesse a própria burocracia. Seria um erro pensar que, para Trotsky, a restauração seria bem-vinda se fosse de maneira pacífica, sem guerra contra o imperialismo, ou ainda, que a mesma seria uma grande vitória do proletariado porque simplesmente significou também o fim da burocracia. É preciso colocar esse fato numa totalidade: a realidade da restauração capitalista.

Por outro lado, é preciso considerar que, desde o ponto de vista social, o que de fato ocorreu é que, de uma ou de outra forma, o stalinismo e suas variantes burocráticas existentes nos demais países se transformaram, expressando o fenômeno de mudança de quantidade em qualidade. Ao deterem o poder político em seus respectivos países por décadas, essas camadas sociais beneficiárias da maior parte do excedente econômico, transformaram-se em classes sociais. Assim, os antigos burocratas são os novos burgueses. Essa foi, de fato, a última metamorfose política contrarrevolucionária das burocracias stalinistas.

Por isso, o mundo desses últimos 30 anos nada, absolutamente nada tem de similar aos períodos imediatamente anterior e posterior à derrota política e militar do imperialismo no Vietnã em 1975. Nessa época era possível visualizar o derrocamento final do capitalismo e o começo do fim das burocracias stalinistas. No entanto, o fim dos 32 estados operários materializou a previsão marxista de Trotsky, ou seja, uma nova estabilização do imperialismo e um imenso debilitamento do proletariado internacional.

A reunificação capitalista, mola propulsora do imperialismo alemão.  

O maior símbolo desse retrocesso, dessa derrota histórica do proletariado mundial e do fortalecimento do imperialismo, é exatamente a reunificação da Alemanha sob bases capitalistas, e não com a abolição da propriedade privada, como sempre o trotskysmo reivindicou e lutou.

Após ser derrotado em duas guerras mundiais, o imperialismo alemão, após a reunificação, ressurgiu com todas as suas garras sobre os povos da Europa, particularmente os da Grécia, Portugal, Espanha e Itália. Hoje, esse imperialismo já não mais usa os panzers para a sua dominação, mas sim o capital financeiro e a democracia-burguesa.

A propósito da reunificação alemã, em 2015, no passado dia 7 de julho, falando num evento na Baviera junto à Angela Merckel, Barack Obama expressou a relação entre os dois imperialismos:

“Apresentamo-nos como aliados inseparáveis em todo o mundo”. E, logo após acrescentou que a unificação da Alemanha, sob moldes capitalistas, evidentemente, “inspirou o mundo”, já que os Estados Unidos foi um dos países que contribuiu para a reunificação da Alemanha há 25 anos.

Evidentemente, se a reunificação alemã tivesse se efetuado sem a burguesia e a propriedade privada, o discurso de Obama seria muitíssimo diferente.

O mundo mudou de 1975 para cá. Via as restaurações, nosso inimigos, os imperialismos, tornaram-se muitíssimo mais fortes do que quando eu era jovem. As análises comparativas entre as duas épocas completamente distintas abordadas nesse texto não devem nos trazer tristezas saudosistas nem alegrias desmesuradas pelo fim do stalinismo. As análises servem apenas para a constatação dinâmica marxista de uma realidade, para melhor transformá-la em prol da luta pelo socialismo.

O realismo marxista é a premissa do otimismo revolucionário.

Constatar essa correlação de forças adversas desse período histórico após o fim dos 32 Estados Operários me faz relembrar um comentário de Trotsky

Para conquistarmos a confiança sólida e inabalável da maioria dos operários, devemos, sobretudo, evitar de lançar-lhes poeira nos olhos, de exagerar nossas forças, de fechar os olhos sobre os fatos, ou, pior ainda, de deformá-los. É preciso dizer o que é. Não chegaremos a enganar os nossos inimigos: eles tem mil meios de verificação. Mas, enganando os operários, enganamos a nós mesmos. Tentando parecer mais fortes do que somos, só nos enfraqueceremos. Não há nisso, caro camarada, nenhuma “falta de confiança”, nenhum “pessimismo. (TROTSKY, 1968)

E, Lenin, ao escrever sobre esse tema no livro A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, acrescenta:

“É evidente que os “esquerdistas” da Alemanha consideraram o seu desejo, as suas concepções político-ideológicas, como uma realidade objetiva. Este é o mais perigoso dos erros para os revolucionários”. (LENIN, 1960)

Ocorre, no entanto, que a realidade em qualquer época é a mesma de sempre: enquanto houver capitalismo haverá luta de classes. As lutas do proletariado, dos oprimidos, da juventude seguem em todos os quadrantes do mundo, como atestam, para dar apenas alguns exemplos recentes, os fatos vindos das dezenas de greves gerais na Grécia  que deram a primeira vitória eleitoral ao governo reformista do Syriza, dos inúmeros combates dos estudantes chilenos ou dos professores uruguaios, das inúmeras  lutas defensivas dos professores paranaenses aqui em nosso país, dos operários da Mercedes ou do funcionalismo público do Rio Grande do Sul entre tantos outros exemplos que poderiam ser citados à escala nacional e  mundial.

Compreender a luta de classes tal qual ela se apresenta na atual realidade não é equivalente a crer que somente podemos trilhar os caminhos do alargamento das liberdades democráticas dentro dos regimes democráticos-burgueses, como se a melhoria desse regime fosse um fim em si mesmo. Esse é um raciocínio infantil, ainda que várias organizações por esse mundo afora escolheram essa antiga concepção menchevique. Também é sumamente equivocado conceber que as revoluções sociais estão à espera do proletariado em cada esquina do mundo atual.

Porém, esse novo momento histórico obriga a todos os marxistas a refletirem  sobre antigos  temas estratégicos completamente reatualizados, como por exemplo,  a consciência das massas em relação à utopia socialista; a (in)existência das antigas Frentes Populares do tipo Allende ,Espanha e França da década de 30; a (in)existência da “hipótese altamente improvável” formulada por Trotsky; a relativa consolidação das democracias-burguesas até mesmo em países atrasados como o Brasil e a luta para a sua superação; os fenômenos ‘modernos’ tipo Syriza, Podemos, anarquismo; o ressurgimento e fortalecimento de ideologias e movimentos fascistas na Europa e em bem menor escala aqui no Brasil; os elementos de barbárie surgidos na região do Iraque e Síria  etc.

Finalizemos esse primeiro artigo com Trotsky em Revolução e Contra-Revolução na Alemanha:

É precisamente aquele que acredita no futuro revolucionário que não tem nenhuma necessidade de ilusão. O realismo marxista é a premissa do otimismo revolucionário.

Bibliografia:

BUCCHIONI, Enio; MORENO, Nahuel; Et Al. China X Vietnã – revolução chinesa e indochinesa, editora Versus, 1979, São Paulo.

LENIN, Vladimir. A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, Editorial Vitória, 1960, Rio de Janeiro.

TROTSKY, Leon. Revolução e Contra- Revolução na Alemanha, editora Laemmert, 1968, Rio de Janeiro.

TROTSKY, Leon. Em Defesa do Marxismo, Proposta Editorial, Sem data, São Paulo.




A propósito do regime interno dos bolcheviques: a visão de Trotsky

Enio Bucchioni

As divergências internas a um Partido significam necessariamente o reflexo da existência de pressões de classe em seu interior, ou seja, numa discussão interna uma das alas é a “proletária, revolucionária” e as outras são pequeno-burguesas ou pró-burguesas?

Buscando debater com estes questionamentos, o texto a seguir narra, nas mais diversas situações e em anos distintos, seja no interior do partido bolchevique, seja posteriormente na IV Internacional, a compreensão de Trotsky sobre o regime interno das organizações leninistas. Não se pretende, nem seria possível, encerrar por aqui a concepção de regime interno de um partido desse tipo. Nosso objetivo, portanto, é fornecer informações para que todos os interessados no tema possam conhecer, aprofundar e meditar sobre as palavras, idéias e concepções desse grande revolucionário.

A burocracia stalinista reflete qual interesse de classes?

É muito comum a adjetivação de classe em relação aos adversários numa luta política com o objetivo de desqualificação dos oponentes, às vezes até mesmo de caráter pessoal. Em vez de argumentos, fatos e análises, tenta-se imprimir um rótulo desqualificativo para, na luta interna, ganhar militantes com pouca ou nenhuma formação marxista. A afirmação mecânica de que diferentes tendências em um partido representam diferentes frações de classe, porém, era estranha a Trotsky. Ao narrar uma de suas polemicas internas no partido bolchevique, ele afirmava

“Por outra parte, não há de se entender de maneira demasiadamente simplista o pensamento de quem sustenta que as divergências no Partido e, com maior razão, os reagrupamentos, não são outra coisa do que uma luta de influências de classes opostas. Em 1920, a questão da invasão da Polônia suscitou duas correntes de opiniões, uma que preconizava uma política mais audaz, e outra que predicava a prudência. Estas duas correntes diferentes constituíam tendências de classes? Não creio que se possa afirmar isso. Tratava-se somente de divergências na apreciação da situação, das forças e dos meios. O critério essencial era o mesmo para ambas as partes.

Acontece com frequência que o Partido está em condições de resolver um problema por diferentes meios. E, se nesse caso, se produzem discussões, é apenas para se saber qual desses meios é o melhor, o mais eficaz, o mais econômico. Segundo o problema em discussão, essas divergências podem interessar a setores consideráveis do Partido, porém isso não quer dizer necessariamente que exista uma luta entre duas tendências de classe”.[1]

Muitas vezes, uma maioria de uma direção partidária que caracteriza qualquer dissidência de desvios “pequeno-burgueses”, considere-se “revolucionária e proletária e sempre com a linha correta”. Como ficou comum em organizações stalinistas, elas tendem a se transformar numa burocracia permanente, numa fração majoritária que ‘toma o poder’ dentro do Partido. Em geral, há interesses materiais nesse tipo de agrupamento, mas há também o que se chama de “pequeno poder”, principalmente no interior de organizações muito pequenas. É a conquista do prestígio e a tentação de preservá-lo ad eternum, seja como for possível.

Esse “pequeno poder” é bem real, pois tende a alinhar ao seu redor os bajuladores desejosos de participar desse círculo. Dentro de tal corte, é muito comum que surjam os ataques mais raivosos contra todos aqueles que discrepam da linha oficial, com o objetivo de afastá-los do Partido. Isso é feito, muitas vezes, através da “auto exclusão”, ou seja, o(s) que está (ão) em minoria acaba (m) por se afastar “voluntariamente” da organização.

Assim se referia Trotsky sobre o poder da burocracia stalinista:

“Todo desvio pode, no curso de seu desenvolvimento, se converter na expressão dos interesses de uma classe hostil ou semi-hostil ao proletariado. Dito isto, o burocratismo é um desvio, e um desvio nada saudável; esperamos que esta afirmação não seja polemica. No momento que isso ocorre, ela ameaça desviar o partido de sua linha justa, de sua linha de classe; é aí que reside o perigo. Porém (e esse é um fato muito instrutivo e também um dos mais alarmantes) os que afirmam com maior nitidez, com maior insistência, e até brutalmente, que toda divergência de critérios, todo grupo de opinião, ainda que seja temporário,são uma expressão dos interesses das classes inimigas do proletariado, não querem aplicar esse critério à burocracia”.[2]

O centralismo democrático para Trotsky

No livro Em Defesa do Marxismo Trotsky fazia a perfeita relação entre o regime interno do Partido com seus militantes, com as tendências e frações provisórias. Deve-se assinalar que a única fração permanente foi a fração da burocracia incrustrada nas entranhas dos aparatos do Partido e do Estado soviético, e, por seus interesses como camada social, acabou por exterminar todas as outras tendências e frações. Todo burocrata que se preze não larga jamais a direção do seu partido, qualquer que seja a política e a linha do mesmo. Segundo Trotsky

“O regime interior do partido bolchevique se caracteriza pelos métodos da centralização democrática. A concordância dessas duas noções não implica nenhuma contradição. O partido velava para que suas fronteiras estivessem sempre estritamente delimitadas, porém entendia que todos os que pertencessem a essas fronteiras tivessem o direito de determinar a orientação de sua política. A liberdade crítica e a luta de ideias formavam o conteúdo intangível da democracia do partido. A doutrina atual que proclama a incompatibilidade do bolchevismo com a existência de frações está em desacordo com os fatos. É um mito da decadência. A história do bolchevismo é, em realidade, a da luta de sus frações. Como uma organização autenticamente revolucionária que se propõe a mudar por completo o mundo e reúne sob suas bandeiras aos negadores, aos sublevados, aos combatentes de toda temeridade, poderia viver e crescer sem conflitos ideológicos, sem agrupamentos, sem formações fracionais temporais?. A clarividência da direção do partido conseguiu atenuar e abreviar várias vezes as lutas fracionais, porém não pode fazer mais que isso. O Comitê Central se apoiava nessa base efervescente de onde extraia a audácia de decidir e ordenar. A perfeita justeza de sua linha lhe conferia uma alta autoridade, precioso capital moral da centralização”.[3]

Há quem pense, seja nas ideologias de direita, seja nos meios de esquerda, que o conceito de centralismo-democrático significa pura e simplesmente a submissão dos militantes partidários às decisões da cúpula dirigente. Assim, caberia tão somente aos adeptos do partido implementar, executar as diretrizes da toda poderosa direção partidária. Tal afirmação, porem, se choca com o trotskismo de Trotsky

“Os problemas de organização do bolchevismo estão intimamente ligados aos de programa e tática (…)

Sabemos que que o regime se baseava nos princípios do centralismo democrático. Se supunha, desde o ponto de vista teórico, (e assim foi, desde o começo, na prática) que esses princípios implicavam a possibilidade absoluta para o partido de discutir, de criticar, de expressar seu descontentamento, de eleger, de destituir, ao mesmo tempo que permitia uma disciplina de ferro na ação, dirigida com plenos poderes pelos órgãos dirigentes eleitos e removíveis. Se se entendia por democracia a soberania de todo o partido sobre todos os organismos, o centralismo correspondia a uma disciplina consciente, ajuizadamente estabelecida, que pudesse garantir de certo modo a combatividade do partido (…)

No decorrer dos últimos anos, temos visto os representantes de maior responsabilidade da direção do partido fazer toda uma série de novas definições da democracia no partido, que se reduzem, no fundo, a dizer que a democracia e o centralismo significam simplesmente a submissão aos órgãos hierárquicos superiores (…)

Não se pode conceber a vida ideológica do partido sem grupos provisórios no terreno ideológico. Até agora ninguém descobriu outra maneira de proceder”[4]

Naturalmente, os grupos são um “mal” necessário, tanto como as divergências de opiniões. Porém, esse mal constitui um componente tão necessário da dialética da evolução do partido com as toxinas com relação á vida do organismo humano.

Trotsky, as frações internas e as frações públicas

Em fins da década de 1930 e começos dos anos 1940, houve uma imensa luta interna no Socialist Workers Party (SWP) norte-americano. A discussão, em essência, era sobre a defesa ou não da União Soviética, das conquistas da revolução de Outubro face à guerra mundial que se avizinhava e a possibilidade da União Soviética vir a ser derrotada pelo imperialismo.

Era uma questão de princípio, numa realidade bastante complexa, pois Stalin acabara de fazer um pacto com Hitler e, em consequência, o exército vermelho e os nazistas invadiram a Polônia e a ocuparam meio a meio.

A forte minoria, uns 40% do SWP, não defendia a União Soviética por causa da existência da burocracia stalinista e pela invasão da Polônia. Trotsky e a maioria do SWP defendiam as conquistas de Outubro e, em consequência, a luta mortal contra os imperialismos que ameaçavam invadir a União Soviética e esmagar aquelas conquistas colossais do proletariado mundial. Ao mesmo tempo, propugnavam a mais impiedosa luta pela revolução política contra o stalinismo.

A dimensão da democracia interna, nas palavras e propostas de Trotsky, assume uma preponderância extraordinária e é levada à máxima potência com o intuito de preservar a unidade do SWP até as últimas instâncias. No entanto, ao mesmo tempo, ele é totalmente inflexível na argumentação política contra a minoria.

Em meio a calorosas disputas com a minoria, Trotsky viria, em uma carta a Joseph Hansen, relembrar seus partidários da importância de garantir o mais amplo e livre debate como instrumento para preservar o partido. A importância política da disputa exigia flexibilidade democrática. Afirma Trotsky

“Alguns dos dirigentes da oposição estão preparando uma cisão; para isso apresentam a oposição, no futuro, como minoria perseguida. E muito característico de sua mentalidade. Creio que devemos responder-lhes mais ou menos da seguinte forma:

‘Vocês já estão preocupados com as nossas futuras repressões? Prometemos garantias mútuas para a futura minoria, independentemente de quem possa ser essa minoria, vocês ou nós. Estas garantias podem ser formuladas em quatro pontos:

1) Não proibição de frações;

2) Nenhuma restrição à atividade fracional, além das ditadas pela necessidade da ação comum;

3) As publicações oficiais devem, evidentemente, representar a linha estabelecida pelo novo Congresso ;

4) A futura minoria pode ter, se assim desejar, um boletim interno destinado aos membros do partido, ou um boletim comum de discussão com a maioria.’

A continuação dos boletins de discussão depois de uma larga discussão e um Congresso não é, evidentemente, uma regra, mais sim uma exceção, aliás, deplorável. Mas não somos, de modo algum, burocratas. Não temos regras imutáveis. Também no terreno organizativo somos dialéticos. Se temos no partido uma minoria importante que não está satisfeita com as decisões do Congresso, é incomparavelmente preferível legalizar a discussão depois do Congresso, do que ter uma cisão.

Se for necessário, podemos inclusive ir mais longe e propor-lhes publicar, sob a supervisão do novo Comitê Nacional, resumos especiais da discussão, não só para os membros do partido, como também para o público em geral. Devemos ir o mais longe possível neste aspecto, com o fim de desarmar as suas queixas, que são no mínimo prematuras, colocando-lhes obstáculos que impeçam a preparação de uma ruptura.

De minha parte, acredito que, nas atuais condições, o prolongamento da discussão, se canalizada com boa vontade pelas duas partes, só pode servir para a educação do partido”.[5]

Parlamentarismo, sindicalismo e o regime interno

A burocratização dos partidos revolucionários, principal responsável pela morte dos debates internos, se relaciona a diversos fatos. Muitas vezes, nas democracias-burguesas mais estáveis, à adaptação ao regime liberal-burguês é o principal responsável por isto.

Nestes casos, corre-se o risco do partido sofrer pressões eleitoreiras. Também é um fato que sempre existiram organizações que queriam mais e mais parlamentares achando que o socialismo poderia vir através de uma maioria no Parlamento e/ou fazendo alianças com setores “progressistas“ da burguesia. Esse perigo existe.

Deve-se relembrar, no entanto, que a falência da II Internacional há um século não foi apenas pela adaptação ao Parlamento e aos governos de seus respectivos países. Os poderosíssimos sindicatos dominados pela antiga socialdemocracia também tiveram papel central nessa adaptação. Tanto os ambientes parlamentares como os sindicais refletem ideologicamente no interior de qualquer partido e podem criar correntes e agrupamentos reformistas, ainda que camuflados por uma verborragia superradical.

“Seria uma imbecilidade pensar que a ala proletária do partido é perfeita. Os trabalhadores só alcançam gradualmente uma clara consciência de classe. Os sindicatos sempre criam um caldo de cultivo para desvios oportunistas. Inevitavelmente teremos que enfrentar essa questão numa das próximas etapas. Mais de uma vez o partido terá que recordara seus próprios militantes sindicais que uma adaptação pedagógica às camadas mais atrasadas do proletariado não deve se transformar numa adaptação política à burocracia conservadora dos sindicatos. Toda nova etapa de desenvolvimento, todo aumento nas fileiras do partido e a complexificação dos métodos de seu trabalho, não somente abrem novas possibilidades como também engendra novos perigos. Os operários nos sindicatos, ainda que educados na mais revolucionária das escolas, frequentemente desenvolvem a tendência a se liberar do controle do partido”[6]

Trotsky, a juventude e o regime interno

Entre os instrumentos para garantir a vida sadia no partido, Trotsky via na rebeldia justa dos jovens um potente aliado. O espirito questionador, dinâmico e não-conformista da Juventude seriam importantes barreiras à burocracia.

No artigo sobre o “Novo Curso”, assim Trotsky entendia a juventude estudantil na sociedade pós-revolucionária e no interior do Partido, relacionando-os com o regime partidário e o processo de burocratização em curso:

“Esta última (a juventude estudantil) como temos visto, reage de maneira particularmente vigorosa contra o burocratismo. Justamente Lenin havia proposto, para combater o burocratismo, recorrer decididamente aos estudantes. Devido à sua composição social e suas vinculações, os jovens estudantes são um reflexo de todos os grupos sociais do nosso partido, assim como seu estado de ânimo. Sua sensibilidade e seu ímpeto os levam a imprimir imediatamente uma força ativa a esse estado de ânimo. Como estudam , eles se esforçam para explicar e generalizar. Isso não quer dizer que todos os seus atos e estados de ânimo reflitam tendências sadias. Se assim ocorresse, significaria, e não é esse o nosso caso, ou que tudo marcha bem no partido ou que a juventude já não é o reflexo do partido.

Em princípio, é justo afirmar que nossa base não são os estabelecimentos de ensino, mas os núcleos de fábrica. Porém, ao dizer que a juventude é nosso barômetro, designamos um valor não essencial às suas manifestações políticas, mas algo sintomático. O barômetro não cria o tempo, apenas se limita a registrá-lo. Na política, o tempo é formado na profundeza das classes e nos terrenos onde essas classes entram em contato entre si….

(…) Além disso, um setor considerável de nossos novos estudantes são comunistas que tiveram uma experiência revolucionária bastante importante. E os partidários mais obstinados do “aparato” se equivocam enormemente ao desprezar essa juventude que é nosso meio de autocontrole, que deverá tomar nosso lugar e a quem pertence o futuro”.[7]

Assim era o regime interno para Trotsky, em perfeita continuidade com o partido bolchevique e com Lenin, o grande artífice e criador do partido e do regime interno.

Assim era o regime interno da IV Internacional enquanto viveu o seu maior dirigente.

Assim deve ser o regime para todos os que aderiram ao legado desses dois dos nossos maiores mestres.

Referências bibliográficas:

TROTSKY, Leon. Textos sobre o Centralismo Democrático. Buenos Aires: Antídoto, 1992.

TROTSKY, Leon. Em Defesa do Marxismo. São Paulo: Proposta, s.d.

 Notas:

[1] Trotsky, 1923, p 29

[2] Trotsky, 1923, p 28

[3] Trotsky, 1937

[4] Trotsky, 1923, 47-48

[5] Trotsky, 1940

[6] Trotsky, 1940

[7] Trotsky, 19




A propósito do regime interno dos bolcheviques após Outubro: as frações públicas

Enio Bucchioni

Mal triunfada a revolução de Outubro na Rússia, uma polêmica infernal explode no partido bolchevique. Segundo a descrição de Pierre Broué, ela era levada outra vez por Kamenev e diversos outros dirigentes do partido. O processo político em torno desse debate em muito nos ajuda a compreender os motivos do surgimento das frações públicas no partido de Lenine como os bolcheviques lidavam com suas divergências políticas.

Em 29 de outubro, quatro dias após a insurreição, uma reunião do Comitê Central, onde estão ausentes Lenin, Trotsky e Stalin, aprova negociar uma coalizão governamental com os mencheviques e socialistas revolucionários, partidos cujas alas direita abandonaram o II Congresso pan-russo dos sovietes que aprovou a insurreição e a tomada do poder. Os bolcheviques Riazanov – presidente dos sindicatos de Petrogrado em fevereiro – e Lunacharsky – comissário do povo para a Educação – declaram estar de acordo com a eliminação de Lenin e Trotsky do governo se esta for a condição para a constituição da coalizão com todos os partidos socialistas.

Em nova reunião, o Comitê Central rechaça essa postura. Lenin propõe a imediata ruptura de negociações. Já Trotsky quer prossegui-las em busca de condições que darão garantias de respondência aos bolcheviques no seio da coalizão com os partidos que no congresso se opuseram ao poder criado pelos sovietes. A condição seria que aceitassem reconhecer os sovietes como um fato consumado, assumindo suas responsabilidades a este respeito. A proposta de Trotsky é aprovada no Comitê Central.

 

As frações publicas em luta

Apesar da vitória na proposta de Trotsky, nem todos se sentem contemplados pela deliberação da direção. A partir dela, se inicia, em publico, uma disputa política que extrapola as fronteiras do partido. Segundo Broué

a minoria bolchevique não se resigna, pois crê que a resolução do Comitê Central impedirá, de fato, qualquer tipo de coligação no governo. Kamenev, que segue presidindo o comitê executivo dos sovietes, propõe a demissão do conselho dos comissários do povo exclusivamente bolchevique, presidido por Lenin, e a constituição, em seu lugar, de um governo de coalizão.[1]

Kamenev propõe, publicamente e por fora dos órgãos partidários, a destituição do governo composto por Lenin e Trotsky. Nada mais, nada menos! Em seguida, narra Pierre Broué

[o bolchevique] Volodarsky opõe a essa moção aquela que foi adotada pelo comitê central. Durante a votação, numerosos bolcheviques comissários do povo [equivalentes aos ministros de um governo burguês] como Rikov, Noguin, Lunacharsky, Miliutin, Teodorovich e Riazanov, assim como alguns responsáveis do partido como Zinoviev, Lozovsky e Riazanov votam contra a resolução apresentada pelo seu próprio partido.

Lenin, num manifesto que se difunde por todo o país, chama os dissidentes de desertores. Em outras palavras, o regime interno dos bolcheviques vai para o espaço e as frações políticas do partido se expressam publicamente. Segundo Broué, Lenin não admite qualquer tipo de vacilação: se a oposição não aceita as decisões da maioria, ela deve abandonar o partido

A cisão seria um fato extremamente lamentável. Contudo, uma cisão honrada e franca é, na atualidade, mais preferível do que uma sabotagem interna e o não cumprimento de nossas próprias resoluções.[2]

Não houve a cisão. A oposição é condenada pelo conjunto dos militantes e pelas passeatas de operários e soldados que haviam aprovado a insurreição. Kamenev, Miliutin, Rikov e Noguin assim como Zinoviev, seguem no partido. Segundo Broué, Zinoviev escreve no Pravda de 21 de novembro de 1917

Nosso direito e nosso dever é advertir o partido de seus próprios erros. Contudo, permanecemos com o partido. Preferimos cometer erros com milhões de operários e soldados e morrer com eles do que nos separarmos deles nesta hora decisiva da história. Não haverá, não pode haver uma cisão no partido.[3]

Os fatos acima descritos mostram com precisão como era maleável o regime interno dos bolcheviques e como funcionava o centralismo-democrático frente às questões políticas transcendentais concernentes aos destinos da revolução de Outubro. A democracia interna é elevada à enésima potência e as opiniões divergentes são expostas publicamente, todos os militantes são chamados a decidir e até mesmo a massa de operários e soldados interveio nos rumos do partido. Assim era o partido de Lenin. Assim não foi o partido de Stalin.

 

Os debates sobre a guerra ou paz com a Alemanha imperialista

Os tempos posteriores a Outubro colocaram os bolcheviques em imensas discussões internas para poderem decidir os rumos da primeira revolução socialista da história. Formaram-se, em distintas ocasiões, grupos, tendências, frações internas e frações públicas, como era, então, a tradição do partido bolchevique.

Um dos casos mais importantes foi sobre a continuação ou não da guerra contra a Alemanha imperialista. Desde o começo do I Guerra Mundial, a ditadura tzarista havia feito um bloco beligerante ao lado da França e Inglaterra contra a Alemanha, Itália e o império austro-húngaro. Lenin, então exilado na Suíça, redige um manifesto do Comitê Central do partido em que afirma

Não há dúvida alguma de que o mal menor, desde o ponto de vista da classe operária e das massas trabalhadoras de todos os povos da Rússia, seria a derrota da monarquia tzarista que é o mais bárbaro e reacionário dos governos, o que oprime o maior número de nacionalidades e a maior proporção da população da Europa e da Ásia.[4]

A revolução de outubro materializou o pensamento leninista. No entanto, a derrubada do czar ainda manteve, em tese, a Rússia na guerra contra o imperialismo alemão. Assim relata Broué

para o governo bolchevique, a paz se converte numa necessidade absoluta, tanto para satisfazer o exército e o campesinato, como também para ganhar tempo com vistas à  revolução na Europa.  A manobra é delicada: é preciso, simultaneamente, negociar (a paz) com os governos burgueses e lutar politicamente contra eles, isto é, utilizar as negociações como uma plataforma de propaganda revolucionária. Há que se evitar qualquer aparência de compromisso com um ou com o outro dos bandos imperialistas.[5]

As negociações se iniciam na cidade de Brest-Litovsky em novembro de 1917, ou seja, imediatamente após a revolução, entre uma delegação russa e uma alemã, já que o outro bando imperialista – França e Inglaterra, aliados dos czares – se negou a delas participar. Um armistício é assinado em 2 de dezembro, permanecendo os exércitos russo e alemão inamovíveis em suas respectivas posições territoriais. As conversações de paz começam em 22 de dezembro e Trotsky é designado pelo governo soviético para encabeçar a delegação russa.

Em 5 de janeiro, o governo alemão, através do general Hoffman, coloca na mesa a proposta do imperialismo: a Polônia, Lituânia, Rússia branca e metade da Letônia – todos eles territórios da então Rússia –devem permanecer ocupadas pelo exército alemão. É dado aos soviéticos apenas dez dias para dizer se aceitam, sim ou não. Se sim, a paz é assinada. Se não, a guerra continua.

 

As três posições do comitê central dos Bolcheviques

Segundo Broué, a delegação russa abandona Brest-Litovsky com uma posição baseada nas propostas de Trotsky

Devem os bolcheviques ceder ao facão que ameaça com decapitá-los? Podem opor resistência, como sempre disseram que fariam em semelhante circunstância, declarando a ‘guerra revolucionária’? Nem Lenin, que defende a primeira dessas posturas, nem Bukarin, partidário da segunda, conseguem a maioria no Comitê Central, que, por último, resolve seguir a posição de Trotsky por 9 votos a 7, que é colocar um fim à guerra sem assinar a paz.[6]

No entanto, no dia 17 os alemães lançam um grande ofensiva nas frentes de guerra. Lenin propõe ao Comitê Central retomar as negociações de paz com a Alemanha. Novamente Lenin perde e sua proposta é derrotada por 6 a 5. Bukarin se junta a Trotsky e impõem retardar o recomeço das negociações de paz até que fique claro o rumo da ofensiva alemã e seus reflexos no movimento operário dos dois países.

No dia 18 o Comitê Central volta a se reunir, já que o avanço das tropas alemãs é profundo e rápido na Ucrânia, país que, a época, fazia parte da Rússia. Lenin, ao saber disso, propõe recomeçar as negociações, Trotsky o acompanha nessa votação e ela é aceita por 7 votos a 5.

o governo soviético, em consequência, tomará de novo contato com o Estado Maior alemão, cuja resposta chega no dia 23 de fevereiro. As condições se tornaram ainda piores… Desta vez se exige a evacuação da Ucrânia, Livônia e Estônia. A Rússia vai ser privada de 27% de sua superfície cultivável, de 26% de suas vias férreas e de 75% de sua produção de aço e de ferro.[7]

O tratado que mutila a Rússia é assinado no dia 3 de março de 1918 em Bret-Litovsky. A retirada da guerra foi um dos principais objetivos da revolução e uma das prioridades do recém-criado governo bolchevique. Impopular entre os russos devido às imensas perdas humanas – cerca de quatro milhões de mortos- essa guerra havia trazido fome para todo o povo e uma desmoralização e decomposição do exército do czar frente às derrotas nos campos de batalha. Contraditoriamente, ela foi um dos fatores vitais para o sucesso de Outubro, já que os soldados, em sua imensa maioria camponeses, foram ganhos para a política dos bolcheviques pela oposição principista do partido ao confronto armado.

Os termos do Tratado de Brest-Litovski eram humilhantes. Através deste, a Rússia abria mão do controle sobre a Finlândia, Países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Bielorrússia e Ucrânia, bem como dos distritos turcos de Ardaham e Kars, e do distrito georgiano de Batumi. Estes territórios continham um terço da população da Rússia, metade de sua indústria e nove décimos de suas minas de carvão.

 

O regime e os ‘comunistas de esquerda’

A decisão do Comitê Central de aceitar a paz com os imperialistas alemães, longe de aquietar os bolcheviques e fazer com que a minoria acate a decisão da maioria (como muitos poderiam pensar que funcionava o regime interno e o centralismo-democrático dos revolucionários de 1917) provocou ainda mais discussão no partido. Bukarin e Uritsky, ambos membros do Comitê Central, junto com Piatakov, presidente dos Comissários do Povo em Kiev e Vladimir Smirnov, dirigente da insurreição de outubro em Moscou. O grupo se afasta de suas funções e retomam a liberdade de agitação dentro do partido. Segundo Broué

o comitê regional de Moscou declara que deixa de reconhecer a autoridade do Comitê Central até que se leve a cabo a reunião de um Congresso extraordinário (…)

Baseado numa proposta de Trotsky, o Comitê Central vota uma resolução que garante a Oposição o direito de se expressar livremente no seio do partido. O jornal moscovita dos bolcheviques, o Social Democrata, empreende uma campanha contra a aceitação do tratado (de Brest- Litovsky) desde o dia 2 de fevereiro. A República soviética da Sibéria se nega a reconhecer a validade (do tratado de paz) e permanece em estado de guerra coma Alemanha.[8]

Essa descrição de Broué mostra toda a versatilidade o regime interno dos partido enquanto Lenin viveu; como é necessário adaptar essa estrutura organizativa aos desígnios da luta de classes e às decisões que todos os militantes do partido deveriam tomar.

Contrariamente ao que o stalinismo divulgou posteriormente, não há Comitê Central todo-poderoso e monolítico, não há “direção histórica” de Lenin e Trotsky que conseguiriam, organizativamente, impor suas posições de cima a baixo pelas goelas dos militantes.

Diga-se de passagem, não há nada de excepcional nessa divergência que se materializou em frações públicas. Não seria a primeira vez, como já vimos nas discussões sobre a insurreição, nem a última em que as travas organizativas pudessem impedir as discussões entre os bolcheviques. Mais a frente, nas páginas de Broué sobre o partido bolchevique, pode-se ver que é sob a batuta do stalinismo que se encerrará toda e qualquer discussão no seio do partido. Dessa maneira, o bolchevismo será sepultado. Como diria Trotsky cerca de 10 anos depois, Stalin será o coveiro da revolução.

Narrando a logica das frações publicas, Broué afirma

no dia 4 de março, o comitê do partido em Petrogrado publicou o primeiro número de um jornal diário, o Kommunist, cujo comitê de redação está formado por Bukarin, Karl Radek e Uritsly, e que será, daqui em diante o órgão público da oposição, cujos integrantes serão conhecidos como ‘comunistas de esquerda’.[9]

O Congresso do partido é realizado, tal qual pleiteia a oposição, mas estes ficam em minoria e suas teses são derrotadas. Nesse Congresso, entre outras coisas, a fração bolchevique abandona em definitivo o nome de social–democracia, que daqui em diante ficará propriedade até os dias atuais de todos os mencheviques que rastejam por esse mundo afora. É adotado o nome de partido comunista russo (bolchevique).

 

A continuidade legal da fração após o Congresso

No entanto, as discussões sobre fazer ou não a guerra revolucionária contra a Alemanha imperialista seguem. O jornal público da oposição, o Kommunist passa a ser semanal. Porém, o panorama muda radicalmente pouco tempo depois. Em 25 de maio de 1918, estala a guerra civil contra os inimigos da revolução de outubro que se sublevaram militarmente, guerra que permanecerá por cerca de dois anos e meio.

Em junho, a ala esquerda do partido Socialistas Revolucionários, os SR, que fazia parte do governo soviético, “decide empreender uma campanha terrorista com o objetivo de que se recomece as hostilidades contra a Alemanha. Por ordem do seu Comitê Central, um grupo de SR de esquerda, do qual faz parte o jovem Blumkin, membro da Checa, comete um atentado com êxito contra a vida do embaixador da Alemanha, o conde Von Mirbach. Outros SR de esquerda, que também pertencem à Checa, prendem alguns responsáveis comunistas e tentam provocar um levantamento em Moscou.”[10]. Os comunistas de esquerda, com Bukarin à frente, vão participar da repressão aos SR de esquerda e se integram por completo nas frentes de batalha da guerra civil.

Um ano mais tarde, em 13 de março de 1919, Segundo Broué, Lenin assim se referirá aos episódios das divergências sobre o tratado de paz com a Alemanha imperialista e sobre os “comunistas de esquerda” dos bolcheviques

A luta que se originou em nosso partido no ano passado foi extraordinariamente proveitosa: suscitou inumeráveis choques sérios, porém não há luta que não tenha choques.[11]

Assim Lenin compreendia as divergências internas, como algo fecundo, positivo para o partido. A democracia era o pré-requisito para a unidade na ação e o mais eficaz antídoto contra toda e qualquer divisão do partido. Assim era o partido bolchevique!

 

 

Bibliografia

BROUÉ, Pierre. El partido bolchevique, Editorial Ayuso, 1973, Madrid

LENIN, Vladimir. Oeuvres Complétes, Tomo XXVI,

[1] Broué, 139

[2] Lenin, 293

[3] Broué, 139

[4] Broué, 107

[5] Broué, 155

[6] Broué, 156

[7] Broué, 157

[8] Broué, 158

[9] Broué, 158

[10] Broué, 162

[11] Broué, 162




A propósito do regime interno dos bolcheviques entre fevereiro e outubro de 1917

Enio Bucchioni

A revolução de fevereiro de 1917 que derrubou a ditadura tzarista, segundo Broué, foi chamada de “insurreição anônima”. Levantamento espontâneo das massas, surpreendeu a todos os socialistas, inclusive os bolcheviques, cujo papel, como organização, foi nulo durante o processo insurrecional. Apesar de tal fato, seus militantes desempenharam individualmente um importante papel no trabalho político no interior das fábricas e nas ruas, como agitadores e organizadores.

O pano de fundo do levante de fevereiro de 17 era a miséria das massas e a guerra. A fome, que reinava nas cidades, foi consequência da participação do governo russo na sinistra I Guerra Mundial. Nela, cerca de quatro milhões de soldados russos morreram. O tzar, ao lado da França e Inglaterra e contra a vizinha Alemanha, integrava a guerra imperialista pela dominação e hegemonia do planeta.

Imediatamente após fevereiro, produz-se uma imensa fissura política na fração bolchevique, provocando uma polêmica que perdurará, na Rússia, até Outubro. Seu conteúdo e concepção, porem, perdurará até nossos dias.

As teses de Abril

Stalin e Kamenev, recém-libertos da prisão, assumem a direção do jornal Pravda e sustentam a posição de que a Rússia deveria continuar na guerra. Segundo Broué, para ambos, “a função dos sovietes era manter o governo provisório na medida em que siga o caminho de satisfação das reivindicações da classe operária”[1], ou seja, dão um “apoio condicional” ao governo burguês de colaboração de classes. Em essência, Kamenev e Stalin tinham a mesma posição dos mencheviques. Na conferência dos bolcheviques efetuada no dia 1 de abril fica acertado se considerar a reunificação com os mencheviques. Alguns membros da direção dos bolcheviques que estavam na Rússia, como Alexandra Kolontay e Alexander Shliapknov, são contrários a essas posições.

Ao mesmo templo, Lenin, então exilado, escreve as famosas teses de abril, iniciando a explosão de discussões no interior da fração bolchevique. Todos os militantes são chamados a decidir o futuro do partido e da revolução.

Dois aspectos deste caso são importantes de realçar. Primeiro, haverá, além de dois Congressos e inúmeras reuniões do seu Comitê Central, várias conferências da fração bolchevique durante os oito meses de intervalo entre fevereiro e outubro. Nelas, como sempre, os militantes participarão das discussões de todas as questões candentes pertinentes à revolução. Nenhuma discussão ficou bloqueada no interior da direção central. Houve total democracia interna para resolver as questões de estratégia e tática, bem como de concepções da revolução, sem que as diversas alas ou agrupamentos formados fossem expulsos por divergirem da linha oficial da maioria ocasional dentro do Comitê Central. A bem da verdade, nenhuma das alas em pugna quis expulsar a outra, nem tampouco qualquer uma delas ameaçou cindir o partido.

Segundo, quando Lenin retornou à Rússia depois de muitos anos de exílio, já ao descer do vagão blindado que o trouxe de volta, defendeu publicamente uma linha política oposta ao da Conferência de 1 de abril. Mais tarde, no dia 7, ela foi publicada no jornal Pravda, o órgão de propaganda dos Bolcheviques. Sob o título “Das Tarefas do Proletariado na Presente Revolução”, suas famosas teses de Abril saíram do espaço do debate interno, podendo ser lida pelo publico como um todo.

Assim era a fração bolchevique e o seu regime interno, bem como a materialização versátil do centralismo-democrático em plena revolução em marcha. Será que Lenin não teria de esperar o próximo Congresso ou Conferência dos bolcheviques, baixar suas teses de abril após a abertura oficial do pré-Congresso, e só depois disso, os militantes teriam acesso às divergências dentro da direção? Se assim o fizesse, se assim fosse o regime interno dos bolcheviques, não teria havido, com certeza, a revolução de Outubro.

Uma vez mais, as questões políticas centrais antecedem qualquer regime interno e suas normas organizativas. Diante de tais polêmicas de vulto, o centralismo tem de ceder diante da necessária democracia interna.

Dezessete dias depois da publicação das Teses no Pravda, foi realizada uma conferência nacional. Ela contou com a participação de 149 delegados eleitos por cerca de 80 mil militantes, isto em um país cuja população era de cerca de 160 milhões de pessoas. Do ponto de vista das proporções, em abril havia 1 bolchevique para cada 2 mil habitantes. Em outubro o número de militantes bolcheviques passou para perto de 240 mil, o que significaria 1 bolchevique para cada 667 habitantes, cifras absurdamente altas se as comparássemos com o Brasil atual.

Lenin jamais foi advertido por sua conduta no começo de abril. O máximo que a direção fez foi uma publicação de Kamenev no Pravda alegando que “tais teses representam apenas a opinião pessoal de Lenin”[2].

Também se engana quem crê que Lenin ganhou de cabo a rabo a totalidade das discussões propostas em suas Teses nessa Conferência. Ele ganhou – junto com Zinoviev e Bukarin , por ampla maioria – sobre a questão da guerra, ou seja, propondo a retirada da Rússia da guerra inter-imperialista. Venceu sobre a transferência do poder do Estado para os sovietes após um trabalho paciente e prolongado de conquistar as massas para tal fim. No entanto, obteve tão somente 60% dos votos na resolução que afirmava a necessidade de empreender a via da revolução socialista. E, finalmente, é derrotado no que se refere à resolução de mudança de nome do partido, já que o tradicional nome social-democrata significava, desde 1914, o conceito de traidores e defensores das burguesias nacionais em relação à I Guerra mundial dentro do movimento operário russo  e internacional.[3] 

O regime interno às vésperas da insurreição

Nas Teses de Abril, Lenin afirmava:

enquanto estivermos em minoria, desenvolveremos um trabalho de crítica e esclarecimento dos erros, defendendo ao mesmo tempo a necessidade de que todo o poder de Estado passe para os Sovietes de deputados operários, a fim de que, sobre a base da experiência, as massas se libertem dos seus erros.[4]

Ou seja, não estava na ordem do dia a tomada do poder. Cerca de quinze anos depois, Trotsky recordaria desse mês de abril no livro “Revolução e Contra-Revolução” na Alemanha com as seguintes palavras

Entretanto, o Partido chegou à insurreição de outubro, passando por uma série de degraus. Durante a demonstração de abril de 1917, uma parte dos bolcheviques lançou a palavra de ordem: “Abaixo o governo provisório”. O Comitê Central logo chamou à ordem os ultra-esquerdistas. Devemos, bem entendido, propagar a necessidade de derrubar o governo provisório; mas, não podemos ainda chamar as massas à rua por essa palavra de ordem, pois estamos ainda em minoria na classe operária. Se, nessas condições, conseguirmos derrubar o governo provisório, não o poderemos substituir e, por conseguinte, auxiliaremos a contra-revolução. É preciso explicar pacientemente às massas o caráter antipopular desse governo antes que soe a hora de sua derrubada. Tal foi a posição do Partido.[5]

Porém, cinco meses depois, refugiado na Finlândia devido às perseguições das jornadas de julho, Lenin escreve em 13 de setembro para o Comitê Central bolchevique, que se reuniria no dia 15 sem a sua presença

Depois de haver conseguido a maioria no interior dos sovietes das duas capitais (Petrogrado e Moscou), os bolcheviques podem e devem tomar o poder (…) A história jamais nos perdoará se não tomarmos o poder agora.[6]

Novamente a fração bolchevique se vê engalfinhada numa brutal luta interna. Segundo Broué “Lenin está separado da maioria dos dirigentes bolcheviques por uma distância igual a que estava no mês de abril”. Mais adiante, as cartas de Lenin com esse conteúdo “não conseguem convencer o Comitê Central. Kamenev se pronuncia contrário às propostas de Lenin e exige que o partido tome medidas contra qualquer tentativa de insurreição. Trotsky é partidário da insurreição, porém pensa que esta deve ser decidida pelo congresso pan-russo dos sovietes. Por fim, a maioria dos membros do Comitê Central se inclina pela posição de Kamenev, que propõe que sejam queimadas as cartas de Lenin, deixando-as sem resposta.” Assim era a receptividade que a maioria do CC dava às posições da “direção histórica” do partido, a mais alta “autoridade”, ao mais “prestigiado” dos bolcheviques. [7]

Esse relato expõe, uma vez mais, a fratura aberta na fração bolchevique em torno da discussão sobre ir ou não à insurreição e, se sim, de que maneira. Aí se misturam questões de estratégia e tática sem precedentes. A luta interna extravasa por completo os limites do regime interno, do centralismo-democrático. Novamente a política ultrapassa a esfera organizativa. De modo fracional, fora dos marcos do regime interno, uma vez mais, Lenin começa a batalha política. A história mostraria se tinha ou não razão em sua ação. Afirma Broué

Lenin convence plenamente o jovem Smilga, presidente do soviet regional do exército, marinha e dos operários da Finlândia e começa a conspirar com ele contra a maioria do comitê central e o utiliza para ‘fazer propaganda dentro do partido’ em Petrogrado e em Moscou, examina com ele os mais diversos planos para por em marcha a insurreição e bombardeia o comitê central com uma série de cartas veementes que denunciam os “titubeios” e “vacilações” dos dirigentes.[8]

Em 29 de setembro, menos de um mês antes da revolução, Lenin “afirma que considera inadmissível que não se tenha respondida às suas cartas e, mais ainda, que o Pravda censure os seus artigos, pois isso tem toda uma aparência de ‘uma delicada alusão ao amordaçamento e um convite a se calar”[9]. Assim, ao insistir que suas posições sejam veiculadas no Pravda, Lenin se propõe organizar uma fração política pública e ameaça se demitir do Comitê Central de modo a poder, legalmente no sentido do regime interno, ter o direito de fazer propaganda nas fileiras do partido.

Afinal, em 10 de outubro, consegue, por 10 votos a 2, que o comitê central aceite sua proposta sobre a insurreição. Os dois votos contrários são de Zinoviev – braço direito de Lenin durante os anos anteriores – e Kamenev. Segundo Broué, estes dois ”desde o dia seguinte apelam contra a decisão do Comitê Central em sua ‘Carta sobre o momento atual’, dirigida às principais organizações do partido”.[10]

Uma vez mais esse episódio revela o funcionamento do regime interno da fração bolchevique, que extrapola o senso comum de todos os que viveram uma militância em partidos que se reivindicam leninistas. Naquele momento, todos os militantes da fração bolchevique são imediatamente convocados a participar da discussão e decidir os rumos do partido. Os bolcheviques não aprisionam as divergências na redoma do seu Comitê Central e, via o centralismo-democrático ou por fora dele, as posições divergentes chegam aos quadros partidários e, daí, às bases. Tanto é assim que alguns poucos dias depois, Zinoviev e Kamenev lançam suas posições contra a insurreição publicamente no jornal de Maximo Gorki. Lenin, em cartas enviadas ao partido, chama Zinoviev e Kamenev de “fura-greves” e exige a expulsão deles, o que não é aceito pelo comitê central após duras discussões.

Vitoriosa a insurreição, na tarde de 25 de outubro é inaugurado o Congresso dos Sovietes que tomaria o poder em suas mãos. Kamenev é proposto para ocupar a presidência do órgão representando o partido bolchevique. Em 1919, Zinoviev é eleito presidente do Comitê Executivo da Internacional Comunista, a recém-criada III Internacional.

Assim se forjava a unidade e a coesão do partido. Assim eram tratados os militantes que divergiam, nas ocasiões mais tensas e fundamentais, sobre as questões políticas mais transcendentais nos dias que abalaram o mundo.

Assim era a fração bolchevique.

Referencias Bibliográficas:

BROUÈ, Pierre. El partido bolchevique, Editorial Ayuso, 1973, Madrid

LENIN, Vladimir. Obras Escolhidas em três tomos, Edições Avante!, 1977, Lisboa  https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/04/04_teses.htm (consultado dia 16 de Abril de 2015)

TROTSKY, Leon. Revolução e Contra-Revolução na Alemanha, Editora Lammert, 1968, Rio de Janeiro

BUCCHIONI, Enio. A propósito do regime interno dos bolcheviques antes de fevereiro de 1917, Blog Convergência, http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=4096 (consultado dia 16 de Abril de 2015)

 Notas:

[1] Broué, 116

[2] Broué, 119

[3] Broué, 121

[4] Lenin – https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/04/04_teses.htm

[5] Trotsky, 71

[6] Broué, 130

[7] Broué, 133

[8] Broué, 131

[9] Broué, 132

[10] Broué, 132




A propósito do regime interno dos bolcheviques antes de fevereiro de 1917

Enio Bucchioni

Recentemente foi traduzido e impresso para a língua portuguesa pela editora Sundermann o precioso livro O Partido Bolchevique, do renomado historiador francês Pierre Broué. Eu havia lido em espanhol e, por mero acaso e curiosidade, voltei a folheá-lo por inteiro. Inúmeras são as informações que nos fazem saborear avidamente o texto de Broué do princípio ao fim, conforme a brilhante resenha recentemente feita pelo companheiro Ramsés Eduardo Pinheiro no Blog Convergência.

Nas primeiras dezenas de páginas de um montante de oitocentas e cinquenta e nove há um assunto extremamente interessante e apaixonante que talvez passe despercebido pelos leitores que tenham pouca militância política ou que nunca foram adeptos de algum partido. Trata-se da concepção do regime interno baseado no centralismo-democrático criado por Lênin na fração bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo, POSD-R, cujas linhas mestras estão delineadas no livro “Que Fazer”, de 1902.

A bem da verdade, porque poucos sabem ou se recordam, antes de 1918, todas as correntes marxistas existentes na antiga Rússia se encontravam no  POSD-R. No seu interior havia as mais variadas frações, tendências e grupos ao redor das duas principais correntes: os mencheviques e os bolcheviques. Havia, no entanto, um só Partido.  A rigor não havia o Partido Bolchevique até alguns meses após a revolução de 1917, mas sim a fração bolchevique do POSD-R. Somente em março de 1918 é que foi fundado o Partido Comunista Russo (bolchevique).

Nas páginas de Broué está a descrição trágica da passagem do regime interno baseado no centralismo e na democracia da época de Lênin, para o centralismo burocrático ou de caserna, em vigor desde a crescente dominação do stalinismo. A partir de meados da década de 20, este centralismo burocrático implantado no Partido Comunista da União Soviética, logo se espalhou para todos os partidos da III Internacional, incluindo aí o Partido Comunista do Brasil e o seu sucedâneo, o Partido Comunista Brasileiro. Tal processo levou à morte da democracia interna e o surgimento do poder absoluto e da infalibilidade dos seus secretários-gerais tipo Stalin, Prestes e demais burocratas.

Lênin vota contra a sua própria fração

Após a primeira revolução de 1905, derrotada, seguiu-se um período de muitos anos de extrema reação por parte da ditadura tzarista. O movimento operário entrou em profundo refluxo, foram inúmeras as prisões de militantes do POSD-R e até mesmo muitos deles abandonaram suas atividades partidárias. Segundo Broué

“Apesar da desilusão de muitos militantes, bem como das numerosas deserções, os bolcheviques voltam a empreender as tarefas que haviam iniciado clandestinamente antes de 1905. No entanto, eles também não se veem livres de divergências internas. A maioria queria boicotar as eleições, desta vez porque a lei eleitoral de Stolypin faz com que seja impossível para a classe operária estar representada equitativamente. Sobre essa questão, Lênin opinava que tal palavra de ordem, lançada num momento de apatia e de indiferença na classe operária, corre o risco de isolar os revolucionários, que, em vez de disso, deveriam se apegar a todas as ocasiões que lhes fossem oferecidas para desenvolver publicamente o seu programa. Tanto as eleições como a  III Duma devem ser utilizadas como tribuna para os socialistas que, apesar de não terem nenhuma ilusão sobre a sua verdadeira natureza, não podem desperdiçar essa forma de propaganda. Apesar do isolamento em que se encontrava dentro de sua própria fração, Lênin não vacila em votar sozinho, junto com os mencheviques, contra o boicote das eleições , isso na conferência de Kotka no mês de julho de 1907. Contudo, os partidários do boicote voltam a tomar a iniciativa depois das eleições, pedindo a demissão dos socialistas que tinham sido eleitos. Esses partidários da “retirada”, conhecidos como “otzovistas”, encabeçados por Krasin e Bogdanov – ambos até então braço direito de Lênin e membros do Comitê Central do POSD-R ,segundo Broué – seguem aumentando seus contingentes através do apoio do grupo “ultimatista” do comitê de Petrogrado, que se manifestam contrários a toda participação nas atividades legais, inclusive nos sindicatos, intensamente vigiados pela polícia”.[1]

Lênin não foi expulso pela quebra do centralismo-democrático, nem sequer censurado por ter votado com os mencheviques contra todos os bolcheviques de sua própria fração. Nessa ocasião Lênin julgava importantíssima a participação da social-democracia nas eleições parlamentares, tanto assim é que foi o responsável direto na orientação dos bolcheviques nesse processo e entendia como nenhum outro toda a complicada e insólita legislação eleitoral da Russia tzarista. Lênin escreveu muitas centenas de páginas sobre as eleições para a Duma, polemizando contra os mencheviques – que propunham aliança com a burguesia liberal – em detrimento da conformação de um bloco de esquerda entre a social-democracia, os socialistas revolucionários e os trudoviques. Posteriormente, Lênin convence a maioria dos bolcheviques para suas posições.

O que se pode depreender dos fatos relacionados acima é que não é o modelo organizativo que deve reger a política, mas sim é a política prática é que deve modelar o regime interno de um partido. A política rege a organização e não o seu inverso.

A concepção de Lênin sobre as divergências internas

Conforme registra Broué

“Desde 1894 Lênin afirmava em sua polêmica com o populista Mikailovsky:

‘É rigorosamente certo que não existe entre os marxistas a completa unanimidade. Esta falta de unanimidade não revela a fraqueza mas sim a força dos social-democratas russos. O consenso daqueles que se satisfazem com a aceitação de “verdades reconfortantes”, esta terna e comovedora unanimidade, foi substituída pelas divergências entre pessoas que necessitam uma explicação da organização econômica real, da organização econômica atual da Rússia. Uma análise de sua verdadeira evolução econômica, de sua evolução política e do resto de suas superestruturas”.[2]

Mais adiante Broué dá a visão cabal de como Lênin encarava as discussões internas dentro de sua fração bolchevique:

“As divergências de opinião no interior dos partidos políticos ou entre eles” escreve Lênin em julho de 1905, “se solucionam geralmente não somente com as polêmicas, senão também com o desenvolvimento da própria vida política. Em particular, as divergências a propósito da tática de um partido terminam por se liquidar, de fato, pela adesão à linha correta pelos mantenedores das  teses errôneas, já que o próprio curso dos acontecimentos elimina dessas teses o seu conteúdo e o seu interesse”.[3]

Assim era a compreensão leninista acerca do regime interno do seu partido. As diferenças são necessárias, benvindas e fortalecem o partido. A unanimidade é burra, diria alguém anos mais tarde. No partido stalinista, a unanimidade sempre foi um fator constante.

No entanto, as divergências internas, em consequência da visão de Lênin, devem ter um desfecho no transcorrer da luta de classes real e não apenas nas discussões intestinas, pois as visões corretas ou equivocadas são testadas e verificadas na realidade. A prática seria o critério da verdade. A justeza da linha política – defendidas pela maioria ou pelas minorias – seria posta à prova pelo partido em suas ações e/ou em seus balanços de atividades.

Aqui também há em Lênin o critério da provisoriedade de tempo em relação às divergências internas, ou seja, o surgimento de blocos, grupos, tendências e frações devem ser fenômenos conjunturais em função de qual seria a melhor política para a intervenção do partido na luta de classes no momento dado. Não há espaço, na visão Leninista, para agrupamentos vitalícios. Os agrupamentos eternos são da era stalinista, em função dos interesses em comum da casta burocrática e dos seus privilégios materiais e de prestígio derivados da manutenção do poder. 

O regime interno: meio e não fim

Um partido tem sua unidade baseada em pressupostos programáticos e históricos reivindicados em comum por seus militantes. Na época de Lênin, era a reivindicação das heranças teóricas de Marx e Engels que forjavam essa unidade. Tanto assim é que havia um único partido, o Partido Operário Social-Democrata Russo, POSD-R, e todos os seus membros se reivindicavam marxistas. No entanto, havia várias interpretações distintas acerca do marxismo e de sua aplicação na prática política. Isso configurava tendências teóricas, políticas, estratégicas e táticas, muitas vezes distintas tanto no seio da II Internacional bem como em suas secções nacionais.

No entanto, o centralismo-democrático garantia o fundamental, ou seja, a unidade do partido para a ação baseada nas proposições políticas da maioria. Segundo Broué

“Em realidade, o propósito fundamental de Lênin foi construir um partido para a ação e, desde esse ponto de vista, nem a sua organização, nem a sua natureza, nem o seu desenvolvimento, nem seu próprio regime interno podiam ser concebidos com independência das condições políticas gerais, do grau de liberdades públicas existentes e da relação de forças entre a classe operária, o Estado e as classes possuidoras”.[4]

Ou seja, a política é que determina o regime interno e a organização, e não o inverso. Como veremos adiante, muitas vezes o próprio Lênin “quebrará” o centralismo-democrático, o regime interno, em função de momentos importantes da luta de classes onde um erro político de estratégia ou de tática poderia trazer prejuízos incalculáveis para o proletariado e suas lutas.

O obrerismo stalinista sepultou a democracia interna

Um dos aspectos mais relevantes da fração bolchevique era a formação teórica dos seus quadros mais antigos que iriam formar a coluna vertebral revolucionária de Outubro. Essa verdadeira obsessão de Lênin vem desde muito cedo, desde , pelo menos, 1902, conforme se pode ler no “Que Fazer”:

“Este fato testemunha que a primeira e mais imperiosa das nossas obrigações é contribuir para a formação de operários revolucionários que, do ponto de vista da sua atividade no partido, estejam ao mesmo nível que os revolucionários intelectuais (sublinhamos: do ponto de vista de sua atividade no partido, porque sob outros aspectos não é, antes pelo contrário,, tão fácil nem tão urgente, embora necessário, que os operários atinjam o mesmo nível). Por isso, devemo-nos dedicar principalmente a elevar os operários ao nível dos revolucionários e não a descer, nós próprios, ao nível da “massa operária”, e infalivelmente ao nível do ‘operário médio’”.[5]

Broué em seu livro reforça a visão leninista sobre a questão da formação

“Em suas fileiras se acostuma a aprender a ler e cada militante se converte em responsável pelos estudos de um grupo onde se educa e se discute. Os adversários do bolchevismo costumam se burlar desse gosto deles pelos livros que, em determinados momentos, converte o partido numa espécie de “clube de sociologia”; no entanto, a preparação da conferência de Praga contribuiu com toda espécie de garantias para a efetividade da escola de quadros de Longjumeau, integrada por várias dezenas de militantes que escutam e discutem quarenta e cinco lições de Lênin, trinta das quais versam sobre economia política e dez sobre a questão agrária, e além disso, são vistas aulas de história do partido russo, de história sobre o movimento operário ocidental, de direito, de literatura e técnica jornalística”.[6]

Toda essa formação de quadros nos anos anteriores à revolução foi extremamente importante. Entre outros motivos, porque só pode haver democracia interna num ambiente entre militantes em certa igualdade de condições culturais, intelectuais e de formação marxista, de modo que cada um tenha opinião própria, não ficando a reboque dos mais “politizados”, dos “mais velhos” ou dos “dirigentes” tradicionais. O estímulo à formação coletiva e individual deve ser sempre uma diretriz de todo partido que se reivindica do socialismo. Muitas vezes o que se vê é o estímulo ao “tarefismo” desenfreado, ou seja, há uma divisão de funções num partido despolitizado: aos dirigentes cumpre pensar e “dirigir”, para os demais cumpre executar, cumprir as tarefas. Outras ocasiões o que se nota é o “estudo dirigido”, ou seja, o estudo “selecionado” apenas para aprovar a linha política estabelecida pelo partido. Em ambos os casos não se formam militantes comunistas, marxistas, capazes de raciocinar, debater e opinar conforme o que pensa. O que se tem é um militante médio que tenda a seguir, de forma acrítica, o raciocínio de outro “mais capaz” ou “mais “velho”, gerando a desigualdade e o emblocamento de posições de forma automática.

Há quem ignore a história da fração bolchevique ou apenas a conheça de modo superficial. O próprio Lênin esteve várias e várias vezes em minoria dentro do partido, perdendo discussões para os seus próprios discípulos. Mas, há quem creia que Lênin foi Deus e sempre esteve certo. Como se fosse possível um eterno vencedor das polêmicas internas, um dirigente infalível. O único infalível, segundo os stalinistas, foi o próprio Stalin, ainda que os cristãos acham que o Papa assim o é.

O começo do fim da democracia interna no partido bolchevique acontece com sinistra “Promoção Lênin”, em 1924, logo após sua morte. Em essência, tal política consistiu no recrutamento massivo para o partido, sem estágio probatório, de duzentos mil novos membros operários, que foram incorporados nessa “promoção”. Quase todos eram inexperientes, mas já elegíveis para cargos de responsabilidade. Desse total, 30% apenas sabiam ler, e não mais do que 10% eram capazes de manter um debate político sério. Em cima e no controle deles existia um aparelho enorme e piramidal, em cujo vértice encontrava-se Stalin, secretário-geral do Politburo e membro do Burô de Organização. Em mãos do aparato, esse contingente de operários despolitizados se converte numa dócil massa de manobra que sempre seguia e votava nos dirigentes oficiais. Evidentemente, já não temos mais a igualdade entre os membros do partido e, portanto, morre a democracia interna e o regime leninista.

Inteligentes e imbecis, rebeldes e disciplinados

Broué narra um episódio extremamente interessante no livro citado, onde, durante a I Guerra Mundial, ele e Bukarin não chegavam a um acordo em relação ao problema do Estado. Note-se que Bukarin, bem mais jovem que Lênin, havia sido educado politicamente pelo maestro. Nessa controvérsia entre os dois, Lênin pede a Bukarin que não publique nenhum trabalho sobre essa questão de modo a não acentuar os desacordos entre eles, já que, segundo Lênin, nenhum dos dois tinha estudado suficientemente o tema. No decorrer dos anos, Lênin e seu discípulo Bukarin iriam ter outras divergências, entre as quais a mais famosa ficou por conta da assinatura ou não do tratado de paz de Brest-Litovsky com a Alemanha imperialista meses após a revolução de Outubro. Broué expõem da seguinte forma a visão de Lênin sobre o regime interno do partido:

“Que os sentimentais se lamentem e deem os seus gemidos: mais conflitos!Mais diferenças internas! Ainda mais polêmicas! Nós responderemos: jamais se formou uma social-democracia revolucionária sem o contínuo surgimento de novas lutas”.[7]

Mais adiante, Lênin sentencia que o primeiro dos deveres de um revolucionário é criticar os seus próprios dirigentes. A opinião dele quando escreve a Bukarin, segundo Broué, é “que se o partido excluísse os militantes inteligentes, porém pouco disciplinadas, e ficasse apenas com os imbecis disciplinados, afundaria.”[8] A esse respeito, completa Broué, a história do partido bolchevique, como a de sua fração, são de uma larga sucessão de conflitos ideológicos que Lênin vai superando sucessivamente através de uma prolongada dose de paciência. Da unidade de critérios surge da discussão, quase permanente, que se opera, tanto sobre as questões fundamentais como a propósito da tática a seguir a cada momento.

Notas:

[1] Broué, p. 60

[2] Broué, p. 72

[3] Broué, p. 73

[4] Broué, p. 73

[5] Lenine, p. 132

[6] Broué, p. 91

[7] Broué, p. 94

[8] Broué, p. 94 – 95

Bibliografia

BROUÉ, Pierre. El partido bolchevique, Editorial Ayuso, 1973, Madrid

LENINE, Vladinir Ilich Uianov. Que Fazer, Editorial Estampa, 1973, Lisboa